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Crítica

Ouvimos: Melanie Martinez – “Hades”

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Ouvimos: Melanie Martinez – “Hades”

RESENHA: Hades, de Melanie Martinez, é um disco longo, denso e “cinematográfico”, com crítica social pesada e relatos crus que exigem atenção e fôlego.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Atlantic
Lançamento: 27 de março de 2026

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Tem por aí a chamada “bebida sabor café” (que anda rendendo memes), a “bebida sabor iogurte” e… bom, tem também a onda de “disco sabor filme” que vem assolando o pop há alguns anos. Nem todo disco pop lançado hoje em dia é realmente conceitual, mas sempre há um conceito a ser trabalhado em qualquer álbum que chega às plataformas, do Swag de Justin Bieber ao Lux de Rosalía – fora as criações de Taylor Swift, as instigações de Luisa Sonza e os sumiços-e-aparições de Lana Del Rey.

Vai daí que Hades, quarto disco da ex-estrela teen (revelada pelo The Voice) Melanie Martinez é esse “sabor filme” levado às últimas consequências – e um estranho encontro entre a grandiloquência e o maximalismo pop e os horrores de Ethel Cain. Se o negócio hoje é disco curto e música curta, felizmente esqueceram de avisar Melanie, que deu à sua epopeia art-pop tratamento de disco progressivo: 70 minutos e 18 faixas.

Hades de certa forma está mais até para “disco sabor livro”. É pra ouvir prestando atenção nas letras, a quantidade de informação é cansativa e, dependendo do seu grau de não-envolvimento emocional com a obra de Melanie, provavelmente você vai escutar o álbum em dois ou três dias. Melanie fez de Hades um álbum distópico, com músicas que falam sobre horrores bem reais, e de maneira bem envolvente.

Dá pra dizer que assuntos como misoginia, gordofobia, racismo, bolhas de privilégios, milionários FDP, homens escrotos e abusivos e o jogo sujo da indústria de estrelinhas teen surgem em Hades numa onda de “entendeu ou quer que eu desenhe?”, graças a faixas descritivas como o rap-britpop White boy with a gun, o pop sombrio Possession, a valsa grega Garbage e a fantasmagoria gélida de Avoidant. Monolith, uma balada linda, traz uma visão bem pessimista da vida por trás das telas, das redes sociais, da TV, de tudo. Batshit intelligence põe a guerra e a injustiça urbanas na roda, com depoimentos de pessoas em situação dde rua e tudo.

A balada-valsa Weight watchers (“vigilantes do peso”) choca pela combinação de melodia doce e letra amarga: Melanie constroi um universo bizarro em que os tópicos são bichectomia, implantes, drogas emagrecedoras compradas em condições perigosas (“carboidratos não queimam rápido o suficiente para valer a pena / não achei que tivesse mudado muito até eles falarem / um tópico no Subreddit é o que me restou”), alimentação ruim e expectativas da mídia (“agora tudo que eu leio é: ei, acho que ela está grávida!”, canta ela).

Cantando basicamente sobre injustiças e ameaças, Melanie fala sobre uma roda viva de traumas infantis causados por homens abusivos do show business, no alt pop Disney princess. E sobre uma rotina de cyberbullying por intermédio das DMs do Instagram, no pop misterioso de Chatroom. Musicalmente, a onda “cinematográfica” e maximalista de Hades dá certo – mesmo quando o disco começa a cansar, ele provoca curiosidade.

A produção fica sempre bem mais próxima do universo do rap do que do rock ou do pop dançante, mas tem até eletro-rocks bem feitos, como Uncanny valley e Hell’s front porch, além do r&b vertiginoso de Is this a cult?. Mas o que fica mesmo na memória é a crueza dos relatos: Hades faz o / a ouvinte viver, na imaginação, muito do que está nas letras.

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Crítica

Ouvimos: Fat Dog – “Cancel me (I’m tired)”

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Resenha: Fat Dog - "Cancel me (I’m tired)"

RESENHA: No segundo álbum, Cancel me (I’m tired), o Fat Dog leva o dance-punk a novos extremos, misturando new rave, synthpop, guitarras pesadas e humor politicamente incorreto em músicas sobre poder, opressão e esgotamento.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Domino Recording Co.
Lançamento: 2 de outubro de 2026

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Juro que quando ouvi o Fat Dog pela primeira vez, achei que aquela classe toda fosse gerar uma banda legal, e nada mais do que isso. Woof, a estreia dessa banda britânica (2024, resenhado aqui), revelava um grupo atrevido, imaginativo, chegado a uma estranha mistura de disco music, música eletrônica, emo e sons pesados e dançantes de modo geral – e que poderia ser categorizado naturalmente como indie sleaze, dance-punk, coisas do tipo.

Vai daí que Cancel me (I’m tired), o segundo álbum, é bem mais do que apenas uma surpresa, já que se trata de uma banda que reza no credo de grupos com Viagra Boys, Yard Act e até Shame, mas com personalidade própria. O Fat Dog voltou carregando mais ainda no humor absurdo e num clima musical que coloca a banda como sobrinhos da geração new rave (lembra desse nome?). Ou como uma turma que entendeu que o politicamente incorreto está em mãos erradas, e se arrisca a entrar para o mesmo local onde hoje residem as camisas da seleção brasileira.

Nomes como Devo, Happy Mondays, Battles, David Bowie e até Kaiser Chiefs surgem como evocações e lembranças do álbum, em canções como Smile and wave (quase Viagra Boys + Shame + dance punk), Go fuck urself (rastros de Der kommissar, de Falco, mas com um ar meio chique dado pelo saxofone) e a ótima Shit love – esta, uma zoeira entre rock e música eletrônica, com guitarras em tom sabbathiano.

O eletro-punk comanda em especial The devil, Bad dog (beat pesado e onda sonora próxima de Master Peace), Call it what you want e a ótima faixa-título – mas no novo testamento, o Fat Dog também promove a união de Bowie, Lloyd Cole e synthpop em Heart of darkness, além de unir country e orquestra em Snakes, e de fechar o álbum com uma balada grandiosa e bem diferente do restante do álbum, Aliens.

Nas letras, o Fat Dog aponta suas armas para tudo aquilo que possa significar poder e opressão existencial – tipo o excesso de expectativas e aporrinhações na faixa-título (na qual eles consideram a hipótese até de usar IA para fazer música), Smile and wave e Go fuck urself. Gente com quem o diabo acharia melhor não fazer um pacto aparece em The devil, a revolta política dá as caras em Call it that you want, e gente problemática e “poderosa” cai do cavalo em Bad dog e Heart of darkness. Que virada.

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Crítica

Ouvimos: Naimaculada – “Acromatopsia” (EP)

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Resenha: Naimaculada - "Acromatopsia" (EP)

RESENHA: Em Acromatopsia, o Naimaculada transforma uma São Paulo cinzenta e padronizada em música, cruzando MPB, metal, jazz e rock progressivo, com participações de Kiko Dinucci, BNegão e outros convidados.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Deck
Lançamento: 14 de setembro de 2026

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A modernidade, segundo gente de áreas como arquitetura e design, e artistas visuais em geral, está se tornando um deserto sem cores, ou com pouca variedade de tonalidades. Basta você olhar para uma área mais colorida ou até poluída visualmente, para que aquilo seja automaticamente associado aos anos 1980. Em compensação, é na era dos lugares “instagramáveis” que tudo parece ficar igual, asséptico, com as mesmas cores – e, no caso do próprio Instagram, com as mesmas fontes de letras.

Indo mais além, nada como a era da IA para tudo ficar REALMENTE parecido – e nem só os textos, mas as ideias, os estilos de vida e uma espécie de combo on-offline da vida, do trabalho e da psiqué de todo mundo. O EP novo do Naimaculada, Acromatopsia, é uma espécie de voyeur dessa falta de variedades tonais: o grupo passeia por uma São Paulo em que tudo é preto e branco.

Apresentando vários convidados (Thalin, do projeto Maria Esmeralda, Nabru, Sol, Kiko Dinucci e BNegão) e parte das gravações realizadas em Shijiazhuang, na China – com músicos tocando instrumentos locais – Acromatopsia vai bem além do progressivo altamente brasileiro e vigoroso da estreia A cor mais próxima do cinza (2024). O título faz referência a uma condição visual rara caracterizada pela incapacidade total ou parcial de perceber as cores. As letras enxergam tudo por esse prisma, em que São Paulo é um festival de inércias e engessamentos, um paraíso que reluz de longe, mas não de perto.

Com a voz forte de Ricardo Paes à frente, as músicas soam as vezes como um improvável encontro entre Black Sabbath, Gilberto Gil e Luiz Melodia, partindo para o jazz do inferno em O pecado tem medo, para um progressivo “distante” em Shangri-La (com os músicos chineses) e para uma MPB-metal afrontosa em O que é que será? Já Terminal Bandeira, com Kiko Dinucci, fica no mesmo corredor de Medusa, novo álbum do músico – abre com uma guitarra bem própria, e vai achando um caminho igualmente particular para chegar a algo que lembra um pós-hardcore. Ou um Nintendocore.

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Crítica

Ouvimos: O Preço – “Caóticas palavras”

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Resenha: O Preço – “Caóticas palavras”

RESENHA: Liderado por Christian Targa, fundador dos Blind Pigs, O Preço mistura street punk, ska e reggae em Caóticas palavras, disco de protesto sobre desinformação, escolhas políticas e resistência popular.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 5 de outubro de 2026

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Banda punk paulista liderada por Christian Targa (voz e guitarra), um dos fundadores do Blind Pigs, O Preço não escolheu esse nome à toa: o repertório do álbum Caóticas palavras fala sobre o preço que todo mundo anda pagando pelas escolhas mais erradas que o mundo tem feito. E adianta algumas coisas que, se ninguém tomar cuidado, podem acontecer após o segundo turno das eleições presidenciais no Brasil.

O som do O Preço tem a ver com a vocação rueira do punk dos anos 1970 e 1980, quase sempre apontando para o clima street punk de bandas como Angelic Upstarts, ou para uma versão mais acelerada de bandas como The Clash e The Damned. Começo imediato abre o disco falando em derrotas inaceitáveis e lembra que a vanguarda é o cidadão trabalhador. Maldita calamidade fala de desinformações do dia a dia, em clima que lembra Richard Hell & The Voidods.

No decorrer de Caóticas palavras, hinos marciais como Cara planilha e Desumano não unem-se a canções de guerra como Revolver a evolução, Enquanto houver a esperança e Parentes e amigos – além de letras irônicas e realistas como a de Muamba militar. Inserido no contexto do punk setentista, e recuperados ao longo da história do estilo, gêneros como reggae e ska surgem na faixa-título e no rap-reggae O ska é a munição, com Bocão DRR soltando o verbo do lado da banda.

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