Cultura Pop
Várias coisas que você já sabia sobre “Love it to death”, de Alice Cooper

Bem antes de Love it to death, o terceiro disco (1971), a ideia de Alice Cooper (que, nessa época, era uma banda) já era apavorar as pessoas. Nem sempre dava certo. Até o segundo álbum, Easy action (1970), Alice e seus colegas Glen Buxton (guitarra), Michael Bruce (guitarra, teclados), Dennis Dunaway (baixo) e Neal Smith (bateria) ainda eram vistos como uma “coisa” excêntrica, o último espirro de bica da psicodelia. Eram olhados com desdém pela crítica, não vendiam discos e os sustos ainda eram dosados. Muito embora a má impressão que a banda deixava em algumas pessoas tenha rendido até mesmo a atenção de Frank Zappa, rápido ao contratar o grupo para seu selo Straight.
Só que algumas coisas foram mudando e o sucesso foi aparecendo. A Warner viu potencial ultrajante na Straight, gravadora do padrinho Zappa, e comprou o selo. Em 1969, praticamente sem saber o que estava fazendo, Alice Cooper soltou uma galinha (viva) no palco do Toronto Music Festival, que foi estraçalhada pela plateia. Em decorrência disso, o cantor virou assunto da noite para o dia. Mas além disso, cansados de tentar impressionar a plateia hippie da Califórnia, aonde faziam quase todos os seus shows, os cinco resolveram se mudar para Detroit. Que aliás era a terra do próprio líder do grupo (o cidadão americano Vincent Furnier, mais conhecido como Alice Cooper).
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Lá, a turma de beberrões que formava a banda sentiu-se bem mais à vontade, perto de bandas pré-punk e de um público mais selvagem. A chegada de novos nomes no universo do rock e a emergência da estética glam também ajudaram a fazer com que o humor de Alice começasse a coincidir com o do público. Love it to death, lançado em 9 de março de 1971, foi o primeiro fruto dessa fase de sucessos, com hits como I’m eighteen e Caught in a dream, além de shows nos quais Alice aparecia de camisa de força, ou era executado numa cadeira elétrica.
Sem Love it to death não existiria Detroit stories, novo disco de Alice, lançado há pouco tempo sem shows por causa da pandemia da covid-19. A noção de que deve existir uma música para chocar e deixar plateias “respeitáveis” irritadas também veio dos primeiros grandes hits de Alice, gerados em apenas dois meses de estúdio no fim de 1970. Mas finalmente, com produção adequada e objetivos definidos.
E segue aí nosso relatório sobre esse clássico. Ouça lendo e leia ouvindo.
ESTRANHÃO. Ouvidos hoje, Pretties for you (1969) e Easy action (1970), os dois primeiros álbuns de Alice Cooper, soam como estranhas tentativas de se compor uma espécie de “ópera” assustadora de rádio, com momentos de calmaria, tons assustadoramente belos (o tema-de-musical Beautiful flyaway, tocado ao piano e cantado por Michael Bruce) e vinhetas estranhas (BB on Mars).
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ALIÁS E A PROPÓSITO, no primeiro disco, a banda sequer teve produtor no estúdio e gravou um ensaio com várias canções que mal estavam terminadas. Frank Zappa, que mal esteve no estúdio durante a gravação, passou lá no final e deu um confere no que tinha sido gravado. Ouviu, considerou que a banda já tinha um disco, mandou prensar, embalar e pronto. Lester Bangs, da Rolling Stone, considerou que a banda era “totalmente dispensável”. Outro crítico viu no disco “uma perda trágica de vinil”. Vale lembrar: estávamos numa época em que jornalistas resenhavam discos afirmando que se matariam se a banda que eles odiavam fizesse sucesso.
INCRIVELMENTE, Alice Cooper, mesmo seguindo uma cartilha totalmente abilolada, tinha ambições bem significativas. Ele dizia pelos cantos que adoraria que sua banda tivesse a mesma fama dos Beatles e dos Rolling Stones, e acreditava no sucesso popular das táticas de choque que pretendia fazer no palco (algumas delas, evidentemente, ficavam para quando a banda tivesse mais dinheiro).
SHEP GORDON, o diligente empresário da Alice Cooper Band, fazia das suas para tentar conseguir sucesso para o grupo. Primeiro, voou até Toronto, no Canadá, para aporrinhar Jack Richardson, um produtor de sucesso, que havia concebido os compactos mais vendidos do Guess Who (American woman entre eles). Shep queria porque queria que Richardson topasse produzir Alice Cooper. Mas Jack ouviu Alice, não curtiu e “não queria ter nada a ver com a gente”, nas palavras do próprio cantor.
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AINDA ASSIM, Shep agendou uma série de shows para o grupo em clubes locais e ainda conseguiu enfiar a banda no Toronto Music Festival, após bater na porta dos produtores e oferecer-se para ajudá-los na produção e a “vender ingressos”. Deu certo e mais de 60 mil tíquetes foram vendidos. Na hora de combinar pagamento, Shep lustrou a cara de pau e disse: “Não quero dinheiro nenhum. Apenas ponha Alice Cooper entre os shows dos Doors e de John Lennon e estamos conversados”. Supreendentemente, deu certo.
PENAS PARA TODO LADO. Alice era tão pobre, mas tão pobre, que o máximo de “terror” a que se permitia no fim das apresentações era furar travesseiros de penas e disparar tudo em direção à plateia com tanques de gás. Dava certo por onde a banda passava e daria certo em Toronto. Só que pouco antes disso, Alice deparou com a tal galinha viva, no palco, que jogou na plateia. Alguém tinha colocado o bicho lá, e Alice ou simplesmente achou que a penosa não seria atacada ou não se importou.
NO DIA seguinte, só se falava de uma coisa: Alice tinha matado uma galinha em pleno palco. Não foi bem o que ele fez, mas não importava – até porque àquela altura dos acontecimentos, já circulava uma versão jurando que ele havia bebido o sangue dela na frente da plateia. “Eu só achava que se uma galinha tinha asas, ela iria voar”, contou, singelamente. “Zappa me ligou perguntando se eu tinha mesmo estraçalhado uma galinha e eu disse: ‘Não exatamente'”, disse Alice, que ficou surpreso com a resposta do patrão: “Então não diga nada a ninguém. Todo mundo odeia você. Isso significa que a molecada vai te adorar”, disse Zappa.
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ALIÁS E A PROPÓSITO, Shep resolveu, como quem não queria nada, ligar para Richardson e perguntar o que ele havia achado da história da galinha. Não muito impressionado, Jack soltou um “ouvi falar”. Em seguida, disse a Shep que iria mandar para encontrar com eles um garoto de vinte e poucos anos, que trabalhava com ele (“é um aprendiz”, afirmou) e entendia um pouco de produção. Um sujeito que mudaria a vida de Alice.
O CARA QUE FEZ DAR CERTO. Bob Ezrin, o tal “aprendiz”, era um garoto cabeludo de 21 anos, canadense, fã de música clássica, que estava sendo mentorado por Richardson. A primeira vez que viu Alice e sua turma ao vivo, foi durante um show no Max’s Kansas City, em Nova York – aliás, Andy Warhol e sua trupe estavam na plateia.
DEU CERTO? Deu, mas foi complicado. Antes do show, Ezrin havia encontrado com a galera num hotel, e Alice recorda-se do produtor ter ficado meio chocado quando viu o look da rapaziada. “Parecia que ele tinha aberto um pacote-surpresa e encontrado um monte de vermes dentro”, recorda. Mas Bob curtiu o som e ficou mais impressionado ainda com o ambiente, cheio de garotas com roupas de spandex, gente com aranhas pintadas no olho e fãs sabendo palavra por palavra das canções de Alice. “Aquilo era rock-teatro, com participação da audiência”, exaltou.
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APESAR de Bob ter cuidado de tudo em Love it to death, Jack não saiu tão de perto assim. Ezrin, ao voltar a Toronto, fez questão de dizer a ele que havia visto um movimento cultural, mais do que uma banda. Jack, que era a principal escolha de Shep e de Alice, topou manter seu nome na história. Mas desde que seu mentorado ficasse na frente e cuidasse de tudo (por isso é que o LP tem créditos para os dois).
ALIÁS E A PROPÓSITO, Ezrin, durante o tal show em Nova York, curtiu especialmente uma canção cuja letra dizia “I’m edgy…” e disse isso ao grupo. “Mas não tocamos nenhuma canção com esse nome!”, respondeu Alice. “Tocaram sim, era ‘I’m edgy…'”, cantarolou. Só que o produtor estava se referindo ao futuro hit I’m eighteen, praticamente um rugido bêbado de Cooper.
ROCK DO CELEIRO. A Alice Cooper Band costumava ensaiar num celeiro em Pontiac, perto de Detroit. Ezrin foi lá conhecer o local e fez uma proposta à banda, que vinha de dois discos mal resolvidos: eles fariam shows no fim de semana, e nos dias úteis, ensaios de doze horas no tal do celeiro até o material do novo disco ficar perfeito.
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O QUE SE VIU foi um trabalho de desconstrução. Capaz de arroubos quase rudes de sinceridade, Ezrin focou primeiro nos vocais de Alice, e fez questão de informar que ele não tinha assinatura vocal. “Quando as pessoas ouvem Jim Morrison, sabem que é Jim Morrison. O mesmo com John Lennon. Quando ouço Alice Cooper, não há assinatura. As pessoas podem adorar o show, mas não há algo que defina a voz e a música”, atacou impiedosamente. Bob botou Alice para cantar de todos os jeitos possíveis. Aliás, praticamente ensinou novamente cada músico da banda a tocar seu instrumento, em busca de um som particular para cada um.
O PRODUTOR também interferiu nas composições. Bob ensinou a banda a cortar o que não interessava e a deixar as letras simplificadas, “como as dos Stooges”, diz Alice. Mas o principal estava lá: numa época em que todo mundo parecia se levar a sério, Alice Cooper tinha muito humor. Afinal, era uma banda que falava de inadequação (I’m eighteen, Is it my body), diversões que acabam mal (Caught in a dream, batendo firme no tropo narrativo do “eu era famoso e rico, até que acordei”), horrores da guerra (Ballad of Dwight Fry e Second coming), diatribes bíblicas (Halloweed by my name).
DWIGHT FRY OU FRYE? Existiu um ator de cinema chamado Dwight Frye, que teve uma notável carreira entre os anos 1920 e 1940. Uma coisa ele tem em comum com seu quase-xará – com diferença de um “e” que Alice suprimiu: após fazer papéis de figurinha fora do padrão em filmes como Dracula e Frankenstein, nunca mais conseguiu se livrar de fazer o maníaco, o cara estranho. Morreu em 1943 ao conseguir seu primeiro papel “sério” em Hollywood, no filme Wilson (falamos do Dwight aqui).
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O FINAL do disco era tão venturoso quanto fosse possível, com Sun arise, única cover do disco. Originalmente tinha sido lançada em 1961 pelo coautor, o cantor e compositor australiano Rolf Harris. Harry Butler, parceiro dele, havia falado a ele detalhes das crenças aborígenes, e a letra surgiu inspirada pelos cultos ao “nascer do sol” nessas tribos.
O ORIGINAL de Rolf Harris foi lançado pela EMI britânica e produzido por ninguém menos que George Martin, que por aqueles tempos dirigia o selo Parlophone, ligado a álbuns de comédia, novelty records e maluquices em geral. Foi hit imediato nos EUA e Inglaterra. Rolf teria carreira prolífica como humorista e cantor por várias décadas. Em 2014, sua carreira acabou: foi condenado e preso por agressão sexual de garotas menores de idade.
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E SAIU O DISCO. O lançamento de Love it to death trazia algumas novidades para a banda. O selo Straight deixaria de existir e a banda assinaria contrato com a Warner, sob os auspícios de Shep – apesar de Love… sair com selo Straight/Warner em edições subsequentes. Zappa iniciou outro negócio envolvendo a Warner, o selo DiscReet, que durou até 1979, mas Alice Cooper não estava envolvido com isso. Outra novidade é que a crítica pela primeira vez abraçava o grupo. A Billboard chegou a chamar o disco de “rock de terceira geração, artisticamente absurdo”. A Rolling Stone classificou-o como “oásis no deserto de lobotomia”. O álbum conquistou discos de ouro e platina e gerou interesse pela discografia anterior de Cooper.
NO BRASIL, o lançamento de Love it to death chegou a ser anunciado em alguns lugares. A coluna A música de hoje em dia, do Jornal do Brasil de 18 de abril de 1971 avisou que o álbum estava saindo nos EUA. Mas o álbum só chegaria às lojas daqui em vinil nacional em 1974, via Continental.
O HIT. I’m eighteen, a música que gerou aquele virundum bizarro de Ezrin, foi o grande sucesso do disco. Foi o primeiro Top 40 da banda nos EUA e chegou ao sétimo lugar nas paradas no Canadá. Alice lembra da equipe de Shep ligando para as rádios para promover a música. Numa emissora de Detroit, o filho da diretora musical era fã de Alice, e queria que a banda fosse tocar em sua escola – e eles foram. A canção foi galgando espaço nas rádios aos poucos e virou o primeiro grande sucesso da banda.
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OS SHOWS. Alice e sua turma passaram a fazer alguns dos números de palco que tornaram a banda popular. Em Ballad of Dwight Fry, o cantor era retirado do palco por uma enfermeira e voltava vestido com uma camisa de força. Alice também fritava numa cadeira elétrica no palco. Aliás, o número em que Alice é guilhotinado surgiria só em 1973, na turnê Billion dollar babies. Rolava tanta grana na turnê de Love it to death que a banda comprou uma uma mansão de quarenta e dois quartos em Connecticut.
A COBRA VAI SUBIR. Outro número típico de Alice surgiu na época de Love it. No backstage de um dos shows, uma groupie apareceu com uma jibóia enrolada nos braços. A cobra não era enorme, mas mesmo assim Alice se assustou. Mas teve uma ideia: “Se eu fiquei com medo, outras pessoas vão ficar!”. A equipe adotou uma jiboia de 4 metros e meio, com a qual Alice se enrolaria nas apresentações.
SEU VENENO (NÃO) É CRUEL. A jiboia constritora, que Alice usava em seus shows, não é uma cobra venenosa. Ela apenas pode matar sua presa por constrição, impedindo o fluxo sanguíneo ou enforcando. Não que isso já não seja algo assustador. Mas Alice jura que não sentia medo e que desenvolveu uma maneira de lidar com a cobra. Para evitar que ela ficasse com medo de cair de cima dele, e acabasse enforcando o cantor quando estivesse enrolada em seu pescoço, ele a pegava pela cabeça e pelo rabo. “Não é da natureza da cobra matar você. Elas te olham esperando que você lhe dê um rato para comer uma hora mais tarde”, conta. Alice jura que nunca foi atacado por cobra nenhuma, e que geralmente os animais com os quais lida são dóceis.
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MAS E A CAPA? Ah, sim, tem a capa de Love it to death, primeiro layout bem resolvido da banda. Se na contracapa a banda esbanjava atitude rock’n roll, a capa posicionava Alice Cooper com folga no rol do glam rock. Os cinco integrantes da Alice Cooper Band, todos no rigor da antimoda glitter, apareciam iluminados por um spot como se fossem luzes de um carro de polícia, num efeito que também daria super certo dois anos depois na capa de Band on the run, dos Wings.

JUSTAMENTE por causa desse efeito “moderno” pretendido, não foi por acaso que a Warner decidiu que as fotos seriam feitas por Roger Prigent, fotógrafo nascido no Vietnã, que costumava trabalhar com imagens de moda, e já havia clicado capas de discos de Nancy Wilson e Barbra Streisand.
SÓ QUE… a imagem da capa de Love it gerou polêmica. E não foi por causa das roupas de corte feminino e do vestido que Alice usa. O cantor aparece com o dedo médio para baixo, simulando um pênis, nas primeiras edições. A Warner depois mandaria para as lojas uma edição sem o maldito dedo.

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E DEPOIS? E depois a popularidade de Alice ficaria tão grande que ele conseguiria fazer algo que seus ídolos dos Beatles e dos Rolling Stones fizeram: dois discos por ano. Killer sairia em novembro de 1971 com hits como Under my wheels e uma cobra na capa – o animal já era “atração especial” dos shows da banda. A Alice Cooper Band duraria até 1975, quando Alice sairia em “carreira solo”, tendo sempre Bob Ezrin como escudeiro, produtor e uma das primeiras pessoas a ouvir músicas novas do cantor – mesmo quando não produz os discos.
Com infos dos livros Who wrote the book of love?, de Richard Crouse, e Alice Cooper: Golf monster – A rock’n’roller’s 12 steps to becoming a golf addict, de Alice Cooper, com Keith e Keny Zimmerman.
Cultura Pop
Billy Corgan e Butch Vig juntos no estúdio de novo após 33 anos

RESUMO: Billy Corgan e Butch Vig retomam a parceria de Gish e Siamese dream em Black stars, faixa da trilha de Jogos vorazes. Um reencontro com o produtor que ajudou a criar o som do Smashing Pumpkins. Relembre o histórico.
Texto: Ricardo Schott – Fotos: Reprodução
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Imagine você entrar num estúdio com Billy Corgan, no começo dos anos 1990, e descobrir que ele quer gravar uma música com dezenas de guitarras. E que, se uma delas não soar exatamente como ele imaginou, vai ter que fazer tudo de novo. Agora imagine que o produtor, em vez de mandar o sujeito sossegar, acha a ideia ótima. Pois era mais ou menos assim que funcionava a parceria entre o Smashing Pumpkins e Butch Vig. E, 33 anos depois, os dois resolveram repetir a experiência.
A novidade é Black stars, música lançada nesta sexta-feira (16) e incluída na trilha sonora de Jogos vorazes: Amanhecer na colheita. A trilha completa sai em 13 de novembro, uma semana antes da estreia do filme. É a primeira gravação lançada pelo Smashing Pumpkins com produção de Vig desde o álbum Siamese dream, de 1993. A faixa também entrou no repertório da atual turnê Rats in the cage.
A história dos dois começou em 1990, quando o Smashing Pumpkins gravou Tristessa, compacto lançado pela Sub Pop, sob a produção dele. Isso foi antes de Vig produzir Nevermind, do Nirvana (1991). Corgan gostou do cara logo de primeira. Numa entrevista à Tape Op, contou que o produtor não tinha pose, trabalhava pra caramba e não se assustava com as ideias que ele e o baterista Jimmy Chamberlin levavam para o estúdio. Pelo contrário: parecia gostar da complicação.
Foi assim que chegaram a Gish (1991), álbum de estreia da banda, primeiro no qual trabalharam juntos. Corgan queria um disco com peso, psicodelia, melodias bonitas e guitarras aparecendo de todos os lados – um baita rock de arena, com ambiência, totalmente o oposto daquela onda da época, de simplesmente colocar quatro músicos numa sala e apertar o botão de gravar. Vig comprou a ideia e ajudou a organizar tudo aquilo. Dá para ouvir o resultado em Siva, Rhinoceros e Daydream, três músicas bem diferentes que parecem fazer parte do mesmo universo.
Só que os dois tinham um problema: não sabiam a hora de parar. Corgan contou à Rolling Stone italiana que Vig pegava pesado com afinação, ritmo e vocais. Fazia Billy cantar a mesma parte tantas vezes que ele começava a achar que não sabia cantar. O engraçado é que, olhando para trás, o vocalista reconhece que aquela cobrança fez toda a diferença.
Em Siamese dream (1993), o segundo disco, a situação ficou ainda mais complicada. A banda já tinha uma gravadora grande esperando resultados, Billy passava por uma fase emocional difícil e os integrantes não se entendiam nada bem. Foram gravar em Atlanta, mas os problemas viajaram com a banda nas malas.
Corgan acabou tocando praticamente todas as guitarras e boa parte dos baixos. Algumas músicas ganharam tantas camadas que Vig precisava descobrir como fazer tudo caber na mixagem. Era guitarra em cima de guitarra, com mais uma guitarra aparecendo quando você achava que já tinha acabado. E, se alguma coisa não estivesse perfeita, lá iam eles gravar de novo. O disco demorou, custou caro e deu um trabalhão. Só que saiu dali Siamese dream, com Cherub rock, Today, Disarm e vários clássicos.
Corgan nunca escondeu o quanto Vig foi importante. Nos textos da reedição de Siamese dream, em 2011, escreveu: “Butch me apoiou o tempo todo nessa visão maluca”. E completou: “Butch era a única pessoa que poderia ter feito aquele disco conosco, porque o respeitávamos tanto que queríamos estar à altura dos padrões elevados dele”.
Mas aí chegou a hora de fazer o duplo Mellon Collie And The Infinite Sadness (1995), e Billy resolveu mudar tudo. Chamou Flood e Alan Moulder para produzir, porque queria sair daquela maneira de trabalhar. Numa entrevista ao Grammy.com, explicou que Vig havia ajudado a construir uma versão quase idealizada do Smashing Pumpkins. Flood queria outra coisa: ouvir a banda como ela realmente soaria nos shows.
E não, a troca não aconteceu por causa de alguma briga. Em 2011, perguntaram a Corgan se ele toparia trabalhar novamente com Vig. “Eu amo Butch e temos uma relação muito boa. Adoraria. Ele provavelmente é uma das únicas pessoas com quem eu voltaria a entrar em estúdio”, respondeu. Vig também sempre pareceu adorar Corgan, embora já tenha declarado algumas vezes que o músico foi “um pentelho” no estúdio (quem conhece a história de Billy sabe que isso é um nome até carinhoso).
Pois bem: demorou 15 anos para aquela declaração virar realidade. Black stars coloca novamente os dois no estúdio, agora com décadas de experiência acumulada e sem a obrigação de repetir o que fizeram em 1993.
Ainda não há indicação de que a parceria vá render um álbum inteiro. Por enquanto, é uma música para uma trilha sonora. Mas já dá para imaginar a cena: Billy aparece com uma ideia complicada, Butch escuta, pensa um pouco e resolve que dá para melhorar. E lá vem outra guitarra…
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Cultura Pop
Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.
O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.
Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.
Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.
A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.
Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?
Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração
O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.
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Cultura Pop
Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.
Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.
Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.
A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.
No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.
Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.
Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.
Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.
Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.
Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.
No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.
Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.
Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.
Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.
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