Crítica
Ouvimos: Cípri – “Gueto esnobe” (EP)

RESENHA: O baterista Estevam Cípri (ou apenas Cípri) lança EP Gueto esnobe, em que mistura jazz, fusion, soul e hip hop em faixas coletivas e discretas, com clima de banda.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Chinelada Records
Lançamento: 1 de abril de 2026
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Estevam Cípri é baterista, tem no currículo trabalhos com artistas como Juliana Linhares, Tiago Iorc e Maria Rita, mas preferiu não fazer de seu EP solo Gueto esnobe uma exibição de solos de bateria. Focando no jazz e na fusion, fez seis faixas em que o ritmo é o prato principal, mas em que sua participação, mesmo sendo intensa, é discreta – se você escutar o disco sem saber quem é o artista, vai pensar que é um trabalho de banda. Junto com Cípri, que também toca sintetizador além de bateria e percussão, músicos como Giordano Gasperini (baixo), Oswaldo Lessa (sax), Antonio Neves (trombone), Edu Santana (trompete) e Luca Novello (piano).
A fusão de Gueto esnobe passa pela união de soul, psicodelia e hip hop instrumental em ASNAEB, pelo smooth jazz sem letra em Vazio farto e por junções de samba, jazz latino e synths envenenados, lembrando às vezes Jean Luc Ponty (Mais que danada). Orelha de picanha é uma super fusão que vai de Santana a hard rock, com o baixo dando a melodia lado a lado com o piano elétrico. Já Elvin no mundo pensante viaja por funk, funk carioca, jazz, rock e um clima que lembra trilhas de filmes de James Bond – fechando com um “yeah! Isso é ao vivo, parceiro!”.
Gueto esnobe abre com uma referência de videogame (ASNAEB é um código do jogo GTA San Andreas, usado só na versão PC) e encerra migrando por universo dos animes em Shenlong não existe. A referência ao dragão mágico que realiza desejos alheios no universo Dragon Ball surge na única faixa com letra do EP: um rap-jazz-soul com autotune e vibe psicodélica, falando dos encontros indesejados com os atrasa-lado da vida. “Desde os nove rodando baqueta / desde sempre querendo voar / sai da frente zoião / não tô com tempo pra perder com gente que não sabe o que é ter o foco na missão”, rima.
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Crítica
Ouvimos: Howling Bells – “Strange life”

RESENHA: Howling Bells volta após 10 anos com Strange life, álbum que mistura pós-punk, folk e dream pop, clima sombrio e guitarras densas, além dos vocais intensos de Juanita Stein.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Nude Records
Lançamento: 13 de fevereiro de 2026
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Com o Howling Bells parado, a cantora Juanita Stein se dedicou a uma carreira solo cheia de discos ótimos, indo do soft rock ao country, passando pela crueza punk – The weightless hour (2024), o mais recente, foi resenhado pela gente aqui. Strange life marca a volta de Juanita (voz), seu irmão Joel Stein (guitarrista) e Glenn Moule (bateria) após mais de uma década sem lançamentos. Tem algo folk na argamassa sonora deles, mas o principal é que o Howling Bells é uma banda de pós-punk e noise rock, com vibe introspectiva e meio fantasmagórica. O single Unbroken, que abre o álbum, já põe guitarras emparedadas no disco, além de um verso em que Juliana diz sempre “ter estado presa em um grande sonho”.
Já Sacred land, música na qual a voz dela parece vir de um megafone, é bruxuleante como já eram as músicas de Yoko Ono e Siouxsie and The Banshees – tem peso, mais pela intensidade do que pelas sucessivas porradas, e clima cerimonial e gótico, com percussões. Halfway song une esse clima etéreo a algo herdado de Bob Dylan, enquanto Melbourne une essa onda fantasmagórica a algo bem mais parecido com a discografia solo de Juanita. Faixas como Dreamer, Light touch e Chimera levam um clima meio soft rock + dream pop para o álbum – são canções mágicas e tranquilas, a primeira dela aludindo a uma onda de cabeça nas nuvens e esperança na vida.
O som do Howling Bells percorre outras viagens sonoras, como em Sweet relief, música com lembranças de Hole e Dinosaur Jr, e Heavy lifting, com evocações de PJ Harvey. A balada Looking glass responde pelo lado psicodélico do álbum, enquanto a valsa shoegaze Angel aponta o dedo para alguém que ficou (felizmente) no passado de Juanita: “Você mexeu com a minha cabeça, mas nunca levantou a mão para mim / você ficou paranoica quando eu comecei minha primeira banda / é só colocar a chave na ignição e soltar um grito / nada poderia me parar, exceto a baixa autoestima (…) / você atingiu onde dói, então eu comecei minha primeira banda”. Confissões em clima perturbador.
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Crítica
Ouvimos: Barulhista – “Música para dançar sentado” (EP)

RESENHA: Barulhista mistura eletrônico, nu-metal e kraut em Música para dançar sentado: ritmos que fazem pensar mais que dançar, com clima tenso e experimental.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 16 de abril de 2026
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Músico de Contagem (MG), radicado em SP, Davidson Soares – o popular Barulhista – faz trilhas para espetáculos e audiovisuais. E, às vezes, grava seus próprios discos. O EP Música para dançar sentado é introduzido no Bandcamp por um texto que avisa que “existe uma espécie de tensão muscular específica que ocorre quando o cérebro reconhece um ritmo, mas o corpo – por motivos que variam desde o cansaço existencial até a simples logística de estar em um cômodo pequeno demais – decide permanecer estático”.
- Ouvimos: Wire – Read & burn 03 plus (relançamento)
Ou seja: Música para dançar sentado é mais para fazer o cérebro dançar do que o corpo – são sons eletrônicos e ritmados, mas caso você fosse dançar qualquer uma dessas músicas, teria que abusar da criatividade. Como Davidson / Barulhista tem um passado no nu-metal, dá para enxergar partículas do estilo nos climas de Extremamente medicados e na tensão de Debaixo de um corpo que caiu do rooftop – esta, fazendo lembrar aberturas de séries de true crime. Quando a polícia acabar tem uma onda krautrock sombria, e a bela Debaixo do sol, levada por toques de piano, soa como música de balé, mesmo com o beat polirrítmico.
Já Vestida para uma boa noite de sono começa em clima tenso, quase de pesadelo, e vai mudando, ainda mais com a entrada das percussões, e de uma vibe de samba-kraut. No final, tem Nunca foi deus, sempre foi o acaso, tema de quatro minutos recheado de synths e de tensões sonoras que poderiam ter sido produzidas pelo saudoso Conny Plank, mas que têm o clima gélido interrompido pela entrada de percussões.
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Crítica
Ouvimos: Drivin N Cryin – “Crushing Flowers”

RESENHA: Drivin N Cryin sai do peso 80s e chega a Crushing flowers com folk rock equilibrado, ecos de Tom Petty e The Rolling Stones após fase irregular.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 10 de abril de 2026
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O Drivin N Cryin vem de Atlanta, Georgia. E surgiu em 1985 fazendo um som bem próximo do rock sulista, mas com uma onda próxima do metal e do hard rock – o que levou muita gente a enxergar neles nada mais do que uma dessas bandas pesadinhas dos anos 1980. É também uma banda que tem em seu histórico pelo menos uma coisa dura de engolir: a música Fly me courageous, hit de 1991 que acabou adotado pelos soldados norte-americanos durante o início da Guerra do Golfo Pérsico.
Não é uma coisa legal de ter no currículo, mas a verdade é que o Drivin nunca foi lá muito conhecido fora dos Estados Unidos. De 1985 para cá, eles gravaram álbuns por selos como Island e DGC, largaram o som pesado por um rock mais folk, passaram um bom tempo sem lançar discos novos e abraçaram a independência lá pelos anos 1990 – quando, de certa forma, a música deles passou a fazer parte do universo “alternativo” da época.
Crushing flowers, o 11º álbum, não faz lembrar os anos mais pesados do grupo e soa bem equilibrado entre folk e rock. Tanto que o som de Kevin Kinney (voz, guitarra) e seus amigos volta com uma baita carta de Tom Petty (Mirror mirror), Rolling Stones da fase Mick Taylor (Why don’t you go around, Keep the change, a festa rocker de Come on and dance) e até Simon & Garfunkel (Dead end road).
Tem uma onda pós-punk clara em músicas como a faixa-título (uma música com boas guitarras e boas surpresas na melodia) e até um clima glam em Jesse Electric, mas não é o principal no som deles. O lado mais clássico do grupo surge também em faixas como Looks like we’re back again tem lembranças de Won’t get fooled again (The Who) e a onda puramente southern de Death of me yet, com guitarras gêmeas lembrando Thin Lizzy.
Pelo menos no disco novo, o Drivin N Cryin vem com cara de banda que faltava pra completar o álbum dos anos 1980. Mesmo tendo momentos bem desinteressantes no passado.
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