Connect with us

Crítica

Ouvimos: Dale Crover, “Glossolalia”

Published

on

  • Glossolalia é o terceiro disco solo de Dale Crover, baterista do Melvins. Dale chegou a tocar em duas ocasiões com o Nirvana, além de dividir espaço com Kurt Cobain numa banda punk de curta duração chamada Fecal Matter.
  • Numa entrevista recente ao site Stereogum, Dale contou que nunca imaginou que o Nirvana fosse ter o tamanho que teve (“eles foram muito influenciados pelos Melvins e eram nossa banda-irmã mais nova”) e aproveitou para desfazer os boatos de que na adolescência, tocou numa banda cover de Iron Maiden (“não é verdade”, garante).
  • Glossolalia é o ato de falar em línguas inintelegíveis, mas que prosodicamente soam como uma fala comum – aquele negócio que algumas religiões associam até com o fervor durante uma missa, um culto, etc. Dale Crover diz ter chegado a esse título ao lembrar que na adolescência, tocou bateria numa igreja e viu um colega “falar em línguas estranhas”.

O disco novo do baterista do Melvins é um clássico – soa como uma viagem que começa lá no MC5, passa pelo Motörhead, e chega a Black Flag e ao rock de Seattle passando pelo pós-punk. O nome Glossolalia faz sentido até musicalmente: o som de Dale Crover parece funcionar na mais perfeita ordem, visto/ouvido à distância – e fica bem próximo do caos sonoro quando se chega bem perto, como nos idiomas “estranhos” que parecem algo familiar bem de longe.

A lamentar, só o fato de que Mark Lanegan, morto em 2022, cairia muito bem como convidado no álbum de Dale – que traz ainda Tom Waits falando em línguas estranhas na faixa-título, Kim Thayil (Soundgarden) solando em I quit e Rings, e Ty Segall divindo espaço com o stoner Rob Crow em I waited forever – Rob também está em Don’t worry about it e Ty, em Spolied daisies. Basicamente, o som é punk influenciado por hard rock e ate por folk, na faixa-título, em Blow’d up, no blues-rock-country Rings (levada adiante por vocal grave estilo Lou Reed e guitarras dobradas a la Wishbone Ash e Thin Lizzy) e na curiosa Jane, homenagem à atriz britânica Jane Birkin, com levada de abertura herdada de Close to me, do The Cure.

Entre as outras curiosidades do álbum, está o fato de que Dale Crover, próximo de Kurt Cobain em vários momentos, faz lembrar, como letrista, o estilo sanguíneo do vocalista do Nirvana. Sons lembrando uma formatação proto-punk de bandas como Mountain estão em faixas como Spoiled daisies. O disco ainda tem espaço para uma balada bêbada cuja produção lembra a ambiência sonora de Steve Albini. E para o power pop em negativo de I quit e Doug Yuletide – esta última, uma estranha homenagem a Doug Yule, o cara que entrou no Velvet Underground no lugar de John Cale e levou a banda adiante após a partida de Lou Reed.

Nota: 9
Gravadora: Joyful Noise

  • Apoie a gente e mantenha nosso trabalho (site, podcast e futuros projetos) funcionando diariamente.

Crítica

Ouvimos: Starly Kind – “Inferno (xe/xem)”

Published

on

Resenha: Starly Kind – “Inferno (xe/xem)”

RESENHA: Starly Kind mistura lo-fi, screamo, pós-punk e psicodelia em Inferno (xe/xem), EP sombrio sobre angústia queer e demônios internos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: CorpoRAT Records
Lançamento: 8 de maio de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Musicista agênero do Oregon, Estados Unidos, que se radicou em São Paulo, Starly Lou Riggs criou a Starly Kind como veículo para uma música lo-fi e fantasmagórica. Um som que volta e meia ganha ares math rock, ou que se aproxima de um art rock em clima de pesadelo. Inferno (xe/xem) é um EP sobre demônios xamânicos, angústia existencial queer, dores acumuladas durante uma vida inteira – e sobre como é chamar o inferno de casa.

Starly kind, a faixa de abertura, é lo-fizaça, com glitches, clima dreamy e vocais torturados e gritados. Held me with soma a isso um clima mais ambient, em que vibrações screamo unem-se ao experimentalismo da música. Superanatural clutches fica entre a psicodelia e a no wave, com direito a uma guitarra próxima do som do Black Sabbath. Uma curiosidade e uma mudança de rumo vêm com Bloodlust rising, algo entre Beach Boys, Residents e Devo – seguida justamente pela onda reggae + dub + fantasmagoria de And the devil watched me dance in.

  • Ouvimos: Delmore – Tão logo cada poste se ilumina

Demon dreams, que encerra o disco, é pós-punk mais do que tudo, e é a música mais bonita do EP – aliás lida com uma noção mais tranquila de “beleza” na melodia, ainda que também invista na vibe sombria das outras faixas. Um disco bem instigante, em todos os momentos.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

 

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Duo Violeta – “Mar pequeno”

Published

on

Resenha: Duo Violeta – “Mar pequeno”

RESENHA: Duo Violeta mistura violão, escaleta e folk nordestino em Mar pequeno, disco contemplativo, viajante e cheio de imagens sonoras.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: The Citadel House
Lançamento: 22 de maio de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Se você for com muita sede ao pote no disco do Duo Violeta e chegar meio desavisado, pode acabar adorando o encontro do violão com a sanfona. Depois vai dar risada quando descobrir que André Sant’Anna e Rafael Campanaro, são na real, e respectivamente, o encontro da escaleta – teclado de sopro popularizadíssimo pelo reggae e pelo dub – com o violão. Mais que isso, as gravações tiveram vários testes de estúdio, que envolveram posicionamentos dos músicos, microfones diferentes e muitas experimentações sonoras.

Mar pequeno tá bem longe de ser um disco experimental, mas passa perto. É um disco brasileiríssimo e quase sempre nordestino, que parece seguir o curso de um rio e contar uma história – já que as músicas parecem encadeadas e evocam imagens que soam do mesmo modo. Será marés, Na rede e O boto, no começo, são folk nordestino – sendo que a última insere clima sombrio e efeitos de tremolo na escaleta. Para a ilha é forró + jazz, mas tem algo de indie rock na sonoridade, até algo de Beatles no meio da melodia. Inverno no mar é balada, blues e folk, com final contemplativo e várias partes diferentes.

Esse clima de viagem sonora, que insere segmentos diferentes em canções curtas, chega no ápice na última faixa do álbum, Emergiu. Até lá, André e Rafael proporcionam surpresas como a melodia de À deriva, que chega a lembrar um soul no final. Ou a recriação da folclórica Peixe vivo, cujas linhas melódicas só se tornam claras lá pelas tantas. Ou o clima folk brasileiro de Náufrago. Um disco muito bonito.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

 

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Soma Please – “Ballet” (EP)

Published

on

Resenha: Soma Please – “Ballet” (EP)

RESENHA: Soma Please mistura synth pop, pós-punk e dream pop em Ballet, um EP que cruza Queen, U2, LCD Soundsystem e até samba indie.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Skud & Smarty
Lançamento: 14 de maio de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

O Soma Please é um duo luso-britânico, formado pelos músicos Nuno Bracourt e Rob Williamson. Não chega a ser um som muito inovador, mas tem detalhes que conquistam de cara, já que Ballet, o EP, soa às vezes como um encontro entre estilos e épocas. Tipo o que rola com I’m a fan, entre o synth pop e uma onda que lembra o Queen, ou Love, um dream pop com peso. Pockets on my sleeves é pós-punk com alma oitentista, e algo de Radiohead e LCD Soundsystem misturado.

As duas últimas faixas do EP são as mais diferentonas do disco: Alone é um curioso pop meio samba, meio bossa, com cara indie e solar. What’s the score é mais ruidosa, abre com clima sombrio fake, e depois chega a lembrar um blues rock eletrônico. Ballet é um pequeno apanhado do som deles, e uma demonstração de sonoridades que estão no arquivo deles.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Acompanhe pos RSS