Gary Grimshaw celebrado com exposição que vai até janeiro

Mais conhecido como o criador dos pôsteres de shows do MC5 (e por extensão, do Grande Ballroom, casa de shows clássica de Detroit), Gary Grimshaw (1946-2014) detestava termos como “hippie” e “punk”. “São apenas termos que a revista Time usa para classificar pessoas”, explicava. Uma de suas grandes paixões musicais era o soul – Al Green era um de seus artistas preferidos. Conheceu Rob Tyner e Wayne Kramer, futuros vocalista e guitarrista (respectivamente) do MC5 ainda na escola, quando já começava a dar os primeiros passos como desenhista.

Gary Grimshaw celebrado com exposição que vai até janeiro

Em seus últimos anos, Grimshaw ouvia bandas recentes como Detroit Cobras e via que seu trabalho antigo, feito entre os anos 1960 e 1970, voltava a ser valorizado. Isso após um enorme período em que, pelo menos na visão dele, pôsteres tinham virado uma coisa tão nostálgica quanto o próprio LSD. Olha só o que ele contou sobre as mudanças no mercado, ao livro MC5: Sonically speaking: a tale of revolution and rock ‘n’ roll de Brett Callwood.

“Entre os anos 1960 e 1970, contratavam você para fazer o pôster e era esse o motivo pelo qual você era pago – para anunciar o show. Quando começou o rock de arena e o mercado da música se expandiu, os pôsteres viraram um troço ultrapassado. Eram muito demorados para se fazer, gastavam muito tempo (…). Durante os anos 1980, tudo girava em torno de flyers. Eu trabalhava diretamente para as bandas. Artistas jovens que surgiam realmente amavam antigos pôsteres”, contou Gary Grimshaw. “Eles queriam continuar fazendo, mas os comtratantes não iriam pagar a eles por isso. Eles ligariam para as bandas, da mesma forma que eu fazia com os flyers, pedir autorização a elas e imprimir os pôsteres, na maioria das vezes usando silkscreen”.

Se os pôsteres psicodélicos de shows em algum momento pareceram uma arte perdida (e Gary também desenhou capas de discos, como Instinct, de Iggy Pop), até janeiro de 2020 rola uma bela chance de reencontro com a obra de Grimshaw, lá mesmo na terra dele. Se você, apesar da crise, tem uma grana sobrando, o Lincoln Park Historical Society and Museum está com a exposição Gary Grimshaw: the Master Artist’s Studio, com vários itens de sua obra. Que inclui, além de pôsteres, ilustrações para a imprensa underground da época, além de itens pessoais.

Logo nos primeiros meses da mostra, a viúva de Gary, Laura Grimshaw, promoveu um evento de aniversário póstumo para o marido. A ideia era arrecadar fundos para o museu e para a Gary Grimshaw Legacy Foundation, que corre atrás dos direitos autorais perdidos do desenhista.

Alguém fez um vídeo com a (extensa) palestra que Laura fez na ocasião, falando sobre o trabalho, a vida, as influências e a época de Gary. Infelizmente o som tá tão baixo que boa parte do papo não está legendada. Vale assistir nem que você tenha que arrumar um amigo fluente em inglês para traduzir algumas partes.

Uma preciosidade no YouTube: em 1996 rolou uma expo de Gary no Cass Cafe, em Detroit. Fizeram um vídeo que mostra a impressão do pôster da própria exposição. Dá para ouvir a voz de Gary, que aparece em poucos segundos, de bigode e jaqueta de couro, com as mãos nos bolsos.