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Crítica

Ouvimos: Rosalía – “Lux”

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Lux aposta no pop erudito e cinematográfico: Rosalía mistura espiritualidade, drama e ousadia sonora num disco intenso, múltiplo e marcante.

RESENHA: Lux aposta no pop erudito e cinematográfico: Rosalía mistura espiritualidade, drama e ousadia sonora num disco intenso, múltiplo e marcante.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Columbia
Lançamento: 7 de novembro de 2025

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Se você fizer muita força, talvez consiga enxergar algum defeito gravíssimo – musicalmente falando – em Lux, disco novo da espanhola Rosalía. Mas já vou avisando que é preciso muita implicância. Lux tem pinta de disco de 2025 que vai ser bastante lembrado daqui a dez anos, mesmo com a oferta violenta de álbuns novos a cada semana. E põe mais um tijolo na construção revolucionária de Rosalía, cantora que após fazer experimentações com o flamenco no universo pop e na contação-de-histórias musical do mainstream (no definitivo Motomami, de 2022), decidiu levar a seus fãs uma obra bela, serena, que necessita de audição tranquila. E possivelmente demanda mais de uma audição.

Na real, se você estiver com muita vontade de criticar, tem o detalhe de que Rosalía, mesmo lançando um disco que é basicamente de pop erudito e cinematográfico, passa longe de chutar as portas da originalidade. Dá para tecer comparações com discos antigos de Bjork – a islandesa, por sinal, participa de Lux. E, mais do que isso, vale dizer que a colombiana-canadense Lido Pimienta correu para que Rosalía pudesse caminhar em paz – em maio, Lido lançou o excelente réquiem orquestral La belleza, cujo som imagético vem à mente em vários momentos de Lux (resenhamos aqui).

(Por acaso – e esse assunto gera um parque de diversões para críticos musicais e fãs exaltados – Lido já fez críticas a Rosalía pela maneira como ela assimila e comercializa os elementos afro-latinos. “Eu moro no Canadá e meus amigos aqui acham que a Rosalía é latino-americana, porque as estrelas latinas do trap têm algo em comum: são todas brancas. As superestrelas latinas do momento são brancas. Eu entendo de onde vem a comparação”, escreveu ela no Xwitter em 2020. “Minhas perguntas e críticas à Rosalía, que um dia pode ser ‘chica latina’, no outro ‘estrela do R&B’ e no outro ‘rainha do flamenco’, só mostram a hipocrisia de uma indústria que ela não questiona, apenas usa e da qual se beneficia”. Errada não tá).

Cessando um pouco a temporada de implicâncias, Lux é um disco de pop latino, camerístico, sensível e religioso – e um disco que se beneficia do entorno, da atenção dada à Rosalía, da expectativa por seu trabalho, e da capacidade de dela de contar histórias musicais e temáticas. O disco tem quatro movimentos e é cantado em 13 idiomas – mas se você não entender nada do que está sendo cantado, vai sair com a impressão de ter ouvido uma história com começo, meio e fim.

Rosalía, que ao fazer Lux estudou temas como feminismo e histórias das vidas de santas, criou um álbum de comunicação fácil, em que sexualidade, desejo, vida mundana e vida celestial confudem-se o tempo todo, em faixas como a operística Sexo, violencia y llantas, a orquestral e industrial (sério) Reliquia, a sombria Divinize (cujo ritmo lembra um gabber leve, transformando-se numa canção quase montanhesa em alguns momentos). E também em Berghain e Memoria, nas quais Bjork e a portuguesa Carminho, respectivamente, deixam tudo mais intenso.

Porcelana tem cordas e batida de guerra, além de efeitos que tornam a música uma experiência bela e sombria – o piano dá o ritmo no fim, ajudado por cordas e percussão. Faixas como La rumba del perdón, uma rumba-pop-rock, com palmas e violão quase rasqueado, e a vibe cigana de Dios es un stalker e De madrugá, trazem experiências mais reconhecíveis para quem conheceu Rosalía com Motomami. E a fronteira pop do álbum mostra sua face em Mio Cristo piange diamanti – que poderia ser apenas uma canção “clássica” e italianada, mas surge carregando algo de My way, o sucesso de Frank Sinatra, e do lado operístico do Queen.

Muita gente, ao resenhar Lux, viu que as letras do disco batem com histórias pessoais de Rosalía – que incluem desilusões amorosas, um ou outro relacionamento tóxico e um providencial clima de “não tenho tempo para o amor” que já surgiu em entrevistas. Faz parte, da mesma forma que David Bowie decidiu tratar de sua fragmentação e distância pessoal criando um homem que veio do espaço. O lance é que, seja lá que valor artístico ou pessoal você atribua a Rosalía, Lux foi montado com tanta esperteza pop, e tamanho potencial de provocação (da capa às letras) que é quase impossível não prestar atenção nele.

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Crítica

Ouvimos: GUV – “Warmer than gold”

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Ouvimos: GUV – “Warmer than gold”

RESENHA: Ben Cook, chefe do GUV, mistura jangle pop, Madchester e shoegaze em Warmer than gold; bom som, mas letras repetem melancolia sem virar grandes hinos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Run For Cover Records
Lançamento: 30 de janeiro de 2026

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“Minha avó ajudou a criar a minissaia em Londres no anos 1960. Meus pais se conheceram num squat em Brixton. Meu pai era o traficante, minha mãe era a fugitiva hippie”. Quem diz isso é um sujeito chamado Ben Cook, músico que se criou entre o Canadá e a Inglaterra, artífice do projeto musical GUV, que já se chamou Young Guv – referência ao codinome Young Governor, usado por ele quando tocava na banda punk canadense Fucked Up.

Sei lá de quem Ben herdou mais traços psicológicos, se do pai ou da mãe – mas sua carreira é marcada pelo procedimento de fuga (opa, isso veio da mãe?) e por namoros-casamentos com a psicodelia (ih, olha o pai aí!), tanto que ele já mudou bastante de estilo. Warmer than gold, disco novo do GUV, cai dentro de uma mescla de jangle pop, som de Madchester (o álbum tem pérolas indie-dance que poderiam ter sido feitas em 1987) e shoegaze original – ou seja, o shoegaze “melódico” e sem grandes truques de emparedamento sonoro.

  • Ouvimos: The Pale White – Inanimate objects of the 21st century

Antes que você pergunte: sim, o som do GUV lembra muito o do Jesus and Mary Chain, pelo menos o Jesus de discos como Darklands (1987) e Honey’s dead (1992). Faixas como Let your hands go, o pós-punk emparedado Blue jade, as dançantes e psicodélicas Out of this place e Oscillating vêm da mistura de beats dançantes, violões e guitarras em clima jangle e vibes sonoras que ora lembram Smiths, ora fazem lembrar The Cure. Rola até um Friday I’m in love em que os meses tomam lugar dos dias em Thorns in my heart, além de algo assemelhado ao The Sundays em Never should have said.

A beleza melancólica de músicas como a faixa-título e Hello Miss Blue merece destaque. Ben, na real, só não é um letrista dos mais carismáticos. O maior problema de Warmer than gold acaba sendo o excesso de músicas que seguem a rotina do “não tenho mais você, aí eu choro e sonho o tempo todo”. Falta a Ben, no momento, a capacidade de transformar tristeza em hino, algo que Robert Smith faz até hoje com versos simples, e que bandas como Oasis e Jesus And Mary Chain sempre tiveram como foco. Agora, musicalmente, há várias surpresas aqui.

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Ouvimos: Gentle Millennials – “Fantastical waves, delusional surf”

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Ouvimos: Gentle Millennials – “Fantastical waves, delusional surf”

RESENHA: Gentle Millennials resgata surf music experimental com shoegaze, psicodelia e referências pop, criando um disco estranho, variado e bem interessante.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Mandatory Book Club
Lançamento: 31 de outubro de 2025

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Surf music experimental, sinceramente, eu nunca mais imaginei que fosse ouvir na vida – pelo menos não além do som de bandas como Man Or Astro-Man?, que faziam isso lá pelos anos 1990, ou das ondas distorcidas do The Jesus and Mary Chain do começo. Mas Fay Funk (baixo) e David Allred (guitarra), a dupla que forma o Gentle Millennials, fez exatamente isso em seu álbum Fantastical waves, delusional surf, e são o mais novo projeto musical dedicado a esse tipo de som.

O disco tem referências musicais como as trilhas da série Twin Peaks e do filme Sharknado 3, além de Surfer rosa (1988), dos Pixies, e abre logo com Sunrise, faixa que leva as guitarras de faroeste para uma parada sonora bem espacial. Soa quase como um shoegaze desértico e vanguardista, digamos. Fantastical waves, delusional surf segue em frente unindo Syd Barrett e Dead Kennedys (Crowd surfing LinkedIn), fazendo soul-surf do espaço sideral (Camping on the beach) e balada sombria com cara psicodélica e pós-punk (Something coming). E isso só na primeira metade do álbum.

O Gentle Millennials também faz surf music distorcida na onda do Jesus and Mary Chain (mas sem o mesmo volume de microfonias) em Scourge, bang-bang à italiana psicodélico em Midday, sons submersos em Sunset e na vinheta Surf break, tema de duelo surfístico em In the speedboat e um curioso post-rock sobre as ondas (com direito a metais) em Steep surf. Ficou bem legal.

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Ouvimos: The Bevis Frond – “Horrorful heights”

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Ouvimos: The Bevis Frond – “Horrorful heights”

RESENHA: Nick Saloman leva o Bevis Frond ao 27º disco: 90 minutos de rock psicodélico, ruidoso e confessional, misturando referências clássicas e melancolia.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Fire Records
Lançamento: 3 de abril de 2026

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Nick Saloman, cantor e compositor londrino, chefia o Bevis Frond há quarenta anos – de 1986 para cá, o grupo teve diversas formações e passou por todo tipo de selo indie. Ele nasceu em 1953, portanto tem uma longa história pregressa antes de sua banda mais duradoura: vem liderando bandas desde os anos 1960, teve uma banda chamada Oddsocks que chegou a gravar um álbum na década de 1970, e como colecionador de discos, é um sujeito que tem milhares de referências que ninguém conhece (aliás, ele também é dono de uma loja de discos na Inglaterra, a Platform One Records).

A curiosidade no som do Bevis Frond é que dá pra dizer que Nick inventou o rock alternativo norte-americano em Londres nos anos 1980, a partir de referências de Byrds, Jimi Hendrix e Neil Young – o clima meio ruidoso, meio heartland que surgiria nos repertórios de bandas como Dinosaur Jr e Guided By Voices já estava na obra dele, e chega intacto ao 27º álbum do Bevis Frond, Horrorful heights. Uma maratona musical, aliás: são noventa minutos (!) de música ora pesada, ora melancólica, com letras que parecem observar a tristeza existencial pelo viés inglês, mais irônico e autozoeiro.

Nick soa como um músico jovem apaixonado por sons velhos, lembrando Bruce Springsteen e Peter Frampton em A mess of stress. Evoca George Harrison e Paul McCartney em Best laid plans e na belíssima Romany blue. Busca caber nos limites do pós-punk em Quietly, Square house e na pixie Naked air; e fazendo rock com clima quase jovemguardista (!) em Draining the bad blood. O músico também soa como J Mascis + Bob Mould em That’s your lot.

Sons indianos (com tabla e cítara) tomam conta da faixa-título, o que já abre uma outra janela psicodélica na narrativa musical do disco. Isso porque a lisergia de Horrorful heights é associada naturalmente a climas pesados, às vezes próximos do noise rock, mas quase sempre herdados de Jimi Hendrix ou de bandas hoje pouco lembradas, como Mountain e Status Quo. Essa receita hipnótica surge em faixas como Space age eyes, Mossback’s dream e Hiss, e ganha ar beatle, lembrando o hit I got a feeling, no country-blues Momma bear.

Nick é um artista bastante confessional, do tipo que fala de derrotas pessoais no mercado fonográfico (King for a day) e até de como é ser um colecionador de discos e tentar fazer coisas básicas como namorar (Quietly) – nada confirmado sobre se ele fala de si próprio, mas o clima é de conversa, como rola também nos “vazamentos de esgoto e incêndios florestais” de Naked air, falando sobre locais em que as crianças mal podem brincar e ainda sofrem riscos. Vale a pena arrumar tempo para ouvir essa maratona de som e existência.

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