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Crítica

Ouvimos: Paul McCartney – “The boys of Dungeon Lane”

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Resenha: Paul McCartney – “The boys of Dungeon Lane”

RESENHA: Paul McCartney revisita Liverpool e sua juventude em The boys of Dungeon Lane, disco nostálgico, político e musicalmente variado sobre amizade, pobreza e memória.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Capitol / MPL / Universal
Lançamento: 29 de maio de 2026

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“O amor das músicas da Jovem Guarda é um amor puro, inocente. Sabe? Uma ingenuidade que você só encontra numa criança ou num cachorro”, contou para mim certa vez ninguém menos que Erasmo Carlos – um cara cuja parceria com Roberto Carlos só não é o equivalente em termos de arquitetura pop à de John Lennon e Paul McCartney por uma questão de alcance (ficou restrita ao Brasil) e tempo de duração (resistiu ao fim dos anos 1960 e a pelo menos mais quatro décadas).

O novo disco de Paul McCartney, The boys of Dungeon Lane, vem igualmente carregado desse tipo de ingenuidade – como na verdade, rolou em toda a carreira dele desde os Beatles. A acidez de John Lennon era contrabalançada pelo design quase de história em quadrinhos de Paul. Que por sua vez, representa um universo em que, como nas tiras do Snoopy, você vê quase sempre todo tipo de assunto descrito em sentimentos, imagens e visões fantásticas, em clima de hino ou canção tradicional. Rola até mesmo na adrenalina sonora da pesada Helter skelter, como rola em hits da estirpe de My brave face e Maybe I’m amazed.

The boys of Dungeon Lane (o nome vem de rua/trilha da região de Speke, em Liverpool, onde Paul cresceu) une praticamente todos os estilos que já apareceram na história do cantor – e é um daqueles momentos preciosos onde um artista usa sua própria história para contar a história de um país ou de uma região. Falando basicamente de sua juventude pré-Beatles, Paul usa seu passado para falar de amor, união, amizade, aventuras. Mas também fala de pobreza, luta para pagar o aluguel, desigualdade, gentrificação, destruição da paisagem urbana.

Todos esses temas surgem das letras de The boys, às vezes vistos por uma criança – como na balada agridoce Momma gets by, uma música de amor na qual o narrador fala de uma mulher que dá duro enquanto o marido “fica doidão” e vai pra casa só para se jogar na cama. Salesman saint, usando a memória dos vendedores de porta em porta de Liverpool (e a história de seu próprio pai, vendedor de algodão), fala da classe trabalhadora local nos anos 1940 com doçura e algum amargor: “trabalhando a cada minuto dado por deus / para ganhar o suficiente para pagar o aluguel / a guerra estava quase no fim / a paz logo começaria (…) / eles não aguentavam mais, mas tinham que seguir em frente”.

Como acontecia nos discos clássicos da Paul, a música de The boys é repleta de segmentos, de passagens musicais que ajudam a contar uma história. A abertura, com As you lie there, é uma balada clássica sobre os amores da adolescência – que logo ganha peso e clima entre Queen e ELO. Lost horizon, que parece a sequência rock’n roll da faixa anterior, traz a lembrança de sons e imagens perdidas, com uma mensagem para “viver pelo agora e fazer cada momento contar”. Esse contar de tempos e de horas é um assunto recorrente, assim como a certeza de que, de certo na vida, só a mudança: Days we left behind, a balada acústica lançada como single, poderia ser só uma canção nostálgica, mas encerra afirmando que “nada permanece igual / ninguém precisa chorar / nada pode recuperar / os dias que deixamos para trás”.

We two, cuja bateria, tocada por Paul, lembra a de Ringo Starr, soa como uma lembrança da parceria dele com John Lennon – com alguns compassos de experimentalismo no fim. E curiosamente tem muito de George Harrison em Ripples in a pond, um cruzamento da música dos Beatles com o college rock oitentista. Ecos de Fixing a hole e When I’m 64, por sua vez, surgem na psicodelia amorosa de Mountain top e na gratidão realista de Life can be hard, música de nostalgia e esperança. Já Home to us, a música gravada com Ringo dividindo os vocais – além dos backing vocals de Chrissie Hynde (Pretenders) e Sharlene Spiteri (Texas) – soa hoje, diante do cardápio de The boys of Dungeon Lane, como um aperitivo musical lançado como single.

A letra já adiantava que Paul, no álbum, olharia para sua infância e adolescência não apenas com ternura, mas com solidariedade: aquela Inglaterra dos anos 1940 e 1950 sofria bastante. Versos como “não havia tempo para reclamar porque era tudo o que conhecíamos / o mundo ao nosso redor não era seguro, o lugar estava caindo aos pedaços / mas era a minha cidade natal / e era o nosso lar” e “a madame na colina estava bebendo conhaque / comendo caviar, a anfitriã perfeita / minha mãe estava na cozinha lavando a louça na pia / e então queimou a torrada” dão conta disso.

Paul também parece fazer uma homenagem aos Rolling Stones com o rock ganchudo da ótima Come inside – que soa como Back in the U.S.S.R. com design sonoro avançado, mas ganha um “do do do do”, que é a cara de Mick Jagger e cia. E faz lembrar o som aconchegante de seus primeiros discos na balada First star of the night. No fim, The boys of Dungeon Lane, mais do que um disco para ser ouvido, é um disco para fazer pensar nos dias que todos nós deixamos pra trás.

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Ouvimos: Nigéria Futebol Clube – “Ambiente jazz”

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Resenha: Nigéria Futebol Clube - “Ambiente jazz”

RESENHA: Em Ambiente jazz, o Nigéria Futebol Clube reúne mais de 30 colaboradores para misturar ambient, jazz, pós-punk e gravações de rua num retrato de São Paulo, entre trabalho precário e criação artística.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Estúdio Sem Piscina / Casa Líquida
Lançamento: 25 de setembro de 2026

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Se você der de cara com as três horas de duração de Ambiente jazz, novo álbum do Nigéria Futebol Clube, vai acabar achando que se trata de um álbum bem mais selvagem que os dois discos lançados por eles ano passado: Entre quatro paredes, de estúdio, e Hamas, ao vivo (leia sobre ambos aqui). Nem tanto: Ambiente jazz é, de fato, um disco de ambient – mas do jeito deles. O lado mais noisy que a banda tinha nos dois álbuns volta a serviço de uma trilha sonora do dia a dia em São Paulo, em que aspirações artísticas unem-se a problemas da classe trabalhadora. Como conciliar a vida de artista e a vida de trabalhador, de ônibus em ônibus, tentando arrumar tempo pra criar?

Raphael Conceição, Rodrigo Silva, Eduardo Rocha e Derick Barbosa, os integrantes do Nigéria Futebol Clube, se juntaram a mais de trinta colaboradores para fazer o disco – enquanto se dividiam em seus empregos e rotinas diárias. Nomes como Grisa, Voyeur, Velório Clandestino, Melifona e Dinho Almeida vão se dividindo entre as faixas, que têm durações beeeeem extensas, e parecem seguir o ritmo de viagens entre bairros distantes. Ambiência vol.II – Do Manoel Feio até a Vila Madalena, com quase trinta minutos, e Ambiência vol.III – A sensação de ver o sol nascendo na estação do Brás depois de virar a noite nas ruas, com 20:58, abrem começando de onde Entre quatro paredes parou, oferecendo jazz slacker, fitas voltando, drones, e às vezes, uma vibe de progressivo sombrio.

Ambiência vol.IV – Ritmo circadiano de uma caixa preta e Ambiência vol.V – Abaixo do nível das ruas: O encontro dos devedores vão na onda da pura hipnose sonora, com metais, ruídos de passos, e algo que fica entre Milagre dos peixes, de Milton Nascimento (1973) e um Som Imaginário do demo. Metais, corais e gravações de campo (“já fui de faxineira a pegadora de lixo”), além de trechos de telejornais falando de aterros sanitários e cortiços verticais, são usados quase como teasers.

Há algo que vem aí, e que dá as caras de verdade em Ambiência vol.VI – Pedras preciosas & joias raras™ e Ambiência vol.VII – Dylan Raider. A primeira vai do progressivo a uma mescla do Tema dos deuses, de Milton e Som Imaginário, com a vibe cerimonial do Joy Division – a segunda é uma extensa conversa telefônica sobre vida de pai, diversão, skate, moda e como a elite trata a classe trabalhadora e as pessoas pretas. Ambiência vol.VIII – Motel Paris tem no wave, jazz, MPB anos 1970 e soa como uma cena de rua musicada, em que conversas sobre trabalho e tecnologia vão aparecendo aos poucos. Com quase oito minutos, soa como uma vinheta inserida num disco repleto de faixas bem extensas.

No trio final, Ambiência vol.IX – Araxá/Shuí vai do slowcore ao pós-punk noturno e cerimonial, com ruídos percussivos e sons viajantes que lembram um Tangerine Dream xamânico. Ambiência vol.X – Lâmpada amarela viaja dos pianos clássicos à psicodelia folk, com violões e sons ao contrário. No encerramento, a repetição krautrock toma conta de Ambiência vol.XI – Marguerita, com um tema que vai se repetindo, e que cresce ganhando corais, conversas de estúdio, trocas de mensagens entre os participantes. Lá pelas tantas, as aspirações de uma turma bem numerosa ganham lugar em forma de palavras: “a fé no homens, que matam pra ter, transam pra ser e morrem pra esquecer”. Ambient jazz encerra lembrando o início de uma nova estação.

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Ouvimos: Cara Delevingne – “Not normal”

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Resenha: Cara Delevingne – “Not normal”

RESENHA: No álbum de estreia, Not normal, Cara Delevingne mistura glitches, psicodelia, dream pop e eletrônica para revisitar drogas, fama, relacionamentos e sobriedade. Um disco perturbador, entre boas ideias e excessos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Warner
Lançamento: 25 de setembro de 2026

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Gente muito privilegiada e nepobabies de modo geral que decidem cantar causam, sim, muita antipatia. Bom, a modelo e atriz britânica Cara Delevingne sempre foi as duas coisas (a mãe, Pandora Stevens, foi modelo e o pai é um incorporador imobiliário, invariavelmente descrito como “um homem da alta sociedade”) e, após vários anos chamando a atenção como it girl, é praticamente uma nepo de si própria.

Not normal, seu primeiro álbum, nem sequer é sua primeira investida na música. Aos 16 anos, ela gravou o equivalente a dois álbuns inteiros, com Simon Fuller (Spice Girls) no comando, mas bateu de frente com o empresário, desistiu da aventura e os discos nunca foram lançados. Cara também já fez teatro musical e backing vocal para artistas. Dessa vez, o mote é o caminho autoral e de cura que sua música seguiu após abandonar os excessos e se manter sóbria, nos últimos três anos.

Ela começou a escrever sobre o que passava em sua mente e seu coração, e esse material foi se transformando em canções – completadas com a ajuda de parceiros como BJ Burton, que produziu discos de Bon Iver e Charli XCX, e cuidou das gravações de Not normal. Agora, vale dizer que canções, da forma mais estrita, não é o nome mais clínico para se dar ao material de Not normal, disco no qual Cara começa até dando uma de Billie Eilish, com a bossa sombria de Lights up. Daí para a frente, somos apresentados a um pop dissociativo, vertiginoso, cheio de glitches, efeitos e ondas que lembram betoneiras sonoras.

I forgot, música que fala sobre a vida pós-pé na jaca, refere-se a drogas para dormir, acordar, viver, embicando num clima cada vez mais perturbador, como se o “acordar” fosse bem mais distópico a cada dia. Rajadas sonoras e imersões lisérgicas surgem no estranho pop alt-chique de Out of my head – um clima que volta também na ressaca amorosa de The mask e no hit Crazy, baby, um curioso pop-rock com cara de anos 2000, mas clima alternativo e psicodélico.

Essa onda “mágica” e fragmentada, como se cada faixa fosse uma dose diferente de ácido ou ketamina, tem lados legais e outros nem tanto – o pop sub-Laurie Anderson da faixa-título, em que vocais transformam-se em beats, e a continuação Need it, parecem mais com aquelas coleções de moda que são super inovadoras, mas não têm a menor praticidade no dia a dia, nem que você queira parecer “diferente”. O equilíbrio é alcançado em faixas dançantes e grandiloquentes como What love is like e Tip of my tongue, e no dream pop de Slow down.

Em letra e música, Not normal soa como um retrato da mente de Cara, e de tudo que ela viveu até hoje: a louca vida do mundo das modelos, as concessões, os amores, a drogas recreativas e os estupefacientes usados em prol do trabalho, seja para não dormir, ou para emagrecer. Uma realidade que pertence mais ao mundo das celebridades, mas que funciona como complemento ao ideário “musicoterapêutico” de muita coisa do pop atual. E ainda dá umas perturbadas, mesmo nos momentos em que não funciona lá muito bem.

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Ouvimos: Bayside Kings – “Atlas”

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Resenha: Bayside Kings - "Atlas"

RESENHA: Em Atlas, o Bayside Kings mistura hardcore, metal e groove para falar de conflitos pessoais, frustrações e resistência, com críticas à escala 6×1, à violência e à cultura das armas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Deck
Lançamento: 28 de agosto de 2026

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Cada um sabe de si e do peso que carrega na vida. A banda santista de hardcore Bayside Kings faz de seu novo álbum, Atlas – que marca a estreia na Deck – um manifesto pessoal sobre carregar o peso do mundo. Mas sem que a coisa descambe pro mais puro ressentimento, mesmo porque basicamente é um disco sobre dias de luta (em especial, aqueles dias em que a glória parece bem distante).

Com poucos metros de distância criados entre o hardcore e o metal, o Bayside Kings aumenta o tom para falar que “entre o amor e ódio existe algo mais profundo” (Só eu sei e mais ninguém) e para lembrar de incomprensões entre amigos e pessoas queridas (Atlas), de gente que torce contra (Daqui pra frente) e daqueles momentos em que tudo que dava algum alívio simplesmente sumiu (D3cod1fic4r, Conflitos).

Tem politica (como a a gente lê nos jornais) no som do Bayside Kings, e bastante. Rola na porradaria da autoexplicativa Rotina 6×1, no discurso anti-violência e anti-armamento de Jogos mortais, na porrada hardcore de Vítima da realidade, e no aviso direto de Olho por olho (“quem vai pagar essa conta é você”). O som ganha algum groove e contornos funk-punk-metal em faixas como Corrida de ratos e Sem direção.

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