Crítica
Ouvimos: Juliana Hatfield – “Lightning might strike”

RESENHA: No novo disco, Juliana Hatfield mistura alt-rock e soft rock para falar de dores, ironia e equilíbrio, longe do mainstream, reafirmando a música como salvação.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: American Laundromat Records
Lançamento: 12 de dezembro de 2025
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Existe um tipo de som associado a Juliana Hatfield, que chega na frente em qualquer coisa que ela fizer. É um rock alternativo, com guitarras, distorções, climas herdados do punk – só que igualmente, com heranças bem demarcadas de soft rock, folk setentista, power pop e estilos afins. O mercadão dos anos 1990 preferiu Alanis Morissette e sua vocação para expiar dores e traumas em enormes arenas, mas Juliana está desde 1992 (quando saiu sua estreia Hey girl) transformando questões pessoais em canções.
Na real, dá para dizer que foi Juliana quem preferiu não ser absorvida e mastigada pelo mainstream – discreta e bastante reservada, ela já falou em entrevistas diversas vezes sobre os desconfortos da fama, e sobre como eles afetam mulheres jovens e pessoas vulneráveis em geral. Ela já teve discos lançados por selos como Island e Atlantic, e acabou saindo desta última em 1997 deixando lá um disco, God’s foot, rejeitado pela falta de potenciais hits e engavetado. Já Lightning might strike (“um raio pode cair”), seu 21º álbum solo, não tem esse nome à toa: embaladas em ironia, suas músicas falam de dores, azares, sortes e questões existenciais do dia a dia.
Juliana abre o disco em clima de soft rock indie – em Fall apart, com mellotron de flautas, melodia bonita e vibe quase na mesma onda power pop que consagrou o amigo Evan Dando e os Lemonheads. Faixas como Long slow nervous breakdown, Constant companion, My house is not my dream house (com evocações de Badfinger), a balada blues Harmonizing with myself e Scratcher (que tem algo de Rolling Stones e Fleetwood Mac) surgem embaladas no mesmo corredor dos recentes discos de covers que ela vem lançando – com músicas de The Police, Electric Light Orchestra e Olivia Newton-John. Já a ótima Popsicle, mais distorcida e selvagem, é um das mais noventistas do disco.
Nas letras, Juliana parece seguir uma espécie de travessia, que parte das dores pessoas, da fragilidade e das quedas emocionais – mas vai chegando a momentos de equilíbrio e ironia em músicas como Scratchers e My house is not my dream house – essa, com versos irônicos como “formigas, carrapatos e insetos voadores cujos nomes desconheço / gostaria de poder fugir, mas não tenho para onde ir (…) / as coisas seriam diferentes se eu tivesse planejado meu futuro com mais responsabilidade”. Muito do que ela viveu no universo da música parece ter vazado para letras como Strong too long e Wouldn’t change anything.
No final, All I’ve got é uma homenagem à música e a todos os lugares aos quais Juliana foi levada por ela, no sentido real e figurado (“você é tudo que eu tenho / quando estou tão mal / quando a dor não para / você me ajuda a torná-la bela”). Uma canção cujo clima é bittersweet purinho, com voz, violão e piano elétrico, e um reconhecimento de que, seja lá o que aconteça, a música salva. E como.
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Crítica
Ouvimos: Suki Waterhouse – “Loveland”

RESENHA: Em Loveland, Suki Waterhouse mistura indie pop, folk e britpop em canções sobre paixão, autoconfiança e desilusões amorosas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Island / UMG
Lançamento: 10 de julho de 2026
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Suki Waterhouse começou a carreira como modelo. É uma cantora bonita e chama a atenção não apenas pela voz e pela criatividade – nem a mais antiobjetificante leitura da obra dela iria deixar de prestar atenção nesses detalhes. O lance é que ela usa todos esses “detalhes” justamente a favor de uma visão diferente do seu trabalho.
Traduzindo: Suki está mais para uma musa indie, ou uma musa boêmia, do que para uma it girl poderosa. Discos, clipes, músicas e letras vão se seguindo, e essa imagem da mulher fashion, nostálgica, atraente, mas que vê o sofrimento como surpresa desagradável do Kinder Ovo amoroso, fica mais cristalizada. Veio muita gente antes dela que já era isso: Nina Persson (Cardigans), Amy Winehouse… Mas Suki parece já ter chegado dando nome às coisas, e sabendo onde se metia (e como se metia).
- Ouvimos: Mary In The Junkyard – Role model hermit
Vai daí que Loveland, o novo disco, é basicamente um disco sobre apaixonamento e confusão – vá lá que é um disco em que Suki confessa que, sim, é bastante autoconfiante (como em Any men, em que ela diz que “posso ter qualquer homem / tenho um toque especial, não preciso fazer muito”), e diz que não tem a menor necessidade de continuar num relacionamento que só causa tristeza (Happy with it).
Weirdo traz um outro lado, com Suki dizendo que está louca para ser uma boa esposa e passar as camisas do marido (!) – aí já deve ser o limite de muita gente (na vida real, ela é casada de maneira bem discreta com o ator Robert Pattinson, e a letra menciona sets de filmagem).
Já musicalmente, Loveland tem aquele mesmo esquema conhecido de Suki, de levar o / a ouvinte para uma ilha de escapismo musical, abrindo com a fanfarra synth da lânguida Back in love – quase um trip hop de ares sessentistas. E prosseguindo com a veia indie pop e nostálgica de Any man, Seasons e Happy with it, a onda britpop da boêmia Notting Hill, além do rock gélido, quase pós-punk, de Teardrops.
O lado que oscila entre o folk, o r&b e um clima esfumaçado, quase trip hop, surge em When I get drunk (I want you boy) e Weirdo. E um clima basicamente indie rocker toma conta de hits potenciais como Tiny raisin, Puppy dog eyes, Loveland e Jukebox, faixas que devem tanto a The Killers quanto a Phil Spector. Ficou bacana e Loveland é um dos produtos pop mais bem acabados de 2026.
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Crítica
Ouvimos: Ursamenor – “Quero ir pra casa” (EP)

RESENHA: Trio mineiro Ursamenor une noise pop, shoegaze e punk em um EP sobre cura, cotidiano urbano e mudanças, com guitarras densas e melodias marcantes.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Estúdio Central / YB Music
Lançamento: 15 de julho de 2026
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Trio feminino de indie rock, o Ursamenor vem de Belo Horizonte (MG) e no EP Quero ir pra casa, fala basicamente de cura, de aprendizados com os próprios sentimentos. As letras funcionam como uma terapia entre a autora e seu caderno – e ao mesmo tempo, trazem muito espanto com as mudanças que ninguém conseguiu controlar direito, além de momentos de adeus a coisas ruins do passado. O noise rock dedilhado de Eu sei muito bem, com melodia pop, mas clima ruidoso, fala de uma época em que as coisas “tinham outro sabor, outra cor”.
- Ouvimos: Trash No Star – Existir é resistir (EP)
São letras que falam bastante do dia a dia nas grandes cidades, de trabalhos sufocantes e de prédios que parecem engolir todo mundo. Falam disso até quando não falam diretamente, como em Desvio e Meia volta. Já o som de Camila Silva, Mariana Coura e Iara Dias vai numa onda mais próxima, quase sempre, do noise pop oitentista, de bandas como Velocity Girl – só que com densidade de quem ouviu shoegaze, e clima “aberto” de quem ouviu Paramore.
Músicas como Da janela têm maior proximidade com o punk, e o clima mais denso fica com músicas como Desvio, com guitarras em formato de nuvem. Meia volta é quase um power pop com apreço ao ruído. Já Sombra, canção de quase sete minutos que fecha o EP, tem a solenidade quase britpop de uma música do Fontaines DC, mas com foco na densidade sonora.
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Crítica
Ouvimos: Among Legends – “Lose my grip”

RESENHA: Among Legends, banda de punk melódico de Toronto, mistura emo, hardcore e pop punk em faixas rápidas, pesadas e cheias de refrãos marcantes no ótimo álbum Lose my grip.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Little Rocket Records
Lançamento: 10 de julho de 2026
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Nos anos 2000, Ontario, no Canadá, parecia funcionar de modo diferente do resto do país no que dizia respeito ao punk. A variação mais pop do estilo chegava às FMs (e à MTV) com Avril Lavigne, enquanto a província se destacava por uma atitude bem do it yourself, e por bandas que pareciam misturar tudo: emo, vocais trabalhados a la Bad Religion, sons 60’s a la Ramones e músicas próprias para serem ouvidas a bordo de um skate.
O trio Among Legends, de Toronto (maior cidade da província de Ontario), vem como herança desse universo musical. Lose my grip, segundo álbum, é ágil, pesado e bonito – vocais bem feitos e melodias grudentas são acháveis em todas as doze faixas. H/A/C/K, a faixa de abertura, insere um peso e uma dinâmica que fazem lembrar bandas como Rancid. Sound the alarm tem certo clima de oi! music, e faixas como Open wide e Go on exploram a onda do hardcore melódico.
- Ouvimos: Cuir – Monoface
Mitchell Buchanan (baixo, voz), Tyler Boles (guitarra) e Sara Fellin (bateria e voz) têm peso, mas o principal é a melodia. E ela é sempre bem explorada em canções como o emo-rapcore Back again, as venturosas Hollow, The last time, Floating here for years (punk com várias partes e clima 60’s nos vocais e na melodia, mesmo com o beat intermitente e ágil) e What’s it gonna be.
Band dudes fuck off, com Laura DeRocchis nos vocais, traz as escrotidões nossas de cada dia, só que dentro de uma banda. A bela Familiar fictions, por sua vez, fala sobre aqueles momentos em que a maior dificuldade é dar nomes aos sentimentos e acontecimentos.
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