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Crítica

Ouvimos: Drop Nineteens, “Hard light”

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Ouvimos: Drop Nineteens, "Hard light"
  • Hard light é o terceiro disco da banda norte-americana Drop Nineteens, e o primeiro álbum do grupo desde 1993. O grupo estava separado desde 1995, até que anunciou seu retorno em janeiro de 2022.
  • A formação atual inclui quatro integrantes que estavam no grupo desde a fundação, em 1990: Greg Ackell (voz, guitarra), Paula Kelley (voz, guitarra), Motohiro Yasue (guitarra solo) e Steve Zimmerman (baixo). Além de Pete Koeplin (btaeria), que entrou em 1993.
  • Na era inicial do Drop Nineteens, o grupo chegou a ter bandas como Radiohead e Cranberries como atrações de abertura (!).

Sucesso às vezes, destrói. Especialmente quando, no fundo, você o enxerga apenas como uma construção que puseram na sua cabeça – algo que faz com que todo mundo diga o quanto você é o máximo, mas que você não consegue ver no dia a dia, na prática, na conta bancária, no pagamento de boletos e, em alguns casos, no prestígio com seus pares.

O Drop Nineteens, banda pós-adolescente que ajudou a colocar o shoegaze no mapa do rock, não merecia ter parado após dois LPs (a estreia foi o inovador Delaware, de 1992) e um punhado de singles. Poderia ter sido uma das bandas (ao lado do My Bloody Valentine, dos Smashing Pumpkins e do Radiohead) mais preparadas para consolar os fãs dos Pixies, assim que o quarteto de Boston encerrou as atividades pela primeira vez, em 1993.

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O grupo foi perdendo integrantes, encarou as primeiras dificuldades do universo das turnês com horror, e separou-se em 1995 com status de lenda que foi sem nunca ter sido – sempre deixando fãs antigos na expectativa de que algo ia acontecer. Aconteceu: saiu Hard light, o terceiro disco do grupo, num clima de rock ruidoso e sonhador que lembra bastante o de Delaware e do segundo disco, National coma. Abre com mais de um minuto de acordes repetidos de guitarra, numa faixa (a música-título) em que os vocais só aparecem quase lá pela metade, revelando uma letra que une passado e futuro, com vários flashes do dia a dia da banda, e asseverando: “O tempo é essencial”.

O lado escapista parece mais fundamental ainda pro Drop Nineteens de 2023/2024: tons melancólicos, baixarias herdadas de Peter Hook (New Order/Joy Division) e melodias que aludem tanto a The Cure quanto ao próprio Joy servem de moldura para letras que falam claramente da vontade de fugir. Seja do estresse das velhas lembranças (Gal), seja de comportamentos engessados (Scapa flow, e o pós-punk prototípico The price was high), ou até do próprio esconderijo (na distorcida e alegre Another one another). No final, os 7 minutos de T soam como uma trilha sonora de filme composta pelo Velvet Underground, encerrando com uma parede de guitarras que vai crescendo e ocupa os quatro últimos minutos da faixa. Um bom recomeço, com cara de começo para muita gente.

Nota: 8
Gravadora: Wharf Cat

Foto: Reprodução da capa do álbum.

Crítica

Ouvimos: Melanie Martinez – “Hades”

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Ouvimos: Melanie Martinez – “Hades”

RESENHA: Hades, de Melanie Martinez, é um disco longo, denso e “cinematográfico”, com crítica social pesada e relatos crus que exigem atenção e fôlego.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Atlantic
Lançamento: 27 de março de 2026

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Tem por aí a chamada “bebida sabor café” (que anda rendendo memes), a “bebida sabor iogurte” e… bom, tem também a onda de “disco sabor filme” que vem assolando o pop há alguns anos. Nem todo disco pop lançado hoje em dia é realmente conceitual, mas sempre há um conceito a ser trabalhado em qualquer álbum que chega às plataformas, do Swag de Justin Bieber ao Lux de Rosalía – fora as criações de Taylor Swift, as instigações de Luisa Sonza e os sumiços-e-aparições de Lana Del Rey.

Vai daí que Hades, quarto disco da ex-estrela teen (revelada pelo The Voice) Melanie Martinez é esse “sabor filme” levado às últimas consequências – e um estranho encontro entre a grandiloquência e o maximalismo pop e os horrores de Ethel Cain. Se o negócio hoje é disco curto e música curta, felizmente esqueceram de avisar Melanie, que deu à sua epopeia art-pop tratamento de disco progressivo: 70 minutos e 18 faixas.

Hades de certa forma está mais até para “disco sabor livro”. É pra ouvir prestando atenção nas letras, a quantidade de informação é cansativa e, dependendo do seu grau de não-envolvimento emocional com a obra de Melanie, provavelmente você vai escutar o álbum em dois ou três dias. Melanie fez de Hades um álbum distópico, com músicas que falam sobre horrores bem reais, e de maneira bem envolvente.

Dá pra dizer que assuntos como misoginia, gordofobia, racismo, bolhas de privilégios, milionários FDP, homens escrotos e abusivos e o jogo sujo da indústria de estrelinhas teen surgem em Hades numa onda de “entendeu ou quer que eu desenhe?”, graças a faixas descritivas como o rap-britpop White boy with a gun, o pop sombrio Possession, a valsa grega Garbage e a fantasmagoria gélida de Avoidant. Monolith, uma balada linda, traz uma visão bem pessimista da vida por trás das telas, das redes sociais, da TV, de tudo. Batshit intelligence põe a guerra e a injustiça urbanas na roda, com depoimentos de pessoas em situação dde rua e tudo.

A balada-valsa Weight watchers (“vigilantes do peso”) choca pela combinação de melodia doce e letra amarga: Melanie constroi um universo bizarro em que os tópicos são bichectomia, implantes, drogas emagrecedoras compradas em condições perigosas (“carboidratos não queimam rápido o suficiente para valer a pena / não achei que tivesse mudado muito até eles falarem / um tópico no Subreddit é o que me restou”), alimentação ruim e expectativas da mídia (“agora tudo que eu leio é: ei, acho que ela está grávida!”, canta ela).

Cantando basicamente sobre injustiças e ameaças, Melanie fala sobre uma roda viva de traumas infantis causados por homens abusivos do show business, no alt pop Disney princess. E sobre uma rotina de cyberbullying por intermédio das DMs do Instagram, no pop misterioso de Chatroom. Musicalmente, a onda “cinematográfica” e maximalista de Hades dá certo – mesmo quando o disco começa a cansar, ele provoca curiosidade.

A produção fica sempre bem mais próxima do universo do rap do que do rock ou do pop dançante, mas tem até eletro-rocks bem feitos, como Uncanny valley e Hell’s front porch, além do r&b vertiginoso de Is this a cult?. Mas o que fica mesmo na memória é a crueza dos relatos: Hades faz o / a ouvinte viver, na imaginação, muito do que está nas letras.

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Crítica

Ouvimos: Poison Ruïn – “Hymns from the hills”

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Poison Ruïn mistura punk, metal e hard setentista com temática medieval. Hymns from the hills une peso, caos e crítica social atual.

RESENHA: Poison Ruïn mistura punk, metal e hard setentista com temática medieval. Hymns from the hills une peso, caos e crítica social atual.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Relapse Records
Lançamento: 3 de abril de 2026

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Dizem por aí (pelo menos quem entende disso costuma dizer) que encontrar-se com a história da Inglaterra na era medieval é mais ou menos como encontrar-se consigo próprio. Como se aqueles contos de bravura, castelos, donzelas, lutas de espadas e honra lavada com sangue trouxessem de volta vários sentimentos que todo mundo – ou pelo menos a parcela mais macho-alfa do mundo – carrega no peito.

No caso dos norte-americanos, devolvidos para uma “era medieval” após as eleições do ano passado, parece que tem aí alguma coisa eternamente mal-resolvida, que levou Mark Twain a escrever em 1889 o livro Um ianque na corte do Rei Arthur, e volta e meia leva incautos escritores e roteiristas a tentar reescrever a história dos Estados Unidos como uma epopéia arturiana – olha só isso aqui, por exemplo.

Vai daí que o Poison Ruïn, uma banda da Filadélfia, surfa a mesma onda medieval – e aproveita para fazer misturas inustadas. São um grupo que vem do anarco-punk, e que passou a acrescentar a seu som elementos de hard rock a la Aerosmith, metal a la Judas Priest, sons agalopados típicos da new wave of british heavy metal (Iron Maiden e outros) e casca-grossice típica dos herdeiros do Motörhead. Tudo isso enquanto o vocalista Mac Kennedy canta sobre camponeses, castelos, fronteiras, sinais do céu e lutas durante as quais ninguém se pergunta “espera aí, por que estamos lutando?”.

Hymns from the hills, que é o terceiro disco da banda, tem até um ar progressivo-gótico em Howls from the citadel – uma música sombria, narrada como se fosse um conto épico. Mas o principal aqui é sacar como Kennedy e seus amigos Nao Demand (guitarra), Will McAndrew (baixo) e Allen Chapman (bateria) se comportam nas transições entre uma estileira e outra, ou entre um barulho e outro.

Um dos exemplos está na abertura, com Lily of the valley, é metal de quem ouviu muito punk e synth pop – com algo que faz lembrar até (pode acreditar) Legião Urbana (num papo com o Consequence Of Sound, Kennedy revelou ter se inspirado nos Ramones do hit Poison heart). Às vezes rola uma certa confusão sonora, como na quase faixa-título Hymn from the hills, uma balada metal que vira um punk-blues-rock com recordações do Aerosmith de Rocks (1975).

Eidolon, por sua vez, dá certo mesmo lembrando um bizarro encontro entre Blink-182 e Judas Priest, com vocal gutural-infernal e final metálico. Pilgrimage tem guitarras emparedadas como num shoegaze e algo que parece um compasso ternário em meio à circulação de palhetadas. Guts (Lay your self aside) desenvolve um noise-rock torto, em torno de uma armação metal + hardão setentista. Tem músicas nas quais as origens punk do grupo vêm com força, como a curta Turn to dust, e na vibe New Model Army + Killing Joke de Puzzle box – sem falar que Kennedy soa IGUAL a Joey Ramone quando não canta com gutural, como rola na agitada Serpent’s curse.

Nas letras, o Poison Ruïn traz os aprisionamentos e os costumes engessados da era arturiana para este universo civilizado (hahaha) de 2026, falando de vidas torturadas, injustiças sociais e maldades que parecem não ter fim. No geral, Hymns from the hills é punk com noção de violência musical, e de violência na vida.

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Ouvimos: Makthaverskan – “Glass and bones”

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Em Glass and bones, Makthaverskan mistura pós-punk, jangle e dream pop, com guitarras frias e intensidade. Destaque para a voz poderosa e versátil de Maja Milner.

RESENHA: Em Glass and bones, Makthaverskan mistura pós-punk, jangle e dream pop, com guitarras frias e intensidade. Destaque para a voz poderosa e versátil de Maja Milner.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Welfare Sounds and Records
Lançamento: 3 de abril de 2026

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Em sueco, Makthaverskan significa “mulher poderosa” – bom nome para uma banda de Gotenburgo, liderada por uma vocalista como Maja Milner, cujo alcance vocal chega a dar nervoso. Em Glass and bones, a voz de Maja consegue ir do agudo roqueiro ao agudííííííssimo em poucos segundos, do pesado e intenso ao angelical e intenso rapidamente, sem sombra de vocais torturados a la Bjork. Acompanhando a cantora, a base pós-punk de Hugo Randulv, Irma Pussila Krook (baixo e guitarra, ambos), Per Svensson (guitarra) e Andreas Palle Wettmark (bateria).

Os textos que rolam sobre o Makthaverskan insistem no fato de que se trata de uma banda bastante misturada – tem jangle pop, dream pop e até a estileira variada da fitinha C86, do NME, tudo junto. Beleza, mas a entrega do quinteto a bases carne-de-pescoço, melodias geladas e a guitarras dedilhadinhas é coisa típica do pos-punk. Ainda que Maja soe como cantora de heavy metal na faixa-título, com bateria motorik, riffs esparsos a la The Edge e baixo fincado no chão.

Já músicas como Pity party, Won’t wait e Shatter têm agilidade punk, às vezes lembrando bandas como Blondie. Poppy, mesmo com teclados e um clima mais contemplativo, abre lembrando uma sobra de Three imaginary boys, disco de estreia do The Cure (1979). Um lado meio synthpop, com riff de teclados e guitarras pesadas, surge na tensão marcial de Louie, que fala em “o ar está denso como nuvens, preso nos meus pulmões / minha cabeça cheia de dúvidas / tenho medo de viver uma vida sem saber como expirar”.

Glass and bones é também o disco que traz recordações não apenas do Blondie como também dos Pretenders em Gambo. Além da balada sentida Anytime – música de voz e guitarra, em que Maja canta “você vai enfrentar isso se quiser / pode me ligar a qualquer hora que precisar / eu sei que vou te abraçar / chegue mais perto do que nunca / suas lágrimas estão dançando”.

Black waters é outro momento metal do disco – uma balada gótica e sombria, com versos como “não desista esta noite / não venda sua alma / você não pode continuar presa sob águas negras / preciso sair e encontrar um caminho”, em que a voz de Maja insiste em soar como a de Michael Jackson na adolescência (juro!). Se tem alguma mistura inusitada em Glass and bones, ela tá aí.

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