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Cultura Pop

Ué, seis meses pra fazer a capa do Young Americans, do David Bowie?

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Ué, seis meses pra fazer a capa do Young Americans, do David Bowie?

Lá por 1975, David Bowie, além de dar adeus ao glam rock que marcou vários de seus discos anteriores, aproveitava para brindar qualquer jornalista que aparecesse pela sua frente com declarações que hoje em dia seriam consideradas “manchetes vendedoras”. Disse que não gostava muito de seus discos feitos após Hunky dory (1971). E que o primeiro que gostava era realmente o novo, Young americans. Um disco que trazia o cantor mergulhando no r&b e no que chamou de soul de plástico.

Bowie, confundindo mais ainda as cabeças de seus pobres fãs, disse também que nunca tinha desejado ser um músico ou um cantor, e sim um diretor de cinema. “Tentei introduzir conceitos cinematográficos numa encenação de áudio. Não funciona”, reclamou o cantor. Que no entanto, chegou a divulgar que havia feito um roteiro cinematográfico chamado Young americans. Era sobre um astronauta estrangeiro recrutado pelo programa espacial dos EUA, em 1952. Ou seja, cinco anos antes do lançamento do primeiro foguete ao espaço. Uma ideia que Bowie deixou para lá e nunca mais comentou.

Seja como for, o projeto do disco, que começou com uma demo em 8 de agosto de 1974 no estúdio Sigma Sound, foi produtivo ao extremo. Bowie, ligadão em todos os sentidos (inclusive no abuso de cocaína, que já começava  a detonar sua voz), começou a deixar um monte de coisas gravadas. Entre elas uma versão disco de John, I’m only dancing (com um Again acrescentado entre parênteses depois). Além de uma versão de It’s hard to be a saint in the city, de Bruce Springsteen (que horrorizou o próprio autor da faixa). E músicas como Who can I be now.

Essa primeira seleção de faixas quase ganhou o nome de Fascination. Outros nomes foram considerados: Dancin’, Somebody up there likes me, One damned song, entre vários. Bowie também ia adotando bastante o discurso, que vinha de vários críticos musicais da época (e que hoje soa como um desdobramento à esquerda do punk) de que o rock havia se afastado da dança. E de suas raízes afro-americanas, o que tornava urgente que todo artista branco se tornasse mais próximo da disco music e do soul. Bowie punha lenha na fogueira com mais entrevistas. Ora dizia que “o rock é a música do diabo e não há como me convencer do contrário” (declaração que apareceu reproduzida em revistas e tabloides cristãos ao longo das décadas). Ou chamava o estilo de “música de gente burra”.

Agora um detalhe fascinante a respeito de Young americans era a capa, que mostrava Bowie numa foto que parecia capa de revista. Ou mesmo “um anuário de cinema dos anos 1930”, como lembra Peter Doggett no livro O homem que vendeu o mundo: David Bowie e os anos 1970. O projeto por muito pouco não ganhou na capa um retrato de Bowie feito por Norman Rockwell, um dos pintores americanos mais populares do século 20. Fazia sentido. Afinal, a música-título trazia várias imagens da história norte-americana recente. E Rockwell era quase um cronista de seu país, famoso por ilustrações que apareciam em capas de revistas e até em propagandas da Coca-Cola.

Poderia ter dado certo, mas Rockwell mandou avisar a Bowie que precisava de seis meses para realizar a pintura. Bowie, já maluco para colocar logo o disco nas lojas, achou mais prudente desistir da ideia. Outra ideia que surgiu foi a de colocar na capa um retrato de corpo inteiro de Bowie metido num “traje voador”, usando um lenço branco, parado em frente a uma bandeira americana, com uma taça erguida na mão. Nada disso deu certo, e foi para a capa a foto de Eric Stephen Jacobs, tirada em Los Angeles em 30 de agosto de 1974. Foto essa inspirada por uma capa da revista After dark com a coreógrafa Toni Basil. Essa aí de baixo.

Mais David Bowie no POP FANTASMA aqui.

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Relembrando: Built To Spill e Caustic Resin, “Built to spill caustic resin” (1995)

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Relembrando: "Built to spill caustic resin", Built To Spill e Caustic Resin

Built To Spill e Caustic Resin são duas bandas bem desafiadoras do rock independente norte-americano, ambas vindas de um local pouco usual em se tratando da história do rock (a cidade de Boise, em Idaho), e que permaneceram ligadas por um bom tempo. A primeira, uma multi-formação liderada eternamente pelo músico Doug Martsch, caminhou entre o guitar rock, o punk e o slacker rock (aquele estilo despojado, geralmente usado para classificar o Pavement). A segunda, contando com relativamente poucas mudanças de line-up, dedicou-se a um “metal alternativo” mais próximo de Neil Young, do Grateful Dead e do Velvet Underground do que das noções comuns de música pesada.

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Como costuma acontecer com bandas-irmãs, uma delas foi para cantos um tanto quanto diferentes da outra. O BTP, que, durante shows recentes na América Latina, chegou a contar com dois músicos brasileiros (o baixista João Casaes e o baterista Lê Almeida), foi contratado da grandalhona Warner por duas décadas e fez turnês extensas. O Caustic Resin, que não grava desde 2003 e em tese, está em hiato, passou boa parte do tempo contratado do selo indie californiano Alias.

Em 1995, pouco antes do Built To Spill partir rumo a Warner e deixar o selo Up Records, de Seattle (por onde o Caustic Resin também havia passado), as duas bandas se juntaram num EP igualmente lançado pela Up. A junção dos nomes das duas bandas no título fez o EP se chamar literalmente Built to spill caustic resin (“construído para derramar resina cáustica”, em português), o que já dava uma imagem do aspecto corrosivo que a música poderia ter. Na formação, Doug (voz e guitarra) ao lado de dois integrantes do Caustic, James Dillion (bateria) e Tom Romich (baixo), além de um membro comum às duas bandas (Brett Nelson, voz e guitarra).

O EP reúne em quatro faixas as características das duas bandas: os ganchos musicais do Built e as viagens sonoras pesadas do Caustic. Duas das faixas, a irônica When not being stupid is not enough e She’s real, são bem extensas. Na prática, boa parte do material tem até mais a ver com o som que o Built vinha fazendo em sua primeira fase, de discos como a estreia Ultimate alternative wavers (1993), que tinha músicas repletas de partes diferentes. Mesmo quando surge uma música creditada ao Caustic e que tem bastante a cara deles, a psicodélica e gritada Shit brown eyes. O longo power pop She’s real, que encerra o disquinho lembrando uma versão zoada do Weezer, é creditado ao músico e artista visual Tae Won Yu, e foi composto quando ele fazia parte da banda indie Kicking Giant, liderada pela musicista Rachel Carns.

Mesmo sendo um EPzinho independente e, de certa forma, restrito, Built to spill caustic resin teve lá sua cota de problemas. A foto da capa, trazendo ovos de peixe e duas simpáticas larvinhas, teve que ser mudada assim que o autor da imagem descobriu o disco. Já a história da Up Records, que lançou discos de artistas como Quasi, Tad e Modest Mouse, durou até o licenciamento de seu catálogo para a Sub Pop, em 2018.

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Relembrando: Interpol, “Turn on the bright lights” (2002)

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E os 20 anos de Turn On The Bright Lights, estreia do Interpol?

Mal dá para crer que a banda novaiorquina Interpol não chegou a ter problemas com a organização policial americana. Mais inacreditável ainda é a lembrança de que o grupo fazia shows concorridíssimos no começo da carreira, quando eram estudantes universitários, mas não tinha um nome. Ao optarem por Interpol, justamente no comecinho da web 2.0, Paul Banks (voz, guitarra, hoje baixista), Sam Fogarino (bateria), Daniel Kessler (guitarra solo, voz) e Carlos D (baixo) não escaparam de receber várias mensagens por engano, de gente que pensava mesmo estar falando com a polícia americana, e não com uma banda iniciante (há um tempinho, isso rolou de novo, e no Brasil).

“Recebi alguns e-mails sérios sobre pessoas que se perderam, que outras pessoas estavam tentando encontrar, ou e-mails sobre golpes em que as pessoas caíram”, contou Kessler ao Pitchfork em janeiro de 2003, poucos meses após lançarem a estreia Turn on the bright lights (de 20 de agosto de 2002). “Um dos e-mails foi ‘meu carro foi roubado’”, contou.

A estreia do Interpol devolvia ao cenário novaiorquino muitas das influências que bandas como Velvet Underground tiveram sob os grupos ingleses. Em pleno retorno da sonoridade do pós-punk, marcada pela chegada ao mercado americano de bandas como Strokes, o Interpol assemelhava-se a bandas como Joy Division, Echo and The Bunnymen e nomes mais recentes como Ride.

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Os vocais de Banks, mesmo sendo mais empostados, são até hoje bastante comparados aos de Ian Curtis, e no disco do Interpol havia Obstacle 1 e Obstacle 2 como havia Exercise one na obra do JD. A canção da banda inglesa era bem mais assustadora do que o pós-punk marcial e volumoso do Interpol, claro, mas a letra de Obstacle 1 é igualmente sombria (“você vai se esfaquear no pescoço/mas é diferente agora que estou pobre e envelhecendo/nunca mais verei esse lugar”).

Havia muito ali também de bandas geralmente pouco comentadas, como The Sound (o clima cavernoso dos vocais e das melodias era herdeiro direto deles). A paixão de alguns integrantes do Interpol por música eletrônica fazia com que Turn on the bright lights fosse um disco cheio de climas diferentes, e que funcionasse como um relógio. embora a estreia da banda fosse bastante orgânica, maturada pelo uso do estúdio como um instrumento musical,  durante seis semanas de isolamento.

Untitled surgia em tom de abertura de filme, preparando o ouvinte para músicas como Obstacle 1, NYC (uma balada shoegaze que mostra o lado sombrio da “cidade que nunca dorme” e que cita o título do disco), PDA (a canção mais ligada ao rock de Manchester já produzida por uma banda americana), Stella was a diver and she was always down (essa poderia estar no Heaven up here, segundo LP do Echo and The Bunnymen). Tudo em Turn on tinha um certo ar de desilusão com as luzes de Nova York, um sentimento que fazia todo sentido no pós-11 de setembro.

Há quem defenda que Turn on the bright lights acaba na nona faixa, a ágil e meio punk Roland, com letra sanguinolenta falando sobre um açougueiro polonês que seccionava pessoas – um personagem aparentemente de ficção, mas que dizem ter sido inspirado no assassino americano Richard Kuklinski, morto em 2006. Os próprios integrantes viam The new e Leif Erikson, as duas verdadeiras últimas músicas, como separadas do disco – a última, em particular, soa como um pop sessentista sombrio, herdado do Velvet Underground e de Nico, encerrado por uma parede de guitarra e voz.

A estreia do Interpol foi um excelente exercício, que gerou imediatamente um grande prosseguimento, Antics (2004), e um disco mais controverso e um tanto mais sombrio, Our love to admire (2007). E a história do Interpol continua, com a banda reduzida ao trio Paul Banks, Daniel Kessler e Sam Fogarino. Rolou inclusive uma vinda há algumas semanas ao Brasil.

Ah, sim: quando o disco completou 20 anos, a banda pôs no YouTube o vídeo de divulgação do álbum, lançado na época apenas como um EPK para a imprensa. Pode ser visto abaixo.

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No nosso podcast, o começo dos Stone Temple Pilots

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No nosso podcast, o começo dos Stone Temple Pilots

Não era nada fácil ser integrante dos Stone Temple Pilots nos anos 1990. Os discos vendiam e os shows lotavam, mas não havia muito respeito da crítica, e a cada disco parecia sempre que uma nova chance estava sendo dada ao grupo de Scott Weiland, Dean DeLeo, Robert DeLeo e Eric Kretz. Pior: de tempos em tempos, as turnês eram canceladas e a banda tinha que parar tudo, já que Scott volta e meia precisava encarar uma internação para reabilitação.

Hoje a gente dá uma volta no tempo e faz um sobrevoo no começo do STP. Falamos de tudo (ou quase tudo) que estava acontecendo na vida deles, e damos uma olhada por trás dos discos Core (1992), Purple (1994) e Tiny music: Songs from the Vatican gift shop (1996). E encerramos essa temporada do nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, falando de uma das nossas bandas preferidas.

Século 21 no podcast: Billy Tibbals e A Última Gangue.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: Divulgação). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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