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Crítica

Ouvimos: Robyn – “Sexistential”

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Ouvimos: Robyn – “Sexistential”

RESENHA: Sexistential mostra Robyn madura: pop eletrônico entre sexo, maternidade e existencialismo, com som hipnótico e olhar atual sobre o amor.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Konichiwa / Young
Lançamento: 27 de março de 2026

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Tem um artigo ótimo no jornal britânico The Guardian chamado Como Robyn transformou o pop, escrito em 2018 por Laura Snapes. É um texto longo, que explica uma série de coisas que provavelmente passaram despercebidas até mesmo aos críticos musicais mais atentos: a cantora sueca e sua paixão pelo eletropop agridoce influenciaram um número enorme de artistas, a ponto de haver um “momento Robyn” em discos de Rihanna, Ariana Grande e até Taylor Swift, com batidas e synths de impacto.

Mais: se hoje o termo “hyperpop” é discutido em tudo quanto é lugar, isso se deve à noção de Robyn de que o pop tem uma arquitetura própria, que passa pela composição, pelos temas, pelo gancho que “pega” – e pela vontade de subverter todas as fórmulas. Isso tudo foi fervilhando aos poucos, à medida que alguns eventos importantes aconteciam: 1) Robyn decidiu tomar as rédeas de sua carreira e montou um selo independente, em 2005; 2) rolou uma troca de guarda na crítica musical e surgiram jornalistas que não consideravam a palavra “pop” um palavrão, além de críticos – e críticas – musicais menos rockcentrados.

Enfim, vale bastante a leitura desse texto, feito quando Robyn estava prestes a lançar seu oitavo disco, Honey (2018). Um disco que alternava sons pop e coisas mais experimentais: a cantora disse a Laura que não estava interessada em melodias, e queria fazer coisas “mais hipnóticas” (de fato, os sons de faixas como Missing U, Honey e a robótica Human being quase podem ser pegos com a mão, pelo espaço que ocupam no ambiente).

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(Aliás, diga-se de passagem: no papo com o The Guardian, Robyn também se mostava preocupada com a narração do mundo por intermédio do algoritmo: “Quando as coisas são tão simplificadas na sua janela do Instagram, sinto que precisa haver alguma complexidade. As coisas não podem ser apenas uma coisa. É mais importante do que nunca deixar que as coisas sejam muitas coisas ao mesmo tempo. Não tornar tudo fácil demais”, disse).

Enfim, indo pros finalmentes, Sexistential, nono álbum de Robyn, tem várias funções: 1) mostrar uma Robyn madura e pop, robótica e humana, existencial e dançante; 2) ser o primeiro disco dela depois da popularização da inteligência artificial; 3) mostrar a mulher por trás da música, algo bem diferente em se tratando de uma artista reservada como Robyn.

Não é um disco “sexual” no sentido mais popularesco da coisa: Sexistential fala de sexo como um estar-no-mundo, da mesma forma que fala de maternidade na regravação de Blow my mind, uma música gravada por ela originalmente em 2002 no disco Don’t stop the music, numa versão mais eletro-rock. A nova versão tem versos dedicados a seu filho, nascido de fertilização in vitro – musicalmente, ganhou uma cara mais alt-pop, com direito a um teclado aberto em leque, lembrando até a abertura de Palco, de Gilberto Gil.

Sexistential tem sexo também como um pano de fundo que às vezes, ocupa a frente do palco: surge na dance music rasgada de Really real, que fala de relacionmentos que terminam, e das perdas e ganhos da maturidade. Volta no pop sem margem de dúvidas de Dopamine, música sobre amor e química – cuja letra ganha o prêmio “fale bastante de sexo sem falar em sexo”, e cuja música é cercada de teclados ágeis e hipnóticos, vozes robóticas e aquele clima que rola quando o pop fala de si próprio.

Essa onda de pop “arquitetado”, típico do pop sueco (opa, esse país aí é bom de música, hein?) faz com que o “pop” se torne uma opção, quase uma linguagem própria, cheia de códigos próprios. Como os teclados sonhadores de músicas como Light up e Sucker for love (cujo andamento lembra um eletrobrega), a produção ligeiramente próxima do trap em It don’t mean a thing e o pop sintetizado de Talk to me, e da faixa-título.

Como letrista, Robyn interpreta também o mundo descrito pelas canções pop (amores, paixões, leviandades da vida) com sua mente de agora. Sexistential, a faixa-título, soa como um diário de maternidade solo, em que ela descreve até uma consulta médica, e poetiza sobre os sentimentos da fase (“meu corpo é uma nave espacial com os ovários em hipervelocidade / existe um universo inteiro dentro de mim, entre as minhas coxas”).

Já Talk to me é sexo mediado pelo celular, mas visto de maneira (vá lá) saudável, como parte do dia a dia de alguém que tem montes de ocupações e nem sempre tem alguém do lado. E em Sucker for me, Robyn avisa que não vai fazer nenhum tipo de jogo, e que brincadeira tem hora. “Eu não vou mais jogar esse jogo / e nem me importo com quem ganhe / eu costumava ser mais resistente / mas escolhi deixar você vencer”.

Encerrando, pop como na era de Like a prayer, de Madonna, em Into the sun – uma música explicando como a realidade se torna uma espécie de pesadelo de Ícaro, com um “voar, voar, subir, subir” pervertido (“olha só o que eu fiz / tão corajosa e burra de voar direto pro sol”). Pop existencial sem deixar de ser ultrapop.

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Crítica

Ouvimos: Johnny Marr – “The age of everything”

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Resenha: Johnny Marr – “The age of everything”

RESENHA: Em The age of everything, Johnny Marr fala de fascismo, capitalismo e um mundo acelerado enquanto revisita pós-punk, reggae e rock oitentista — dos Smiths e The The aos Pretenders.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: New Voodoo / BMG
Lançamento: 02 de outubro de 2026

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Descrito como o álbum que traz as canções mais catárticas já feitas por ele, The age of everything, quinto álbum de Johnny Marr, é a trilha sonora para uma época em que tudo parece acontecer ao mesmo tempo – e em que inúmeras sensações parecem tomar conta de todo mundo, sem que a gente pareça preparado para dar conta delas.

Unindo histórias e questões pessoais às letras, Marr acaba soando venturoso como Bruce Springsteen, quando fala da aceleração do mundo em Spin, e de resistência emocional em Beyond the rain. Soa também vingativo como Chrissie Hynde, quando fala da vida em Londres (All in a life), da briga contra o fascismo de 2026 (Fire with fire) e contra o aprisionamento criado pelo capitalismo (It’s time). Em pouco tempo, fica claro que, seja lá como Marr viva hoje, ele observa o mundo pelo ponto de vista de quem olha para os lados e não enxerga muitas chances.

Musicalmente, por sua vez, o novo disco é uma surpresa bem menos afiada do que The messenger (2013) e Playland (2014), os dois primeiros álbuns solo do guitarrista. O galho é que essa “surpresa menos surpreendente” pega pelo ouvido e pela emoção, e parece intencional. Mais do que em qualquer outro disco solo seu, Marr parece disposto a unir toda a sua história como guitarrista, dos Smiths ao The The, passando pelos Pretenders e, em especial, pelos valores musicais e criativos da década que viu seu trabalho nascer.

Isso porque o som de The age of everything é, digamos, bem oitentista: quem for fã de discos como Learning to crawl, dos Pretenders (1984), ou da volta por cima do The The nos anos 1990 com Dusk (1993), vai se descobrir aqui. Não tem como não falar de Smiths ou de Morrissey numa hora dessas: Spin, na abertura, é o som que o ex-parceiro de Marr podia estar fazendo hoje, caso ele tivesse permanecido na mesma onda de discos como Your arsenal (1992). Músicas como Beyond the rain, com clima hispânico, e o pós-punk + reggae All in a life têm muitos elementos que Marr desenvolveu nos anos 1980. Uma surpresa é a balada In and out of love, o tipo de música que ficaria bem na voz de Morrissey.

Seguindo numa onda de, talvez, dar sua visão pessoal do lado mais tranquilo e embelezado do pós-punk, Marr investe em riffs simples e circulares, e em melodias de fácil assimilação. Há um clima de pós-punk sofisticado em It’s time, In and out of love e Just once more, além de um ska dobrado para caber na caixinha do rock em Ophelia (cuja letra enxerga a personagem de Hamlet, de Shakespeare, pelo viés tanto da vulnerabilidade quanto da sobrevivência). How come tem uma leveza que lembra não apenas Smiths como R.E.M., com baixo singrando pela melodia.

Outra surpresa: That feeling, uma das melhores do álbum, poderia ser uma candidata a jingle de loja de surfwear, caso tivesse sido lançada nos anos 1980. Tem uma batidinha meio reggae, uma guitarra que lembra tanto o The The quanto o hit Talking in your sleep, da formação new wave oitentista The Romantics (lembra desse som?), e um “ôôôôô” claramente inspirado no hit Invisible sun, do The Police (!). O som é de época, mas não é datado – The age of everything é um bom disco de mensagens, com uma trilha sonora adequada.

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Crítica

Ouvimos: Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes – “Vice-versa”

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Resenha: Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes – “Vice-versa”

RESENHA: Em Vice-versa, Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhotto misturam samba, reggae, punk, baião e experimentação num disco sobre trabalho, amor, cotidiano e as estranhezas do presente.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Universal Music Brasil
Lançamento: 22 de setembro de 2026

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Dos letristas mais recentes da MPB, Arnaldo Antunes talvez seja o criador mais ligado a uma espécie de sabedoria popular. Em sua música, punchlines altamente criativas chegam a lembrar antigos ditados, nem que seja por associação. Da mesma forma, certas letras dele, desde a época dos Titãs, crescem no ouvido pela familiaridade. Como algo que, lido ou ouvido, soa como uma polaroide boa de assuntos como “casa”, “família”, “revolta”, “amor”, “vida”, “morte” – qualquer tema, mesmo que descrito com frases soltas em vez de cenas.

Não dá pra negar que, mais até do que Marisa Monte, Adriana Calcanhotto soa como a companhia ideal para Arnaldo nessa onda – primando por letras bastante visuais, a compositora de Esquadros já viu músicas suas, como Cariocas, fazerem o caminho inverso e se tornarem quase memes. Vice-versa, disco feito por Arnaldo e Adriana, ainda que não tenha hinos da MPB como nos discos dos Tribalistas, une dois artistas com tons artísticos parecidíssimos em prol de uma música brasileira de clima pop e levemente experimental.

Vice-versa começa no samba com Também capaz – música que tem algo de Gonzaguinha, e cuja letra, atualizadíssima, fala sobre unir trabalho e descanso, cuidar da vida e olhar para dentro. Digamos que o ecumenismo de Arnaldo e Adriana permite até que a música fale simultaneamente com empregado e patrão (“um monte de dinheiro não vale nenhum tostão / não vai comprar seu sossego, nem amor nem paixão” com certeza não são versos destinados a quem precisa sofrer ganhando mal e trabalhando seis dias por semana). Há muito dos Tribalistas e até de Marisa Monte em balanços como Se for pra ser vai ser agora, Na minha carne viva e o reggae pop Você não vai me achar, ou na tranquilidade de Por ti, por mim, por nós.

Uma cara titânica toma conta de faixas como o rock-reggae-brega Sorriso livro, o punk Não me dão e até o pós-manguebit As bancas de jornais – cuja letra é uma poesia interessante sobre as mudanças nas bancas, o sucateamento do próprio jornalismo e a possibilidade de um dia alguém comprar até armas e aparelhos de tortura numa delas. Entre os momentos mais legais estão o baião pop Contemplando a folia, com algo de João Donato no piano, e a história romântica torta e ruidosa de Agora juntos.

E curiosamente a faixa que mais tem recordações dos Titãs é a última, Não me deu. Uma toada com violão em clima de lamento, tipo Funeral de um lavrador (Chico Buarque e João Cabral de Melo Neto), em que a dupla relata que não recebeu de deus nem apólices, nem hectares, nem hipotecas – e muito menos certezas inabaláveis e temores infundados. Às vezes lembra a dureza de Dívidas, lado B do Cabeça dinossauro (1986). Outros tempos, mas temas áridos e pouco poéticos continuam rendendo música.

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Ouvimos: Blondshell – “Violins”

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Resenha: Blondshell – “Violins”

RESENHA: Em Violins, Blondshell transforma relações tóxicas e frustrações em guitar rock melancólico, misturando shoegaze, alt rock dos anos 1990 e um inesperado apelo de rádio adulta.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Partisan Records
Lançamento: 25 de setembro de 2026

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“Você não faz promessas que não pode cumprir / então você não faz promessas para mim”, cospe Sabrina Teitelbaum, a popular Blondshell, na faixa-título de seu segundo álbum, Violins – que vem num clima mais “profundo” e bem mais entristecido que o debute, If you asked for a picture (2025, resenhado aqui). Parece que Sabrina sentiu alguns baques e decidiu colocar isso em sua música de uma forma bem mais evidente, quase sempre aludindo ao alt rock dos anos 1990 e à tristeza da época.

As amarguras da estreia se transformaram num discurso em que as palavras servem de cura e de mudança – mesmo que ela não veja essa mudança acontecendo ao redor dela. Essa inatividade geral dá as caras no deboche de New age trojan horse, zoeira séria com homens que fingem que se importam com as mulheres. E no realismo de Heart has to work so hard (sobre amizades tóxicas), além da estranheza de Lucky, sobre coisas estranhas e boas das turnês.

Sabrina torna seu guitar rock com bases pop mais interessante quando ele soa bem mais nublado – como em Heart has to work so hard e em Stone fruit, músicas com lembranças de Smashing Pumpkins e Cranberries. Mas o ruído new wavizado de Lucky e o beat tranquilo da balada New shape e dos shoegazes New age trojan horse e Sea legs também são puro grude no ouvido. Assim como a introversão do soft rock Two fried e a onda quase Eurythmics + ABBA guitar rock de Fur Elise.

No geral, Violins é o som ruidoso e herdado dos anos 1990 pronto para atacar a Antena 1 e as demais rádios adultas. Se bobear, você ouviu Blondshell no Uber hoje.

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