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Crítica

Ouvimos: Anastasia Coope, “Darning woman”

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Ouvimos: Anastasia Coope, “Darning woman”
  • Darning woman é o álbum de estreia de Anastasia Coope, cantora e compositora novaiorquina de música experimental, pai inglês e mãe americana (cujo violão acústico original Martin ela usa para compor).
  • O álbum começou a ser feito quando ela fez gravações na casa vazia de um parente em Beacon, NY, experimentando software de gravação. Até aquele ponto, Coope só pensava em si mesma como uma artista visual, não uma musicista.
  • “Eu era capaz de imaginar uma sala de coisas acontecendo, em vez de eu apenas construir algo”, diz Coope. “O disco foi minha maneira de começar a pensar espacialmente sobre música”.

O disco de estreia de Anastasia Coope é bem louco. E experimental – diria até que cabe no chamado freak folk, que une violões, vocais, pop barroco e criações de estúdio. No caso de Darning woman, a primeira faixa, He is on his way home, we don’t live together, já serve como uma demonstração de quais regiões ela pretende atingir com o álbum: uma canção baseada nas gravações de vários vocais fantasmagóricos, um teclado igualmente aterrador, algumas percussões e uma guitarra que aparece no final.

Tudo isso junto provoca um efeito de vertigem no ouvinte – e vertigem é quase um conceito para se falar do álbum. Women’s role in war, na sequência, soa como uma música sacra ou uma canção pastoril jogada no LSD. What doesn’t work what does é um cântico a cappella cuja principal função é desnortear o ouvinte. A faixa-título é a primeira do disco a soar próxima do conceito de “pop barroco” – uma cantiga em que Anastasia se acompanha ao violão e deixa rolar várias vozes de acompanhamento. Sorghum parece Carpenters em tom acústico e experimental.

E vai por aí, num disco bem curto (nove músicas, vinte e dois minutos), um assombroso som de vanguarda feito no quarto, com várias manipulações de fitas. Igualmente assombrosas são as letras de Darning woman, geralmente textos bem curtos, que soam como filmes de época que mostram como as mulheres eram tratadas há quase um século.

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Em Women’s role in war, Anastasia diz que o papel das mulheres na guerra era de “pacificadora”. He is on his way home desconcerta e cria uma semente de sinopse de filme na cabeça de quem a ouve (“ele está indo para casa, não moramos juntos/me repreendeu, você deveria perceber que sou mais jovem”). Woke up and no feet (“acordei e não tenho pés”), com gravação de demo e clima de coral de convento, é outro micropoema misterioso (“imagino como o garoto encapuzado seria compreendido se acordasse sem pés/você sabe que o que dele faz é bom/então por que ela não é considerada boa?”).

Darning woman chega ao fim com o violão quase cigano de Newbin time. E com o tom quase meditativo de Return to room, com vozes, piano e sopros cuja letra fala de uma pessoa que “desistiu de uma pintura por dia no último mês/a favor de uma formulação ultrapassada”. Nas histórias de Darning woman são historicamente femininas e dão a impressão de que, por trás das frases do disco, há o que não podia ser dito faz algumas décadas – e em muitos casos, não se pode dizer até hoje.

Nota: 8
Gravadora: Jagjaguwar

Crítica

Ouvimos: Automatic – “Is it now?”

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Automatic mistura synthpop gelado e pós-punk dançante em Is it now?: muitas referências, mas identidade própria e letras de recusa ao padrão.

RESENHA: Automatic mistura synthpop gelado e pós-punk dançante em Is it now?: muitas referências, mas identidade própria e letras de recusa ao padrão.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Stones Throw Records
Lançamento: 26 de setembro de 2025

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Formado pelo trio Izzy Glaudini, Halle Saxon e Lola Dompé, o Automatic faz música como se criasse seu próprio som – ou como se usasse referências apenas na base do “eu achei legal, mas mudaria tudo”. Ouvindo Is it now?, é meio claro que bandas como Slits, Japan e Suicide foram ouvidas pelas três em algum momento (nesse papo na comunidade do reddit Indie Heads, Gary Numan foi igualmente citado), mas a colagem foi realizada de um jeito tão particular que dá para imaginar que se usassem IA, iam enlouquecer o sistema.

Vai daí que o synthpop estilingado e pontiagudo delas envolve pós-punk dançante e sustentado pelo baixo (Black box, Lazy, o beat eletrônico rudimental de Don’t wanna dance, o voo controlado de The prize), sons que lembram Ultravox, Talking Heads e o começo sombrio do Human League (PlayBoi, Smog summer, o eletropop alemão de Country song), coisas entre o pós-punk e a psicodelia (a flautinha de mq9, a vibe quase dub de Mercury). O teclado entra para dar uma onda “gelada” em meio ao clima bem pé-no-chão do baixo e da bateria, como se cumprisse a cota de climas mais viajantes no som. De bandas mais novas, dá para perceber algo linkado a Bravery e Arctic Monkeys na faixa-título, marcada também por vocais maquinados e onda meio krautrock.

Na letra de Is it now?, a faixa-título, dá para sentir que o Automatic propõe antes de tudo um manifesto estético – da mesma forma que Re-make / Re-model, do Roxy Music, propunha mudar tudo e enxergar beleza onde o movimento hippie poderia ver caretice ou sujeira. “Corte o cabelo com tesoura de cozinha / novo visual, uma imagem diferente / de segunda mão, não de televisão / shoppings, eles te tornam cruel”, avisam elas. Don’t wanna dance mostra que elas, de fato, não querem se parecer com todo mundo: “as luzes estão me cegando / eu não quero dançar, estou me escondendo / cada momento aqui me lembra que / eu não quero dançar”. Um “não é não” musical, de fino trato e em alto volume.

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Ouvimos: Carlos Dafé, Adrian Younge – “Carlos Dafé JID025”

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Adrian Younge e Carlos Dafé unem soul e samba em JID025, disco setentista, orquestral e psicodélico que reencontra passado e presente.

RESENHA: Carlos Dafé e Adrian Younge unem soul e samba em JID025, disco setentista, orquestral e psicodélico que reencontra passado e presente.

Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Jazz Is Dead
Lançamento: 17 de outubro de 2025

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Enxergando o soul e o balanço brasileiros como um precioso álbum de figurinhas, o norte-americano Adrian Younge vem fazendo uma série de lances especiais: vem por aí um álbum gravado ao lado de Antonio Carlos & Jocafi, e já saíram discos feitos com Hyldon e Dom Salvador, além de um solo cheio de convidados. E tem também JID025, gravado ao lado de Carlos Dafé, uma das melhores vozes da história da MPB, e um dos compositores mais hábeis no oscilar entre soul e samba.

JID025 parece um disco que Dafé adoraria ter lançado nos anos 1970: Amor enfeitiçado, logo na abertura, tem psicodelia nos acordes de guitarra, mudanças de tom e clima de abertura antiga de novela. E um pouco de paz, com recordações do som de Cassiano, lembra tema de filme policial. Bloco da harmonia tem metais e cordas vibrando junto com a percussão, além de lembranças do lado sambista de Dafé, compositor já gravado por Alcione e Nana Caymmi – embora a canção ganhe clima sombrio no fim. Jazz está morto une jazz, soul e grandiloquência herdada de Isaac Hayes e do Marvin Gave do disco What’s going on (1971). Cítara e harpa marcam o início de Verdadeiro sentimento, balada como as dos discos setentistas de Dafé.

Do começo ao fim, JID025 soa como um flashback turbinado e ácido, que também aponta para o Funkadelic em O baile funk vai rolar, e ganha ar voador em É real… é verdade, no samba orquestral Esse som é verdadeiro e na declamada Como entender o amor. Um reencontro entre passado e presente.

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Ouvimos: Period Bomb – “Cuntageous”

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Period Bomb, de Camila Alvarez, retoma o riot grrrl com inclusão e barulho experimental. O EP Cuntageous mistura egg punk e críticas diretas ao machismo.

RESENHA: Period Bomb, de Camila Alvarez, retoma o riot grrrl com inclusão e barulho experimental. O EP Cuntageous mistura egg punk e críticas diretas ao machismo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Crass Lips Records
Lançamento: 2 de dezembro de 2025

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No Brasil ainda não tem muita gente comentando a respeito do Period Bomb – uma pena. Esse projeto estadunidense criado pela musicista Camila Alvarez reavivou o cenário riot grrrl em Los Angeles nos últimos 15 anos, e já lançou discos como Permanently wet (2020) e o EP 24-carat clit (literalmente, “clitóris de 24 quilates”, que saiu em janeiro do ano passado). Um dos trabalhos dela foi ajudar a incluir mulheres trans e mulheres negras que se sentiram excluídas das ondas riot grrl anteriores – como a própria Camila conta nessa entrevista.

  • Ouvimos: Ratboys – Singin’ to an empty chair

Cuntageous, o EP mais recente do Period Bomb, não economiza em duas coisas: sons experimentais e dedo na cara de homens babacas. Em alguns momentos lembra Yoko Ono, em outros parece um som ligado também à onda egg punk, de teclados distorcidos e sujos. Cunty boy (“garoto cuzão”) tem vocais afinados, mas prontos para zoar e meter o malho – lado a lado com programação eletrônica e teclados. Parking ticket junta teclados maníacos e voz com vibe fantasmagórica de brincadeira. Birth of labubu zoa uma das manias de 2025 em clima sonoro que mistura Devo, Yoko Ono e Young Marble Giants.

O Period Bomb faz também samba latino experimental em espanhol, Porriquitico, lembrando Mutantes – e lembrando também o quanto o “não é não” é difícil no dia a dia. No final, os 40 segundos da vinheta-título, fazendo questão de explicar que a babaquice masculina é bastante contagiosa. E é.

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