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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre “Love it to death”, de Alice Cooper

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Várias coisas que você já sabia sobre "Love it to death", de Alice Cooper

Bem antes de Love it to death, o terceiro disco (1971), a ideia de Alice Cooper (que, nessa época, era uma banda) já era apavorar as pessoas. Nem sempre dava certo. Até o segundo álbum, Easy action (1970), Alice e seus colegas Glen Buxton (guitarra), Michael Bruce (guitarra, teclados), Dennis Dunaway (baixo) e Neal Smith (bateria) ainda eram vistos como uma “coisa” excêntrica, o último espirro de bica da psicodelia. Eram olhados com desdém pela crítica, não vendiam discos e os sustos ainda eram dosados. Muito embora a má impressão que a banda deixava em algumas pessoas tenha rendido até mesmo a atenção de Frank Zappa, rápido ao contratar o grupo para seu selo Straight.

Só que algumas coisas foram mudando e o sucesso foi aparecendo. A Warner viu potencial ultrajante na Straight, gravadora do padrinho Zappa, e comprou o selo. Em 1969, praticamente sem saber o que estava fazendo, Alice Cooper soltou uma galinha (viva) no palco do Toronto Music Festival, que foi estraçalhada pela plateia. Em decorrência disso, o cantor virou assunto da noite para o dia. Mas além disso, cansados de tentar impressionar a plateia hippie da Califórnia, aonde faziam quase todos os seus shows, os cinco resolveram se mudar para Detroit. Que aliás era a terra do próprio líder do grupo (o cidadão americano Vincent Furnier, mais conhecido como Alice Cooper).

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Lá, a turma de beberrões que formava a banda sentiu-se bem mais à vontade, perto de bandas pré-punk e de um público mais selvagem. A chegada de novos nomes no universo do rock e a emergência da estética glam também ajudaram a fazer com que o humor de Alice começasse a coincidir com o do público. Love it to death, lançado em 9 de março de 1971, foi o primeiro fruto dessa fase de sucessos, com hits como I’m eighteen e Caught in a dream, além de shows nos quais Alice aparecia de camisa de força, ou era executado numa cadeira elétrica.

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Sem Love it to death não existiria Detroit stories, novo disco de Alice, lançado há pouco tempo sem shows por causa da pandemia da covid-19. A noção de que deve existir uma música para chocar e deixar plateias “respeitáveis” irritadas também veio dos primeiros grandes hits de Alice, gerados em apenas dois meses de estúdio no fim de 1970. Mas finalmente, com produção adequada e objetivos definidos.

E segue aí nosso relatório sobre esse clássico. Ouça lendo e leia ouvindo.

ESTRANHÃO. Ouvidos hoje, Pretties for you (1969) e Easy action (1970), os dois primeiros álbuns de Alice Cooper, soam como estranhas tentativas de se compor uma espécie de “ópera” assustadora de rádio, com momentos de calmaria, tons assustadoramente belos (o tema-de-musical Beautiful flyaway, tocado ao piano e cantado por Michael Bruce) e vinhetas estranhas (BB on Mars).

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ALIÁS E A PROPÓSITO, no primeiro disco, a banda sequer teve produtor no estúdio e gravou um ensaio com várias canções que mal estavam terminadas. Frank Zappa, que mal esteve no estúdio durante a gravação, passou lá no final e deu um confere no que tinha sido gravado. Ouviu, considerou que a banda já tinha um disco, mandou prensar, embalar e pronto. Lester Bangs, da Rolling Stone, considerou que a banda era “totalmente dispensável”. Outro crítico viu no disco “uma perda trágica de vinil”. Vale lembrar: estávamos numa época em que jornalistas resenhavam discos afirmando que se matariam se a banda que eles odiavam fizesse sucesso.

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INCRIVELMENTE, Alice Cooper, mesmo seguindo uma cartilha totalmente abilolada, tinha ambições bem significativas. Ele dizia pelos cantos que adoraria que sua banda tivesse a mesma fama dos Beatles e dos Rolling Stones, e acreditava no sucesso popular das táticas de choque que pretendia fazer no palco (algumas delas, evidentemente, ficavam para quando a banda tivesse mais dinheiro).

SHEP GORDON, o diligente empresário da Alice Cooper Band, fazia das suas para tentar conseguir sucesso para o grupo. Primeiro, voou até Toronto, no Canadá, para aporrinhar Jack Richardson, um produtor de sucesso, que havia concebido os compactos mais vendidos do Guess Who (American woman entre eles). Shep queria porque queria que Richardson topasse produzir Alice Cooper. Mas Jack ouviu Alice, não curtiu e “não queria ter nada a ver com a gente”, nas palavras do próprio cantor.

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AINDA ASSIM, Shep agendou uma série de shows para o grupo em clubes locais e ainda conseguiu enfiar a banda no Toronto Music Festival, após bater na porta dos produtores e oferecer-se para ajudá-los na produção e a “vender ingressos”. Deu certo e mais de 60 mil tíquetes foram vendidos. Na hora de combinar pagamento, Shep lustrou a cara de pau e disse: “Não quero dinheiro nenhum. Apenas ponha Alice Cooper entre os shows dos Doors e de John Lennon e estamos conversados”. Supreendentemente, deu certo.

PENAS PARA TODO LADO. Alice era tão pobre, mas tão pobre, que o máximo de “terror” a que se permitia no fim das apresentações era furar travesseiros de penas e disparar tudo em direção à plateia com tanques de gás. Dava certo por onde a banda passava e daria certo em Toronto. Só que pouco antes disso, Alice deparou com a tal galinha viva, no palco, que jogou na plateia. Alguém tinha colocado o bicho lá, e Alice ou simplesmente achou que a penosa não seria atacada ou não se importou.

NO DIA seguinte, só se falava de uma coisa: Alice tinha matado uma galinha em pleno palco. Não foi bem o que ele fez, mas não importava – até porque àquela altura dos acontecimentos, já circulava uma versão jurando que ele havia bebido o sangue dela na frente da plateia. “Eu só achava que se uma galinha tinha asas, ela iria voar”, contou, singelamente. “Zappa me ligou perguntando se eu tinha mesmo estraçalhado uma galinha e eu disse: ‘Não exatamente’”, disse Alice, que ficou surpreso com a resposta do patrão: “Então não diga nada a ninguém. Todo mundo odeia você. Isso significa que a molecada vai te adorar”, disse Zappa.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, Shep resolveu, como quem não queria nada, ligar para Richardson e perguntar o que ele havia achado da história da galinha. Não muito impressionado, Jack soltou um “ouvi falar”. Em seguida, disse a Shep que iria mandar para encontrar com eles um garoto de vinte e poucos anos, que trabalhava com ele (“é um aprendiz”, afirmou) e entendia um pouco de produção. Um sujeito que mudaria a vida de Alice.

O CARA QUE FEZ DAR CERTO. Bob Ezrin, o tal “aprendiz”, era um garoto cabeludo de 21 anos, canadense, fã de música clássica, que estava sendo mentorado por Richardson. A primeira vez que viu Alice e sua turma ao vivo, foi durante um show no Max’s Kansas City, em Nova York – aliás, Andy Warhol e sua trupe estavam na plateia.

DEU CERTO? Deu, mas foi complicado. Antes do show, Ezrin havia encontrado com a galera num hotel, e Alice recorda-se do produtor ter ficado meio chocado quando viu o look da rapaziada. “Parecia que ele tinha aberto um pacote-surpresa e encontrado um monte de vermes dentro”, recorda. Mas Bob curtiu o som e ficou mais impressionado ainda com o ambiente, cheio de garotas com roupas de spandex, gente com aranhas pintadas no olho e fãs sabendo palavra por palavra das canções de Alice. “Aquilo era rock-teatro, com participação da audiência”, exaltou.

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APESAR de Bob ter cuidado de tudo em Love it to death, Jack não saiu tão de perto assim. Ezrin, ao voltar a Toronto, fez questão de dizer a ele que havia visto um movimento cultural, mais do que uma banda. Jack, que era a principal escolha de Shep e de Alice, topou manter seu nome na história. Mas desde que seu mentorado ficasse na frente e cuidasse de tudo (por isso é que o LP tem créditos para os dois).

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ALIÁS E A PROPÓSITO, Ezrin, durante o tal show em Nova York, curtiu especialmente uma canção cuja letra dizia “I’m edgy…” e disse isso ao grupo. “Mas não tocamos nenhuma canção com esse nome!”, respondeu Alice. “Tocaram sim, era ‘I’m edgy…’”, cantarolou. Só que o produtor estava se referindo ao futuro hit I’m eighteen, praticamente um rugido bêbado de Cooper.

ROCK DO CELEIRO. A Alice Cooper Band costumava ensaiar num celeiro em Pontiac, perto de Detroit. Ezrin foi lá conhecer o local e fez uma proposta à banda, que vinha de dois discos mal resolvidos: eles fariam shows no fim de semana, e nos dias úteis, ensaios de doze horas no tal do celeiro até o material do novo disco ficar perfeito.

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O QUE SE VIU foi um trabalho de desconstrução. Capaz de arroubos quase rudes de sinceridade, Ezrin focou primeiro nos vocais de Alice, e fez questão de informar que ele não tinha assinatura vocal. “Quando as pessoas ouvem Jim Morrison, sabem que é Jim Morrison. O mesmo com John Lennon. Quando ouço Alice Cooper, não há assinatura. As pessoas podem adorar o show, mas não há algo que defina a voz e a música”, atacou impiedosamente. Bob botou Alice para cantar de todos os jeitos possíveis. Aliás, praticamente ensinou novamente cada músico da banda a tocar seu instrumento, em busca de um som particular para cada um.

O PRODUTOR também interferiu nas composições. Bob ensinou a banda a cortar o que não interessava e a deixar as letras simplificadas, “como as dos Stooges”, diz Alice. Mas o principal estava lá: numa época em que todo mundo parecia se levar a sério, Alice Cooper tinha muito humor. Afinal, era uma banda que falava de inadequação (I’m eighteen, Is it my body), diversões que acabam mal (Caught in a dream, batendo firme no tropo narrativo do “eu era famoso e rico, até que acordei”), horrores da guerra (Ballad of Dwight Fry e Second coming), diatribes bíblicas (Halloweed by my name).

DWIGHT FRY OU FRYE? Existiu um ator de cinema chamado Dwight Frye, que teve uma notável carreira entre os anos 1920 e 1940. Uma coisa ele tem em comum com seu quase-xará – com diferença de um “e” que Alice suprimiu: após fazer papéis de figurinha fora do padrão em filmes como Dracula e Frankenstein, nunca mais conseguiu se livrar de fazer o maníaco, o cara estranho. Morreu em 1943 ao conseguir seu primeiro papel “sério” em Hollywood, no filme Wilson (falamos do Dwight aqui).

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O FINAL do disco era tão venturoso quanto fosse possível, com Sun arise, única cover do disco. Originalmente tinha sido lançada em 1961 pelo coautor, o cantor e compositor australiano Rolf Harris. Harry Butler, parceiro dele, havia falado a ele detalhes das crenças aborígenes, e a letra surgiu inspirada pelos cultos ao “nascer do sol” nessas tribos.

O ORIGINAL de Rolf Harris foi lançado pela EMI britânica e produzido por ninguém menos que George Martin, que por aqueles tempos dirigia o selo Parlophone, ligado a álbuns de comédia, novelty records e maluquices em geral. Foi hit imediato nos EUA e Inglaterra. Rolf teria carreira prolífica como humorista e cantor por várias décadas. Em 2014, sua carreira acabou: foi condenado e preso por agressão sexual de garotas menores de idade.

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E SAIU O DISCO. O lançamento de Love it to death trazia algumas novidades para a banda. O selo Straight deixaria de existir e a banda assinaria contrato com a Warner, sob os auspícios de Shep – apesar de Love… sair com selo Straight/Warner em edições subsequentes. Zappa iniciou outro negócio envolvendo a Warner, o selo DiscReet, que durou até 1979, mas Alice Cooper não estava envolvido com isso. Outra novidade é que a crítica pela primeira vez abraçava o grupo. A Billboard chegou a chamar o disco de “rock de terceira geração, artisticamente absurdo”. A Rolling Stone classificou-o como “oásis no deserto de lobotomia”. O álbum conquistou discos de ouro e platina e gerou interesse pela discografia anterior de Cooper.

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NO BRASIL, o lançamento de Love it to death chegou a ser anunciado em alguns lugares. A coluna A música de hoje em dia, do Jornal do Brasil de 18 de abril de 1971 avisou que o álbum estava saindo nos EUA. Mas o álbum só chegaria às lojas daqui em vinil nacional em 1974, via Continental.

O HIT. I’m eighteen, a música que gerou aquele virundum bizarro de Ezrin, foi o grande sucesso do disco. Foi o primeiro Top 40 da banda nos EUA e chegou ao sétimo lugar nas paradas no Canadá. Alice lembra da equipe de Shep ligando para as rádios para promover a música. Numa emissora de Detroit, o filho da diretora musical era fã de Alice, e queria que a banda fosse tocar em sua escola – e eles foram. A canção foi galgando espaço nas rádios aos poucos e virou o primeiro grande sucesso da banda.

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OS SHOWS. Alice e sua turma passaram a fazer alguns dos números de palco que tornaram a banda popular. Em Ballad of Dwight Fry, o cantor era retirado do palco por uma enfermeira e voltava vestido com uma camisa de força. Alice também fritava numa cadeira elétrica no palco. Aliás, o número em que Alice é guilhotinado surgiria só em 1973, na turnê Billion dollar babies. Rolava tanta grana na turnê de Love it to death que a banda comprou uma uma mansão de quarenta e dois quartos em Connecticut.

A COBRA VAI SUBIR. Outro número típico de Alice surgiu na época de Love it. No backstage de um dos shows, uma groupie apareceu com uma jibóia enrolada nos braços. A cobra não era enorme, mas mesmo assim Alice se assustou. Mas teve uma ideia: “Se eu fiquei com medo, outras pessoas vão ficar!”. A equipe adotou uma jiboia de 4 metros e meio, com a qual Alice se enrolaria nas apresentações.

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SEU VENENO (NÃO) É CRUEL. A jiboia constritora, que Alice usava em seus shows, não é uma cobra venenosa. Ela apenas pode matar sua presa por constrição, impedindo o fluxo sanguíneo ou enforcando. Não que isso já não seja algo assustador. Mas Alice jura que não sentia medo e que desenvolveu uma maneira de lidar com a cobra. Para evitar que ela ficasse com medo de cair de cima dele, e acabasse enforcando o cantor quando estivesse enrolada em seu pescoço, ele a pegava pela cabeça e pelo rabo. “Não é da natureza da cobra matar você. Elas te olham esperando que você lhe dê um rato para comer uma hora mais tarde”, conta. Alice jura que nunca foi atacado por cobra nenhuma, e que geralmente os animais com os quais lida são dóceis.

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MAS E A CAPA? Ah, sim, tem a capa de Love it to death, primeiro layout bem resolvido da banda. Se na contracapa a banda esbanjava atitude rock’n roll, a capa posicionava Alice Cooper com folga no rol do glam rock. Os cinco integrantes da Alice Cooper Band, todos no rigor da antimoda glitter, apareciam iluminados por um spot como se fossem luzes de um carro de polícia, num efeito que também daria super certo dois anos depois na capa de Band on the run, dos Wings.

Várias coisas que você já sabia sobre “Love it to death”, de Alice Cooper

JUSTAMENTE por causa desse efeito “moderno” pretendido, não foi por acaso que a Warner decidiu que as fotos seriam feitas por Roger Prigent, fotógrafo nascido no Vietnã, que costumava trabalhar com imagens de moda, e já havia clicado capas de discos de Nancy Wilson e Barbra Streisand.

SÓ QUE… a imagem da capa de Love it gerou polêmica. E não foi por causa das roupas de corte feminino e do vestido que Alice usa. O cantor aparece com o dedo médio para baixo, simulando um pênis, nas primeiras edições. A Warner depois mandaria para as lojas uma edição sem o maldito dedo.

Várias coisas que você já sabia sobre "Love it to death", de Alice Cooper

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E DEPOIS? E depois a popularidade de Alice ficaria tão grande que ele conseguiria fazer algo que seus ídolos dos Beatles e dos Rolling Stones fizeram: dois discos por ano. Killer sairia em novembro de 1971 com hits como Under my wheels e uma cobra na capa – o animal já era “atração especial” dos shows da banda. A Alice Cooper Band duraria até 1975, quando Alice sairia em “carreira solo”, tendo sempre Bob Ezrin como escudeiro, produtor e uma das primeiras pessoas a ouvir músicas novas do cantor – mesmo quando não produz os discos.

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Com infos dos livros Who wrote the book of love?, de Richard Crouse, e Alice Cooper: Golf monster – A rock’n’roller’s 12 steps to becoming a golf addict, de Alice Cooper, com Keith e Keny Zimmerman.

Cinema

Mulheres do punk no Reino Unido, em documentário

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Mulheres do punk no Reino Unido, em documentário

Se você só tiver tempo de ver UM filme sobre música em algum momento do dia de hoje, veja este. She’s a punk rocker UK é um filme ultra-hiper-independente, dirigido durante vários anos por Zillah Minx, a vocalista do grupo gótico-anarco-punk Rubella Ballet, e que conta a história do punk feito por mulheres no Reino Unido. Entre as fontes, tem gente muito conhecida, como Poly Styrene (X-Ray Spex) e Eve Libertine (Crass).

No filme, dá pra ver também os depoimentos de nomes como Caroline Coon, que durante um tempinho foi empresária do Clash e trabalhou com a banda num especial período de confusão – quando a banda ainda era um incompreendido nome da CBS britânica que não conseguia estourar nos Estados Unidos de jeito nenhum (opa, fizemos um podcast sobre isso).

Um depoimento interessante é o de Mary, uma punk veterana que trabalhou por uns tempos como segurança de Poly Styrene, cantora do X-Ray Spex. Tanto ela quanto Poly lembram que o  público dos shows era meio violento em alguns lugares – com “fãs” jogando cerveja e cuspindo na plateia para demonstrar que estavam gostando da apresentação (era comum). Logo no começo do documentário, entrevistadas como Rachel Minx (também do Rubella Ballet) contam que nem tinham uma ideia exata de que elas eram punks quando começaram a adotar o visual típico do estilo – roupas rasgadas, maquiagem, reaproveitamento de peças usadas. Em vários casos, a ideia era se vestir diferente porque todas começaram a produzir suas próprias roupas – e a moda se refletia na música, nas letras e no comportamento.

A própria Zillah é uma figura importante e pouco citada do estilo musical, e viveu o estilo de vida punk antes mesmo dos Sex Pistols começarem a fazer sucesso. O filme dela  foi feito inicialmente com uma câmera emprestada e precisou passar por vários processos de edição durante vários anos. Apoiando o Patreon do projeto, aliás, você consegue ter acesso às integras de todas as entrevistas.

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Ela disse nesse papo aqui que foi aprendendo a fazer tudo sozinha, sem nenhum financiamento, com a ideia de responder algumas perguntas sobre a presença feminina no punk britânico. “Ser punk era perigoso, então por que tantas mulheres se tornaram punks? Foi apenas sobre vestir-se escandalosamente? Essas mulheres punk foram tratadas como membros iguais da subcultura e como foram tratadas pelo resto da sociedade? Como ser uma mulher punk afetou suas vidas? A mulher punk influenciou diretamente as atitudes da sociedade em relação às mulheres de hoje?”, disse.

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Cultura Pop

E os 30 anos de The End Of Silence, da Rollins Band?

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A relação de Henry Rollins com a Imago Records – selo que contratou sua Rollins Band no começo nos anos 1990 – acabou em briga. A gravadora e o cantor brigaram nos tribunais por alguns anos. Rollins havia recém mudado para a DreamWorks e era acusado de “quebra de contrato” e de ter mudado de selo por ter sido induzido pela nova casa. O artista alegava fraude e coerção econômica, e reclamava que a Imago tratava seus contratados como se fossem “bens móveis”. Com a mudança, algumas novidades aconteceram na vida do cantor, que chegou a ser fotografado jantando com Madonna (interessadíssima em levá-lo para seu selo Maverick) e deu margem até a boatos de um caso amoroso.

O surgimento de Rollins no mainstream, por outro lado, foi bem mais ameno – embora não menos cheio de trabalho e movimentações. Após alguns anos liderando o Black Flag, e sendo uma das figuras proeminentes do punk californiano, ele havia iniciado uma carreira solo com o álbum  Hot animal machine (1987), um precursor da Rollins Band, lançado pelo selo indie Texas Hotel, ao mesmo tempo em que mantinha carreira paralela como escritor e poeta, e gravava desconcertantes discos de spoken word, com seus textos biográficos e tristes – alguns deles escancarando a porta da misantropia.

Sua Rollins Band começou a ser tramada nessa época, e seria um projeto único: com o fortão Rollins à frente, bancando o herói punk californiano, o grupo daria passos além do punk, tocando uma mistura de metal (numa onda pré-stoner) e jazz rock, descambando para o noise rock e para as influências de grupos como Swans, Suicide e Velvet Underground. A política de Rollins, na hora de fazer as letras, era a da superação, do exorcismo de antigos fantasmas, do fim do silêncio em relação à opressão.

Lançado com uma turnê em que a Rollins Band abria para os Red Hot Chili Peppers, o trintão The end of silence, terceiro disco do grupo, chegou às lojas em 25 de fevereiro de 1992, já pela Imago, selo montado por Terry Ellis, fundador da gravadora Chrysalis. O disco abria direto com Rollins aconselhando o ouvinte e analisando detalhadamente a alienação e o autoabandono (Low self opinion).

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O cantor, que sofrera com pais abusivos e espancamentos nos tempos de escola, dava conselhos a si mesmo em Grip (“quando essas paredes se fecham ao seu redor/quando todos duvidam de você/quando o mundo pode viver sem você/mantenha-se no controle”). Comentava sobre relacionamentos que acabam em abandono, nas letras de You didn’t need e Tearing. Aos berros, narrava um encontro com seu pai, que costumava espancá-lo na infância, em Just like you.

The end of silence não é um disco agradável. Não que seja um disco ruim, mas ele soa pesado e desconfortável em vários momentos. A atmosfera é extremamente sombria. Rollins era acompanhado por um time de supermúsicos: Chris Haskett (guitarra), Sim Cain (bateria) e Andrew Weiss (baixo). Ao contrário de qualquer disco punk que você possa imaginar, as músicas são quilométricas. O álbum original dura 72 minutos, até mesmo no vinil. Blues jam, faixa de mais de onze minutos, foi tão improvisada em estúdio, até mesmo por Rollins, que sua letra nem sequer aparece no encarte.

Os shows, por sua vez, assustavam: enorme e tatuado, Rollins se movia pelo palco com uma fúria descomunal, impressionando desde novos fãs até gente bem experiente, como Wayne Kramer, do MC5, com quem o cantor chegou a trocar correspondência durante vários anos. O cantor era constantemente chamado para participar de programas da MTV, e acabou conseguindo até mesmo um papel no filme cyberpunk Johnny Mnemonic, de Robert Longo (1995).

Era de fato, o fim do silêncio para um dos maiores nomes do punk americano, cujo próximo passo musical com a Rollins Band seria o disco Weight (1994), um álbum bem mais sacolejante e de canções mais curtas – e nem por isso menos furioso, graças a músicas como Disconnect, Shine (uma canção anti-suicídio, lançada por acaso no mês de morte de Kurt Cobain) e Divine object of hatred. Pena que a discografia de Rollins hoje em dia não esteja nas plataformas digitais.

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Cinema

Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube

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Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube

Som alucinante, filme de Guga de Oliveira (irmão de Boni, ex-todo poderoso da Rede Globo), lançado nos cinemas em 1971, apareceu pela primeira vez na íntegra no YouTube há poucos dias. O filme traz um apanhado de shows do programa Som Livre Exportação, musical exibido pela Rede Globo entre 1970 e 1971. A produção foi feita no espírito do filme do festival de Woodstock, de Michael Wadleigh, com shows misturados a entrevistas com artistas, músicos, a equipe técnica tanto do festival quanto do filme, e com pessoas da plateia.

Logo no começo, o radialista paulistano Walter Silva (o popular Pica-Pau) resolve perguntar a uma mulher da plateia o que ela espera encontrar no show. Como resposta, recebe risos e um “ah, sei lá, dizem que tá bacana, né?”. Bom, de fato, o formato de festival não competitivo – ou de pacote de shows – ainda não era das coisas mais conhecidas aqui no Brasil.

Tudo ali era meio novidade, tanto o fato de tantos nomes estarem reunidos num mesmo evento, quanto o fato de vários nomes “alternativos”, de uma hora para outra, terem virado grandes atrações de um programa da Globo: Ivan Lins (em ascensão e fazendo seu primeiro show em São Paulo), Gonzaguinha, Mutantes, A Bolha, Ademir Lemos e até um deslocadíssimo grupo americano chamado Human Race – que apresentou uma cover de Paranoid, do Grand Funk. Para contrabalancear e garantir mais audiência ao programa, Elis Regina, Wilson Simonal e Roberto Carlos participaram da temporada de 1971 da atração (que mesmo assim continuou sem audiência, mas com sucesso de crítica). O show levado ao ar nessa temporada serviu de fonte para o documentário.

O que mais chama a atenção em Som alucinante, na real, não é nem mesmo a música. Bom, e isso ainda que o filme apresente uma entrevista bem interessante com um iniciante Gonzaguinha (que faz um excelente discurso sobre “não pensar no mercado e ser você mesmo”), uma Rita Lee aparentemente em órbita falando sobre “é bom ganhar dinheiro com o que se faz, né?”, Mutantes tocando José e Ando meio desligado, A Bolha tocando o gospel-lisérgico Matermatéria, Elis Regina dividindo-se entre os papéis de cantora e mestra de cerimônia. E também várias entrevistas com Milton Nascimento que não vão adiante, de tão constrangido que o cantor estava.

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O mais maluco no filme é que a plateia desmaia, e o tempo todo (!). Os fãs começam a empurrar uns aos outros e num determinado momento, a solução da produção é convidar os que estavam em maior situação de vulnerabilidade para subir no palco. Numa cena, um policial carrega uma garota desmaiada e ele próprio quase toma um estabaco.

Jogaram o documentário musical brasileiro Som Alucinante no YouTube

Companhias indesejáveis na plateia do Som Livre Exportação

Em outro momento, os fãs são puxados ao palco por policiais e pessoas da produção com uma tal intensidade, que aquilo fica parecendo uma tragédia bíblica. Ou um evento que estava mais para Altamont do que para Woodstock, porque era evidente que aquilo estava ficando perigoso. Especialmente porque militares circulavam na plateia e aparecem, em determinados momentos, atrás do palco, o que já explica todo aquele estresse.

Ah, sim a parte do “nós estamos todos reunidos nessa grande festa”, dos Mutantes (que aparece no documentário Loki?, sobre Arnaldo Baptista) foi tirada de Som alucinante. E pelo menos um crítico do Jornal do Brasil, Alberto Shatovsky, detestou a linguagem “moderna” do filme.

A sequência de Roberto Carlos no filme.

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E se você não reconheceu o sujeito de bigodes e cabelo black que aparece em alguns momentos no filme, é o Ademir Lemos, do Rap da rapa (lembra?). Era um dos apresentadores do Som Livre Exportação.

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