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O dia que tentei entrevistar Jandek

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Poucos artistas são tão enigmáticos e intrigantes quanto Jandek, fato. Nome artístico de Sterling Smith, este senhor texano hoje septuagenário é uma espécie de versão ianque do Daminhão Experiença, lançando desde 1978 discos com capas minimalistas e músicas onde literalmente arranha um violão tosquíssimo e desafinado. Tudo através do selo Corwood Industries. Que, supõe-se, pertence a ele (apesar de ele jamais ter confirmado ou negado tal informação).

Pouco se sabe a seu respeito. Durante todo esse tempo, deu uma entrevista clássica em 1985 para a revista Spin, mas pairam muitas dúvidas acerca de sua veracidade. Diversas pessoas juram que Jandek não autorizou tal entrevista e que o jornalista John Trubee apenas gravou uma conversa que teve com ele via telefone sem o seu consentimento. Já outras creem que a pessoa interpelada por John não era Jandek. O áudio dessa entrevista vai e volta do YouTube. No momento, está lá de novo – até tirarem de novo.

Em 2014, a Wire também o entrevistou. Aqui, você confere os prints desse papo, em que revela ter recusado uma proposta em 1982 para montar um grupo com Crosby, Stills & Nash, e diz que sua empresa Cornwood tem uma folha de pagamento com 27 funcionários.

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Entre as informações confirmadas sobre sua vida são as de que trabalhou por 30 anos como maquinista de trens, e que antes de enveredar pela música tentou ser escritor, mas todas as sete obras que escreveu foram sumariamente rejeitadas pelas editoras. O mistério em torno de sua pessoa é tanto que somente em 2004, quando se apresentou ao vivo pela primeira vez, confirmou-se que a pessoa que aparecia na capa de seus discos era realmente o próprio!

Olha Jandek em ação aí.

Pois bem, após essa breve introdução, chegamos agora ao ponto onde eu entro na história. Sempre fiquei tão intrigado com sua figura que resolvi arriscar. Diversos jornalistas ao redor no mundo falharam na missão de tentar uma conversa com ele, então que diferença faria? “Vai que sendo do Brasil ele me dá uma colher de chá?”, pensei. Com isso em mente e cheio de esperança, sentei na frente do computador e escrevi uma longo e-mail cujas primeiras cinquenta linhas falavam do quanto admirava sua música (ok, eu exagerei um pouquinho, confesso, mas tentei pegá-lo pelo coração), que eu escrevia em alguns sites de música no Brasil e tinha o sonho de um dia entrevistá-lo.

No mesmo dia, apenas algumas horas depois, recebo uma mensagem de alguém que se intitula somente como “O coordenador das Indústrias Corwood”. Seja lá quem for que a redigiu, foi igualmente simpático e educado comigo. Da mesma forma que gastei várias linhas enaltecendo sua obra, ele o fez agradecendo “minhas gentis e sinceras palavras”, ressaltando ainda que “Jandek ficou emocionado quando as leu”, mas que “ele infelizmente não dá entrevistas”. Mandei outra mensagem agradecendo pela atenção e achei que tudo tinha terminado por aqui.

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Contudo, no dia seguinte, recebo outro email do tal coordenador. Ele disse que Jandek ficou feliz por receber o carinho de um fã brasileiro e pediu meu endereço “para enviar material com o objetivo de ajudá-lo a escrever uma matéria sobre ele”. Qual foi minha surpresa quando cerca de duas semanas depois, recebo uma caixa da tal “Corwood Industries” (era tudo que constava como remetente), com cinco CDs e dois DVDs ao vivo??? Mandei outro recado com mil agradecimentos e por fim recebo do tal coordenador uma mensagem onde dizia que Jandek sonhava em tocar no Rio de Janeiro, perguntando se eu conhecia algum produtor que pudesse ajudá-lo. Respondi apenas que ia fazer o possível e me despedi desejando que seu sonho se realizasse.

E aí, você é produtor cultural ou conhece algum louco o suficiente para trazer Jandek ao Brasil?? Então não perca essa chance, entre em contato com ele (ou com o tal “coordenador”, vai saber?) através do email corwood@corwoodindustries.com e boa sorte!

Ah, e não poderia terminar esse texto sem recomendar a todos que, caso queiram obter maiores informações sobre Jandek, assistam ao documentário Jandek on Corwood, facilmente encontrado nos torrents da vida. Quer dizer, para ser sincero nem sei se posso dizer que ele esclarece muita coisa, pois graças à personalidade reclusa e avessa a entrevistas do personagem, tudo que tem lá são depoimentos de produtores e radialistas da cena alternativa americana. Todos tentando traçar um perfil de sua obra. A única vez em que Jandek aparece é num extra do DVD – que infelizmente só saiu lá fora – onde é possível conferir o tal áudio da entrevista supostamente concebida a John Trubee em 1985, e que você viu lá em cima. Vale a pena conferir!

https://www.youtube.com/watch?v=zR3cwr1aE7g

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LUCIANO CIRNE é jornalista, flamenguista, casado, ama cachorros e aceita doações de CDs, DVDs, videogames e carrinhos!

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Dan Spitz: metaleiro relojoeiro

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Se você acompanha apenas superficialmente a carreira da banda de thrash metal Anthrax e sentia falta do guitarrista Dan Spitz, um dos fundadores, ele vai bem. O músico largou a banda em 1995, pouco antes do sétimo disco da banda, Stomp 442, lançado naquele ano. Voltaria depois, entre 2005 e 2007, mas entre as idas e as vindas, o guitarrista arrumou uma tarefa bem distante da música para fazer: ele se tornou relojoeiro (!).

A vida de Dan mudou bastante depois que o músico teve filhos em 1995, e começou a se questionar se queria mesmo aquela vida na estrada. “Fazíamos um álbum e fazíamos turnês por anos seguidos, e então começávamos o ciclo de novo – o tempo em casa não existia. É uma história que você vê em toda parte: tudo virou algo mundano e mais parecido com um trabalho. Eu precisava de uma pausa”, contou Spitz ao site Hodinkee.

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Na época, lembrou-se da infância, quando ficava sentado com seu avô, relojoeiro, desmontando relógios Patek Philippe, daqueles cheios de pecinhas, molas e motores. “Minha habilidade mecânica vem de minha formação não tradicional. Meu quarto parecia uma pequena estação da NASA crescendo – toneladas de coisas. Eu estava sempre construindo e desmontando coisas durante toda a minha vida. Eu sou um solucionador de problemas no que diz respeito a coisas mecânicas e eletrônicas”, recordou no tal papo.

Spitz acabou no Programa de Treinamento e Educação de Relojoeiros da Suíça, o WOSTEP, onde basicamente passou a não fazer mais nada a não ser mexer em relógios horrivelmente difíceis o dia inteiro, aprender novas técnicas e tentar alcançar os alunos mais rápidos e mais ágeis da instituição.

>>> Veja também no POP FANTASMA: Discos de 1991 #9: “Metallica”, Metallica

A música ainda estava no horizonte. Tanto que, trabalhando como relojoeiro em Genebra, pensou em largar tudo ao receber um telefonema do amigo Dave Mustaine (Megadeth) dizendo para ele esquecer aquela história e voltar para a música. Olhou para o lado e viu seu colega de bancada trabalhando num relógio super complexo e ouvindo Slayer.

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O músico acha que existe uma correlação entre música e relojoaria. “Aprender a tocar uma guitarra de heavy metal é uma habilidade sem fim. É doloroso aprender. É isso que é legal. O mesmo para a relojoaria – é uma habilidade interminável de aprender”, conta ele. “Você tem que ser um artista para ser o melhor – seja na relojoaria ou na música. Você precisa fazer isso por amor”.

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Cinema

Bead game: desenho animado sobre agressividade

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Bead game: desenho animado sobre agressividade

Em 1977, o diretor de cinema Ishu Patel fez o curta-metragem de animação Bead game, que foi relançado recentemente pelo National Film Board of Canada.

Para mostrar como a agressividade pode chegar a níveis inimagináveis, ele criou uma animação que usa apenas contas coloridas, que ganham a forma de vários objetos, animais, pessoas e monstros – um lado sempre tentando derrotar o outro. E quando você nem imagina que a briga pode ficar maior ainda, ela fica.

Via Laughing Squid

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Cultura Pop

Bad Radio: no YouTube, a banda que Eddie Vedder teve antes do Pearl Jam

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Bad Radio: no YouTube, a banda que Eddie Vedder teve antes do Pearl Jam

Em 1986, surgiu uma banda de rock chamada Bad Radio, em San Diego, Califórnia. Foi um grupo que fez vários shows, ganhou fãs e se notabilizou como uma boa banda de palco da região. Mas que se notabilizou mais ainda por ter tido ninguém menos que o futuro cantor do Pearl Jam, Eddie Vedder, nos vocais.

Eddie Vedder, que é lá mesmo de San Diego, aportou por lá em 1988 e ficou até 1990. Conseguiu fazer uma mudança geral no grupo, que tinha uma sonoridade bem mais new wave com a formação anterior, com Keith Wood nos vocais, Dave George na guitarra, Dave Silva no baixo e Joey Ponchetti na bateria. Wood saiu do grupo e com Vedder, a banda passou a ter uma cara bem mais funk metal, e mais adequada aos anos 1990.

>>> Veja também no POP FANTASMA: Discos de 1991 #5: “Ten”, Pearl Jam

E essa introdução é só para avisar que jogaram no YouTube a última apresentação do Bad Radio com Vedder nos vocais. Rolou no dia 11 de fevereiro de 1990, pouco antes de Eddie se mandar para Seattle e virar o cantor de uma banda chamada Mookie Blaylock – que depois virou Pearl Jam. A gravação inclui as faixas What the funk, Answer, Crossroads, Just a book, Money, Homeless, Believe you me, What e Wast my days. O show foi dado no Bacchanal, em San Diego.

Com a saída de Vedder, o Bad Radio ainda continuou um pouco com o próprio Keith Wood, de volta, nos vocais. Segundo uma matéria publicada pela Rolling Stone (e que tem detalhes contestados pelos ex-integrantes do Bad Radio), Vedder não foi apenas cantor da banda: ele virou assessor de imprensa, empresário, produtor e o que mais aparecesse. A lgumas testemunhas dizem que a banda não era favorável ao lado ativista de Eddie (que costumava dedicar músicas e shows aos sem-teto), o que ex-integrantes do Bad Radio negam (tem mais sobre isso aqui).

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