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Crítica

Ouvimos: Mayhem – “Liturgy of death”

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Ouvimos: Mayhem – “Liturgy of death”

RESENHA: Banda norueguesa de black metal, o Mayhem carrega histórico violento e mórbido. Em Liturgy of death, aposta em som litúrgico, denso e nada caricatural.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Century Media
Lançamento: 6 de fevereiro de 2026

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Vindo da Noruega, o Mayhem faz black metal, e é uma banda de energia esquisita. Aliás, a vibe é bizarra a ponto de o grupo ter no histórico um ex-vocalista suicida (Per Yngve Ohlin, o popular Dead, que não aparece nos discos oficiais) e de seu primeiro álbum, De mysteriis dom sathanas (1994), trazer gravações do guitarrista Euronymous, assassinado um ano antes, e do baixista Varg Vikernes, criador da banda rival Burzum e assassino do músico (!).

O assassinato rolou no meio de uma briga que supostamente envolvia não-pagamento de royalties, justamente por causa das gravações com o Mayhem. Varg havia sido recrutado apenas para gravar o álbum, que saiu na época da condenação dele – e não recebeu crédito porque os pais de Euronymous pediram que as partes do músico fossem retiradas. O baterista Jan Axel Blomberg (o popular Hellhammer) mandou um migué e disse que ia regravar tudo.

Não regravou nada: deixou tudo lá, e ainda disse ter achado apropriado “que o assassino e a vítima estivessem no mesmo disco”. Pra completar o circo de bizarrices: mesmo ausente de gravações oficiais, Dead, o tal vocalista que deu fim à própria vida, é letrista de boa parte da estreia  – da caneta dele, saíram canções como nomes simpáticos como Life eternal (“vida eterna”) e Cursed in eternity (“amaldiçoado na eternidade”).

Isso já basta pra você entender que, na real, para além do som das letras satanistas e anticristãs, Mayhem é uma banda que atrai muita curiosidade, mórbida ou não. O documentário Satan rides the media, de 1999, trata dessa história (com um baita pano de fundo sensacionalista, vale dizer) e o filme Lords of chaos, de Jonas Åkerlund (2018), vai mais fundo ainda no lance dos assassinatos – que aconteceram numa cena bastante musical e extremista. Além disso, fuçando canais a cabo, você pode deparar com mais algum doc imprensa-marrom citando o grupo (no YouTube, o que não faltam são vídeos na onda do satanic panic associando o coisa-ruim e o black metal a badulaques extremamente diabólicos como a espada de plástico dos Thundercats e os discos do Poison).

Mas o que interessa é que, de lá para cá, o Mayhem veio rolando até os dias de hoje e Liturgy of death, sétimo álbum, sai com a formação mais “núcleo duro” do grupo da história do grupo: os eternos Hellhammer (bateria) e Necrobutcher (baixo) ao lado de Attila Csihar (vocal), Teloch e Ghul (ambos guitarra).

Essa turma está junta desde 2012 e vem participando de uma fase bastante criativa do Mayhem, com álbuns regulares, evolução musical audível e tentativas de escapar o máximo possível do universo de sensacionalismo e true crime que foi envolvendo o grupo. O disco novo é basicamente metal satânico litúrgico, com qualidade de gravação que parece reverberar nas paredes do inferno – e um som que tem até seus lados meio clássicos.

Você pode imaginar um maestro diabólico regendo as guitarras de Ephemeral eternity, da porrada sacro-metálica Aeon’s end (de versos fofos como “as cabeças dos falsos santos se desfazem em pó / seus santuários apodrecem sob o solo profanado” e “queimem toda a igreja morta, queimem / queimem o mundo morto, queimem”) e da desesperadora Despair, com beats rápidos e tensos e vocais que vão do gutural ao operístico de araque. Weep for nothing é quase crusty, mas bonito: dá susto no / na ouvinte com o grito na abertura e emenda com a porrada.

A tal “liturgia da morte” do Mayhem é levada a sério pela banda: Liturgy of death fala de morte como se fosse algo (er) quase político-social. Assuntos como “vidas desperdiçadas” e “esperanças perdidas” aparecem quase na proporção que um “meu amor” apareceria num disco do Belo – rola em músicas como Realm of endless misery e na circulação de palhetadas de Propitious death. No final, The sentence of absolution pega pesado, e ganha ares quase cerimonais, com percussões, corais e clima de rito sombrio.

Fazer isso tudo sem soar caricatural e sem parecer derramar sangue de lápis de cor… Bom, é pra poucos. Já fazer esse tipo de coisa com ares de oração pagã e dar ligeiros cutucões em fãs incautos… Digamos que só o Mayhem mesmo para conferir credibilidade a Weep for nothing (“chore por nada”) e sua letra de total anti-espiritismo: “ó mortais miseráveis / ​​vocês nunca honraram a morte como a criação perfeita da natureza (…) / os mortos estão além de qualquer mal / todas as histórias do submundo são mentiras / não resta noite escura / nenhum trono de julgamento / nenhum deus para decretar falsos contos de horror”. Eita.

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Crítica

Ouvimos: Pitty – “Pitty”

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Resenha: Pitty – “Pitty"

RESENHA: No sexto álbum, Pitty mistura guitarras pesadas, alt-pop, pós-punk e até tecnobrega. Entre ecos de Arctic Monkeys e Queens Of The Stone Age, a cantora fala de separações, amadurecimento e recomeços.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Deck
Lançamento: 16 de outubro de 2026

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Pitty, sexto e novo álbum da cantora baiana, é bom. Não é o melhor disco dela – a estreia Admirável chip novo (2003) e Chiaroscuro (2009) ganham o posto tranquilamente. Mas tem um papel importante na carreira dela: num país diversificado musicalmente como o Brasil, mostra uma ótima transição para uma vibe musical mais alt-pop, mais voltada a um rock simultaneamente pesado e elegante, dançante e cheio de guitarras. Já era algo que aparecia nos discos dela faz tempo, mas ficou claro que ela está em busca de uma mudança sonora mais forte e permanente do que a do disco Matriz (o mais recente, de 2019).

Mesmo com o peso quase punk + metal de Sobremesa, single e música de abertura – uma canção renovada e juvenil, em que Pitty basicamente volta no tempo como precursora de bandas como The Mönic e Eskröta – Pitty tá mais próximo do som de bandas como Arctic Monkeys e Fontaines D.C., e da diversidade que faz com que estes últimos gravem com Rosalía. Na real, em alguns momentos Pitty parece estar de olho tanto no alinhamento sonoro de bandas como Queens Of The Stone Age quanto nas mudanças que Anitta foi tendo ao longo da carreira.

Quem é fã de músicas como Teto de vidro ou só conhece as músicas mais roqueiras dela, talvez estranhe o beat dançante (com argamassa pós-punk) de Armadura, ou o pop climático de Caminhada, ou o namoro com o tecnobrega de “Amiga,” (dedicada a um amiga falsiane secreta, o que já rendeu altos debates na bolsa de fofocas). A Pitty sinistra e pop do hit Me adora dá as caras no metal cigano de Desobediente, no blues a la Black Keys de Álbum de casamento (uma música sobre sua recente separação, revivendo amarguras mas encerrando com uma proposta de paz) e no rock elegante e épico de Nó.

Essa Pitty reside também no pop alternativo de Pileque de poeta, com coprodução de Felipe Vassão, e num curioso momento David Bowie + Michael Jackson do disco, a ótima Sobriedade seletiva. Mas a variedade do álbum inclui também flertes com o stoner rock (a “canção da inimiga” Madame), com o rap e com o grunge (Prazer, universo, que traz algo brasileiro infiltrado no suíngue) e mergulhos no punk (Não à deriva).

Já nas letras, Pitty decidiu fazer canções com reflexões bem mais diretas e literárias do que no passado, além de inserir amadurecimentos, ganhos, perdas e danos no rol dos assuntos – como em Cuidada, canção dedicada à mãe, e que fala basicamente de amor e entendimento. Basicamente a Pitty de 2026 compreende não só o público dela, mas o que andou acontecendo no pop e no rock no Brasil no últimos anos – e escolheu o novo disco para dar um testemunho disso.

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Crítica

Ouvimos: Eels – “Cookie happened”

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Resenha: Eels - "Cookie Happened"

RESENHA: Inspirado no Cookie Monster, o Eels mistura folk, power pop e rock dos anos 1960 em Cookie happened. Entre ecos de Lou Reed, Dylan e Lennon, Mark Everett fala de finitude, esperança e recomeços.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: E Works / PIAS
Lançamento: 16 de outubro de 2026

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Mark Oliver Everett, criador do Eels, decidiu fazer de Cookie happened um disco em que o mote principal é o Cookie Monster da Vila Sésamo – e sua frase “eu não choro porque o biscoito acabou, eu sorrio porque o biscoito aconteceu”. Ou seja: basicamente é um disco contemplativo e positivo, em que o Eels lida com uma espécie de magia quase infantil, quebrada apenas pelo vocal grave e rascante de Mark. Muitas letras falam sobre seguir em frente, não ter nada a perder, não chorar pelo leite derramado – e All forgotten fala sobre uma estranha sensação de encontrar paz na finitude, ou na sensação de que daqui a algum tempo nada mais vai existir.

Essa coisa de “daqui a algum tempo estaremos todos mortos”, vamos dizer… Bom, você precisa ser bastante evoluído (dependendo de sua visão de “evolução”) para não ficar tenso com isso. Em termos de som, Cookie happened é um disco de rock sessentista jangling, com cordas mágicas e clima celestial, cujo pé-na-Terra vem de uma onda bem indie rock que serve como argamassa pra tudo. Mesmo em canções mais folk como Clobbered e I’m on standby (esta, marcada pelo som circular de um sintetizador anos 1980).

All forgotten tem uma beleza quase bossa – e uma vibe meio Lou Reed. Taking pictures é uma balada soul de piano, com lembranças de John Lennon. – e o folk rouco de Bamboozled again tem muito de Bob Dylan. O power pop de New story se comunica bastante com Elvis Costello e com uma versão mais introspectiva e tristinha do Weezer. Uma curiosidade sobre as letras é que Mark parece disposto a falar sobre política sem citar a própria – e muitas vezes disfarçando os comentários numa capa de “espiritualidade”, em que surgem choques de opções (o blues country Dum dums e The way I was made) e independência diante do que chamam “destino” (New story). Um disco que fala de esperança e amor apesar de tudo.

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Crítica

Ouvimos: Anfiteatro Babel – “Eletromelodramas vol. 2” (EP)

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Resenha: Anfiteatro Babel – “Eletromelodramas vol. 2”

RESENHA: Em Eletromelodramas vol. 2, Anfiteatro Babel, o projeto de André Nectoux explora drones, sintetizadores e krautrock em três faixas instrumentais que criam cenários imaginários, entre a contemplação e a inquietação.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Chupa Manga Records
Lançamento: 21 de setembro de 2026

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Anfiteatro Babel é um projeto musical de experimentação sonora idealizado pelo músico e produtor brasileiro André Nectoux, de Porto Alegre. Eletromelodramas, por sua vez, é uma série baseada em cenários musicais – algo que o ouvinte vai acabar completando com sua própria mente durante a audição. Pode servir tanto para relaxar quanto para funções mais, vamos dizer, psicodélicas – como o drone eterno de órgão da faixa de abertura Phós ópsis.

Basicamente Eletromelodramas vol. 2 é composto pelo que André chama de “um novo trecho da corredeira de um rio sonoro” – e ele até fala do “como usar” essas três músicas no texto de lançamento. Spiegel’s birds, a segunda faixa, tem cara krautrock (são basicamente sintetizadores circulando no ouvido e fazendo acrobacias) e soa como um experimento feito com quem ouve o disco – quais são as reações que alguém tem diante desse som, que às vezes parece ganhar contornos mais sombrios?

O final, Melodrama II, é mais kraut ainda – às vezes parece a visita a um palácio, ou a um museu, ou a uma sala enorme. Tem tanto cara de música urbana quanto de tema musical para acompanhar o que sobrou após a destruição. Essa dualidade de cenas vindas da música é o mais bacana de Eletromelodramas vol. 2.

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