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Crítica

Ouvimos: The Dandy Warhols – “Pin ups”

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The Dandy Warhols vão além do hit Bohemian like you: em Pin ups, reinventam clássicos com clima lo-fi, ousado e quase de ensaio.

RESENHA: The Dandy Warhols vão além do hit Bohemian like you: em Pin ups, reinventam clássicos com clima lo-fi, ousado e quase de ensaio.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Beat The World Records
Lançamento: 20 de março de 2026

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No Brasil, a banda americana The Dandy Warhols é o típico grupo-de-boate – todo mundo já dançou em alguma festa o maior hit deles, Bohemian like you, e muita gente pensa que se trata de um lado Z do Blur ou algo parecido. Certo? Não, errado: a discografia do Dandy Warhols aponta mais para rótulos como neo-psicodelia, shoegaze e art rock do que qualquer outra coisa. E maravilhas-de-um-só-hit, eles com certeza não são.

Não custa lembrar que trata-se da banda que em 2020 lançou um álbum de mais de três horas (Tafelmuzik means more when you’re alone, contendo uma portentosa faixa de 36 minutos, It’s the end of the world as we know it and I feel bored). David Bowie chegou a afirmar que eles eram sua banda favorita, e os DW abriram os shows da turnê Reality (2003). Curiosamente, Bowie não foi regravado em Pin ups, disco de covers bastante peculiar lançado agora pelos Dandy Warhols – mas por acaso foi homenageado com o título do álbum, o mesmo de seu álbum de 1973, só com regravações de clássicos do rock britânico sessentista.

  • A lista completa de faixas de Pin ups tá aqui.
  • Ouvimos: The Dandy Warhols – Rockmaker

Courtney Taylor-Taylor (voz, guitarra, teclados), Zia McCabe (voz, teclados, baixo), Peter Holmström (guitarra, baixo, teclados) e Brent DeBoer (bateria, vocais) não focaram em época nem em estilo nenhum, mas decidiram centrar suas forças num conceito: Pin ups parece uma brincadeira, uma diversão particular e lo-fi do grupo. Um disco em que a bateria é quase um batidão contínuo, os teclados soam como um “Fulano e seu teclados” em clima pós-punk, e as guitarras vão acompanhando a estileira, sempre posicionadas do lado mais punk do alambrado.

Em regravações como as de Cherry bomb (Runaways, em vibe eletrônica), What we all want (Gang Of Four, lembrando Talking Heads), Primary (The Cure), Rain (The Cult) e Straight to hell (The Clash, numa onda rock-dub), o som de Pin ups lembra mais um DJ set gravado, ou um show feito num espaço bem pequeno, gravado direto da mesa, e melhorado para virar disco. E no geral, se você acha que qualquer mudança feita num clássico merece chicotadas, nem chegue perto de Pin ups, porque daí pra frente, a banda decidiu ousar e mostrar como eles tocam determinadas músicas para seu próprio prazer.

No disco, Goo goo muck (Cramps) vira uma canção que poderia estar no repertório dos Stone Roses. Lay lady lay (Bob Dylan) ganha ares de folk lo-fi. Blackbird (Beatles) ganha cara de Suicide + Ultravox. Jet boy (New York Dolls) transforma-se de vez na música que o Clash esqueceu de fazer. Love song (The Damned) vira dance music e big beat (!). Se você não estiver contente, pode ouvir logo a versão deles pra The beautiful people, de Marilyn Manson: o riff de guitarra foi para um piano Rhodes e algo faz lembrar mais uma música do Johnny Cash do que um hit do popstar problemático.

Em vez de só babar o ovo de vários hits, lá vai o Dandy Warhols abrir a porta de sua sala de ensaios para os fãs. E ficou bem legal.

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Crítica

Ouvimos: Black Pantera – “Resistência! Ao vivo no Circo Voador” (ao vivo)

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Black Pantera transforma metal em revolta, pertencimento e roda punk histórica em ao vivo feroz gravado no Circo Voador.

RESENHA: Black Pantera transforma metal em revolta, pertencimento e roda punk histórica em ao vivo feroz gravado no Circo Voador.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Deck
Lançamento: 8 de maio de 2025

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Difícil falar de Resistência! Ao vivo no Circo Voador, primeiro audiovisual do Black Pantera, sem recorrer ao velho clichê do “presente para os fãs” – até porque, mais do que isso, é a chance de muita gente descobrir um dos melhores grupos ao vivo do Brasil. Os mineiros Chaene da Gama (baixo e vocal), Charles Gama (guitarra e vocal) e Rodrigo “Pancho” Augusto (bateria) são inventores de uma maneira diferente de tocar som pesado, e de um viés social sobre o heavy metal.

Em faixas agitadas e pesadas como Provérbios, Padrão é o caralho, Boom, Fogo nos racistas, Taca o foda-se e Estandarte, os três atacam monstros bem mais feios que o diabo – e inserem indignação, revolta e africanidade num estilo musical que surgiu da apropriação do blues. Na real, nos álbuns do grupo (especialmente o mais recente, Perpétuo, de 2024), o Black Pantera vem levando metal, hardcore e punk (os três nomes surgem colados no conceito da banda) a conhecerem outros ambientes e realidades.

O peso da banda surge colado a vibes de disco music em Punk rock nigga roll e Fudeu. O Black Pantera fala de um dia a dia bem perigoso em Execução na av. 38, faz o metal se encontrar com a contação de histórias em Legado e Candeia, e entra na briga pelos direitos do trabalhador em O sexto dia (“tem que meter o louco mesmo / hoje é dia seis e eu tô sem dinheiro / ainda tem o mês inteiro / que que eu vou fazer? / me bate um desespero”).

No fim das contas, é som, é roda punk (as rodas do Black Pantera são históricas), mas é senso de pertencimento, de identificação – algo, por sinal, que o som pesado entende, mas que aqui ganha outros sentidos, outras escalas de valores. Resistência! já nasce no volume máximo. Faltou só a versão afrometal de Identidade, de Jorge Aragão, que a banda gravou no EP Capítulo negro (2020).

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Crítica

Ouvimos: Iris da Selva – “Iris da Selva”

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Resenha: Iris da Selva – “Iris da Selva”

RESENHA: Iris da Selva mistura carimbó, folk e sons latinos num disco contemplativo, político e onírico sobre identidade e ancestralidade.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Budokaos
Lançamento: 9 de abril de 2026

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Artista trans não-binário de Belém do Pará, Iris da Selva faz em sua estreia solo uma interpretação poética e toda particular dos sons locais. Os arranjos são baseados na instrumentação tradicional do carimbó (incluindo instrumentos como banjo, tambor curimbó, maracas, flauta transversal e violão de nylon), mas caminham entre sonoridades da música latino-americana, elementos do brega e até uma vibração típica dos discos da CBS brasileira dos anos 1970 (Manduka, Cátia de França, etc).

Músicas como Voo de urubu soam bastante visionárias, falando dos movimentos da natureza e das cidades – enquanto faixas como Percura cigana são festa sonora, lembrando canções tradicionais e poesias que passam de geração a geração. Esses dois lados do disco encontram-se a todo momento, até porque Iris da Selva é basicamente um disco de contemplação e observação, mirando os rios que viram pedra, as estradas mal cuidadas, as ancestralidades que sofrem apagamentos, a felicidade que vem chegando (na sonhadora Domingo de tarde, carimbó-reggae cuja melodia parece sempre ter existido).

  • Ouvimos: Geordie Gordon – River round

Os climas oníricos surgem também nas lembranças de infância do folk nortista Algo tão doce, na vibe cigana de Sexta-feira, no alt-folk de Bem, no escapismo de Um lugar pra ir e na calma de Tartarugueiro, em que o rio vira instrumento musical. Essa sensação de teletransporte acaba sendo uma das principais características do álbum, mas a realidade toma conta do manifesto anti-preconceito de Tratado de paz (“será difícil entender / que eu não quero parecer com mais ninguém além de mim? / será difícil aceitar? / não sou moça nem rapaz / sou meu tratado de paz”) e do embate existencial do bolero roqueiro Velho tempo. Mas Iris sempre encontra um espaço pessoal no meio do caos – e no geral Iris da Selva, o disco, é isso.

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Ouvimos: Gloios – “Prensado”

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Resenha: Gloios – “Prensado”

RESENHA: Entre post rock, ruído e caos urbano, Gloios transforma Prensado num conto sonoro sufocante sobre solidão, concreto e paranoia.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 6 de fevereiro de 2026

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Se você leu o nome do quarto disco full do Gloios (projeto solo do músico paulista Rafael Xavier) e foi logo pensando em maconha, pode tirar o cavalinho da chuva. Inspirado por uma lista bem variada de referências (Clarice Lispector, Tom Zé, Lygia Fagundes Telles, Zé Ramalho, Macaco Bong, David Lynch, Nelson Rodrigues, Sigur Rós), Prensado é um misto de disco e conto, que relata a sufocante história de um homem que morreu esmagado (prensado, enfim) por seu próprio apartamento. O texto é parte integrante do pacote (está tudo no Bandcamp do Gloios), e ele chega ao / à ouvinte em clima de post rock, noise rock e sons industriais, em dez faixas de duração quase sempre extensa.

“Minha vida cotidiana (e a de pessoas próximas a mim que vivem em uma floresta de concreto e aço) também molda este trabalho: o cheiro irritante de poluição de São Paulo, o caos opressivo do transporte público, a aglomeração do horário de pico, os minúsculos estúdios superfaturados que incomodam a todos, a sensação de estar sozinho em um mar de gente”, conta Rafael, dando uma ideia do que vai surgindo à medida que o disco avança.

Prensado abre variando entre o noise rock e um clima psicodélico e cerimonial em Nulo, e cai dentro de algo entre jazz e post rock em Cartaz de desaparecida. Vácuo grandioso, gravado ao lado da cantora Black Tupi, são dez minutos em que o caos do dia a dia ganha várias facetas: um som que lembra um programa de TV como o Cidade alerta transforma-se num post rock bizarro, seguido por uma pregação falando no apego que o ser humano tem a dinheiro e a coisas mundanas – e de um sample de Onda, música de Cassiano. A sensação é a de não saber em quem confiar nem de onde vem o tiro.

  • Ouvimos: Febem, Fleezus, CESRV – Brime!! (EP)

Frases soltas dão o tom humanístico do álbum (como “qual foi o enterro mais bonito que já houve aqui no Brasil?”, abrindo o instrumental abrasileirado Sol mesquinho), ou “esse é o seu BO pra eternidade”, na sombria e quase metálica Inexistente e romanos. Ou “a realidade da vida é sempre o funeral das ilusões”, de Meio homem, meio bolo de cimento e meio tijolo baiano, post rock brasileiríssimo. O drone sombrio de Sugado do nada e entregue a uma boca que nada leva parece com alguém sendo sugado e posto para fora imediatamente, seguido por gritos, discussões sobre futebol e vários sons concorrendo pelo mesmo espaço na mesma sintonia.

Os treze minutos de Um evento maior que o mundo lançam dúvidas: é um folk melancólico? Um emo? Nessa faixa, Nunca, de Lupicínio Rodrigues, surge enxertada sem muita combinação com a música – que vai ganhando violões e ares de um poema narrado. Um disco para chegar ao fim duvidando de tudo que você acha que sabe.

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