Crítica
Ouvimos: Buhr – “Feixe de fogo”

RESENHA: Em seu novo álbum Feixe de fogo, Buhr reforça sua veia contestadora com poesia, misturas sonoras e um antirromantismo cheio de tensão emocional.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Sound Department
Lançamento: 10 de abril de 2026
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Não há disco, música, letra acorde ou participação de Buhr (artista anteriormente conhecida como Karina Buhr) que não tenha sido pensada para contestar e quebrar padrões – e da mesma forma, Buhr sempre foi 100% ela mesma em entrevistas, coisa rara nesse universo de carreiras cada vez mais digitais e numéricas, até no universo indie.
Feixe de fogo, seu quinto álbum solo e o primeiro após a troca de nome artístico (que envolveu um processo pessoal de redescobertas), leva essa vibe de contestação adiante. Só que de forma bem mais poética. Carne, osso, superfícies vermelhas, espelhos, cidades grandes destruídas pela ganância, a saudade e a ansiedade… Tudo isso vai sendo tratado quase como personagens das músicas.
- Ouvimos: Thundercat – Distracted
Não é por acaso que Buhr abre o disco com a faixa-título, uma música sombria e tribal, que aproxima post rock e reggae, noise rock e som vanguardista brasileiro – e na qual ela diz: “eu corro em cima da brasa acesa / no medo onde ninguém mergulha”. Uma cláusula de autoafirmação que dá não apenas o tom do disco, como um norte de identificação para quem ouve. O dub Voaria e o forró-reggae-folk Vale brinde põem o foco do disco em obervações e descobertas, como numa lente bastante fiel à sua própria visão.
Em alguns momentos, Feixe de fogo olha para o amor – só que não exatamente para o amor romântico, e sim para um sentimento eternamente aberto a dúvidas, interpretações e histórias que talvez nunca ninguém entenda direito. Tipo em 70 cigarros, música sobre uma relação que vai terminando secretamente, gravada por ela com a cantora trans Moon Kenzo. Ou a balada hipnótica Seilásse. Ambas apontam para algo mais próximo das canções amorosas e existenciais de Jards Macalé (como Movimento dos barcos, escrita com Capinam) do que o modo como o amor é enxergado pela música pop. Um antirromantismo dos bons.
A atual onda de coaches motivacionais ganha sua zoação particular no afrobeat Desmotivacional, com participação de Russo Passapusso (BaianaSystem) – embora, na real, seja uma letra antirromântica em que trocadilhos com os meses do ano intercalam versos como “você chegou pedindo um beijo / saiu faltando abraço” e “nem agora, que é tarde demais, sei se quero / talvez ainda possa ser cedo pra viver, mas / nunca é tarde pra desistir de você”. Incertezas, lutas pessoais e vulnerabilidades aparecem em Anzol, MPB pós-punk com lembranças de Belchior nas linhas vocais, e versos como “eu sou feita de força e disfarce / eu perco tempo, peso, impulsão”.
Já Ânsia, com guitarras de Edgard Scandurra e Régis Damasceno, é quase como os Mutantes relidos por um filtro kraut rock – por acaso, é a melhor faixa do disco que pode ser definida como “rock”, tratando do estilo como um senha para a descoberta de novos ritmos. Essas experimentações dão a cara também de Motor de agonia, som com clima afropop, em que as linhas vocais desafiam o ritmo e vão criando outros ritmos na canção. Se a MPB de 2026 se parecer com Feixe de fogo, teremos três trimestres bem criativos pela frente.
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Crítica
Ouvimos: The Falls – “Would you do it all over again?” (EP)

RESENHA: Em Would you do it all over again?, o The Falls, de Manchester, mistura pós-punk, grunge e britpop, com ecos de Smiths, Buzzcocks e R.E.M.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Revo Pro
Lançamento: 18 de setembro de 2026
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Imagina você ser de Manchester e decidir dar à sua banda o nome The Falls, sendo que existe um quase-xará mais velho e mais conhecido (The Fall, claro)? O The Falls não se importou muito com isso, mesmo fazendo um som bem mais acessível e bem menos experimental – pelo menos no sentido anticomercial do termo. Bandas como Smiths e Buzzcocks batem ponto no som deles, e em todas as faixas do EP Would you do it all over again? surge uma espécie de elegância oitentista, mesmo sob guitarras pesadas e baixos distorcidos.
Segundo EP do quarteto, Would you do it all over again? traz um pós-punk que não dispensa referências ao grunge e ao britpop. Open fire abre o disco com guitarras sujas, vocal tranquilo e uma letra sobre ansiedade e culpa. The other side põe o baixo na frente e soa como um encontro improvável entre R.E.M. e Pearl Jam.
Loaded gun tem algo de punk sessentista, Buzzcocks e britpop, com baixo distorcido e uma letra sobre relações tóxicas. A inspiração veio de uma cena do filme Os infiltrados, de Martin Scorsese, em que o chefão vivido por Jack Nicholson: certas escolhas já carregam suas consequências. City lights começa com violão, ganha guitarras psicodélicas e aproxima Smiths, The Church e The Who, falando de identidade e mudanças. Já Blink encerra tudo com punk de acabamento oitentista e um vocal herdado de Michael Stipe. Um disco de ótimas referências combinadas, e que parece ter sido deixado gravado há anos.
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Crítica
Ouvimos: Niis – “Play Niis” (EP)

RESENHA: Em Play Niis, a banda punk de Los Angeles Niis mistura grunge, power pop e shoegaze, com ecos de Nirvana, Garbage e Placebo e letras sobre desilusões.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Rise
Lançamento: 23 de outubro de 2026
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Banda punk majoritariamente feminina de Los Angeles, o Niis pode ser definido como bubblegrunge (aquela mistura saudável de sons grudentos e de rock dos anos 1990, o que na real significa que Nevermind, disco do Nirvana de 1991, está sendo devidamente usado como modelo). O disco de estreia Niis world (2025, resenhado aqui) trazia uma banda herdeira tanto dos anos 1960 quanto de Dead Kennedys, com melodias bacanas e vocais berrados.
Play Niis, o EP novo, foca um pouco mais no “bubble” que no “grunge” – mas só em parte, porque bandas como Garbage e Placebo parecem terem servido de referência para as faixas do disco. Mimi Doe, a vocalista, grita menos que em Niis world, mas a promessa de um disco que trabalhe “no universo dos celulares flip, das lojas Hot Topic e de Buffy, a Caça-Vampiros” nem parece ter sido levada a ferro e fogo. Há um perfume shoegaze em faixas ruidosas e noventistas como Bad aim e a suingada e grungíssima Big fish baby. Earthquakes é movida por um riff de guitarra que atravessa praticamente toda a faixa, acompanhado por uma linha de baixo igualmente inquieta – tem cara de new wave porradeira.
O trio de encerramento poderia ter sido produzido por Butch Vig: a combinação de power pop e atitude de Take your mess, o barulho doce e sombrio de No flowers (lembrando um Babes in Toyland glam punk) o riff buzinado de Westside. Entre desilusões amorosas e pessoais, Mimi Doe passa boa parte do EP falando sobre estar meio perdida, mas ainda querer sentir alguma coisa. Nem que seja raiva.
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Crítica
Ouvimos: DJ Urutau – “Ornitofagia”

RESENHA: Em Ornitofagia, DJ Urutau mistura funk bruxaria, eletrônica e cantos de pássaros numa história de vingança das aves contra a destruição ambiental.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 28 de agosto de 2026
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Quem conhece o Antropoceno, projeto de metal-afoxé criado pela musicista Lua Viana, já sabe que ela gosta de misturar coisas que aparentemente não combinam – recentemente falamos do disco No ritmo da Terra. Sob o nome de DJ Urutau, ela troca as guitarras pesadas por batidões de funk, samples de pássaros e eletrônica distorcida. Ornitofagia, estreia do projeto, é um disco de funk bruxaria (estilo criado por ela) que dá vontade de dançar, mas que também conta uma história bastante peculiar.
O urutau, também chamado de mãe-da-lua, é uma ave noturna conhecida pelo canto fantasmagórico. Na história criada por Lua, as mudanças climáticas fazem o bicho perder a cabeça, devorar um bem-te-vi e absorver seus poderes. A partir daí, ele sai comendo outras aves, aprende tudo sobre elas e resolve se vingar dos humanos pela destruição ambiental. Tudo isso embalado por um funk que parece ter saído de um terreiro futurista.
MC Uirapuru abre o disco com o canto da ave transformado em vocal de funk, sobre uma batida que vai ficando mais pesada e distorcida. Conversión, cantada em espanhol, dá sequência à pancadaria eletrônica, enquanto Baile das calopsitas acelera tudo, usando os sons das aves como parte da percussão. Em Pólen, os pios se misturam a uma eletrônica mais psicodélica.
O disco segue nessa onda em Planeta aves e Olhos mágicos, esta última fazendo referência aos enormes olhos amarelos do urutau. Sabiá-feiticeira tem um funk quase ritualístico, com algo de música indígena, enquanto Garganta (Oferenda pra Tetê) usa um sample de Tetê Espíndola – escolha que faz bastante sentido num disco tão ligado aos sons dos pássaros.
Elixir encantador de urutau começa como uma explosão de ruídos eletrônicos, até encontrar uma batida mais definida. Já os quase sete minutos de Engoli um bem-te-vi (Na onda do El Niño) encerram tudo com declarações sobre o meio ambiente, distorções e guitarras que aproximam a DJ Urutau do Antropoceno.
Ornitofagia é um disco experimental com narrativa própria, peso e preocupação ambiental – e em vários momentos, ele mostra que a pista também protesta.
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