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Ouvimos: Thundercat – “Distracted”

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Ouvimos: Thundercat – “Distracted”

RESENHA: Thundercat mistura funk, jazz e psicodelia em Distracted, disco cheio de convidados, mudanças bruscas de tom e humor nerd, mantendo virtuosismo e identidade própria.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Brainfeeder
Lançamento: 3 de abril de 2026

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Thundercat (ou Stephen Bruner, seu nome verdadeiro) é um inovador: pegou a fusion, o funk, o chamber pop, o city pop e o som adulto oitentista, e esticou em todos eles o que havia de mais psicodélico – a ponto de você quase conseguir pegar os arranjos com a mão. Muita gente vem seguindo essa fórmula, até mesmo no Brasil. Mas com habilidade de supermúsico e um conhecimento que ultrapassa fronteiras, só ele mesmo.

A vocação para circular musicalmente em diversas referências e estilos também é notável: Thundercat reapropriou tudo que o pop branco pegou da música negra, e refez da sua própria forma. Juntou os universos de Phil Collins, Supertramp e Doobie Brothers com a psicodelia do Funkadelic, os beats da disco music, a emoção do Earth, Wind & Fire, a paixão sonora do soul e do jazz, e uma certa noção de loucura stoner + punk – que sempre aparece como pé de página, nunca como atração principal.

Vai daí que Distracted, seu primeiro disco em seis anos, é essa fórmula meio que turbinada: vários convidados, uma onda que vai do soft rock à vibe mais louca em minutos, mudanças de tom que surpreendem, e que às vezes dão a impressão de um Robson & Lincoln no ácido, como em Candlelight, em She knows too much (que tem uma participação póstuma de seu amigo Mac Miller, e uma guitarra zoeira e manhosa na base) e até em No more lies, gravada com Kevin Parker (leia-se Tame Impala) e no estilo do convidado: pop derretido, psicodélico, dançante.

  • Ouvimos: Jody Glenham – Still here (EP)

Se pra fazer Erasmo Carlos convida (1980), repleto de convidados-estrela, Erasmo Carlos precisou adaptar sua voz a de vários deles, Thundercat não faz diferente: recebe cada um deles em seus próprios ambientes, ou em ambientes nos quais eles podem se sentir mais seguros. I did this to myself tem Flying Lotus e é a típica “música de produtor”, dançante, pós-disco e com um segmento rap. A$AP Rocky solta a voz no soul psicodélico + dream pop de Funny friends. Uma curiosidade são os Lemon Twigs no som 60’s de What is left to say, música que alude tanto a Todd Rundgren e Beach Boys quanto a Supertramp e a Earth, Wind & Fire – tudo isso costurado com uma linha musical pra lá de hipnótica.

As faixas-solo de Thundercat em seu próprio disco são cheias de “espacialidade”, como no soul Walking on the moon e no vento-vocal de I wish I didn’t waste your time. Rapper de Compton, Channel Tres se solta na dance music sensual-canastrona de This thing we call love. Acompanhado de Willow Smith, Thundercat faz um baladão anos 1980 quase cinematográfico em ThunderWave, reprocesssando elementos musicais que poderiam estar numa gravação de Phil Collins ou Tears For Fears. O segmento mais arrepiante de Distracted vem no final, com a hipnose pura de A.D.D. through the roof e da balada de piano Pozole, algo entre Todd Rundgren e Cassiano (!).

Sobre as letras do disco, Thundercat segue encarnando um sujeito meio nerd, mas descoladão – um cara que até se dá bem com as gatas, mas que tem uma personalidade, digamos, marcante. Tipo em No more lies, que fala de um relacionamento pra lá de desgastado e conclui que “mas não é sua culpa / eu só sou meio babaca”. Great americans parece falar de alguém bastante sufocado pela exigência de “rapidez” do mundo capitalista, a ponto de se desfragmentar (“tudo que eu faço é um comportamento aprendido / um verdadeiro show de Truman”).

Já a curta You left without saying goodbye traz pensamentos que já se passaram na cabeça de todo profissional do jornalismo: “apenas respire, está tudo bem / acho que é para sempre me sentir de alguma forma (…) / sobrecarregado e mal pago é como passo a maior parte do meu dia / talvez eu devesse criar um OnlyFans e mostrar meus pés (!!)”. Rapaz…

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Ouvimos: Codinome Winchester – “Rock ou nada” (EP)

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Resenha: Codinome Winchester – “Rock ou nada” (EP)

RESENHA: No novo EP, Rock ou nada, a banda sul-mato-grossense Codinome Winchester cruza pós-punk, ska-punk, noise rock e rock pesado, com letras entre o existencialismo, o protesto e a celebração.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Sonora Digital
Lançamento: 10 de setembro de 2026

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Banda de Campo Grande (MS), o Codinome Winchester faz do EP novo, Rock ou nada, uma declaração de princípios em tom próximo do pós-punk – ou de uma noção bem guitarrística de new wave, com letras que vão do existencialismo ao protesto. Ou que unem as duas coisas, como no inconformismo religioso de Eureka!, ska-punk com guitarras próximas do hard rock. Você também vai queimar, com vocais fortes, parede de guitarras e clima de viagem noise-rock lá pela metade, dá ao estresse do dia a dia uma imagem destruidora, que vai pondo fogo em tudo ao redor.

A segunda metade de Rock ou nada é bastante variada. Se você detesta bandas de rock que usam vocoder, autotune ou qualquer coisa do tipo, passe longe da terceira faixa – mas assim você vai perder a ótima A última polka, rock pesado e ligeiramente progressivo, com vocais eletrônicos e letra propondo uma visita quase surrealista ao Mato Grosso do Sul, em que o Pantanal e seus habitantes não estão para brincadeira. No final, tem até um samba-punk, a positiva O samba parou, com Mauricio Pereira soltando a voz. E com o grupo avisando que, apesar das dificuldades, a festa não acabou.

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Crítica

Ouvimos: Cobrafuma – “Droga total”

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RESENHA: Cobrafuma – “Droga total”

RESENHA: No álbum Droga total, o português Cobrafuma transforma raiva, abandono e precariedade em punk acelerado, misturando hardcore, thrash metal e rock’n’roll em 20 minutos de pancadaria.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Lovers & Lollypops LDA
Lançamento: 21 de agosto de 2026

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Não tem como deixar passar uma banda com um nome desses, e com um disco desses – um álbum de 20 minutos que recentemente o Bandcamp definiu como “thrash metal, hardcore e rock n’ roll condensados” e “um ataque sonoro tão insidioso quanto robusto”. Já o Cobrafuma é uma banda punk do Porto (Portugal) cuja autodefinição é melhor ainda: “fumo denso, jogos de snooker em que ninguém mete a preta e mais de 666 cervejas entornadas entre o corpo, o chão, e o balcão”.

Droga total mergulha no dia a dia dos jovens da classe pobre, apertada, raivosa, cheia de traumas e medos. Mas faixas como o crossover Trabalho servem para várias existências, com versos como “o patrão tem que ruminar / és a roda desdentada que prometem engrenar / empanturrado de migalhas / e gargantas que cortar”, berrados com precisão de João Gordo e sotaque luso. Meninos das tochas une punk e palhetadas de metal para falar diretamente de abandono e descaso – enquanto a faixa-título, lembrando o D.R.I. de discos como Four of a kind (1988)M trata de abusos e mortes.

No geral, o Cobrafuma lembra uma banda punk dos anos 1980, com a mesma preocupação em demolir fronteiras entre punk e metal, e em cravar refrãos prontos para serem gritados (como em Hoje é dia e Quem é este man, faixas com solos que lembram até a fase Anarkophobia, dos Ratos de Porão, em 1991). Tiro no escuro abre em clima pesado e sombrio, mas emenda no punk. O final, com as palhetadas quase thrash metal de Humildade, põe algo próximo do otimismo no universo do grupo.

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Ouvimos: Jewls – “NeverTheLess” (EP)

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Resenha: Jewls – “NeverTheLess” (EP)

RESENHA: No EP NeverTheLess, a alemã Jewls cruza pós-punk, guitarras atmosféricas, trip hop e shoegaze em canções sobre amores tóxicos e desencontros, com vocal rouco e misterioso.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Motor Entertaiment
Lançamento: 4 de setembro de 2026

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A palavra “nevertheless” significa “mesmo assim”, “no entanto” – e, no título do EP da alemã Jewls, ela surge dividida em três (o que dá um trocadilho torto, tipo “nunca + quanto menos”). O NeverTheLess de Jewls investe em pós-punk, guitarras atmosféricas, canções mais ou menos acessíveis, marcadas pelo vocal rouco, sexy e misterioso dela. E por um clima provocativo herdado de bandas como Garbage e Dry Cleaning.

Essa onda, misturada com climas herdados do pós-punk, dá as caras nas duas faixas de abertura, A rough inbetweener e em Easy rider – completando o cenário com os ruídos e rangidos de The crushed, nada levemente inspirada em Heart shaped box, do Nirvana. Spring once, canção melancólica aberta com voz e violão (e prosseguida em clima quase shoegaze), é o lado The Cure + Smashing Pumpkins do disco – encerrando com o trip hop ruidoso e distorcido da faixa-título.

Jewls, por sinal, fez de NeverTheLess um disco (vá lá) “romântico”, mas sem banalidades – as letras recorrem a imagens bem cruas e sarcásticas para falar de incompreensões, amores tóxicos e casualidades da vida romântica. Soa com cara própria a maior parte do tempo.

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