O retorno de Caetano Veloso ao Brasil, enquanto era um músico exilado, foi acontecendo em partes. O primeiro “retorno” do cantor ao país foi bastante traumático. A irmã Maria Bethânia conseguiu que ele viesse, em 1971, participar da festa de 40 anos de casamento dos pais.

Caetano e a então mulher Dedé vieram, mas foram praticamente sequestrados por policiais no aeroporto, interrogados severamente e o cantor foi obrigado a fazer uma apresentação na TV a pedido dos militares (no Som Livre Exportação, da Globo). Mesmo tendo cumprido o combinado, o cantor teve a sensação de estar sendo vigiado e perseguido durante sua estadia em seu próprio país.

Poucos meses depois, em agosto de 1971, Caetano voltaria por quinze dias – antes ainda de retornar em definitivo para o Brasil, o que só aconteceu em 1972. Só que o clima era outro, um pouco mais ameno. João Gilberto o convidou para vir ao Brasil tocar num especial de TV. O cantor de Alegria, alegria contou sobre o risco que havia corrido, mas João alegou que dessa vez ele seria bem tratado. “Caetano, escute: é deus quem está pedindo para eu lhe chamar”, disse João, garantindo que o Brasil amava o cantor e que todos lhe sorririam (o que de fato acabaria acontecendo).

Se Caetano questionou o que ou quem João estaria definindo como “deus”, só ele sabe, mas o cantor veio e participou, sim, do tal programa de TV, que se tornou uma das maiores lendas da história da música brasileira na televisão. O cantor veio (“porque João mandou”, como alegou à Folha de S. Paulo) e, logo no dia 8 de agosto de 1971 reuniu-se com João e Gal Costa no Teatro Tupi para gravar o tal programa.

O encontro, que ganhou o significativo nome de Chega de saudade, durou seis horas e ainda teve participação de Lanny Gordin. Pro ar, na TV Tupi, foram 1h30 de música, com produção de Manoel Barenbein, da gravadora Philips, e direção de Fernando Faro.

Ao que consta, Fernando ficou bastante irritado com os cortes finais e pediu até mesmo que seu nome fosse tirado dos créditos – e as imagens foram destruídas em algum incêndio ou na falta de cuidado geral com o acervo de emissoras de TV. A ideia era que a Philips, a pedido do chefão André Midani, lançasse um LP com pelo menos seis faixas do encontro, o que nunca aconteceu porque João teria detestado sua performance.

“Havia uma cláusula em contrato que dava a João o direito de não lançar o disco se ele não gostasse. Em um primeiro momento, soube que ele havia aprovado. Depois, já a caminho da Itália, ouvi dizer que ele não havia gostado de nada e desistiu”, chegou a afirmar Barenbein a Renato Vieira no Estadão. O clima foi legal nos bastidores: João chegou a convidar Caetano para jogar pingue-pongue (o cantor de Chega de saudade era viciado no jogo na época).

O som foi conservado em duas fitas de rolo, guardadas no acervo da Universal. Alguns jornalistas tiveram acesso às seis horas de música nos anos 2000. A Folha ouviu e cravou que o material dificilmente seria lançado, não apenas por ter imperfeições técnicas como também pelo relacionamento ruim de João com a Universal.

A música transmitida no especial de TV, por sua vez, ficou guardada por vários anos em fita por Ion de Freitas Filho, que gravou tudo em fita de rolo direto da televisão e depois passou para fita K7. Recentemente, o pesquisador e produtor musical Pedro Fontes teve acesso ao material, tratou em estúdio e jogou no YouTube em duas partes. A última parte do show chegou a ser gravada por Ion mas se perdeu – embora as músicas desse segmento possam ser ouvidas no canal de Pedro.

O site Volume Morto, que noticiou o surgimentos dos vídeos, explica que “o áudio destas músicas é da fita que ficou com a Fundação Padre Anchieta, doada por Cyro Del Nero, cenógrafo que também trabalhou no especial junto com os produtores Fernando Faro e Alvaro de Moya. Enquanto a fita de Ion traz um material inédito, a parte final, do arquivo da Fundação Padre Anchieta, foi utilizada pelas rádios do grupo, a Cultura Brasil e Cultura FM. Mas no canal de Pedro Fontes o áudio está tratado e mais limpo”.

O material original ainda continha Caetano cantando Triste Bahia, “parceria” com o autor baiano Gregório de Matos (1636-1696), uma das músicas que não foram para o ar na Tupi (mas estão nas fitas de rolo das seis horas). Do material que pode ser ouvido no YouTube, consta novidades como Caetano cantando Fruta gogoia (que Gal cantaria no show Fa-tal) e Na asa do vento (de Joao do Vale e Luiz Vieira, que ele gravaria no disco Joia, de 1975).

Olha aí o programa em duas partes.