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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre Tango In The Night, do Fleetwood Mac

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Várias coisas que você já sabia sobre Tango In The Night, do Fleetwood Mac

O Fleetwood Mac nunca foi das bandas mais estáveis do mundo. Era uma banda de blues que foi gradativamente se aproximando do pop, e que mudava de integrantes (e de liderança) a cada disco. Enfim, a banda trocou até de país – começou na Inglaterra, acabou nos EUA. Mas na época que antecedia seu 14º disco, Tango in the night (1987), andava tudo realmente estranho.

Para começar, o disco anterior do FM, Mirage, havia saído em 1982, e os integrantes embarcaram em carreiras solo, algumas mais, outras menos vitoriosas. Lindsey Buckingham (voz, guitarra), que vinha de um hit solo de 1981, Trouble, conseguiu seu lugar ao sol com o single e o disco Go insane (1984). Christine McVie (voz, teclados) e Mick Fleetwood (bateria) gravaram álbuns sem a banda – a primeira com repercussão, o segundo sem nenhuma. John McVie (baixo) ficou na dele. Já Stevie Nicks (voz), que gravava sozinha desde 1981, fez bastante sucesso solo. Inclusive conseguiu êxito o suficiente para ficar em dúvida sobre se valia a pena voltar com a banda.

Não havia nada indicando que o Fleetwood iria voltar, já que os integrantes pareciam felizes separados. Mas não tinha havido uma entrevista sequer da banda falando que os serviços do grupo estavam encerrados e que daí para a frente os fãs que se virassem para acompanhar cinco carreiras solo.

A volta, com Tango in the night, era a verdadeira adaptação do Fleetwood Mac à sonoridade e ao método de trabalho que vigoraram nos anos 1980. Ou seja: programações eletrônicas, vocais modificados com samples, experimentações de estúdio para deixar canções com mais cara de “rádio”, tons latinescos e novelescos para brigar nas paradas com artistas como Madonna (La isla bonita fez sucesso, não?) e derreter os corações das Américas.

Várias coisas que você já sabia sobre Tango In The Night, do Fleetwood Mac

Nos últimos dias, por causa de um viral do tiktok, Dreams, clássico do FM lançado no poderosíssimo disco Rumous (1977), voltou a virar hit – o que levou álbum a retornar ao Top 200 da Billboard. Como já tem um monte de gente recordando os tempos confusos de Rumours – disco marcado pelos divórcios dos dois casais da banda, e por trocas de farpas em letras de músicas – decidimos dar um salto no tempo e lembrar o segundo disco mais vendido do Fleetwood Mac. O álbum que fez a banda experimentar sucesso de verdade no mundo maravilhoso da MTV, graças aos clipes de Seven wonders, Big love, Everywhere, Isn’t it midnight e Little lies.

Tá aí nosso relatório sobre Tango in the night. Leia ouvindo o disco.

HIATO. Os fãs do Fleetwood Mac estavam acostumados a pausas entre um disco e outro – inclusive, com os dois casais da banda separados e integrantes com os pés afundados na jaca das drogas, só dando um tempo. Após Rumours (1977), a banda lançou o estranho disco duplo experimental Tusk (1979), considerado um fracasso pela Warner, gravadora deles. Em 1980, saiu o duplo ao vivo Live. 1982 foi o ano de Mirage. Mas, se bobear, muitos fãs-de-ocasião acharam que a banda sumiu do mapa depois do mega bem sucedido Rumours.

MAS QUE CASAIS? Se você não sabe, durante Rumours houve a separação dos casais Stevie Nicks e Lindsey Buckingham, e Christine McVie e John McVie.

SUCESSO E CASAMENTO RÁPIDOS. Stevie Nicks tinha sido a integrante do Fleetwood Mac a voar mais longe como solista. Gravara dois discos muito bem sucedidos – antes mesmo do hiato pós-Mirage, ela já batera recordes com Bella Donna, de 1981. Em 1986, dividiu palcos com Bob Dylan e Tom Petty & The Heartbreakers. Mas a vida pessoal não andava legal. Em 1981, ela tivera a péssima decisão de casar com o viúvo de sua melhor amiga Robin Anderson, que morrera de leucemia após ter tido um filho. Aliás, fez isso porque “achava que ela gostaria que cuidássemos do bebê”. O casamento durou três meses.

VIDA LOUCA. As drogas vinham causando problemas à banda, especialmente a dois integrantes: Stevie Nicks e o baixista John McVie. John tinha problemas com álcool o suficiente para ter uma séria convulsão em 1987. Em 1986, Stevie foi alertada por um cirurgião plástico de que teria problemas sérios no nariz por causa do abuso de cocaína, e que poderia ficar sem voz. Em seguida, internou-se na clínica Betty Ford, procurada por dez entre dez popstars em reabilitação, e largou a droga. No entanto, Nicks continuou bebendo e acabou viciada, ironicamente, na droga que ela tomava para se livrar da cocaína (Klonopin).

POR SINAL, uma das músicas de Tango in the night, Welcome to the room… Sara, escrita por Stevie, foi inspirada em sua estadia na clínica Betty Ford. “Sara Anderson” era o pseudônimo que ela usava ao se internar.

SOM ELETRÔNICO. O começo dos anos 1980, você deve se lembrar ou saber, foi a glória para os fãs de sintetizadores e sons eletrônicos, que dominavam as paradas. O Fleetwood Mac passou de sapato alto sobre isso em Mirage. Mas Lindsey ficou meio obcecado pelo assunto em Go insane, seu disco de 1984, no qual ele tocava todos os instrumentos e substituía as batidas orgânicas pela afamada LinnDrum, que já aparecia em dez entre dez sucessos pop. Foi o pontapé inicial para muita coisa que aconteceria em Tango in the night.

ALIÁS E A PROPÓSITO, Tango in the night seria, de início, um disco solo de Buckingham.

OU MELHOR. Havia dois projetos sendo feitos, o disco de Buckingham e o LP novo do Fleetwood Mac. Ambos os trabalhos correram em paralelo por um tempo, até que Lindsey se juntou aos colegas e levou seu repertório. Mas Mick Fleetwood diz que a banda – em especial ele – persuadiu Lindsey a se juntar aos outros, e que o amigo foi pressionado para concluir o disco.

DASHUT E DROMAN. Quer saber de Tango in the night, pergunte a esses dois. Richard Dashut, que produzira os três últimos discos do FM, havia sido chamado por Christine McVie em 1985 para produzir uma versão de Can’t help falling in love para a trilha do filme A fine mess, de Blake Edwards. O projeto acabou virando uma reunião informal do Fleetwood Mac, com Fleetwood, McVie e Buckingham convidados para tocar na trilha. Stevie continuava em turnê solo.

DASHUT E DROMAN 2. Greg Droman, um jovem produtor e engenheiro de som, foi chamado por Dashut para gravar o projeto. Acabou trabalhando também com Buckingham em Time bomb town, que o músico criou para a trilha do blockbuster De volta para o futuro, de Robert Zemeckis. Acabou sendo convidado para trabalhar em Tango. Na época, Droman era do estúdio Rumbo, de propriedade da dupla Captain & Tennille, em Los Angeles. Por sinal, o local era quase um quartel-general do hard rock e do hair metal: até o Ratt gravou lá.

ALIÁS E A PROPÓSITO, até mesmo parte do Appetite for destruction, do Guns N Roses, saiu das máquinas do Rumbo.

DEZOITO MESES. Foi o tempo em que o grupo, mais produtor e técnico de som, passaram lambendo as músicas de Tango in the night. O material que surgia no novo disco do Fleetwood Mac era quase um projeto dos integrantes não-fundadores da banda, usando o nome do FM. John McVie e Mick Fleetwood não deram pitacos nas composições. Já Lindsey usou e abusou da liderança, dando ideias de como o material deveria soar e trazendo uma referência musical importante para a pequena equipe do disco (o som pop e profundo de Kate Bush).

MAIS GENTE. Outros nomes apareciam nos créditos de composições de Tango. Sandy Stewart compôs o hit Seven wonders com Stevie, e era parceira de carreira solo dela. Eddy Quintela, novo marido de Christine McVie, dividia Little lies com ela, e Isn’t it midnight com ela e Buckingham. Dashut compôs Family man com Buckingham.

ZZZZZZ. Dashut e Droman concordam numa coisa: Tango in the night foi um disco feito tão devagar que todo o processo levou a equipe ao tédio e ao desespero em pouco tempo. Buckingham estava maravilhado com as possibilidades dos samples, das modificações de vozes em estúdio e com qualquer maluquice que pudesse ser feita para mudar vocais ou alterar partes de músicas. Ele, o produtor e o técnico faziam coisas como diminuir a velocidade das canções, triplicar ou quadruplicar várias partes nos canais e depois ajustar o pitch de cada uma dessas partes. Tudo para encontrar novas texturas e tornar Tango in the night uma experiência inesquecível.

CORTA E COLA. Os vocais percussivos de Big love (todos feitos por Buckingham, e não por Stevie) e os climas meio “vamos abrir a Porta da esperança” de algumas introduções (como a de Everywhere e a de Little lies) vêm dessas encucações de Lindsey.

VIDINHA BESTA. Durante as gravações, uma frase repetida por Droman virou quase meme da equipe: “Tédio é a nossa vida”. A equipe passava o dia inteiro envolvida com apenas uma parte da gravação, ou duas partes, para refazer tudo no dia seguinte, porque Buckingham não havia ficado feliz com o resultado. A turma também ficava bastante isolada no Rumbo. Aliás, isolada a ponto de perder a noção do tempo. “Naquela época, os estúdios não tinham janelas. Nunca sabíamos que horas eram. Você saía no corredor para ir ao banheiro ou algo assim, e de repente, você percebe que é noite, daí você perdeu todo o sol do dia”, contou Droman.

PÂNICO. Por causa do estresse, das repetições e do excesso de trabalho, rolou de tudo: até ataques de pânico no jovem Droman. “Eu nem sabia que se tratava disso”, conta. “Nem conseguia dizer o que estava acontecendo. Eu estava meio que pirando”. Logo que saiu Tango in the night, ele estava tão de saco cheio que desligava o rádio se o DJ tocasse Big love.

PÉ NA BUNDA. Antes de Tango, Lindsey havia tido um relacionamento fracassado com a estilista Carol Ann Harris, que vazou para as letras do disco (em Tango in the night e, evidentemente, Caroline), e continuava mal por causa disso. Carol, que trabalharia em vários clipes de artistas conhecidos, escreveu um livro sobre o relacionamento com Lindsey (Storms: My life with Lindsey Buckingham and Fleetwood Mac) e contou que já estava cansada das brigas do namorado com a banda, e de seu envolvimento com a cocaína.

BAÚ SEM FUNDO DE GRANA. Tango também foi um disco marcado por um comportamento perdulário típico da época em que as gravadoras ainda tinham verba ilimitada para gastar com seus artistas. Após o começo no Rumbo, o Fleetwood Mac ainda fez gravações na garagem da casa de Lindsey, num trailer alugado que ficava no quintal para não invadir demais a propriedade. A mixagem também foi feita lá, inicialmente em duas máquinas analógicas. O pentelho Lindsey demorava uma semana para mixar cada música com a equipe. Só que ele mudava bastante de ideia sobre o que estava sendo mixado. Para facilitar o processo, mandaram vir uma caríssima e moderníssima máquina digital da Sony.

COMO É QUE MEXE NISSO? Na mixagem, a turma tinha várias fitas digitais que precisavam ser manuseadas com cuidado, numa época em que ninguém sabia mexer direito nessas coisas. Com medo de estragar alguma coisa, Droman usava luvas brancas para mexer no material. O material era todo repicado e colado na base da fita durex.

QUASE DEU MERDA. Quando Tango foi masterizado, apareceu um monte de erros nas emendas. Para evitar problemas, a única solução que o trio de produção e gravação viu pela frente foi colocar as fitas na geladeira do estúdio. Não havia cópia de nada e o risco de um ano de trabalho ir por água abaixo era enorme.

STEVIE SUMIU. As gravações de Tango in the night foram pouco frequentadas por uma das integrantes mais populares do Fleetwood Mac. Stevie Nicks contribuiu com canções, mas estava ocupada demais com a turnê do disco solo Rock a little e quase não ia ao estúdio. Quando ia, ficava tão entediada que começava a beber e gravava os vocais embriagada. Boa parte dos vocais dela em composições de Christine e Buckingham foram tirados. Em When I see you again, por exemplo, vocais dela tiveram que ser remontados e Buckingham precisou cantar parte da música.

DEU TEMPO. Por causa de suas ausências, Stevie perdeu inicialmente a chance de fazer vocais em Everywhere, de Christine McVie – e reclamou disso. Acabou acrescentando vocais quando a música já estava para ser finalizada.

CLIMA BOM, CLIMA RUIM. Testemunhas afirmam que o clima na banda estava até amistoso, apesar do controle de Lindsey e do fato de ninguém se encontrar direito para fazer as gravações na casa dele. Mas o músico costuma dizer que as vidas pessoais dos integrantes estavam em desalinho. “Na época em que fizemos Tango in the night, todos estavam levando suas vidas de uma maneira que não ficariam muito orgulhosos hoje”, contou.

SOBROU COISA PRA CARAMBA. Tango in the night ganhou recentemente, você deve saber, uma edição de luxo com quase três horas. O trio de compositores estava tão prolífico que compôs e gravou muita coisa que não foi usada. Algumas apareceram em singles, como Down endless street, de Buckingham (no compacto de Family man). A You and I, part II, do LP, tinha uma parte I que saiu apenas no lado B do single Big love.

DEU CERTO. Assim que Tango in the night saiu, o maior medo dos fãs e da crítica era que Buckingham tivesse transformado a banda num troço amorfo e sem substância. Embora não tivesse sido um disco queridinho da crítica, o público aderiu rapidamente às novas músicas. Big love virou hit de pista e acabou inserida no contexto da house music, com direito a remix feito por Arthur Baker. Só até 2000, Tango já havia vendido mais de 3 milhões de cópias nos EUA.

CLIPE. Mick Fleetwood lembra que só o clipe do primeiro single, Big love, custou cerca de US$ 250 mil. O músico, que abriu falência no começo dos anos 1980, voltou a sorrir: as vendas do disco novo foram tão boas que houve interesse pelo catálogo antigo da banda, e a grana voltou a pingar.

PERA, NÃO DEU CERTO NÃO. Tango in the night saiu em abril de 1987 e deixou um ferido: Lindsey Buckingham. O músico reclamava que a banda não havia sido solidária com ele e havia feito pressão durante o processo. Tanto que assim que saiu o disco, o músico anunciou que não sairia em turnê.

FEZ MERDA. A banda passou um bom tempo tentando convencer Buckingham a não sair. Em agosto de 1987, ele anunciou que estava pulando fora. A banda marcou uma reunião em 7 de agosto daquele ano na casa de Christine McVie para cobrar pelo menos uma explicação. Só que deu merda: estourou uma discussão bizarra entre Lindsey e sua ex-namorada Stevie Nicks, que acabou com o músico agredindo seriamente a ex-namorada. Buckingham acabou posto para fora da casa e da banda.

DOIS NO LUGAR DE UM. A turnê de Tango seria feita com dois guitarristas, Billy Burnette e Rick Vito. O grupo optou por cortar as músicas de grande sucesso feitas por Lindsey, até mesmo o grande hit Big love. Aliás, a banda deu uns “presentes” aos fãs antigos que ainda acompanhavam a banda, incluindo uma canção dos primórdios do grupo, escrita por Peter Green, I loved another woman. O FM considerou incluir Black magic woman, outro hit dessa fase. John McVie vetou a ideia porque Santana gravou a canção e a transformou em uma música de seu repertório.

ALIÁS E A PROPÓSITO, um show da banda em San Francisco chegou às lojas como… um VHS de Tango in the night (na época, era tendência bandas lançarem shows em homevideo, como se fosse “o disco em vídeo”, muitas vezes com a mesma capa do LP). O VHS de Tango tinha o mesmo título e a mesma capa.

E DEPOIS? Claro que Lindsey Buckingham voltaria ao Fleetwood Mac. No ao vivo The dance, lançado em 1997, a formação de Rumours (1997) e Tango in the night (1987) estaria toda lá. Até lá, o grupo lançaria Behind the mask (1990), sem Lindsey, por sinal o primeiro disco da banda desde 1974 a nem roçar o Top 10. Em seguida, Time (1995), sem Stevie Nicks, sem Christine McVie e com Lindsey como cantor convidado numa das faixas (!).

E STEVIE NICKS? Em 1989, Stevie Nicks voltaria à carreira solo com The other side of the mirror, Top 10 nos Estados Unidos. Por sinal, foi a turnê do Klonopin, já que a cantora estava tão dependente da droga que tomava para se livrar da cocaína (é bastante comum) que diz não ter recordação alguma da tour.

E HOJE? Até novembro de 2019, o Fleetwood Mac circulava por aí com a tour An evening with Fleetwood Mac, sem Lindsey (expulso da banda após uma discussão justamente com Stevie Nicks, com direito a processo nos ex-colegas e “ou ela ou eu”). A formação incluía Fleetwood, McVie, Christine, Stevie, Mike Campbell (guitarra) e Neil Finn (teclados, guitarra e voz). Little lies era a segunda música do set list.

E já que você chegou até aqui pega aí os outros clipes do disco. O de Little lies já apontava para o lado country que o Fleetwood Mac deixaria aparecer em alguns de seus trabalhos posteriores: mostrava a banda circulando numa fazenda abandonada, incluindo cenas maravilhosas de Christine McVie fingindo que tocava piano numa escrivaninha (!) e Lindsey Buckingham usando blazers caríssimos em meio a pedaços de feno e cercas desdentadas. Teve também o clipe de Family man, feito com sobras do de Seven wonders, quando Lindsey já havia saído, mas não está no YouTube.

Com informações dos livros Playing in the rain: Lindsey Buckingham & Fleetwood Mac, de Tyler Martin Sehnal, Storms: my life with Lindsey Buckingham and Fleetwood Mac, de Carol Ann Harris, e Fleetwood Mac: The complete illustrated history, de Richie Unterberger. E de links como esse e esse.

Veja também no POP FANTASMA:
– Demos o mesmo tratamento a Physical graffiti (Led Zeppelin), a Substance (New Order), ao primeiro disco do Black Sabbath, a End of the century (Ramones), ao rooftop concert, dos Beatles, a London calling (Clash), a Fun house (Stooges), a New York (Lou Reed), aos primeiros shows de David Bowie no Brasil, a Electric ladyland (The Jimi Hendrix Experience) e a Pleased to meet me (Replacements). E a Dirty mind (Prince). E a Paranoid (Black Sabbath).
– Demos uma mentidinha e oferecemos “coisas que você não sabe” ao falar de Rocket to Russia (Ramones) e Trompe le monde (Pixies).
– Mais Fleetwood Mac no POP FANTASMA aqui.

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.

Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.

Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.

O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.

Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.

Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.

Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.

Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.

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Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

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O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).

“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.

Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.

Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.

“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.

“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.

E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.

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R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

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R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

No dia 31 de maio de 1982, a gravadora I.R.S. enviava um press release avisando que havia assinado com o R.E.M., “uma banda de Athens, Georgia, aclamada pela crítica”. E já anunciava que no dia 26 de agosto sairia o EP Chronic town, com as faixas 1,000,000, Stumble, Wolves, lower, Gardening at night e Carnival of sorts (Boxcars). A foto de imprensa, em preto e branco, trazia Peter Buck (guitarra), Mike Mills (baixo), Bill Berry (bateria) e Michael Stipe (vocais) com visual pós-adolescente.

“O EP vai ser seguido por um álbum no ano que vem. O R.E.M. planeja fazer uma turnê pelo Oeste do país durante o verão, seguida pelos estados da Costa Leste e do Canadá durante o Outono”, avisava a gravadora, oferecendo também o contato da empresária Betsy Alexander, primeira pessoa a cuidar profissionalmente do grupo, ajudando em contatos, logística e gestão. O release só errava na ordem das músicas do EP, que possivelmente ainda não estava decidida (Chronic town também saiu dividido em duas partes, com lado A nomeado Chronic town e lado B com nome Poster torn)

O contrato era de longo prazo e previa cinco discos – ou seja, tudo que saiu do grupo até Life’s rich pageant, o quarto álbum, de 1986. Depois disso, o grupo renegociou e lançou o quinto disco, Document, de 1987 – mas acabou migrando para a Warner e terminando o contrato com a coletânea Eponymous (1988).

A I.R.S. tinha sido criada em 1979 por Miles Copeland III, irmão de Stewart Copeland, baterista do The Police. O selo vinha da cena punk/new wave britânica e funcionava como uma espécie de ponte entre o underground e uma estrutura profissional de distribuição via A&M (a gravadora do Police, por acaso).

Na época em que o R.E.M. assinou, a I.R.S. já tinha grupos como Wall of Voodoo, Oingo Boingo, The Go-Go’s e The English Beat. Era um selo muito ligado a college radio, pós-punk, new wave e à ideia de independência artística. Depois, virou praticamente sinônimo do rock universitário americano dos anos 1980 por causa do próprio R.E.M.

A entrada da banda na gravadora aconteceu muito por conexões da cena. O empresário/agente Ian Copeland, irmão de Miles e Stewart, já acompanhava o grupo desde os primeiros shows em Athens. O baterista Bill Berry tinha trabalhado para Ian em Macon como roadie e serviços-gerais, e mantinha contato com ele. Isso ajudou o R.E.M. a conseguir shows de abertura para bandas maiores, como The Police e Gang of Four, até chamar atenção da I.R.S.

E olha o post comemorativo do R.E.M. aí.

 

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