Crítica
Ouvimos: Vera Fischer Era Clubber, “Veras I”

Se você for daquelas pessoas bem anti-hype, não tente antipatizar com o Vera Fischer Era Clubber: você não vai conseguir. Bastante comentado em sites como o Popload e atração do festival Itinerância Rebel, no Circo Voador, o grupo de Niterói (opa) consegue uma coisa rara: conversar com gente alternativa, diferentona e maluca de todas as idades. O material de Veras I, primeiro disco do grupo, vai acabar alcançando desde gente de 20, 30 anos, até pessoas que têm idade para lembrar das noitadas do Crepúsculo de Cubatão, dos shows do Saara Saara e de Fausto Fawcett fazendo performances.
Motivos para isso não faltam, e estão no som e no imaginário noturno da banda. Que inclui a gozação de Altinha (marcada por uma batidinha eletrônica new bossa e pela voz sexy e zoeira de Crystal), pelo tecnopop pesado A gata agora (“a gata agora desfila por uma passarela chamada calçada”) e pelo inacreditável eletropunk Ina, que soa quase como uma versão junkie da Blitz (“era uma vez uma menina chamada Ina / e sua amiga, Coca”, e vai por aí). Fantasmas é uma bossa sexy que vai ficando cada vez mais rápida e que tem letra explodindo de tão louca (“eu falo com fantasmas / de pessoas que estão vivas”, com sotaque carioca ao extremo).
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Provavelmente muita gente vai enxergar traços de Letrux, ou do Cansei de Ser Sexy, no Vera Fischer Era Clubber. Faz sentido, mas o clima, os batidões e os vocais do-grave-ao-agudo do grupo volta e meia lembram mesmo é uma versão clubber da funkeira niteroiense MC Carol. Observe só o verso “é que meu ex é um zumbi” de Fantasmas, ou a loucura darkwave de Lolololove u (“não sei se foi amor / ou se foi onda de loló”). Ou a vibe de Vera Fischer era clubber (sim, a banda tem uma música com seu nome), uma bizarra mistura de Suicide e Information Society, que cita nomes de musas da doideira noturna (“Paris Hilton, Lindsay Lohan, Vera Fischer, Britney Spears, Madonna, Courtney Love”). O final é marcante e nada discreto, com a acelerada e baileira Eu sem depressão. Muito, mas muito bom.
Nota: 9
Gravadora: Palatável Records
Lançamento: 24 de abril de 2025
Crítica
Ouvimos: Lucia & The Best Boys – “Picking petals”

RESENHA: Lucia & The Best Boys atualizam o pop oitentista em Picking petals, segundo álbum que cruza Roxette, The Cure, Kate Bush e Fleetwood Mac. Com voz exuberante e clima fantasmagórico, Lucia Fairfull transforma nostalgia em pop-rock atmosférico.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Communion Group
Lançamento: 31 de julho de 2026
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Lucia Fairfull e seus Best Boys tiveram um começo discográfico pra lá de bacana, com singles e EPs que prometiam bastante. Pena que várias gravações legais de Lucia & The Best Boys tenham chegado justamente durante a seca de shows e festivais provocada pela pandemia. A compensação veio com Burning castles, primeiro álbum (2023), que atualizava a figura da musa exuberante e vaporosa típica dos anos 1980. Em Lucia parecia (e parece) existir algo entre Bonnie Tyler, Siouxsie Sioux e Kate Bush.
Siouxsie, por acaso, é igualmente uma cantora com uma banda – cujos integrantes são reconhecíveis. Os Best Boys de Lucia parecem figuras meio desaparecidas diante do protagonismo dela, e de certa forma toda a música é montada para que a voz de Lucia seja o principal elemento. Picking petals, o segundo álbum, segue essa mesma onda, mergulhando num oitentismo intenso e fantasmagórico, como se aquela época assombrasse dia e noite todos os envolvidos com o álbum.
As sombras de Picking petals são bem evidentes desde o começo: Back inside my heart é a cara do Roxette (soa mesmo como uma música que o duo esqueceu de fazer). Lonely girl, com participação de Lauren Mayberry (Chvrches) é um “posto avançado” que une Roxette e The Cure – costurado por um riff distorcido de guitarra, que por sinal acrescenta bem pouco à faixa.
Wolf cry avança no tempo e tem algo de Natalie Imbruglia, enquanto Better for the worse e You look like someone in love mergulham, respectivamente, no soft rock atmosférico e na retro-new wave. Mas até aí (e já estamos no fim do lado A), o duo sueco que fez músicas como Listen to your heart é a referência mais reconhecível de Picking petals, quase um padrão de excelência pop a ser seguido.
O som de Picking petals pode acabar surfando uma onda parecida com a de Olivia Rodrigo, fazendo um link com a música e o público dos anos 1980. Especialmente a pessoa 50+ que se sente saudosa de uma certa “simplicidade” da época. Ou o cara nostálgico de hábitos como chegar da escola, almoçar, ver Vale a pena ver de novo e ligar o rádio na Transamérica pra fazer o dever de casa (gente, pelamor…).
Isso porque basicamente Picking petals é um bom disco de rock para tocar em rádio FM – numa rádio adulta que toque os hits de 40 anos atrás em 2026, ou num FM imaginária caçada no dial de algum Motorádio antigo.
Esse clima permanece na segunda metade do disco, com o pop vaporoso e dançante da faixa-título, o soft rock de Pleasure and a prayer (que lembra o Fleetwood Mac de Tango in the night, de 1987, só com um pouco mais de peso e clima atmosférico), o derramamento emocional de Forget the arrow. Além da onda Kate Bush de Big romance (com Abigail Morris, do The Last Dinner Party) e Ephemeral. No geral, Lucia & The Best Boys convencem como um “filme” de tempos idos – e não chegam a soar como farsa, o que seria uma tragédia daquelas.
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Crítica
Ouvimos: Bruno Berle – “Sem fronteiras”

RESENHA: Bruno Berle lança Sem fronteiras, terceiro álbum do cantor alagoano, produzido por Batata Boy. Em dez faixas, o disco cruza boogie, soul, MPB, afropop e psicodelia com uma estética lo-fi e sonoridade de fita.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Far Out Recordings
Lançamento: 10 de julho de 2026
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Existe uma cena musical nas Alagoas que vem se tornando uma verdadeira onda “sem fronteiras”, incluindo artistas como Batata Boy, Nyron Higor e… Bruno Berle, cujo terceiro disco dá contornos conceituais a isso tudo. Sem fronteiras, com dez faixas em menos de trinta minutos, tem a mesma concisão de No reino dos afetos (2022) e No reino dos afetos 2 (2024), os dois álbuns anteriores. Bruno e Batata Boy, seu produtor e fiel escudeiro, mantêm o clima de casualidade nos arranjos, marcados pela estileira lo-fi e por um som “de fita”, envelhecido como se o tape tivesse sido desencavado de alguma gaveta.
O som de Bruno vem de uma colagem musical baseada no boogie, no soul, na MPB feita entre os anos 1970 e 1980, e num certo clima sonhador que havia nos álbuns setentistas de Gal Costa, com o uso de uma bateria leve, synths analógicos, pianos elétricos. Gravado durante a turnê de No reino do afetos 2 (em diferentes cidades do Brasil e da Europa), Sem fronteiras soa como um mostruário atualizado do som de Bruno – ou como uma redução formatada do som dos discos anteriores.
Muita coisa se destaca em Sem fronteiras: a percussão eletrônica quase industrial de Não posso viver sem você (balada de vocal leve e efeitos musicais oníricos), o clima sombrio e venturoso de A noite de estrelas, a pegada Djavan lo-fi do instrumental Outra noite, o ritmo sinuoso de Você já sabe que eu te amo (com Nyron Hygor), o folk caseiro e contemplativo de Manhã, o afropop circular e altamente percussivo de Amor inteiro, a viagem olivettiana-psicodélica de Ideias mágicas… E de modo geral, parece que Bruno Berle vem descobrindo como soar mais acessível mantendo os valores dos primeiros discos.
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Crítica
Ouvimos: The Darling Buds – “Same sun / Same sky”

RESENHA: The Darling Buds celebram 40 anos com Same sun / Same sky, quarto álbum da banda galesa. Em 2026, Andrea Lewis Jarvis e o grupo retomam seu indie pop com jangle, punk, power pop e ecos dos anos 1960.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Cherry Red
Lançamento: 31 de julho de 2026
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Surgidos em 1986 no País de Gales, The Darling Buds completam 40 anos este ano, pelo menos em tese – o grupo havia terminado em 1993 após lançar o disco Erotica (1992, Epic Records), e de acordo com eles próprios, encerraram atividades porque não suportaram a pressão da mudança para Los Angeles, dos gastos financeiros, das turnês que deixavam a banda cada vez mais distante de casa, etc. Rolou uma volta breve em 2010, e um retorno “de vez” em 2013, que já rendeu um EP, algumas gravações extras e este Same sun / Same sky, que é o quarto álbum da banda.
Marcado pela voz da carismática Andrea Lewis Jarvis, os Darling Buds ressurgem em 2026 como uma banda britânica da virada dos anos 1980 para os 1990, com clima jangly, batidas sinuosas e algo que conversa tanto com o punk rock quanto com o som dos anos 1960. Uma vibe que já surge em Hey Saint Jude, a faixa de abertura, com seu refrão luminoso marcado por metais discretos – e ganha contornos mais distorcidos no punk misterioso e garageiro de Intruder, algo entre The Cure e Blondie.
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São duas primeiras faixas que já respondem por boa parte do astral do disco, sempre com um pé no ruído e outro na beleza pop. Que marcam também, em doses diferentes, faixas como o bubblegum selvagem Oh no you don’t e Cast a stone, o power pop celestial Cut me dead (que lembra o estilo dos Primitives), o rockão 60’s de Jump in e Lost time – tudo balizado pela mesma disposição indie-pop que fez o DJ John Peel prestar atenção neles quando ainda eram uma banda independente.
Same sun / Same sky ainda brilha no folk brit pop de Giddy in a good way, no pós-punk quase beatle de Leaving the scene e Paper planes, na balada soul-punk Pollyanna says, e no punk estiloso e ágil de Pretenders (que lembra a onda da banda de Chrissie Hynde, até nos solos de guitarra). Ouça correndo.
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