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Livros

A Luz de Aisha: livro infantil sobre filosofia africana está em crowdfunding

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A Luz de Aisha: livro infantil sobre filosofia africana está em crowdfunding

Marcando a chegada da editora Rebuliço ao mercado, o livro A luz de Aisha, das autoras Luana Rodrigues e Aza Njeri, com ilustrações de Gabriel Ben, conta a história de Aisha, uma garota negra que busca superar a dor a partir das histórias de seus ancestrais. A produção está sendo financiada por meio de um crowdfunding disponível na plataforma Catarse, que fica online até o dia 16 de outubro.

Luana é mestre em letras, professora e percussionista do grupo de samba Moça Prosa. Aza é professora doutora em Literaturas Africanas, e pós-doutora em Filosofia Africana. O livro é inspirado na filosofia kindezi, do povo bantu, que explica que cada pessoa nasce com um sol interno, e tem como uma da bases a frase “eu sou porque nós somos” – que diz respeito à não aceitação das desigualdades, ao ajudar o sol do outro a brilhar.

Na história, Aisha, que sofre a ausência de um familiar, aprende com sua avó Catarina que não podia deixar o seu Sol se apagar de forma alguma. Esse ensinamento deu forças à Aisha para colocar em prática um plano com o objetivo de trazer não só o seu sol de volta, mas também o sol de cada um de sua família..

No prefácio do livro, a artista e arte-educadora Veronica Bonfim ressalta que A luz de Aisha “assopra vida na população afrodescendente, cuja maioria das crianças não consegue chegar à adolescência, porque tem suas vidas, famílias e sonhos interrompidos por um genocídio negro em curso há séculos”.

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A proposta da Rebuliço, cuja diretoria é formada por quatro mulheres, é publicar obras que possam provocar questionamentos, reinventar atitudes, movimentar consciências em prol da empatia, da justiça social, do respeito às diferenças e da constante (re) construção das subjetividades.

>>> POP FANTASMA PRA OUVIR: Mixtape Pop Fantasma e Pop Fantasma Documento
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Cultura Pop

Anitta, música pop periférica, clipes e tretas em pesquisa acadêmica que virou livro

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Um livro que leva o termo treta em definitivo para a pesquisa acadêmica, e que discute a cultura pop da periferia, as viralizações, a importância dos clipes, do YouTube e da música divulgada digitalmente em geral, o poder de Anitta e de Kondzilla, entre vários outros temas. Música Pop-Periférica Brasileira: videoclipes, performances e tretas na cultura digital, livro de Simone Pereira de Sá (Ed. Appris), professora do departamento de Estudos Culturais de MídIa da Universidade Federal Fluminense (UFF), veio de pesquisas desenvolvidas há duas décadas, e que já passaram por temas como cultura pop, fãs, audiovisualidades digitais e até Carmen Miranda (tema de um outro livro dela, Baiana internacional: as mediações culturais de Carmen Miranda).

Simone Pereira de Sá – Foto: Tatyane Larrubia

Simone bateu um papo com a gente sobre o livro e sobre os temas de pesquisa de Música Pop-Periférica Brasileira. O livro pode ser comprado no site da editora, mas as vendas dos livros de Simone Pereira de Sá comprados diretamente com a autora terão a renda revertida para o projeto Mães da Favela, da Central Única de Favelas (CUFA). Só falar com ela em livromusicapopperiferica @ gmail.com.

Como surgiu a ideia de pesquisar a música pop periférica? Aliás, como foi trabalhar o tema numa época em que as noções de “periferia”, para a indústria cultural, estão completamente modificadas, já que antes havia quase um rótulo de “música da periferia”, “cultura da periferia”, que foi se perdendo com o tempo?

Primeiramente, é importante explicar o rótulo de música periférica. Pois, em nenhum momento, eu gostaria de “essencializar” esta noção de periferia ou de fazer uma oposição entre periferia e centros globais. Assim, quando uso a noção, é para me referir a gêneros que têm origem nas favelas e periferias das grandes cidades (como o funk, por exemplo). Mas, ao falar de “pop periférico”, quero enfatizar o movimento dessas músicas, que por meio da internet, saem de seus ambientes de origem e alcançam outros públicos, principalmente através dos videoclipes postados no YouTube.

Sobre a ideia da pesquisa… desde meu Doutorado na ECO/UFRJ, onde pesquisei sobre a trajetória da atriz e cantora Carmen Miranda, tenho interesse por pensar a música brasileira a partir de artistas com visibilidade “pop” e mainstream. Depois de Carmen, já como professora da UFF, testemunhei a reconfiguração do mercado musical a partir do ambiente digital e comecei a pesquisar o assunto. Portanto, esta temática – cultura digital e música brasileira – tem sido o foco de minhas pesquisas há duas décadas.

Anitta e sua obra ganham três capítulos no livro. Como foi levar a música feita por ela para o ambiente acadêmico?

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Com muito orgulho, faço parte da geração que trouxe estas temáticas da música, cultura pop, funk e outros temas afins para a Universidade. A gente vem apresentando a relevância de pensar o Brasil a partir destas expressões populares há bastante tempo. Acredito que a cultura pop é o coração onde se travam as principais batalhas políticas e estéticas da atualidade e por isso, acho importante que estes temas sejam discutidos na Universidade. Mas, tenho a sorte de ser docente no curso de Estudos de Mídia da Universidade Federal Fluminense e de seu Programa de Pós-Graduação em Comunicação, espaços pioneiros na abordagem destas questões.

Pesquisando os gêneros musicais que estudou para o livro, teve alguma descoberta nova que te deixou bastante espantada? Algum gênero superfamoso que você não havia conhecido ainda?

Sim, vários. Naquele momento que comecei a pesquisa, acompanhei a explosão do funk ostentação e “descobri” a cena paulistana formada em torno da Kondzilla por nomes como Mc Guimê e outros. Também tem a cena do brega recifense, a cena do funk em Minas Gerais, em especial em Juiz de Fora… Além disso, por volta de 2010, eu não conhecia nomes tais como Wesley Safadão; e passei a conhecer mais a fundo as artistas da cena do feminejo através da pesquisa.

O livro Eu não sou cachorro não, do Paulo César de Araújo, faz 20 anos ano que vem. Como você vê a mudança que ele provocou na noção de música “de bom gosto”, já que a música que a crítica gostava era sempre a que cabia numa definição mais cool de MPB?

Acho que o livro de Paulo Cesar é um marco na discussão, por duas razões. A primeira é insistir num fato óbvio, mas sempre esquecido, que é o de que a música verdadeiramente popular no Brasil – no sentido de admirada por diferentes segmentos socioeconômicos – é a música romântica e “brega”, e não a MPB, que circula no nicho mais restrito das camadas médias urbanas. O contexto ao qual ele se refere é o dos anos 70, mas essa afirmação pode ser estendida até os dias atuais e englobar a música que chamamos de pop-periférica.

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A segunda é demonstrar que artistas desse segmento “brega” também foram censurados pela ditadura militar nos anos 70, por tocarem em temas “tabu” tais como sexo, prostituição etc. – trazendo complexidade e nuances ao argumento dos críticos que acusam estes gêneros de alienação.

Como você vê o papel do Caetano Veloso nessa transformação da maneira de ver a música periférica, já que ele sempre foi um cara voltado para esse tipo de resgate, seja cantando Vicente Celestino, Odair José ou Peninha, ou participando de disco da Anitta?

Caetano Veloso é genial e é uma dádiva estar viva ao mesmo tempo que ele e ter a sua música como uma das trilhas mais poderosas da minha vida, que me acompanha desde a adolescência. E, em termos de abertura para outros gêneros musicais, ele nunca deixou de ser tropicalista – ou seja, nunca teve preconceitos com nenhum gênero musical e dialogou com múltiplas referências, o que é maravilhoso.

Porém, ainda que seja muito importante esta “curadoria” que Caetano faz das músicas periféricas, acho que ela tem limites em termos do público que alcança. Um exemplo é a participação dele no álbum de Anitta. Acho que ela é importante para dar visibilidade para a Anitta no segmento que Caetano circula. Mas, para a crítica que tem preconceito com o funk, só vale ouvir “a versão do Caetano”, mas não a fonte – que seria a Anitta. E em termos dos fãs de Anitta, infelizmente Caetano parece agregar pouco valor ao trabalho dela – haja visto, por exemplo, que o clipe com o Caetano é um dos menos vistos do álbum.

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Cultura Pop

Livro analisa Nick Hornby e descobre o que é uma tal de “vida pop”

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Capa do livro Vida pop: representações e reconhecimentos da cultura pop em ficções de Nick Hornby, de Thiago Pereira Alberto

Jornalista e doutor em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Thiago Pereira Alberto adoraria ter entrevistado o escritor inglês Nick Hornby, autor de livros como Alta fidelidade, para a dissertação de mestrado que deu origem ao livro Vida pop: representações e reconhecimentos da cultura pop em ficções de Nick Hornby (Ed. Appris). Não deu, até porque Hornby realmente é um tipinho difícil. Mas não foi preciso: estudando a obra dele, Thiago produziu um trabalho importantíssimo para quem escuta muito falar de “cultura pop” mas não tem uma compreensão 360 graus do assunto.

O pesquisador foi aos primórdios da produção pop em artes plásticas, revisitou temas importantes na música e na mídia, e tratou de investigar o que é que forma um tal “sujeito pop” (sujeito, no caso, a programas de TV, discos, artistas, novelas, séries, livros, reality shows). Além de investigar a tal vida pop do título – que é habitada intensamente por Hornby e seus personagens – e uma certa “popeza”, que envolve produtos, pessoas e fãs de pop.

Batemos um papo com Thiago, cujo livro é produto do Laboratório de Pesquisa em Culturas Urbanas e Tecnologias (LabCult),  grupo que reúne pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense. Você pode comprar o livro dele aqui.

Fala-se muito em cultura pop, mas é um termo que permanece como uma coisa que todo mundo “sabe” o que é, embora nem todo mundo saiba de verdade. Como você vê o fato de ter, no seu livro, conseguido fazer um mapa que explica a cultura pop para quem usa o termo, mas tem mais intuição do que conhecimento a respeito dele?

Acho que tem a ver com a escolha, no livro, de propor uma possível perspectiva histórica para o termo pop e em um segundo momento, modular este termo nas muitas possibilidades das visões sobre culturas contemporâneas. O que implica em pensar a ideia de pop com as subjetividades pós-coloniais, cosmopolitas, urbanas, digitais, em suas possibilidades estéticas e artísticas, etc.

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Pensando nessa leitura superampla, de certa maneira sugiro “ler” o pop menos como suas ‘causas’ (músicas, filmes, séries, etc.) e mais como seus “efeitos”; de que maneira nossa fruição ou consumo da cultura pop mapeia nossos modos de vida e nossas formas de “ver” e “ler” o mundo. A ideia de “sujeites pop”, que proponho no livro, a partir da representação destes em obras de Hornby, tem a ver com isso.

Sobre esse ótimo apontamento que você fez sobre “intuição x conhecimento”, putz, ele define o que talvez tenha sido minha interrogação inicial, a primeira “coceira” investigativa de minha pesquisa no mestrado (no qual o livro é baseado): afinal do que falamos quando falamos de pop? Não acredito que tenha conseguido responder a isso, mas talvez possa acreditar que contribuí com algumas possibilidades de percurso para essa questão…

>>> Apoia a gente aí: catarse.me/popfantasma

Qual a importância que Nick Hornby tem para você?

Pensando e assumindo meu lugar em determinados marcadores de classe, no sentido de ter acesso à autores como Hornby ainda muito jovem, penso que ele é um narrador importante de certos aspectos da vida contemporânea, e um ótimo romancista, dono de uma bibliografia que muito me agrada como leitor.

Pessoalmente, ele faz parte da minha formação como sujeito pop: Alta fidelidade, em especial, se posiciona na minha estante afetiva-subjetiva em um lugar próximo à MTV, ao baixo e à guitarra, ao desejo pelo jornalismo cultural, à descoberta de cenas musicais em Belo Horizonte, à fissura adolescente por descobrir novos discos e filmes, etc. Como aponto no livro, as representações de Hornby de uma vida pop e seus habitantes ecoaram em mim e em muitos dos meus próximos: reconhecemos seus personagens, enredos, dilemas, sua literatura, enfim, como parte de e em nós. O que entendo como um grande mérito do próprio fazer literário proposto por ele.

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Thiago Pereira Alberto, autor do livro Vida pop: representações e reconhecimentos da cultura pop em ficções de Nick Hornby

Thiago Pereira Alberto, autor do livro Vida Pop

Você agradece a seus pais no livro, pelo pop passado. Na sua geração, você acha que tem sido mais incomum a figura do cara mais velho que despreza o pop?

Acho que temos duas questões, que podem ser conjugadas, aí. Uma delas é o etarismo: a questão da idade, historicamente, é tomada também como um conclamo por “seriedade” ou a afirmação por coisas menos efêmeras; marcas que podem ser tomadas como típicas do pop, ou da fruição e do consumo a ele. E entendo o pop no livro não como uma etiqueta ou um gênero musical ou fílmico: trato como um conjunto de representações, manifestações, advindas da cultura popular e da mídia e que abarcam toda série de expressões. Dito isso, penso que, talvez desde os nascidos pós- 1960, uma parcela desse grupo etário envelheceu com seus afetos pop, sem grandes crises de consciência em relação a isso.

Penso aqui, por exemplo e de forma bem objetiva, em pais de família que colecionam autoramas de suas juventudes e seguem fruindo isso; mães que curtem novos artistas nos shows com seus filhos ou não, etc. Desconfio que há uma geração acima dos 50, 60, que carrega consigo suas vivências pop e continuam a fruí-las, hoje. O que é um signo potente da permanência e da força de uma cultura pop. Já esse desprezo pelo pop, se bem entendi, me parece algo relativo às “guerras de fãs”, por exemplo, o “velho roqueiro” olhando com desconfiança e desprezo ao pop e as produções musicais contemporâneas. Acho que pode existir aí performances de gosto, como também creio que esse tipo de coisa possa exibir um viés extremamente conservador e negativamente nostálgico nos dias de hoje…mas isso abriria uma outra discussão. (não sei se entendi e respondi bem a essa questão)

Qual foi o pop que você aprendeu com a sua família?

Sou filho dos anos 1980 e de pais jovens, o que significa que minha criação pessoal e memórias sobre ela se conjuga com discos de MPB ou do rock do período; sessões de cinema assistindo filmes nos quais meus pais pareciam tão ou mais interessados neles do que eu, etc. Eles eram consumidores de cultura pop e incentivadores do meu acesso a esta cultura; seguramente isso foi formativo para mim como sujeito, um baita de um privilégio, creio.

Como você lida com a figura do cara que usa pop como palavrão, aquela coisa do “não vou ouvir isso porque é muito pop”, “isso é pop, não é rock”?

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Particularmente, com muita preguiça e sem convicção alguma de que esse tipo de argumento vá me levar a algum lugar. Costumo dizer que me entendo, principalmente, como roqueiro, sim. Mas, definitivamente não ortodoxo. Sou filho do Queen (rs) minha banda-base, a primeira de todas e penso que a natureza híbrida e sem fronteiras de Mercury e cia pavimentaram muito da amplitude do meu gosto musical, dentro da ideia de música pop (o que inclui rock, rap soul, MPB, sertanejo etc etc etc).

Muitas vezes fala-se em novelas, Silvio Santos, Faustão, etc, como sendo exemplos de cultura pop nacional. Como você vê a “popeza”, digamos assim, desse tipo de atração?

O pop, assim como novelas, a TV, é também fruto do que poderíamos entender como um guarda-chuva mais amplo, que é a cultura popular midiática. E assim ambos se alimentam, se entendem, se transformam. Creio que esses ícones midiáticos, de grande apelo popular, podem se tornar exemplares de uma cultura pop através de uma recepção mais ou menos irônica, afetiva e…pop. De certa maneira, programas populares ou popularescos de TV, especialmente os mais antigos, frequentemente são alvo de um jogo que entendo como típico da cultura pop, que é elevar o kitsch (o chamado brega) ao status de algo relevantemente ‘presente’ em nossas vidas cotidianas e que portanto está ali, nos atravessa e pode ser assumido como parte de uma dimensão notável da cultura pop, mesmo que em sua “tosquice” e problemas mil de representação.

Como você vê a cultura pop – e em especial, a absorção de cultura pop – aqui no Brasil?

A noção histórica de cultura pop que debato no livro possuí ressonâncias de época no Brasil: desde os anos 1950, somos atingidos, traduzimos, fagocitamos e criamos a nossa cultura pop, com seus modos e marcas típicas, na música, no cinema, nas mídias em geral.

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Uma das questões que acho mais bonitas da questão pop na contemporaneidade, no caso da música, por exemplo, é aquilo que a pesquisadora Simone Pereira de Sá, minha orientadora querida, entende como “música pop periférica”, resultado (ou melhor, processo) de uma série de articulações que envolvem fundamentais marcadores de classe, raça, gênero, territorialidades e o contexto de produção e fruição da música pop na contemporaneidade, inevitavelmente atravessado pela ascensão dos circuitos locais e à margem das grandes gravadoras e o advento da cultura digital, com o barateamento de estúdios portáteis, troca de arquivos digitais pela Internet, etc.

Penso também no “consumo nerd” nas periferias, o que gera eventos sensacionais como o PerifaCon e rasgam de forma irreformável algumas concepções elitistas da fruição pop. Ou seja: pensar na cultura pop brasileira exige cada vez mais pensar em uma complexidade de fenômenos que, em suas particularidades e seus diálogos globais, encenam um cenário que entendo como muito rico e potente.

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Cultura Pop

Novo livro analisa o personagem Renato Russo

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Ainda há muito (e sempre haverá) o que escrever sobre Renato Russo. Ainda mais em 2021, nos 25 anos de sua morte, quando constata-se que letras como Que país é este, Será e Geração Coca-Cola não perderam a atualidade. Julliany Mucury, mestre e doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília (UnB), hoje morando em Berlim, foi fundo não apenas na análise da produção do líder da Legião Urbana, como também na observação de que o artista Renato Russo era uma entidade que foi criada por Renato Manfredini Jr, seu nome verdadeiro. Daí surgiu o livro Renato, o Russo, que sai em breve pela editora Garota FM Books (da escritora e biógrafa Chris Fuscaldo). E está em campanha de financiamento coletivo pela plataforma Catarse.

Renato, o Russo leva novas descobertas aos fãs da Legião Urbana. A principal: “Renato Russo” não era apenas um nome artístico, como Ringo Starr (Richard Starkey Jr), Fernanda Montenegro (Arlette Pinheiro Monteiro Torres) ou Tony Bennett (Anthony Benedetto). Era um personagem, com personalidade, modo de se vestir, de pensar e estilo de vida próprios. E que encobria e encorajava o tímido Renato Manfredini Jr. Mais uma descoberta: Renato, assim como David Bowie, fez do fim da vida uma obra de arte. O britânico fez isso no desnorteante Blackstar, o brasileiro o fez no desesperadamente triste A tempestade, último disco da Legião lançado com ele em vida. Mas o livro parte de uma pergunta: afinal, Renato Russo era um letrista ou um poeta?

Mesmo que o próprio Renato tenha falado em alto e bom som num show no Jockey Club, na Gávea (Rio) em 1990 que era letrista, e não poeta, o questionamento é muito válido: Renato era leitor compulsivo, era autor de versos bastante originais e compunha letras de uma erudição difícil de ser achada em música popular. Julliany estudou todo o material de Renato e fez leitura crítica de 29 letras escritas por ele. E prefere se referir a Renato como um cancionista, termo do músico e linguista Luiz Tatit que indica uma espécie de malabarista, que se equilibra entre letra e melodia.

Batemos um papo com Julliany e ela revelou o que foi possível revelar (não vamos estragar as surpresas!) sobre Renato, o Russo.

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Afinal, como surgiu essa discussão sobre se Renato Russo era poeta ou letrista? Foi numa mesa do CCBB de Brasília, como diz o livro, mas como se deu isso?

Bom, em primeiro lugar, a gente tem um problema técnico com esse nome “poeta”. Eu estudo literatura brasileira, daí você pega e vai trabalhar canção dentro da literatura brasileira.  Já quebra um certo padrão aí, né? E para a academia considerar a gente nomear um cancionista de poeta… É como se a gente estivesse invadindo fronteiras, sabe? Aquela coisa do espaço do sagrado. E eu achei uma provocação interessante nessa mesa, onde estava o Vladimir Carvalho, o Nicolas Behr – que é um poeta de Brasília – e a minha orientadora,  Sylvia Helena Cyntrão.

Nós captamos essa pergunta como uma provocação e aquilo me incomodou bastante. Legião Urbana divide as pessoas, tem quem ame e tem quem odeie. Muita gente nem considera uma banda, fala: ‘Pô, os caras não tocam nada!’.  E eu pensava: ‘Mas ninguém olha a letra? Mais de cem letras escritas com participação do Renato, mais de 29 letras escritas exclusivamente por ele. Vamos ver a densidade disso?’ Essa pergunta, eu quero responder de um jeito sério, quero analisar tudo, não vou dizer por dizer.

Muitas pessoas já afirmavam que ele é poeta, Arthur Dapieve, Carlos Marcelo. Não queria me fiar pelo que os biógrafos diziam, queria eu ter minhas certezas. Foi isso que minha tese me deu. O livro sai com 200 páginas, mas mais de 160 páginas da tese original foram limadas. Aproveitamos para o livro a parte em que eu realmente falo da pergunta. O Carlos Eduardo Lima (editor do site Célula Pop, historiador e jornalista) mexeu no livro comigo e ajudou a tirar o texto da rigidez acadêmica, tornou o texto algo maleável e gostoso de ler. Reconstituímos o cenário de Brasília na época, para quem não conhecia. O eixo Rio-São Paulo era muito diferente, os punks de São Paulo eram até muito mais punks que os de Brasília.

Eu terminei o texto muito convicta de que há sim qualidade estética no que o Renato produziu. Ele era muito sério e comprometido com a produção dele. Então por que chamamos Renato de cancionista? Cancionista é um termo do Luiz Tatit. E o Renato é um cara que, desde a melodia, até a melodia inserida na palavra, é uma letra de canção que você lê isoladamente e ela conta uma história. Tem uma densidade própria ali. Tanto que virou roteiro de filme. Já foi adaptado duas vezes pelo René Sampaio, teve o Faroeste caboclo e agora o Eduardo & Mônica.

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Julliany Mucury

O Renato até via essa coisa do poeta com certa humildade. No show do Jockey Clube, no Rio, ele chega a dizer que “algumas pessoas dizem que eu sou poeta”. Mas por outro lado, em entrevistas, ele dizia que não se considerava um bom letrista, que seu forte era encaixar a letra na música…

Eu acho que isso faz parte dessa construção de personagem, do personagem Renato Russo. Quando a gente coloca o Renato numa construção de panorama, ele negar por si só que é letrista… E quando ele faz o show do Jockey em homenagem ao Cazuza ele diferencia: “Ele é poeta, eu sou letrista”. Nas entrevistas, quando ele era provocado a respeito das letras, ele dizia: “Eu sou só letrista. Poesia eu escrevo mas tá guardada lá em casa”. Na exposição do Museu da Imagem e do Som, a gente viu que até soneto ele escreveu. O Renato tem muita coisa escrita e é um acervo que a gente ainda não teve acesso.

Quem gosta de Legião tem que começar com a biografia escrita pelo Carlos Marcelo, porque ele conta quem foi Renato Manfredini Junior. Quem foi o Junior, da Dona Carmen, aquele menino genial, que ficou paralisado na cama e escreveu o livro The 42nd street band, que depois foi publicado. As pessoas têm que ler em seguida para entender que o Renato traça uma banda imaginária, e que essa banda tem um vocalista chamado Eric Russell. O Eric Russell é o Renato Russo (enfatiza o “é”).

Fernando Pessoa que fazia isso, construía heterônomos, criava poetas reais que escreviam poemas. Renato Russo é quase um heterônomo do Renato Manfredini Jr. O Dapieve fala que o Renato inicialmente falava que era quatro anos mais velho, para parecer mais maduro e ser respeitado. Eles eram muito novinhos, o Renato compõe Faroeste caboclo com 19 anos. Imagina, o que a gente estava fazendo aos 19 anos? Ele dizia que estava compondo a Hurricane dele (canção do Bob Dylan). E ele senta e escreve uma letra daquelas, com aquela intensidade do João de Santo Cristo.

Tem muita coisa ali, não é só a história de um anti-herói que termina assassinado em praça pública. Ele conta toda a dor de uma nação envolvida ali. Isso depois ele estende para Perfeição, para Fábrica, para Que país é este. Ele sabia muito bem o que estava fazendo e tinha muito apuro quando escrevia. Mas não queria assumir, queria brincar com a fronteira das coisas. “Eu gosto de meninos e meninas”, “eu não sou poeta”. E onde é que está o Renato real nessa história toda?

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As pessoas parece que têm uma certa raiva da Legião, por serem uma banda que tem um esquema musical bem simples… E hoje há até uma certa pressa em decretar o fim do rock, que o rock acabou, etc. 

A raiva é justamente porque não conseguem ofuscar. E aí você tem que detonar. Agora imagina: uma banda de adolescentes em que eles convidam o Dado, que não sabia nem tocar. Eles eram punk rock, mas era punk rock de butique. Eles tinham acesso aos discos que vinham da Inglaterra, as bandas que os influenciaram, The Smiths. Essa galera que eles eram influenciados diretamente, o que eles não negam. O Legião Urbana V era o Pornography do The Cure, na cabeça do Renato. Era uma reimpressão de muita coisa que vinha de fora, mas isso era intencional. A Legião se lançou como uma anti-banda de rock. Negaram o lugar do palco, o Renato quase não fez show. Para o que o público desejava e a gravadora pretendia… O Renato não era um galã como Paulo Ricardo mas o grupo tinha vendagens de 500 mil cópias, um milhão de cópias.

E há o preconceito com o rock´n roll, porque as batidas dos três primeiros álbuns eram pesadas. Era lixão mesmo, era ruído, metal estridente, era para incomodar. Não era um som para você ligar e deixar de música de fundo na sua casa, no elevador. Eles eram uma banda que pretendia fazer isso. Mas não eram como os outros. O Clemente (Inocentes) comenta que quando a Legião vai para São Paulo, fala: “Cara, a gente não é punk, a gente não está nesse nível da galera”. Era coisa de gangue, era pesado.

Mas com essas altas vendagens, os poucos shows… O que você acha que atraía tanta gente para as letras do Renato?

A genialidade dele. Muitas letras são creditadas ele, Dado e Bonfá, mas ele trabalhava a letra, ia para o estúdio, eles trocavam coisas. Existia uma troca muito boa, eles trabalhavam bem juntos em estúdio. Só que o Renato não gostava de plateia. Enquanto Dado e Bonfá estavam nas piscinas dos hotéis, jogando futebol com a galera, o Renato estava ficando verde dentro do quarto. Renato teve um sério problema com drogas, era muito introvertido, introvertido mesmo. A questão da homossexualidade era algo muito difícil para ele. O Carlos Trilha (produtor) contou numa entrevista do canal Alta Fidelidade que o Renato cantava as pessoas, era muito tímido mas tinha necessidade de entrar em contato. Ele até falava que ser homossexual no Brasil dos anos 1980, com a aids e com todo o cenário que a gente tinha, era complexo, por causa do preconceito e da pouca informação. Se temos hoje ainda, imagina há quarenta anos.

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O Renato não gostava de shows, ele gostava muito de conversar com a plateia. E às vezes ele se excedia e o público tacava coisas no palco. Quantas vezes o Renato não deitou no chão, e fez o show com luzes apagadas? Ou cantou três, quatro cinco músicas e abandonou o palco? Até o momento em que ele falou: não quero mais, não vai rolar. De 1990 para a frente, os shows vão se escasseando e ficam para lugares como o Metropolitan, o Jockey Clube. Eram lugares que tinham uma estrutura maior, até o último show, que acontece em Santos (SP). Ele já estava debilitado fisicamente, vocalmente, já estava sob tratamento e pouquíssimas pessoas sabiam. Quem suspeitava de algo não falava nada. Ele não tinha mais condições, mas queria produzir.

É até essa tristeza que eu falo no livro. A mente e o espírito dele iam aonde o corpo não estava conseguindo mais. O disco A tempestade não é doloroso só por causa do conteúdo, do que ele está escrevendo, do que ele canta, mas é doloroso por causa de como ele canta. Para a gente, que conhece a potência vocal do Renato… Você percebe claramente que tem alguma coisa ali.

O Renato compunha para quem? Existia um tipo de fã de Legião, ou do trabalho dele, que surgia na mente dele na hora de compor?

Ele compunha a partir dele mesmo.  Mas ele tinha uma visão muito cosmopolita. A minha experiência com Renato Russo, no meu lugar de feminino hetero, fez sentido para mim. O que o Renato acessa é esse lugar nosso, do sujeito humano. As dores são nossas.  Os sofrimentos são nossos. Em discos como V e Descobrimento do Brasil, em que ele já está migrando para uma análise da existência, ele fala muito da dor de existir, dos relacionamentos amorosos. Ele fala disso com muita delicadeza, não é uma música de dor de cotovelo rasgada e caipira. Mas é uma música que fala sobre como seguir adiante, sobre como se levantar, sempre esperançoso, sempre olhando para a frente, como no verso “mas é claro que o sol vai brilhar amanhã”.

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Ele tem essas repetições, usa textos bíblicos, Camões, sabia trabalhar o inconsciente coletivo. Era um cara muito antenado, não só no tempo dele, porque quando ele escreve Que país é este é uma canção imortal. Quando a gente escuta Perfeição, aquela ironia, aquele sarcasmo, a gente sabe que aquilo é nosso. Ele acessa esse lugar de antena da raça. Ele, Cazuza, Freddie Mercury, Raul Seixas… Um grupo de artistas que estava à frente daquilo. Fico imaginando eles coexistindo com as pessoas da geração deles, eles à frente de todo mundo. O que será que se passava dentro dessas mentes? Qual o sentimento de mundo que eles tinham? A Nina Simone fala no documentário dela, o What happened, Mrs. Simone: “Um artista tem que falar do seu tempo”. A genialidade do Renato mora na percepção que ele teve ao compor as letras.

Eu nunca tinha percebido que o Renato Russo fez da morte dele uma obra de arte, meio como David Bowie fez em Blackstar. Como foi para você perceber isso?

Eu chamo isso no livro de arquitetônica da despedida. Ele sabia. Ele já não conseguia ir para o estúdio. O Dado produziu o Tempestade sozinho, o Trilha entrou para salvar a pátria, porque o Renato fazia um take e acabou.  Mas o que tinha dentro desse sujeito, a percepção, o entendimento da finitude… Eu acho ainda mais grandioso. O Tempestade anuncia uma ruptura, ele é lançado e logo depois o Renato morre. Depois vem o Uma outra estação, que é um disco que as pessoas acham até melhor, mas que é um mix de um monte de coisas que o Renato rejeitou.

O Uma outra estação, apesar de ter Clarisse, que é bem depressiva, é um disco bem mais alegre, por sinal.

Por aí você vê que ele sabia o que ele estava fazendo, porque o que ele vetou não entrou no A tempestade. Ele queria uma carta de despedida. Ele queria um conjunto de letras que dissessem aquela mensagem. Ele pensou em tudo. E outra: ele terminar a vida recluso, fechado no apartamento, com o pai. Uma das raras cenas que descrevem o estado físico do Renato nessa época está na biografia do Dado Villa-Lobos (Apenas um legionário, escrita ao lado de Felipe Demier e Romulo Mattos), quando o Dado conta a chegada dele no apartamento do Renato. Ele fala: “Meu deus, o Renato era um fiapo!”. A gente não viu isso, o Renato foi cremado, está no jardim do sítio do Burle Marx e acabou. Eu acho bem interessante isso de você pensar numa despedida, num legado.

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No programa do Serginho Groisman ele até falou: “Gente, eu não sou um messias”, “eu não quero educar vocês!”. Mas ele parava o show para pregar para os jovens. Ele sabia que ele tinha um apelo muito grande para a juventude. Imagina, uma juventude saindo da ditadura militar, carente de referências positivas e heroicas… Se você for pegar todas as bandas, quem que fazia pregações nos shows? Renato Russo.

Lá fora, nas páginas da Wikipedia dedicadas a artistas, costumeiramente há um item inteiro só para falar dos legados deles, do que eles deixam para a arte, para nomes novos. É algo que não se faz muito aqui no Brasil, nas páginas de artistas nacionais. Como você vê o legado do Renato? O que ele deixou para novos artistas?

(nota: a página de Renato na Wikipedia não tem este item)

Eu gosto muito de uma fala do Dinho, do Capital Inicial, quando perguntam para ele, numa das homenagens dos 20 anos da morte do Renato, sobre o que foi o legado do Renato. E ele fala: “Cara, todo mundo olhava pro Renato”. Todo mundo daquela geração olhava para o Renato, ele era diferente de tudo que estava acontecendo. Não era igual a Paralamas do Sucesso, não era igual a Capital Inicial, nem a Biquíni Cavadão.

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Nem quando começam a surgir as outras bandas, como Racionais MCs, Raimundos… O Renato permanecia naquele lugar de dândi, carregava um certo mistério. Quando ele ia se apresentar e começava aquela dancinha Morrissey, completamente maluca e catártica. Era aquilo, ele era muito errático porque  não tinha compromisso com posar em nada. As falas dele saíam do jeito que saíam e era puro Renato Russo. Quando ele estava à vontade afinava a voz, quando queria vestir o personagem era outra entonação. E aí você vai percebendo essas nuances do Renato.

O grande legado dele foi a consciência artística, eu acho. Ele teve isso acima de muitos outros. Também a noção de mercado que o Renato tinha, que era enorme. Os álbuns da Legião continuaram sendo produzidos com uma demanda de fábrica. Os três primeiros eram com material que eles já tinham. A partir do quarto eles precisavam produzir coisas. Ele tá passando no estúdio, o pessoal do 14 Bis tá fazendo uma música, ele gosta da melodia e põe uma letra. Ele faz a mesma coisa com a Marisa Monte, em Soul parsifal, que vira Celeste. É a experiência de viver seu tempo, contar seu tempo do jeito que ele contou. E depois conduzir sua carreira até o fim do jeito que você quer fazer. Isso para mim é o maior legado do Renato. E ele conseguiu. Ele se negava a fazer coisas. E o estúdio negava coisas a ele, ele queria álbuns duplos para o Dois e o A tempestade e não conseguiu.

Como você foi reunindo as letras que analisa no livro?

Peguei todas que estão nos encartes e mais algumas que são inéditas. E algumas que não foram musicadas. Falo dela na análise mas não analiso junto com as 29 que analisei. Fui descobrindo que o Paraná (Kadu Lambach, guitarrista da Legião durante curto período antes da fama do grupo) tinha duas letras e musicou as duas, e que uma banda, Urban Legion, estava musicando outras duas letras do Renato. Do quarto disco em diante as letras começam a ser todas divididas entre Dado, Bonfá e Renato. Até que ponto isso foi estendido para todos terem direitos autorais?

As letras eram divididas também?

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Eles trabalhavam juntos, o Renato declarou isso muitas vezes. Por mais que ele escrevesse as letras, sugeria-se alguma coisa aqui e outra ali. Chegar nas 29 foi muito tranquilo, foi só pegar o encarte. Não deixei nada de fora. Peguei o Música para acampamentos porque tem o Canção do senhor da guerra. E aí começam as surpresinhas. Se o Uma outra estação não tivesse sido feito pelo Trilha, não teríamos acesso a Dado viciado, Marcianos invadem a Terra, a Marianne – que tem Marianne 2. As canções feitas sozinho pelo Renato perfazem uma história: Geração Coca-Cola, Faroeste caboclo, Fábrica, Índios, Que país é este. Se você pensa nos maiores hits da Legião, tava tudo nele. O segredo do negócio estava nele. Dado e Bonfá não negam isso. Tanto que eles falam que a banda acabou depois disso.

Eu lembro que quando Renato morreu, uma rádio bem popular aqui do Rio levou ao ar um especial da Legião com as músicas do A tempestade, intercaladas com mensagens dos ouvintes que eram fãs da banda. Alguns estavam chorando e pedindo para o Dado e o Bonfá não acabarem com a banda, para continuar mesmo sem o Renato. Isso apareceu no rádio! Aí acaba entrando naquela seara em que as pessoas querem escutar aquele repertório, de que ele faz muita falta…

Vou além: lembro que aquele especial da MTV com Wagner Moura foi doloroso de assistir. O Wagner estava lá como cantor amador, topou fazer aquilo, mas a plateia cantou do começo ao fim. E no fim, Será, é cantada pela plateia, com Wagner deitado no chão chorando. Acontecem coisas incríveis, existe um legado incrível nas pessoas que gostam de Legião Urbana, que é como se não precisasse do Renato. Quando Dado e Bonfá se reúnem, existe uma coisa que é tão poderosa, é uma presença-ausência tão presente ainda para eles, que eles fazem com que faça sentido.

Então tá lá, teve o André Frateschi conduzindo com eles, teve a turnê dos 30 anos… Foi um processo complicado para o Dado e o Bonfá realizarem aquilo também. E o Dado fala: a gente gostaria de estar tocando. Quem não gostaria? São as músicas que eles fizeram!

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O Nasi, do Ira!, uma vez falou numa entrevista que banda não é como álbum de família, com aquelas pessoas insubstituíveis…

E a ideia original do Renato era que o nome fosse Legião Urbana porque os músicos seriam rotativos. E aí entra nessa discussão que estamos levando agora. Um outro problema é que o Brasil não tem memória, tá aí o que vem acontedcendo com nossos prédios, nossos centros históricos… Por que se escreve ainda sobre Renato? É importante, é a história de um cara que ainda ecoa.

Qual a maior surpresa que seu livro traz para o fã de Legião?

Ah, nem sei se devo revelar (rindo), mas o maior gatilho é a descoberta dessa personagente, de como o Renato Russo se distancia do Renato Manfredini. Eu faço essa dicotomia, entre Renato e Russo. Mas e você, qual surpresa viu no livro? (me perguntando)

Bom, acho que essa semelhança entre a morte dele e a do David Bowie, e o fato de “Renato Russo” não ser apenas um nome artístico, ser um personagem mesmo.

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É verdade. Mas se você for ver, de acordo com a (professora) Eliana Yunes, todos nós somos isso. Existe as pessoas que somos e as que criamos. Se entra um novo indivíduo numa conversa, não é mais a gente que está ali.  A gente é a partir da interação com aquele indivíduo, conforme o estatuto social que temos nessa relação. Se é seu marido, sua mulher, seu marido, seu filho, e você institui personas, as máscaras que usamos. Quantas versões suas ou minhas? É infinito.

Agora quanto mais você adentra a história do Renato, mais percebe um sujeito extremamente carente. O barato dele era ligar para as pessoas de madrugada, ele era noturno. E aí vários amigos declararam isso ao longo do tempo, ele passava três quatro, horas conversando com as pessoas. Então você imagina o que era receber uma ligação dele para trocar ideias. Várias ideias nasceram dali.  Nasceram coisas com o Trilha, o disco em inglês, em italiano. Renato deixou uma ópera, uma peça de teatro. Ele queria fazer roteiro de filme, tinha várias ambições para a própria vida. Ele não queria ser só um rockstar, queria mais.

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