Sustos dados por outras estações na Rede Globo são comuns. A Manchete meteu medo na estação do Jardim Botânico com Pantanal, o SBT se aproveitou do sucesso de Roque Santeiro para faturar com Pássaros Feridos, o êxito de várias estações popularescas fez a Globo apelar para a baixaria e para a crueldade nos anos 1990 várias vezes (dois desses momentos foram especialmente memoráveis), etc. Já em 1984, a recém criada Rede Manchete faria a Globo passar muita raiva por causa de um assunto bastante peculiar: o Carnaval e o luxuoso desfile das escolas de samba do Rio.

Com menos de um ano de existência em 1984, a Manchete gritava alto no mercado. O dono Adolfo Bloch já sonhava em ter uma estação de TV havia décadas e abrira os trabalhos exibindo filmes queridos dos telespectadores (A noviça rebelde, Contatos imediatos do terceiro grau, entre outros). Aquilo, no entanto, era realmente inédito: a emissora da Glória conseguira os direitos exclusivos de transmissão dos desfiles de Carnaval do Rio de Janeiro. Só 8% dos televisores ficaram sintonizados na Globo, contra 70% (!!) sintonizados na Manchete.

As lembranças do Carnaval de 1984 na Manchete estão espalhadas até hoje pelo YouTube. A emissora novata não economizou: chamou comentaristas como Fernando Pamplona, Sérgio Cabral, Albino Pinheiro, Haroldo Costa e Maria Augusta, além de Paulo Stein como narrador. Pôs no ar 84 horas de Carnaval, “pílulas” momescas como o Esquentando os tamborins (apresentado por Haroldo Costa) e cobertura da folia em todo o Brasil, além do eventuais flashes picantes de bailes, que varavam madrugada adentro. Virou meme na época o “dez, nota dez” de Carlos Imperial, que leu os resultados dos desfiles (e que foi exibido pela Manchete).

SAMBÓDROMO

A história toda começou por causa de uma mudança básica na localização dos desfiles, que até 1983 aconteciam em ruas como as avenidas Marquês de Sapucaí e Presidente Vargas, e dependiam da montagem de uma estrutura. Em setembro de 1983, o govenador do Rio Leonel Brizola (1922-2004) anunciou a construção do sambódromo, ali mesmo na Sapucaí. A ideia foi do vice de Brizola, Darcy Ribeiro (1922-1997). O projeto foi feito pelo arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012).

Muita gente reclamou, sambistas conhecidos chiaram com a mudança (em 1995, Paulinho da Viola era visto falando à Playboy que achava o local “um equívoco em todos os sentidos”), mas foi uma obra que ficou. Muito embora a ideia original de Darcy – de que as escolas fariam um giro dentro de si próprias ao chegarem na Praça da Apoteose – nunca tenha acontecido.

Com a nova estrutura, feita a toque de caixa pra festa de 1984, os desfiles poderiam acontecer em dois dias, e não apenas no domingo de Carnaval, como era comum. Para a Globo, havia um baita problemaço: a emissora trabalhava com uma estrutura bem rígida de programação (como acontece até hoje, mas com uma liberdade um pouco maior) e iria ter problemas com sua grade. Fora questões técnicas sérias (a “impossibilidade de manter equipamentos na Passarela do Samba por todo o lapso de tempo dos desfiles de domingo e segunda ao do sábado seguinte, para a disputa do supercampeonato”, como avisavam em matéria publicada em O Globo em 7 de janeiro de 1984). Inacreditavelmente, declinou da transmissão após não conseguir entrar em acordo com o governo do Rio. A Manchete pagou 210 milhões (divididos entre as escolas e a Associação das Escolas de Samba) e levou.

MAS DEU MERDA

No Livro do Boni, o ex-todo-poderoso da Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, dedica páginas nada saudosas ao assunto. Na versão do homem-de-TV, a Manchete passou a perna na Globo. Tudo porque, não tão desinteressada do Carnaval assim, a Globo, na figura de Boni, havia combinado com o então diretor de programação da Manchete, Moysés Weltman, que “ele compraria o Carnaval sozinho e depois repassaria a minha parte”, escreveu Boni.

O executivo conta que, em seguida, a Manchete deu ghosting na Globo: com contrato assinado, nem Weltman (por sinal um ex-autor de novelas da Globo) nem Adolfo Bloch atendiam mais os telefonemas deles. Antes da assinatura do contrato, ainda em janeiro, Boni reclamava de ter lido Darcy assegurando que “o Governo atendeu a todas as suas exigências técnicas”. “Não chegamos a conciliar nossos interesses”, respondeu Boni no Globo.

A Globo passou a usar o slogan “programação normal e o melhor do Carnaval” e programou filmes como Bonnie & Clyde – Uma rajada de balas para tentar combater a Manchete. O site Observatório da TV registra números bem desfavoráveis à Globo (publicados numa Veja da época). A emissora manteve os capítulos inéditos de suas novelas, como Champagne e Voltei pra você, mas conseguiu apanhar da Manchete até com o Fantástico. Nem tanto: números da época provam que no Rio, a Globo perdeu, mas no resto do Brasil, só deu Globo. Boni ainda reclamou que “o Brizola, de forma demagógica, tentou inventar que a Globo quis boicotar o sambódromo”.

E DEPOIS?

Em 1985, a Manchete e a Globo transmitiam juntas o Carnaval e tudo ficou (er) bem. A Globo ficou bastante irritada com a atitude da Manchete e declarou guerra. Já os detratores da emissora viram na história do Carnaval uma molecagem que deu super certo. Seja como for, a casa dos Bloch continuou aprontando: contratou ex-globais que, em um momento ou outro, deixavam a emissora dos Marinho, como José Wilker, Maitê Proença, Marcelo Picchi, Nívea Maria e Manoel Carlos (escreveu para lá uma novela chamada Novo amor que não marcou época e não tinha nenhuma personagem feminina chamada Helena). E a Globo continua comandando a audiência. Até hoje, aliás.

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