Crítica
Ouvimos: Courtney Barnett – “Creature of habit”

RESENHA: E saiu Creature of habit. Courtney Barnett transforma traumas e memórias em autoconhecimento num disco de soft rock introspectivo, texturizado e bem resolvido.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Mom+Pop / Fiction
Lançamento: 27 de março de 2026
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Tem aquele momento em que você passa por uma situação e sente um desconforto que você não faz a mínima ideia de onde vem – e precisa de muita terapia até lembrar de um trauma que você não sabia que existia na sua vida. Da mesma forma, tem aquela hora em que você está na fila do banco, ou andando pela rua, ou esperando o Uber e uma lembrança ruim passa pela sua mente. Você mal consegue agarrar a lembrança porque ela veio super de repente, mas sente que ela pode estar por trás de muita coisa que se passa na sua vida.
Haja terapia – e amadurecimento, autoconhecimento, etc. O quarto álbum de Courtney Barnett é a sensação de quase-calma que vem após você já ter evoluído o suficiente para entender que desconforto era aquele, que lembrança era aquela, que sentimentos eram aqueles que vinham depois, etc. Se Courtney chegou a afirmar num papo com a Uncut que fazia música para “tentar desvendar alguma parte do meu cérebro que parece estar oculta”, Creature of habit é mais um disco de altas descobertas do que de grandes dúvidas. Musicalmente, a fórmula de soft rock ligeiramente despedaçado e slacker que ela vinha desenvolvendo em álbuns anteriores chegou em seu melhor ponto até agora.
O som de Courtney não é uma mistura óbvia: você acha coisas ali que vieram do synthpop, do pós-punk, do soft rock, do grunge, até do punk e do jangle pop – mas surge tudo ultratexturizado, numa mescla mais própria da pintura ou do design do que de produção musical. Creature abre com Stay in your lane, com beat dançante e som distorcido, numa onda que às vezes lembra até o Television, só que menos anti-pop. Faixas com Mantis e Wonder investem no soft rock alternativo, com vocal suingado e ganchos sonoros típicos de quem andou ouvindo Pixies e Ramones. além de Fleetwood Mac e Bruce Springsteen. Site unseen, alt country rock com participação de Waxahatchee, talvez seja a única música que decididamente tem um ar nostálgico no disco, como que a lembrar uma época perdida.
Na real, em boa parte do disco novo, parece que Courtney mergulhou tão profundamente em si própria que é até complicado fazer o que todo crítico musical faz, que é o “isso parece com isso”, “isso tem evocações daquilo”, etc. Tem até algo de U2 na melodia de Mostly patient, folk rock com onda experimental e guitarra dedilhada. Faixas como Sugar plum, Great advice e Same soam como uma caldeirada sonora que une soft rock, folk, synthpop e climas herdadíssimos de Patti Smith. Fora o “algo mais” grunge de One thing at a time, soando como um Red Hot Chili Peppers ligeiramente amargurado (e epa, essa música tem justamente Flea no baixo).
- Conheça também: Hater, Avalon Emerson & The Charm, Say She She, Stealing Sheep, Femme Falafel
As letras de Creature of habit soam como um papo dela consigo própria, em que existem coisas como autossabotagem, síndrome do impostor, inseguranças, mas a certeza de que tem muita gente abusiva espalhada pelo mundo, só esperando um vacilo seu para testar até onde elas podem ir, é bem maior. Stay in your lane e Great advice (“preciso da sua opinião como uma agulha no olho”) vão nessa onda. Courtney fala sobre o tempo em que gasta pensando em demasia sobre coisas, em faixas como Wonder e Site unseen. Encontra um sinal de que as coisas podem ficar bem em Mantis (a tal música inspirada na chegada de um louva-a-deus na cozinha dela, com versos como “meio que organizei minha cabeça / continuo seguindo em frente”). E conversa com carinho consigo própria em Mostly patient (“eu te vejo esperando as coisas mudarem / lá fora está chovendo, precipitando / eu sei que você anseia por dias mais brilhantes”).
No final, Creature of habit mostra o renascimento pessoal de Another beautiful day, música com as melhores guitarras do disco e vibe de ultratexturização sonora – além de uma letra em que sentimentos bons e estranhos parecem duelar, num clima de “nada vai estragar esta merda de dia”. Parece que depois de ter que fazer uma mudança pessoal bem séria (decidiu fechar sua gravadora Milk! Records após sofrer bastante com os prejus da pandemia), Courtney Barnett já conseguiu perceber de onde vêm várias lembranças ruins que surgem em momentos indesejados. E vem conseguindo cada vez mais dar nome às coisas.
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Crítica
Ouvimos: Balancing Act – “Who you’ve come as?” (partes 1 e 2)

RESENHA: Balancing Act divide estreia Who you’ve come as? em duas partes e entrega um álbum que vai do indie sombrio e hipnótico ao pop-rock elegante e expansivo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 3 de outubro de 2025 (parte 1) e 27 de março de 2026 (parte 2)
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Essas inovações da modernidade… Banda indie de Manchester, o Balancing Act decidiu dividir seu disco de estreia, Who you’ve come as?, em duas partes – a primeira lançada ano passado, a segunda agora. Não foi um complemento-surpresa como rolou com o Swag de Justin Bieber: o disco foi deliberadamente dividido, e o conjunto todo dura quase uns 50 minutos.
Escutando as duas partes em sequência, o Balancing Act soa como um grupo tentando balancear (opa) dois lados diferentes no mesmo disco. A parte 1 soa mais intensa e hipnótica, repleta de mistérios e dores nas melodias e nos nomes das faixas – mesmo quando as músicas são dançantes e chamativas, como rola em faixas como Had another mare, Talks a lot (com vibe meio U2 meio Simple Minds) e o quase drum’n bass de Scar.
- Ouvimos: Death Cab For Cutie – I built you a tower
A faixa que mais parece guardar os segredos da parte 1 é Bonneville Salt Flar Jive, música de clima romântico e elegante. Um rock com onda de jazz antigo, energia 60’s e lembranças de Small Faces. A mesma vibe volta nos mistérios de Mr Handsome, enquanto Quebec tem algo de U2 e Radiohead. Já a parte 2 começa logo na explosão de Sunshine, música de clima rocker, com sombras dosadas e luz no refrão. E segue com a onda pesada e pop de Loaded with pearls. Tudo indica um clima mais aberto.
O Balancing Act soa mais extrovertido na parte 2, mas a elegância da parte 1 se mantém, com o pop-rock chique e europeizado de It girl, a magia de All yours e Wrapped around embroidery (com evocações de Pulp e Rolling Stones) e o tom quase orquestral de By miraculous design. Uma ótima surpresa e um disco que, tudo considerado, é agora um lançamento de 2026.
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Crítica
Ouvimos: Tom Ribeira – “Pedaço” (EP)

RESENHA: Tom Ribeira mistura bossa, samba, soul, reggae e sons latinos em Pedaço, EP de estreia criativo, introspectivo e cheio de referências à MPB.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 6 de março de 2026
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Cantor e compositor de Botucatu (SP), Tom Ribeira faz um som simultaneamente urbano e interiorano em Pedaço, EP de estreia. Tem até uma faixa com o nome de sua cidade, canção em clima folk-reggae e introspectivo, que fala de pertencimento – não apenas de quem nasceu e vive lá, como também dos povos originários e de todo o povo sul-americano, por extensão. Pedaço une bossa, funk e sons latinos, mas o resultado fica próximo do samba, enquanto Baião de dois evoca Gilberto Gil e Djavan, num misto de soul e reggae que tem mais tranquilidade do que explosão.
- Ouvimos: Wills Tevs – Infinitas___lacunas (EP)
Um lado mais setentista brota na segunda metade do disco, em que Marroquina remete ao balanço da época, e lembra Marcos Valle e João Donato. Juba é soul-jazz, e Vênus ou Urano é outro samba com balanço no piano, lembrando Ivan Lins e Erasmo Carlos. Estreia com criatividade e vivência.
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Crítica
Ouvimos: Raye – “This music may contain hope”

RESENHA: Musical pop grandioso e sem freios, Raye mistura soul, jazz, cinema e confissões em This music may contain hope, álbum que transforma exagero em emoção.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 27 de março de 2026
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Você já ouviu tudo que pôde sobre um tal de hyperpop, e agora chegou a sua hora de encarar toda a falta de limites do maximalismo – que em música, é basicamente o “mais é mais, e ponto final” levado às últimas consequências, a ponto de você se perguntar se era preciso tanto. No caso de This music may contain hope, segundo álbum da britânica Rachel Agatha Keen, a popular Raye, o público não tem reclamado. O álbum, conceitual e estruturado como um musical de cinema, chegou em primeiro lugar na parada britânica.
Um feito e tanto para uma artista independente, que passou anos trabalhando nos bastidores como compositora. Antes da fama, músicas escritas ou coescritas por ela foram gravadas por nomes como Beyoncé, Ellie Goulding, Little Mix e ninguém menos que Anitta (o nome de Raye aparece entre os autores de nada menos que Girl from Rio, a música-assinatura da carioca).
- Ouvimos: Tori Amos – In times of dragons
Seu primeiro álbum, My 21st century blues (2023), chamou a atenção por unir r&b, blues, dance music, pop sofisticado e toques de Amy Winehouse (que parece ser a maior referência audível de Raye), além de um storytelling confessional e real sobre traumas, abusos e jogo sujo da indústria musical. Este último tema, aliás, é algo sobre o qual ela pode falar por horas – Raye passou um bom tempo presa a um contrato com a Polydor que a impedia de lançar álbuns. Ao sair da gravadora, quis a independência completa, sem filtro ou intermediários.
Já This music may contain hope é uma caldeirada de r&b, jazz, dance music, soul, sofisticações a la Adèle e Amy Winehouse, gospel, sons clássicos, vulnerabilidade, contos de fadas, jornada da heroína (o feminino de herói, calma!) e músicas feitas para musical ou cinema. Pode acreditar: o maximalismo de Raye tem mais a ver com um estilo pessoal do que com um “chega, gente, não cabe mais nada aqui!”. E desde o começo fica claro que quem ouve o disco, vai ser guiado / guiada por Raye pela história. Não é um disco “conceitual” em que estilhaços são jogados na cara de todo mundo.
Intro: Girl under the grey cloud abre o disco introduzindo a personagem – uma mulher que lida com depressão, vícios, abusos, relacionamento fracassado, traições e a sensação de estar perdida. Ela busca redenção apesar de lidar com o coro grego que desacredita dela (na blues ballad I will overcome, que parece coisa de Jacques Brel), passa por namoros cagados (a mini-ópera-jazz Beware… The South London cover boy e o rap + big band The whatsapp Shakespeare) e se afoga na bebida (a vibe Rê Bordosa de Winterwoman). Isso só no começo.
O disco passa pela dance music grandiloquente (Life beat), por pop de terapia (I know you’re hurting, que lembra Cindy Lauper), por uma colaboração com ninguém menos que o trilheiro Hans Zimmer (na linda e cinematográfica Click clack symphony) e até por um gospel de responsa (Goodbye Henry, com Al Green).
Tem ainda o avô de Raye soltando a voz num gospel “amigo”, cheio de vocais acrobáticos (Fields). E o foco mesmo é em música pop usada como recurso para abrir cenas, contar histórias e dar conforto, como no soul de Skin & bones (com vocais ótimos) e Happier times ahead, no puro funk de Where is my husband! e na pós-disco feliz de Joy – essa, contando com os vocais das irmãs de Raye. Há mudanças bruscas de estilo, narrações e trechos que fazem você se perguntar se isso realmente é um disco (sério).
Por falar nisso, This music encerra com Fin, uma música de quase sete minutos em que… são apresentados os créditos do disco, como quando um filme encerra e os nomes rolam na tela. Mas aqui tudo é narrado na estileira espontânea de Raye. Musicalmente, até pela variedade, fica complicado colocar Raye numa caixinha. Resumindo de forma, digamos, pouco complexa, o disco soa como se uma cantora pop contemporânea resolvesse fazer um cruzamento entre um disco da Amy Winehouse, um musical da Broadway e uma trilha de cinema antigo. E sem se preocupar se as músicas cabem em playlists do Spotify.
Raramente um executivo de gravadora admite um erro. Boa parte deles pode ter deixado passar os novos Beatles, mas vão repetir até o fim da vida que “ah, fulano? Quando ele foi parar na minha mão não tinha talento nenhum”. Sei lá o que os caras que duvidaram do potencial de Raye estão pensando agora, mas que estão dando aquela choradinha no banheiro, estão sim. O exagero de This music may contain hope arrasta pessoas: mesmo que você odeie o disco, pode acabar se sentindo tocado / tocada pela espontaneidade de Raye.
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