Crítica
Ouvimos: Vampire Weekend, “Only god was above us”

- Only god was above us é o quinto álbum de estúdio da banda norte-americana Vampire Weekend. É o segundo pela Columbia e o primeiro como trio, com Ezra Koenig (vários instrumentos), Chris Tomson (bateria) e Chris Baio (baixo).
- O disco foi produzido por Ariel Rechtshaid com Ezra. O material foi feito entre 2019 e 2020, e todo o material foi sendo desenvolvido nos anos seguintes. Em um comunicado, a banda definiu o álbum como “direto, porém complexo, mostrando a banda ao mesmo tempo no que há de mais corajoso e também no que há de mais bonito e melódico”.
Primeiro álbum do pós-pandemia do Vampire Weekend, Only God was above us é uma espécie de disco conceitual sem conceito, em que o personagem principal parece ser alguém assombrado pelo passado, pelos desmandos, pelos donos do poder que não medem consequências, pelas bizarrices do dia a dia que fazem com que tudo seja regido pela batuta do lucro.
Não é por acaso que o álbum abre com uma acusação (“foda-se o mundo, você disse isso em silêncio/ninguém poderia te ouvir, ninguém além de mim”, no começo de Ice cream piano) e encerra com a bela e quilométrica Hope – um inventário de esperanças traídas, falsidades do dia a dia e descrença naquilo que Xuxa chamava de “o cara lá de cima”, tudo encerrado com uma nota falsa de superação, ou de positividade tóxica (“eu espero que você deixe isso passar”).
O disco novo do Vampire Weekend tem uma onda sonora e lírica que se relaciona com a Nova York dos anos 1980, como os próprios integrantes vêm falando em entrevistas. Um assunto que não pode ser mencionado sem que surjam temas como violência, desigualdade, racismo e pouco caso com minorias. Não é por acaso que existem faixas como Prep-school gangsters e Gen-x cops, canções que parecem falar sobre reação e reacionarismo. Muito embora resenhistas pelo mundo aforam estejam interpretando as letras como recados do vocalista Ezra Koenig para ele mesmo e para seus colegas de banda.
Musicalmente, o Vampire Weekend volta menos indie, mais clássico, mais pop barroco, mais e mais influenciado por sons lançados lá pelos anos 1960 – só que cruzados com o design sonoro eletrônico e sampleado do grupo. Capricorn investe num lado meio folk e dream pop, Classical é um quase drum’n bass com referência de Smiths, Connect traz um lado meio bossa, meio Beach Boys para o álbum. Mary Boone parte de um sample do Soul II Soul – da faixa Back to life (However do you want me) – para construir um r&b gospel e orquestral.
De impressionar de verdade, e já no fim do disco: Pravda, com suas guitarras cheias de referências da juju music, e som pop cheio de batidas afro – soando como um Talking Heads ligado ao dream pop. E Hope tem cara de hino, com belo tratamento orquestral. Bom retorno.
Nota: 8
Gravadora: Columbia.
Crítica
Ouvimos: The Smashing Pumpkins – “Zodeon at Crystal Hall”

RESENHA: Zodeon at Crystal Hall, disco “secreto” dos Smashing Pumpkins mistura psicodelia, chamber pop e britpop num retrato sentimental da pandemia.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Martha’s Music
Lançamento: 15 de maio de 2026 (nas plataformas)
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Você sabia do disco secreto dos Smashing Pumpkins? Bom… já que era secreto, talvez poucas pessoas soubessem. Mas o fato é que Zodeon at Crystal Hall foi lançado apenas em vinil na finaleira de 2025, sem nenhum tipo de divulgação: não houve release, entrevista, listening party, happy hour com jornalistas, nada disso. Os fãs que conseguiram chegar até Zodeon foram pessoalmente comprar uma cópia na Madame Zuzus, a casa de chá que o líder do grupo, Billy Corgan, possui com sua esposa, a artista e designer Chloe Mendel Corgan – ou mandaram vir pelo correio. Ou baixaram pelo Soulseek.
E agora todo mundo pode ouvir Zodeon, disco que mostra uma faceta pouco conhecida de Corgan e da banda – é basicamente um álbum de rock sessentista, jangle pop, psicodelia e chamber pop, tudo junto e mais ou menos misturado. Corgan montou o disco na pandemia, e a grande inspiração foram os Dukes Of Stratosphear, a faceta sixties do XTC – que, ele contou num papo com o site Louder Than War, Billy conheceu sem nem imaginar que se tratava de um spin-off do grupo.
Na real, é ainda um disco dos Pumpkins: a abordagem que a banda faz do som sessentista tem quase sempre o mesmo aspecto quase maquínico de discos como Siamese dream (1993) – em que, por mais que o som seja emocionante e pesado, há uma frieza de robô por trás dos acordes, dos golpes de guitarra e bateria.
Tanto que o grupo começa com Simmatar, pop de câmara com beat marcial e clima de eterna introdução. Magdalena, na sequência, é pós-punk com ritmo reto e clima sonhador, numa conexão direta com The Cure e com o próprio XTC. Já Automaton é uma das raras vezes em que os Pumpkins lembraram o Radiohead, enquanto Apocalypso, para os padrões dos Pumpkins, chega a soar power pop – ganhando um clima bem próximo da neo-psicodelia oitentista em vários momentos. MaryQ põe bandas como The Who, Kinks e The Jam na mistura dos Pumpkins.
Quando a argamassa normal do grupo dá um tempo, aparecem surpresas como a vibe Paul McCartney + marchinha de Natal de Saffron, a onda beatle de Necromance e a balada celestial de Huzzah!. Surgem pelo menos duas faixas bonitinhas-mas-só-isso: as baladinhas doces The bard e Burr, nada demais em se tratando dos Pumpkins, que ficam parecendo um Coldplay melhorado. Além de pelo menos uma lembrança do Blur, em Excelsior, e de um britpop quase formal, Story for another day.
Detalhe que, mesmo no conceito, os SP não mudaram: Corgan é obcecado por um personagem que tem vários nomes (Zero, Glass, Shiny). Zodeon é o disco que Shiny faz antes de ser mandado para outro planeta – um álbum mais sentimental, com mensagens cifradas, que ele imagina que todo mundo vai ignorar (daí o lançamento quase “secreto”). Vai daí que Zodeon at Crystal Hall soa quase como vários discos dentro de um só, ou como uma coletânea de sentimentos que Corgan deve ter tido na pandemia.
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Crítica
Ouvimos: Mães Católicas – “Tem alguma coisa acontecendo”

RESENHA: Power pop, punk e ska para letras sobre ansiedade, fake news e caos urbano: o Mães Católicas soa noventista em Tem alguma coisa acontecendo, mas fala do agora.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 11 de maio de 2026
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O Mães Católicas vem de Taubaté (SP) mas passa longe da onda de emo caipira: o negócio deles é uma mistura de power pop, punk e ska – uma sonoridade que os deixa meio parecidos com as bandas nacionais dos anos 1990, em vários momentos. Já as letras de Tem alguma coisa acontecendo são bem atualizadas: Matheus Koji (guitarra e vocais), Otávio Vassão (guitarra e vocais), Matheus Telini (baixo e vocais) e Vitor Barbosa (bateria e vocais) falam de ansiedade, pressa, fake news, dor nas costas (!), desatenção, mensagens não respondidas, nervosismo com as reações da pessoa amada, alugueis caros, e aquele desânimo que bate em alguns momentos.
- Ouvimos: Chococorn and The Sugarcanes – Todos os cães merecem o céu
A curiosidade é que isso tudo aí rola em faixas alegres como a puladinha Maluco!, o ska sombrio de Whatsapp (“eu não quero mais olhar pro celular!”, é só a primeira frase), o power pop de garagem De novo nessas, o anti-jingle de Barão Geraldo, máquina de kitnet, e o pós-punk conspiratório da faixa-título – que é uma espécie de Pânico em SP (aquela música dos Inocentes) só que sem nenhuma indicação de lugar, nem de que o “pânico” realmente aconteceu. O primeiro grupo de seres humanos a morar em Marte abre o álbum juntando Beach Boys (nos vocais) e Júpiter Maçã (na loucura da letra). Pensamentos diagonais cai simultaneamente no punk e na psicodelia estilo bad trip. A impagável Bloco da massagem é ska + marchinha de carnaval.
Tem alguma coisa acontecendo tem até um som meio Exploited, meio Motörhead em Milkshake bolonhesa (eca!), além de pequenos retratos do dia a dia urbano em Facchini e Randon, Bob e Descendo a ladeira de bike, e do punk romântico de Paula – sobre um amor distante que é bastante prejudicado pela distância e por questões adjacentes. Boa banda, ouça.
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Crítica
Ouvimos: Y – “Enter” (EP)

RESENHA: Pós-punk, ska e surrealismo: o Y mistura ABBA sombrio, afro-jazz e zoeira teatral em Enter, EP tão caótico quanto inventivo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Hideous Mink Records
Lançamento: 8 de maio de 2026
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Curioso que uma banda tão conceitual e multifacetada como o Y ainda não tenha lançado um álbum. Enter, segundo EP desse coletivo londrino formado pelos músicos Adam Brennan e Sophie Coppin, e mais ligado ao pós-punk que a qualquer outro estilo, abre com alguns compassos de música quase clássica e definitivamente sombria, em Duplicate – faixa que depois ganha ritmo de ska e riffs arábicos de guitarra (na letra, frases como: “qual é a diferença entre um quarto e uma casa? / um quarto é uma casa, uma casa é uma casa”).
May, na sequência, parece um tema pronto para ser lançado no festival Eurovision, só que pervertido: tem um baixo funky, um clima que mais parece um ABBA sombrio (e que depois também embica em algo próximo do ska), e uma letra bad trip sobre política, enganação e decadência total. Há muita coisa no disco que lembra uma versão maximalista das Slits – é uma impressão que passa por todo o EP.
- Ouvimos: Swine Tax – Pony farm (EP)
O Y define Enter como “um tipo de música para dançar enquanto chora”. Na real, é mais uma demonstração do humor do grupo, e de como eles desenvolvem isso na música – às vezes só nos arranjos e na execução, antes até das letras, que esbanjam surrealismo. Generate the ohno é uma zoeira heavy metal, composta como se fosse um trecho de musical: guitarras cavalares, corais, saxofone ajudando a dar um aspecto “insano” à música.
Skipper põe o Y para enveredar pelo pós-punk legítimo, com bateria reta, tons sombrios, e uma letra com frases como “há uma boca e um rosto como um assento de privada / um lugar falando, falando acordado enquanto as esposas dormem / mas as crianças não”. No final, Waiting winning vem como um dos sons mais elaborados do EP: quase cinco minutos de batida quase xamânica e vibrações meio pós-punk, meio afro-jazz. O Y está firme e forte na lista de bandas que todo mundo deve descobrir.
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