Quem tivesse ficado alguns anos entre os anos 1980 e o fim dos 1990 sem vir ao Brasil, tomaria um susto com a mudança na programação da Rede Manchete. No fim da década, a emissora dos Bloch, que já havia se achado em condições de brigar com a Globo, tinha virado uma estação bastante popularesca. Aliás, o local tinha se tornado uma boa opção para apresentadores de TV vindos do SBT ou da Record. Além de exibir quase as mesmas atrações do Domingo Legal, do Gugu Liberato. O jornalismo tinha sido redesenhado para cobrir polêmicas, manchetes bizarras e conteúdo “mundo cão”.

Após tentarem gritar alto no domingo com o Domingo milionário (1998), apresentado pelo insólito trio Luiz Thunderbird, J. Silvestre e Marcelo Augusto (e que quase teve João Gordo no time de comandantes), a emissora decidiu enfrentar o Domingo legal com o… Domingo Total, apresentado por Sérgio Mallandro, Virgínia Novicki e Otávio Mesquita. Só que a audiência dos programas da “nova” Manchete ficava aquém do desejado. Isso apesar de a emissora ter ganhado uma sobrevida daquelas graças ao desenho japonês Cavaleiros do Zodíaco. Aliás, até o próprio Sérgio Mallandro levou sua Festa do Mallandro para lá.

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Para se manter, a emissora recorria a um expediente que ficou famoso nos anos 1990: os sorteios realizados pelo número 0900. Até mesmo durante a exibição da Copa da França, em 1998, os sorteios rolavam. A Copa, principalmente, foi um problema para a Manchete, já que gastou-se grana, a equipe foi a Paris, mas a audiência ficou em 1%. Correndo por dentro com a melhor tecnologia, a Globo conquistou 75% da audiência nos jogos. E para piorar, depois disso tudo aí, os tais sorteios pelo 0900 foram proibidos.

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Antes que tudo acabasse, a Manchete passaria por várias situações vexatórias. Brida, última novela da emissora, foi interrompida antes do fim, teve o roteiro cortado e fechou com uma narração explicando o destino dos personagens. Magdalena Bonfiglioli, que chamava atenção correndo atrás da notícia e falando ofegante no microfone no Aqui agora, do SBT, ganhou o sensacionalista Magdalena Manchete Verdade – mas teve a atração tirada do ar. Enquanto isso, a emissora recebia uma chuva de processos, perdia grana, tentava negociar com bancos e prováveis futuros donos e já tinha os futuros ocupantes do canal (a RedeTV!) lá dentro. Após 1998, com um corte de 20% do total de 1.900 funcionários, a emissora começou a passar apenas reprises.

E tinha coisa mais complexa vindo aí: em 11 de dezembro de 1998 (a data é confirmada por algumas fontes), funcionários da Manchete invadiram a sede da emissora em São Paulo. Um grupo de 25 funcionários da geradora invadiu e ocupou a torre de transmissão da emissora, exigindo o pagamento de pelo menos 70% do salário atrasado de um mês.

Aliás, tinha algo mais complexo ainda: um funcionário claramente tenso (tanto que nem se importou de aparecer fumando) conseguiu mostrar bilhetes escritos pelos funcionários com as frases “estamos sem salários há três meses” e “estamos passando fome!”. Além disso, exibiu um convite para um show de S.O.S. Funcionários da Manchete, no dia 14 de dezembro, com apresentação de Leão Lobo e shows de um grupo de artistas que incluía o headliner Zé Geraldo, além do sambista Noite Ilustrada, Ronny Cócegas e Pedro de Lara.

Esse momento ficou imortalizado na televisão na época, como dá para ver abaixo.

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O que se comentou na época é que funcionários da Manchete do Rio tentaram fazer a mesma coisa, mas não deu certo, porque a polícia impediu. Só que, de qualquer jeito, a situação pioraria ainda mais e em agosto de 1999, a RedeTV! entrou a cavalo no lugar da Manchete. Até hoje rolam dívidas não pagas e um merdelê financeiro bizarro envolvendo o nome da emissora. Para saber mais, tem um TCC que compila várias informações sobre o fim da Manchete. Mas foi o triste fim de um modelo de negócios absolutamente cagado, e que ferrou a vida de muitas pessoas.

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