Crítica
Ouvimos: Charli XCX, “Brat and it’s completely different but also still brat”

Vai chegar o momento em que as pessoas vão fazer como acontece depois de qualquer tipo de onda, e vão recordar a era de Brat, disco de 2024 de Charli XCX, com carinho, com afeição ou até como um barômetro de seu tempo. Assim como (e isso aconteceu até com os imitadores de Sgt Pepper’s em 1967/1968) muita gente vai se perguntar: “Como é que a gente foi achar legal esse negócio de um disco ter uma capa que até meu sobrinho de 7 anos poderia fazer no canva? Ou essas reedições com títulos engraçadinhos? E como tanta gente gostou disso?”
Enquanto isso não acontece – e vale citar que o dicionário Collins já escolheu “brat” como palavra do ano de 2024 – Charli XCX já aproveita para recauchutar seu sexto disco, lançado originalmente em 7 de junho, pela terceira vez. Já havia saído uma edição com três faixas a mais. E dessa vez, Brat and it’s completely different but also still brat transforma as dezoito faixas associadas ao disco numa verdadeira maratona. E numa festa.
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O álbum duplo traz o material regravado, mudado e remixado por vários convidados, entre nomes novos e veteranos. Robyn e Yung Lean acrescentam seus versos e nomes a 360. Ariana Grande elenca as cascas de banana da fama em Sympathy is a knife, ao lado de Charli – com direito a frases ótimas como “é uma facada quando seu amigo começa de repente a pisar em você”, ou “é uma facada quando alguém diz que gosta mais da minha velha versão do que da nova/e eu penso: quem é ela, porra?”. Billie Eilish responde a Charli em Guess e marca presença no pop sáfico. Essas duas últimas são as únicas versões que valem como “grande e indispensável complemento ao original”.
Algumas coisas foram feitas propositalmente para desconstruir as noções de hit do original: I might say something stupid virou ambient nas mãos de Jon Hopkins e The 1975, e Bon Iver deu uma cara melancólica a I think about it all the time. O rapper sueco Bladee aumenta a lista de estresses da fama em Rewind, e Charli XCX confessa nos novos versos que acrescentou, que o dinheiro e a vida em Los Angeles (ela vive lá e em Londres) fizeram com que ela se tornasse “mais competitiva”.
Muita coisa no Brat reimaginado não influi nem contribui, mas não chega a ser ruim. Só que tem o lado chato, aliás chatíssimo: Julian Casablancas pegou Mean girls, uma das melhores músicas do disco, e transformou num indie-pop cagado com vocal de autotune, e a rapper espanhola BB Trickz diminuiu a velocidade de Club classics e só dá mais vontade de ouvir o original, mesmo. Por sinal, Brat and it’s completely different but also still brat vem com o Brat deluxe no disco 2, e reouvindo, dá para perceber o quanto o álbum de Charli é um hype dos mais justificados. Tem festa, sexo, doideira, vícios, saudade dos amigos, redes sociais, as nostalgias dos millennials, e um pop que vai do sombrio ao festeiro em pouco tempo – e de fato, é um barômetro comportamental de 2024, ou deveria ser.
Nota: 7
Gravadora: Atlantic.
Crítica
Ouvimos: Josie – “Sensações” (EP)

RESENHA: Sensações, EP da paulista Josie, mistura brasilidades e vibes ligadas a estilos como post rock, dream pop e synthpop em uma viagem existencial da Confusão à Luz.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamentos: 26 de novembro de 2025
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Celebrando as “as emoções, as belezas e as imperfeições do cotidiano”, a paulista Josie faz no EP Sensações uma música brasileira cujas emanações vão até estilos como rock progressivo e dream pop. Não é uma música fácil de colocar em gavetas, mas Confusão, a faixa de abertura, remete tanto a Peter Gabriel quanto à vanguarda paulista (por causa dos vocais), e insere também climas jazzísticos no piano. Escuro tem clima gélido que remete aos lados mais experimentais do synthpop, mas também tem calor garantido pelas dissonâncias na melodia, e pela voz de Josie.
- Ouvimos: Janine – Muda (EP)
Seguindo como uma travessia existencial – da Confusão, que abre o EP, até a Luz, que encerra o disco – Sensações fala de motivos para sonhar em Transição, uma espécie de samba eletrônico ao contrário, que lembra Tom Zé. Calmaria é uma drum’n bossa viajante, o lado mais dream pop do disco, propondo um momento de descanso, de fechar os olhos. Luz abre e prossegue numa onda quase erudita-nordestina, e encerra com clima post-rock. Uma coleção de sensações e climas musicais.
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Crítica
Ouvimos: MC Taya – “Histeria agressiva 100% neurótica vol. 2 – Muito mais neurótico” (EP)

RESENHA: MC Taya e banda detonam machismo, racismo, violência e abuso em Histeria agressiva 100% neurótica vol. 2 – Muito mais neurótico, misturando funk, punk, metal e fúria social.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Deck
Lançamento: 28 de novembro de 2025
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MC Taya era apenas o nome de uma rapper – hoje, além disso, é um trio de rock liderado por ela, da mesma forma que Alice Cooper liderou uma banda com seu nome nos anos 1970. Taya contribui com vocais, letras, composição, atitude e histórias contadas com raiva. Em Histeria agressiva 100% neurótica vol. 2 – Muito mais neurótico (continuação do EP de mesmo nome, lançado em 2024), ela, Spieker (DJ, guitarrista) e Salva (bateria) criam a trilha sonora de uma distopia vivida pela gente 24 horas por dia – com direito a referências sonoras de Slipknot, Body Count, Slayer (especialmente) e vários outros grupos pesados.
- Ouvimos: FBC – Assaltos & batidas
Histeria abre com funk-rap-punk-metal nas alturas em Manifesto, que fala de violência policial, falência da guerra contra as drogas, capitalismo e escala 6×1 (“olha pro lado / é um bando de facho / querendo te roubar / fuder o proletariado”). Nerds&noias bate no racismo e na saúde mental do jovem oprimido (“filha da puta fica puto / porque eu racializo tudo / foda-se o que tu acha / eu que vivo nesse mundo de merda racista!!”).
Conto de fadas abre em tom romântico, e tem evocações de jazz e de rock experimental a la Primus na melodia, encerrando com peso, anti-romantismo e lembranças de abusos em relacionamentos – tema que surge também em Parasita, metal-rap com cara de Slayer, e no bate-cabeça metálico-funkeiro de É us capeta não adianta. O máximo de romantismo é o sexo ao som de Slipknot da vinheta Chovendo fetos do demônio – mas com Taya no controle.
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Crítica
Ouvimos: Aerosmith + Yungblud – “One more time” (EP)

RESENHA: Yungblud e Aerosmith revivem a fase anos 1990 do grupo norte-americano em EP irregular. Tem hard rock psicodélico competente, uma boa faixa (Wild woman) e resto sem grandes surpresas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 6
Gravadora: Capitol / Universal
Lançamento: 21 de novembro de 2025
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Tem um certo momento em que o que damos como garantido – ou seja: o que parece sair de uma torneira eternamente aberta – começa a escassear, às vezes sem que a gente se dê conta. Deve haver um gatilho que simboliza essa “falta”, mas o mais louco é que, quando a gente menos percebe, o que a gente achava que estava meio padronizado vira cult. Tipo jovens usando bigode ou bandas que fazem uma espécie de rock farofa alternativo. Ou artistas novos que estão mais próximos do emo (ou estilos parecidos) mas cresceram ouvindo a fase de sucesso noventista do Aerosmith, quando canções como Cryin’ e Livin’ on the edge não saíam do rádio.
Dominic Richard Harrison, o popular Yungblud, já foi definido como a mistura de “Robbie Williams, o falecido vocalista do Prodigy Keith Flint e o personagem Dennis, o Pimentinha” – e é um cara que usa imaginários conhecidos do rock para contar histórias e fazer música, como na ópera-rock Idols, lançada neste ano (e resenhada aqui pela gente). Normal que a parceria entre ele e o Aerosmith, pensada inicialmente para apenas uma música, tenha se tornado um EP de cinco faixas.
- Ouvimos: Sombr – I barely know her
Na real, One more time, o EP, traz o retorno do próprio som feito pelo grupo nos anos 1990 – aquela popização de psicodelia e de riffs de Rolling Stones e Led Zeppelin. Não é um disco excelente do Aerosmith, e é balizado por duas lembranças da era de discos como Get a grip (1993), em faixas como My only angel, o hard rock levemente psicodélico Problems, e o tom sombrio, roqueiro e selvagem de Wild woman – a melhor música, na cola do disco Rocks (1975).
A thousand days, por sua vez, é uma balada sem muito atrativo, que lembra não muito discretamente Knockin’ on heavens door (Bob Dylan). No fim, tem um remix de Back in the saddle (música de abertura do álbum Rocks) – que é quase a mesma música de sempre, só que com mais peso e ambiência, além dos vocais de Yungblud. Deve ter sido divertido para o convidado, mas não há muita coisa além da diversão por aqui.
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