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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre “Love it to death”, de Alice Cooper

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Várias coisas que você já sabia sobre "Love it to death", de Alice Cooper

Bem antes de Love it to death, o terceiro disco (1971), a ideia de Alice Cooper (que, nessa época, era uma banda) já era apavorar as pessoas. Nem sempre dava certo. Até o segundo álbum, Easy action (1970), Alice e seus colegas Glen Buxton (guitarra), Michael Bruce (guitarra, teclados), Dennis Dunaway (baixo) e Neal Smith (bateria) ainda eram vistos como uma “coisa” excêntrica, o último espirro de bica da psicodelia. Eram olhados com desdém pela crítica, não vendiam discos e os sustos ainda eram dosados. Muito embora a má impressão que a banda deixava em algumas pessoas tenha rendido até mesmo a atenção de Frank Zappa, rápido ao contratar o grupo para seu selo Straight.

Só que algumas coisas foram mudando e o sucesso foi aparecendo. A Warner viu potencial ultrajante na Straight, gravadora do padrinho Zappa, e comprou o selo. Em 1969, praticamente sem saber o que estava fazendo, Alice Cooper soltou uma galinha (viva) no palco do Toronto Music Festival, que foi estraçalhada pela plateia. Em decorrência disso, o cantor virou assunto da noite para o dia. Mas além disso, cansados de tentar impressionar a plateia hippie da Califórnia, aonde faziam quase todos os seus shows, os cinco resolveram se mudar para Detroit. Que aliás era a terra do próprio líder do grupo (o cidadão americano Vincent Furnier, mais conhecido como Alice Cooper).

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Lá, a turma de beberrões que formava a banda sentiu-se bem mais à vontade, perto de bandas pré-punk e de um público mais selvagem. A chegada de novos nomes no universo do rock e a emergência da estética glam também ajudaram a fazer com que o humor de Alice começasse a coincidir com o do público. Love it to death, lançado em 9 de março de 1971, foi o primeiro fruto dessa fase de sucessos, com hits como I’m eighteen e Caught in a dream, além de shows nos quais Alice aparecia de camisa de força, ou era executado numa cadeira elétrica.

Sem Love it to death não existiria Detroit stories, novo disco de Alice, lançado há pouco tempo sem shows por causa da pandemia da covid-19. A noção de que deve existir uma música para chocar e deixar plateias “respeitáveis” irritadas também veio dos primeiros grandes hits de Alice, gerados em apenas dois meses de estúdio no fim de 1970. Mas finalmente, com produção adequada e objetivos definidos.

E segue aí nosso relatório sobre esse clássico. Ouça lendo e leia ouvindo.

ESTRANHÃO. Ouvidos hoje, Pretties for you (1969) e Easy action (1970), os dois primeiros álbuns de Alice Cooper, soam como estranhas tentativas de se compor uma espécie de “ópera” assustadora de rádio, com momentos de calmaria, tons assustadoramente belos (o tema-de-musical Beautiful flyaway, tocado ao piano e cantado por Michael Bruce) e vinhetas estranhas (BB on Mars).

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ALIÁS E A PROPÓSITO, no primeiro disco, a banda sequer teve produtor no estúdio e gravou um ensaio com várias canções que mal estavam terminadas. Frank Zappa, que mal esteve no estúdio durante a gravação, passou lá no final e deu um confere no que tinha sido gravado. Ouviu, considerou que a banda já tinha um disco, mandou prensar, embalar e pronto. Lester Bangs, da Rolling Stone, considerou que a banda era “totalmente dispensável”. Outro crítico viu no disco “uma perda trágica de vinil”. Vale lembrar: estávamos numa época em que jornalistas resenhavam discos afirmando que se matariam se a banda que eles odiavam fizesse sucesso.

INCRIVELMENTE, Alice Cooper, mesmo seguindo uma cartilha totalmente abilolada, tinha ambições bem significativas. Ele dizia pelos cantos que adoraria que sua banda tivesse a mesma fama dos Beatles e dos Rolling Stones, e acreditava no sucesso popular das táticas de choque que pretendia fazer no palco (algumas delas, evidentemente, ficavam para quando a banda tivesse mais dinheiro).

SHEP GORDON, o diligente empresário da Alice Cooper Band, fazia das suas para tentar conseguir sucesso para o grupo. Primeiro, voou até Toronto, no Canadá, para aporrinhar Jack Richardson, um produtor de sucesso, que havia concebido os compactos mais vendidos do Guess Who (American woman entre eles). Shep queria porque queria que Richardson topasse produzir Alice Cooper. Mas Jack ouviu Alice, não curtiu e “não queria ter nada a ver com a gente”, nas palavras do próprio cantor.

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AINDA ASSIM, Shep agendou uma série de shows para o grupo em clubes locais e ainda conseguiu enfiar a banda no Toronto Music Festival, após bater na porta dos produtores e oferecer-se para ajudá-los na produção e a “vender ingressos”. Deu certo e mais de 60 mil tíquetes foram vendidos. Na hora de combinar pagamento, Shep lustrou a cara de pau e disse: “Não quero dinheiro nenhum. Apenas ponha Alice Cooper entre os shows dos Doors e de John Lennon e estamos conversados”. Supreendentemente, deu certo.

PENAS PARA TODO LADO. Alice era tão pobre, mas tão pobre, que o máximo de “terror” a que se permitia no fim das apresentações era furar travesseiros de penas e disparar tudo em direção à plateia com tanques de gás. Dava certo por onde a banda passava e daria certo em Toronto. Só que pouco antes disso, Alice deparou com a tal galinha viva, no palco, que jogou na plateia. Alguém tinha colocado o bicho lá, e Alice ou simplesmente achou que a penosa não seria atacada ou não se importou.

NO DIA seguinte, só se falava de uma coisa: Alice tinha matado uma galinha em pleno palco. Não foi bem o que ele fez, mas não importava – até porque àquela altura dos acontecimentos, já circulava uma versão jurando que ele havia bebido o sangue dela na frente da plateia. “Eu só achava que se uma galinha tinha asas, ela iria voar”, contou, singelamente. “Zappa me ligou perguntando se eu tinha mesmo estraçalhado uma galinha e eu disse: ‘Não exatamente'”, disse Alice, que ficou surpreso com a resposta do patrão: “Então não diga nada a ninguém. Todo mundo odeia você. Isso significa que a molecada vai te adorar”, disse Zappa.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, Shep resolveu, como quem não queria nada, ligar para Richardson e perguntar o que ele havia achado da história da galinha. Não muito impressionado, Jack soltou um “ouvi falar”. Em seguida, disse a Shep que iria mandar para encontrar com eles um garoto de vinte e poucos anos, que trabalhava com ele (“é um aprendiz”, afirmou) e entendia um pouco de produção. Um sujeito que mudaria a vida de Alice.

O CARA QUE FEZ DAR CERTO. Bob Ezrin, o tal “aprendiz”, era um garoto cabeludo de 21 anos, canadense, fã de música clássica, que estava sendo mentorado por Richardson. A primeira vez que viu Alice e sua turma ao vivo, foi durante um show no Max’s Kansas City, em Nova York – aliás, Andy Warhol e sua trupe estavam na plateia.

DEU CERTO? Deu, mas foi complicado. Antes do show, Ezrin havia encontrado com a galera num hotel, e Alice recorda-se do produtor ter ficado meio chocado quando viu o look da rapaziada. “Parecia que ele tinha aberto um pacote-surpresa e encontrado um monte de vermes dentro”, recorda. Mas Bob curtiu o som e ficou mais impressionado ainda com o ambiente, cheio de garotas com roupas de spandex, gente com aranhas pintadas no olho e fãs sabendo palavra por palavra das canções de Alice. “Aquilo era rock-teatro, com participação da audiência”, exaltou.

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APESAR de Bob ter cuidado de tudo em Love it to death, Jack não saiu tão de perto assim. Ezrin, ao voltar a Toronto, fez questão de dizer a ele que havia visto um movimento cultural, mais do que uma banda. Jack, que era a principal escolha de Shep e de Alice, topou manter seu nome na história. Mas desde que seu mentorado ficasse na frente e cuidasse de tudo (por isso é que o LP tem créditos para os dois).

ALIÁS E A PROPÓSITO, Ezrin, durante o tal show em Nova York, curtiu especialmente uma canção cuja letra dizia “I’m edgy…” e disse isso ao grupo. “Mas não tocamos nenhuma canção com esse nome!”, respondeu Alice. “Tocaram sim, era ‘I’m edgy…'”, cantarolou. Só que o produtor estava se referindo ao futuro hit I’m eighteen, praticamente um rugido bêbado de Cooper.

ROCK DO CELEIRO. A Alice Cooper Band costumava ensaiar num celeiro em Pontiac, perto de Detroit. Ezrin foi lá conhecer o local e fez uma proposta à banda, que vinha de dois discos mal resolvidos: eles fariam shows no fim de semana, e nos dias úteis, ensaios de doze horas no tal do celeiro até o material do novo disco ficar perfeito.

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O QUE SE VIU foi um trabalho de desconstrução. Capaz de arroubos quase rudes de sinceridade, Ezrin focou primeiro nos vocais de Alice, e fez questão de informar que ele não tinha assinatura vocal. “Quando as pessoas ouvem Jim Morrison, sabem que é Jim Morrison. O mesmo com John Lennon. Quando ouço Alice Cooper, não há assinatura. As pessoas podem adorar o show, mas não há algo que defina a voz e a música”, atacou impiedosamente. Bob botou Alice para cantar de todos os jeitos possíveis. Aliás, praticamente ensinou novamente cada músico da banda a tocar seu instrumento, em busca de um som particular para cada um.

O PRODUTOR também interferiu nas composições. Bob ensinou a banda a cortar o que não interessava e a deixar as letras simplificadas, “como as dos Stooges”, diz Alice. Mas o principal estava lá: numa época em que todo mundo parecia se levar a sério, Alice Cooper tinha muito humor. Afinal, era uma banda que falava de inadequação (I’m eighteen, Is it my body), diversões que acabam mal (Caught in a dream, batendo firme no tropo narrativo do “eu era famoso e rico, até que acordei”), horrores da guerra (Ballad of Dwight Fry e Second coming), diatribes bíblicas (Halloweed by my name).

DWIGHT FRY OU FRYE? Existiu um ator de cinema chamado Dwight Frye, que teve uma notável carreira entre os anos 1920 e 1940. Uma coisa ele tem em comum com seu quase-xará – com diferença de um “e” que Alice suprimiu: após fazer papéis de figurinha fora do padrão em filmes como Dracula e Frankenstein, nunca mais conseguiu se livrar de fazer o maníaco, o cara estranho. Morreu em 1943 ao conseguir seu primeiro papel “sério” em Hollywood, no filme Wilson (falamos do Dwight aqui).

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O FINAL do disco era tão venturoso quanto fosse possível, com Sun arise, única cover do disco. Originalmente tinha sido lançada em 1961 pelo coautor, o cantor e compositor australiano Rolf Harris. Harry Butler, parceiro dele, havia falado a ele detalhes das crenças aborígenes, e a letra surgiu inspirada pelos cultos ao “nascer do sol” nessas tribos.

O ORIGINAL de Rolf Harris foi lançado pela EMI britânica e produzido por ninguém menos que George Martin, que por aqueles tempos dirigia o selo Parlophone, ligado a álbuns de comédia, novelty records e maluquices em geral. Foi hit imediato nos EUA e Inglaterra. Rolf teria carreira prolífica como humorista e cantor por várias décadas. Em 2014, sua carreira acabou: foi condenado e preso por agressão sexual de garotas menores de idade.

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E SAIU O DISCO. O lançamento de Love it to death trazia algumas novidades para a banda. O selo Straight deixaria de existir e a banda assinaria contrato com a Warner, sob os auspícios de Shep – apesar de Love… sair com selo Straight/Warner em edições subsequentes. Zappa iniciou outro negócio envolvendo a Warner, o selo DiscReet, que durou até 1979, mas Alice Cooper não estava envolvido com isso. Outra novidade é que a crítica pela primeira vez abraçava o grupo. A Billboard chegou a chamar o disco de “rock de terceira geração, artisticamente absurdo”. A Rolling Stone classificou-o como “oásis no deserto de lobotomia”. O álbum conquistou discos de ouro e platina e gerou interesse pela discografia anterior de Cooper.

NO BRASIL, o lançamento de Love it to death chegou a ser anunciado em alguns lugares. A coluna A música de hoje em dia, do Jornal do Brasil de 18 de abril de 1971 avisou que o álbum estava saindo nos EUA. Mas o álbum só chegaria às lojas daqui em vinil nacional em 1974, via Continental.

O HIT. I’m eighteen, a música que gerou aquele virundum bizarro de Ezrin, foi o grande sucesso do disco. Foi o primeiro Top 40 da banda nos EUA e chegou ao sétimo lugar nas paradas no Canadá. Alice lembra da equipe de Shep ligando para as rádios para promover a música. Numa emissora de Detroit, o filho da diretora musical era fã de Alice, e queria que a banda fosse tocar em sua escola – e eles foram. A canção foi galgando espaço nas rádios aos poucos e virou o primeiro grande sucesso da banda.

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OS SHOWS. Alice e sua turma passaram a fazer alguns dos números de palco que tornaram a banda popular. Em Ballad of Dwight Fry, o cantor era retirado do palco por uma enfermeira e voltava vestido com uma camisa de força. Alice também fritava numa cadeira elétrica no palco. Aliás, o número em que Alice é guilhotinado surgiria só em 1973, na turnê Billion dollar babies. Rolava tanta grana na turnê de Love it to death que a banda comprou uma uma mansão de quarenta e dois quartos em Connecticut.

A COBRA VAI SUBIR. Outro número típico de Alice surgiu na época de Love it. No backstage de um dos shows, uma groupie apareceu com uma jibóia enrolada nos braços. A cobra não era enorme, mas mesmo assim Alice se assustou. Mas teve uma ideia: “Se eu fiquei com medo, outras pessoas vão ficar!”. A equipe adotou uma jiboia de 4 metros e meio, com a qual Alice se enrolaria nas apresentações.

SEU VENENO (NÃO) É CRUEL. A jiboia constritora, que Alice usava em seus shows, não é uma cobra venenosa. Ela apenas pode matar sua presa por constrição, impedindo o fluxo sanguíneo ou enforcando. Não que isso já não seja algo assustador. Mas Alice jura que não sentia medo e que desenvolveu uma maneira de lidar com a cobra. Para evitar que ela ficasse com medo de cair de cima dele, e acabasse enforcando o cantor quando estivesse enrolada em seu pescoço, ele a pegava pela cabeça e pelo rabo. “Não é da natureza da cobra matar você. Elas te olham esperando que você lhe dê um rato para comer uma hora mais tarde”, conta. Alice jura que nunca foi atacado por cobra nenhuma, e que geralmente os animais com os quais lida são dóceis.

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MAS E A CAPA? Ah, sim, tem a capa de Love it to death, primeiro layout bem resolvido da banda. Se na contracapa a banda esbanjava atitude rock’n roll, a capa posicionava Alice Cooper com folga no rol do glam rock. Os cinco integrantes da Alice Cooper Band, todos no rigor da antimoda glitter, apareciam iluminados por um spot como se fossem luzes de um carro de polícia, num efeito que também daria super certo dois anos depois na capa de Band on the run, dos Wings.

Várias coisas que você já sabia sobre “Love it to death”, de Alice Cooper

JUSTAMENTE por causa desse efeito “moderno” pretendido, não foi por acaso que a Warner decidiu que as fotos seriam feitas por Roger Prigent, fotógrafo nascido no Vietnã, que costumava trabalhar com imagens de moda, e já havia clicado capas de discos de Nancy Wilson e Barbra Streisand.

SÓ QUE… a imagem da capa de Love it gerou polêmica. E não foi por causa das roupas de corte feminino e do vestido que Alice usa. O cantor aparece com o dedo médio para baixo, simulando um pênis, nas primeiras edições. A Warner depois mandaria para as lojas uma edição sem o maldito dedo.

Várias coisas que você já sabia sobre "Love it to death", de Alice Cooper

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E DEPOIS? E depois a popularidade de Alice ficaria tão grande que ele conseguiria fazer algo que seus ídolos dos Beatles e dos Rolling Stones fizeram: dois discos por ano. Killer sairia em novembro de 1971 com hits como Under my wheels e uma cobra na capa – o animal já era “atração especial” dos shows da banda. A Alice Cooper Band duraria até 1975, quando Alice sairia em “carreira solo”, tendo sempre Bob Ezrin como escudeiro, produtor e uma das primeiras pessoas a ouvir músicas novas do cantor – mesmo quando não produz os discos.

Com infos dos livros Who wrote the book of love?, de Richard Crouse, e Alice Cooper: Golf monster – A rock’n’roller’s 12 steps to becoming a golf addict, de Alice Cooper, com Keith e Keny Zimmerman.

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No nosso podcast, os primeiros anos do Soft Cell

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No nosso podcast, os primeiros anos do Soft Cell

O Soft Cell tá vindo aí pela primeira vez. A dupla de Marc Almond e Dave Ball se apresenta no Brasil em maio, e vai trazer – claro – seu principal hit, Tainted love. Uma música que marcou os anos 1980 e vem marcando todas as décadas desde então, e que deu ao Soft Cell um conceito todo próprio – mesmo não sendo (você deve saber) uma canção autoral. Era um dos destaques de seu álbum de estreia, Non stop erotic cabaret (1981), um dos grandes discos da história do synth pop.

No nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, voltamos lá no comecinho do Soft Cell, mostramos a relação da dupla com uma das cidades mais fervilhantes da Inglaterra (Leeds) e damos uma olhada no que é que está impresso no DNA musical dos dois – uma receita que une David Bowie, T Rex, filmes de terror, Kenneth Anger, sadomasoquismo e vários outros elementos.

Século 21 no podcast: Red Cell e Noporn.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch. Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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Relembrando: Mick Ronson, “Play don’t worry”

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Guitarrista de David Bowie na fase Spiders From Mars, Mick Ronson foi uma promessa injustamente não cumprida como artista solo. Inicialmente teve cobertura da Mainman (mesma empresa que cuidava de Bowie nessa fase), contrato com a RCA, interesse da mesma imprensa que cobria o dia a dia dos popstars do glam rock, certa migração de fãs do cantor de Starman.

Até porque Ronson estreou com treze shows no Reino Unido em março de 1974, quando Bowie estava fora dos palcos. E o guitarrista volta e meia era chamado de “substituto” de seu patrão. Ironicamente o próprio Bowie ficaria com ciúmes de sua “cria”, começando a armar sua volta aos palcos a partir daí. Esbarraria no fato de que a turnê solo do guitarrista havia comido uma boa parte da grana que seria investida em sua própria carreira, mas isso é outra história.

No começo, Ronson era um músico desprotegido a ponto de, mesmo sendo mais velho que Bowie e sua mulher Angie, ser cuidado pelo casal como se fosse um irmão mais novo. Com Bowie, chamou a atenção das plateias e foi um quase parceiro. Merecia ter ganhado crédito de co-autor em faixas de discos como The man who sold the world, de 1970, cuja gravação havia sido marcada pelo desapego do maior interessado, que era o próprio Bowie. Como compensação, fica o fato de que é impossível lembrar de músicas como Life on Mars? e Starman sem lembrar das guitarras de Ronson.

Surgiu a chance de tornar-se artista solo, quando Bowie havia resolvido ficar longe dos palcos. O repertório da estreia de Ronson, Slaughter on 10h avenue (1974), unia as duas faces do músico, um cara que tocava guitarra como se o instrumento viesse do espaço sideral, e também regia orquestras, além de tocar piano.

Era o disco da hard roqueira Only after dark, do blues glam I’m the one (de Annette Peacock, musicista pioneira dos sons eletrônicos que também gravava pela RCA naquele período). E da grandiloquência da faixa título (uma canção dos anos 1930 revisitada), do romantismo de Love me tender (aquela mesma, imortalizada por Elvis Presley). Mick, por sua vez, era o guitarrista experiente que tinha talento dramático a ponto de fazer um anúncio-curta metragem para divulgar Slaughter – a foto da capa, que trazia o guitarrista chorando, era um trecho do tal filme.

Muita coisa contribuiria para afastar a Mainman de Ronson e entre elas, estava o fato da relação entre Bowie e o empresário Tony Defries estar saindo do controle e ter chegado a um ponto bem complicado em 1974.Por acaso, foi em janeiro de 1975 que saiu Play don’t worry, o segundo disco do guitarrista.

Era mais um disco realizado sob as barbas de Pin-ups, disco de covers de Bowie (1973). O primeiro de Ronson havia sido gravado com a mesma banda do cantor na época, assim que o serviço no disco do patrão terminara. Já em Play, Mick reaproveitava uma backing track realizada para Pin ups, e nunca lançada: a da versão de White light/white heat, do Velvet Underground, mais viva e pesada que a original, e uma das melhores faixas do disco de um compositor e guitarrista que, ao se tornar um intérprete e fazedor de covers, quase sempre acertava.

Play don’t worry tinha a mesma aparência ora melancólica, ora feliz do disco anterior. Era o disco da balada glam Angel nº9, releitura do grupo country-rock Pure Prairie League (de cuja gravação original Mick havia participado fazendo arranjos), e do agito de Girl can’t help it, clássico do repertório de Little Richard, relido em clima protopunk. Outro rock countryficado do Pure Prairie League, Woman, encerrava o álbum. Por outro lado, Empty bed, versão de Io me ne andrei, do pop-roqueiro italiano Claudio Baglioni, era um baladão romântico, pronto para entrar em trilha de novela no Brasil (infelizmente não entrou).

Ronson aparecia como autor apenas em duas faixas, talvez escolhidas a dedo para mostrar que nem tudo ali eram flores. Play don’t worry, feita ao lado do amigo produtor e compositor Bob Sargeant, falava sobre os altos e baixos da vida, e era a provável admissão de que a vida de potencial rockstar havia trazido mais problemas do que soluções. Hazy days, faixa-solo, trazia aquelas discussões sobre a obsolescência programada do pop, típicas da própria música de Bowie (“o que você vai fazer agora, quando você achar que estou no passado?”, diz a letra).

Parecia recado para alguém. Talvez para o próprio Ronson, que não se sentia nem um pouco confortável ou feliz como artista solo. “Sabia que as pessoas perceberiam meu desconforto na plateia e eu não queria isso”, chegou a afirmar o músico, que também considerava a vida de popstar solo algo parecido como ter dúvidas e ter que responder suas próprias dúvidas, sem contar com a parceria de ninguém.

Mick respondeu suas próprias dúvidas quando resolveu, ainda com Play don’t worry em curso, juntar-se ao Mott The Hoople, banda do amigo Ian Hunter. O Mott estava com os dias contados e restou a Mick voltar à vida de músico contratado. Gravou com muita gente, mas ficou conhecido pelas colaborações com Ian, com quem chegou a gravar um disco em dupla – Yui orta, de 1990. Infelizmente tornou-se menos reconhecido do que deveria, e a decepção com as expectativas do pop tornou-se um vazio nunca devidamente preenchido.

Mick morreu em 29 de abril de 1993, já resgatado para as novas gerações. Pouco antes, havia produzido Your arsenal, de Morrissey, e tinha se juntado a David Bowie, a Ian Hunter e aos remanescentes do Queen no concerto de tributo a Freddie Mercury. A notícia de sua partida ressoa até hoje como os últimos ruídos de guitarra de Play don’t worry, a canção. São sons que desaparecem aos poucos, como numa transmissão de TV cheia de interferências que vai sumindo. Nossa sorte é que o recado estava dado: “Não pense muito neles/comece a sonhar novamente com o amanhã”.

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Os discos do poeta John Sinclair

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Os discos do poeta John Sinclair

O nome de John Sinclair, morto nesta terça (2) aos 82 anos. não é tão estranho assim para o fã de rock clássico. Afinal, ele foi empresário do MC5 na época do disco Kick out the jams (1969), foi homenageado por John Lennon numa música justamente chamada John Sinclair (de 1972) e até mesmo aquele discurso que o ativista Abbie Hoffman tentou fazer durante o show do Who no Festival de Woodstock (1969) aconteceria para conscientizar as pessoas em relação à situação de John. Que estava encarcerado por tráfico após vender maconha a um policial disfarçado.

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John havia sido condenado a dez anos de prisão, uma arbitrariedade. Mas foi solto em 1971 quatro deias depois de Lennon organizar um comício por sua liberdade, ao lado de Bob Seger, Stevie Wonder, Bobby Seale (do Partido dos Panteras Negras) e outros. Assim que saiu da prisão, Sinclair mergulhou de cabeça no ativismo pró-maconha e na produção de livros e escritos de poesia. Só que como seu estilo de texto tem tudo a ver com a cadência do jazz, pela maneira como é escrito e declamado, normal que ele não tenha ficado restrito aos livros, jornais e revistas. Tanto que dos anos 1990 para cá, ele vinha acumulando uma discografia bem grande.

Em 1994, por exemplo, saiu Full moon night, primeiro disco no qual Sinclair aparecia acompanhado pela agremiação variável de músicos que ganhou o nome de The Blues Scholars. O disco trazia textos como Homage to John Coltrane, Spiritual e Like Sonny, e saiu direto em CD por um selo chamado Total Energy, responsável por lançamentos retrospectivos de pré-punk – álbuns escarafunchando os baús de grupos como The Deviants, The New Race e o próprio MC5 saíram por esta etiqueta. Em 1996 saiu Full circle, mais um CD de Sinclair e sua banda, com participação de ninguém menos que o ex-MC5 Wayke Kramer, morto recentemente.

Um outro álbum bastante significativo de Sinclair saiu em 2008, com o nome de sua banda modificado para His Motor City Blues Scholars. É o ao vivo Detroit life, trazendo 15 faixas entre o jazz e o blues, com John declamando (às vezes bem alto, com voz gutural) textos de inspiração beat como The screamers, April in Paris, Let’s call this e Walking on a tightrope. As músicas são grandes, e boa parte dos números é quase instrumental, cabendo intervenções de John lá pelos dois minutos de faixa, em alguns casos.

A discografia de Sinclair inclui também vários discos apenas com seu nome (o mais recente é Beatnik youth, de 2017) além de álbuns impressionante feitos com a banda de jazz experimental e ruidoso Hollow Bones – como Honoring the local gods, de 2011. Já o percussivo PeyoteMind, de 2002, foi gravado ao lado da banda de psicojazzfolk Monster Island, e traz recordações de uma viagem feita em 1963 sob o efeito do psicoativo peiote.

Esse material vem encontrando relativamente poucos ouvintes nas plataformas – no Spotify, John tem apenas 207 (207!) ouvintes mensais. Não são discos muito divulgados –  enfim, poesia e jazz não formam exatamente uma combinação de sucesso. E saíram por selos independentes de alcance restrito. Mas boa parte do que Sinclair gravou está lá, e está ao alcance de futuros fãs – mesmo com a barreira da língua, tem a declamação de John e a maneira como ele faz tudo parecer uma espécie de jazz maldito e tribal. Além do seu ativismo anti-capitalismo, pró-maconha e pró-liberdade de expressão, perceptível em vários versos.

E só pra complementar, um material multimídia recente e importantíssimo saiu justamente da última aparição ao vivo de Sinclair. Em Paris, no dia 16 de fevereiro, ele leu o longo poema 21 days in jail, gravado por uma pessoa da plateia. A letra já havia sido musicada e gravada por ele com os Blues Scholars, mas aqui aparece sendo lida pelo autor.

Foto: Wikipedia.

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