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Ouvimos: Blonde Redhead, “Sit down for dinner”

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Ouvimos: Blonde Redhead, "Sit down for dinner"
  • Formado em 1993 em Nova York por Kazu Makino (voz, guitarra rítmica, teclados) e pelos gêmeos Simone (bateria e teclados) e Amedeo Pace (guitarra solo, baixo, teclados, voz), o Blonde Redhead estava sem lançar disco desde 2014. Sit down for dinner é o décimo álbum da banda, produzido pelo próprio trio. Além do disco, saiu um curta-metragem acompanhando o lançamento das duas partes da faixa-título.
  • O disco foi inspirado pelo livro O ano do pensamento mágico, memórias de luto da escritora Joan Didion, após seu marido morrer. “A vida muda num instante. Você se senta para jantar e a vida como você a conhece acaba”, escreveu Joan. Kazu inspirou-se pelo livro e por assuntos doloridos como a distância de seus pais, que vivem no Japão.
  • No meio do hiato discográfico, Kazu lançou seu primeiro disco solo, Adult baby (2019), que trazia até participação de Ryuichi Sakamoto.

O Blonde Redhead já foi mais do barulho – álbuns mais antigos como 23 (2007) mostravam o trio bem mais próximo de alguma aventura shoegaze, com guitarras e vocais docinhos perdidos no horizonte. O álbum de estreia, epônimo, de 1995, era quase pós-punk psicodélico. Seria comparável a Pixies, se o grupo de Black Francis enchesse as canções de eco. E se fosse visto investindo numa pérola bossa-lo-fi como Girl boy.

A musicalidade do grupo novaiorquino já não parece tão anticomercial nos dias de hoje. Afinal, termos como “dreampop” são usados até para definir músicas do Foo Fighters e de nomes do pop em geral. Em Sit down for dinner, novo disco, sobrou a vontade de escrever canções no limite entre a doçura e o clima “perdido” de discos anteriores.

No geral, é um álbum que chama mais a atenção pela beleza do que por qualquer estranheza que ainda pareça associada ao som deles. Cabe lá uma balada que poderia estar no repertório de uma rádio adulta (Not for me), uma canção que parece pop francês dos anos 1960 (Melody experiment), experimentações vocais (Rest of her life), uma música de voz, piano, cordas e efeitos (Sit down for dinner pt 1). Já I thought you should know lembra o lado cândido das composições de Lou Reed (e do repertório do Velvet Underground lá por 1966/1967). E If é mais uma tentativa de indie-bossa, agora com (muito) eco.

Em termos de letras, os últimos tempos deram um ar existencial para o Blonde Redhead. O novo disco, em especial nos casos de faixas como Sit down for dinner pt.2 e Rest of her life (sobre uma mulher que “perdeu o amor há uma semana” e mesmo assim “ainda fala com ele”, concluindo com o verso “o resto da vida dela morando na vida passada”), trata daquele mesmo assunto que Luiz Melodia narrou em um verso de Juventude transviada: “nascimento, vida e morte/quem diria”. Mas sem o mesmo bom humor: aqui a finitude é um espelho que mostra o que você faz da sua vida enquanto é assombrado (ou não) pelo término.

Gravadora: Section 1
Nota: 7,5

Foto: Reprodução da capa do álbum

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Ouvimos: Allpacas – “Jorge”

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Resenha: Allpacas – “Jorge”

RESENHA: Em Jorge, Allpacas une hardcore, punk e peso californiano em disco direto, com letras afiadas contra coachismo, redes sociais, pacto com elites e política.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 3 de julho de 2026

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O Allpacas é uma banda punk de Americana (SP) que existe há onze anos. Jorge, um álbum curto e grosso (menos de meia hora), gravado ao vivo em um final de semana, é mais um disco sobre o punk do que apenas um disco punk – o som vai do hardcore ao peso californiano, há sons em estilo “grito de torcida” que lembram Blind Pigs e o começo do CPM 22, e climas oitentistas.

As letras são atualizadíssimas: Analfabeto funcional, hardcore com clima quase lo-fi (o disco inteiro lembra uma demo fortalecida e reconstituída), põe dramaticidade nas guitarras para falar de alguém que não sabe escrever, não lê jornal, só reproduz ódio e clichê mas não consegue deixar de dar opinião. Tragédias sociais e políticas, do povo sendo transformado em lixo, tomam conta de MRV, Lumempartidarismo e Everyday I wake up brasileiro – essa última em clima noventista, que surge também em Rotina.

  • Ouvimos: 808 Punks – Bater cabeça e rebolar (EP)

Há vibe gótica no começo de Chuteira preta, que une ódio, redes sociais, jornais, celebridades e pacto com as elites. O punk rock Startup senta a mamona no empreendedorismo e coachismo de palco. Sons entre D.R.I. e Charlie Brown Jr dão as caras em faixas como Que soy? e Bueiros. Som pro último volume.

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Ouvimos: Downtown Boys – “Public luxury”

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Resenha: Downtown Boys – “Public luxury”

RESENHA: Art punk bilíngue, pesado e combativo: o Downtown Boys une punk, eletrônica e esperança em Public luxury, disco que transforma luta sindical em música.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Sub Pop
Lançamento: 26 de junho de 2026

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Public luxury (“luxúria pública”), terceiro álbum da banda estadunidense Downtown Boys, traz lembranças e recados para quem é contra a escala 6×1, para patrões que chamam funcionários de “colaboradores” e para empresas que oferecem para os funcionários o básico (protegido por lei) como se fosse uma baita vantagem trabalhista. É art punk bilingue (cantado em inglês e espanhol), pesado, sombrio e – pode acreditar – cheio de vitalidade e otimismo.

Entre o segundo álbum, The cost of living (2017) e o novo, o grupo conciliou a música com o trabalho sindical (!) – vai daí, o Downtown Boys é o tipo de banda que sabe o valor da luta, do protesto e da briga pública, numa visão 2026 do punk classe-operária dos anos 1970 e 1980. Na abertura de Public luxury, tem punk em espanhol com vocais gritados (No me jodas), country-punk com riffs lembrando The Cure (The city begins) e uma faixa com tecladinho lembrando Stranglers, além de um som sinistraço de guitarra (Sirena). É assim que todo mundo é apresentado à música do grupo.

  • Ouvimos: Makeshift Art Bar – Marionette (EP)

Se o punk é marcado pelo cinismo em potencial, Downtown Boys são bem o contrário disso – especialmente no que diz respeito aos vocais abertos e expressivos de Victoria Marie. Ela canta “todavia, acredito no futuro / todavia, vejo nossos mortos” no hardcore-country Viva la rosa, insere a palavra “amor” em clima Bjork na new wave-com-vibrafone Yellow sun, e solta palavras de ordem na eletrônica You’re a ghost, o mais próximo que o Downtown Boys consegue chegar do Ministry.

Na onda art punk do Downtown Boys sobra até pros Pixies, citados no arranjo de Albuterol. Rola também um batidão em Mi concha, meio indie sleaze, meio forró rápido – além da vibe quase gótica, com saxofone, de Public works. A curiosidade que ninguém esperava é a house music da faixa-título, que encerra o álbum. Uma coda de diversão em meio a vocais sindicais que parecem sair de um megafone, e da ferocidade das guitarras. Peso sonoro feito por gente que vive política.

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Ouvimos: Makeshift Art Bar – “Marionette” (EP)

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Resenha: Makeshift Art Bar – “Marionette” (EP)

RESENHA: Makeshift Art Bar mistura jungle, industrial, ska e eletrônica pesada em Marionette, EP intenso, caótico e cheio de tensão.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Heist or Hit
Lançamento: 26 de junho de 2026

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Vindo da Irlanda do Norte, o Makeshift Art Bar é uma banda interessada em porrada, caos e ousadia: Marionette, o segundo EP, une sons eletrônicos e peso sem soar parecido com o Ministry ou com qualquer outra banda craque do estilo.

O som de faixas como Chocolate é basicamente um jungle distorcido e imagético, gravado como se fosse uma trilha de filme – dá para imaginar uma pista de dança escura bombando. Crows é um blues industrial porradeiro, em que o ritmo parece dado por várias correntes rangendo, enquanto a letra fala sobre incertezas e falta de paz.

  • Ouvimos: Data Animal – Future of ghosts

Marionette é um EP curtinho, com duas faixas em cada metade. Discipline tem ares de Laibach e de Alien Sex Fiend – une música sombria, clima hi-energy, peso e ondas de pavor. Servant, no final, é um ska demoníaco e pesado, em que temas como controle mental e manipulação se tornam cada vez mais apavorantes.

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