Urgente
El Escama: “último disco” do cantor vira documentário

“Por que fazer mais um disco? Ué, porque eu tô vivo, né? Depois que abri a porteira, acho que vou fazer disco até eu morrer, né, cara?”, diz o cantor e compositor El Escama na abertura do minidoc Esse é meu último disco – Making of. Artista 100% indie com dois álbuns de estúdio gravados, ele decidiu dar uma reorganizada no material de bastidores das gravações de seu álbum mais recente, Esse é meu último disco (de 2025, resenhado pela gente aqui) e transformou tudo num curta de 14 minutos, “que mistura cenas do estúdio com uma conversa minha sobre o processo do disco e outros achismos”, conta ele.
“Não sei se o mundo precisa de mais um disco, né cara? De um disco meu… Mas eu preciso de um disco meu”, diz ele, brincando – e aproveitando para falar que vê o trabalho independente como o de um artista que não segue uma fórmula, um padrão, e vai onde gosta. O fato de Esse é meu último disco ter sido inspiradíssimo pelas redes sociais também ganha comentários no doc.
“O álbum nasceu durante a pandemia, quando voltei a ter aulas de violão e comecei a compor uma música para cada lição, para não esquecer os acordes novos. No meio disso tudo apareceu também o tema das redes sociais, que acabou atravessando todas faixas”, conta El Escama, que fala igualmente sobre como livros e revistas em quadrinhos influenciam suas músicas. Aliás, quem curte cenas de estúdio pode ser preparar para ver detalhes visuais bem bacanas do trabalho – em especial a reta final dos trabalhos, no estúdio Canoa, em São Paulo.
Ah, sim: evidentemente, uma das perguntas do doc é “esse é mesmo seu último disco?”. Claro que ele responde. Tá tudo aí.
Urgente
Prince: dez anos após a morte do cantor, sai semi-inédita dele

O arquivo de Prince segue rendendo novidades — e a mais recente vem direto de 1991. With this tear, gravação inédita feita em estúdio em novembro daquele ano, apareceu oficialmente agora, numa data simbólica: dez anos após a morte do artista, que saiu de cena em 21 de abril de 2016, em sua propriedade Paisley Park em Chanhassen, Minnesota, aos 57 anos, devido a uma overdose acidental de fentanil.
A faixa tem aquele clima de laboratório que ele dominava bem no início dos anos 1990, período de trabalho intenso no Paisley Park Studios. Aqui, Prince faz tudo sozinho: compõe, toca, organiza — deixando entrever seu próprio processo criativo. A versão lançada agora passou pelas mãos de Chris James, colaborador antigo, e ganhou retoques discretos de synths e arranjos orquestrais com supervisão de Clare Fischer.
Detalhe é que não se trata de uma música inédita: ela acabou nas mãos de Céline Dion, que gravou sua própria versão em 1992, num esquema mais próximo das rádios tipo JB FM / Antena 1 (adulto contemporâneo, essas coisas). Com o autor, a música vai na direção oposta da de Céline: minimalista, com falsete em destaque e instrumentação enxuta. A Rolling Stone, ao falar da faixa, destacou que ela tem “vocais apaixonados que capturam uma sensação de saudade e vulnerabilidade” (é verdade).
O clipe da faixa, por sua vez, abre om um trecho da época do filme + disco Purple rain (1984) no qual Prince reflete sobre suas aspirações artísticas em relação à visão de igualdade de Martin Luther King Jr.: “Quando eu era mais jovem, sempre dizia que um dia tocaria todos os tipos de música e não seria julgado pela cor da minha pele, mas pela qualidade do meu trabalho. Espero que isso continue”. No vídeo, há também imagens em preto e branco da mãe de Prince, tiradas em outubro de 1958, e fotos do cantor, clicadas em maio de 1960, junto com trechos de apresentações e destaques de videoclipes.
Agora o que interessa é: essa música vai adiantar algum disco inédito? A resposta é sim, já que o espólio de Prince planeja um disco inédito para o fim do ano. With this tear, inclusive, já estava nos planos da equipe do cantor havia tempos: foi considerada para inclusão no álbum Diamonds & love, proposto para 2022, mas acabou sendo descartada.
Urgente
Beck lança single novo, anuncia turnê, e diz que tem “material suficiente para vários álbuns”

Parece que depois de lançar o EP Everybody’s gotta learn sometime, só com covers (resenhamos aqui) Beck curtiu de verdade voltar ao lado mais introspectivo do seu trabalho. O novo single, Ride lonesome, foge completamente do lado mais energético do trabalho do artista norte-americano – é uma balada country mais associável a Rolling Stones, Black Crowes e Tom Petty, mas com o vocal tranquilo dele.
Por acaso, Beck uniu-se novamente com a turma que trabalhou no disco Sea change (2002), um dos mais elaborados de sua discografia: Jason Falkner e Smokey Hormel na guitarra, Joey Waronker na bateria e o produtor Nigel Godrich, que mixou Ride lonesome.
O clipe da faixa, dirigido por Mikai Karl e pelo próprio Beck, é melancólico demais pro coração de muita gente: o cantor de Loser caminha solitário por estradas e ferrovias, pede carona a um caminhoneiro, observa uma paisagem desoladora onde só há moinhos de vento e faz cara de tristeza profunda toda vez que é focalizado pela câmera. Num papo com Robin Hilton na rádio NPR, Beck revela que a canção veio de um período bastante solitário.
“Foi uma daquelas fases da vida em que você está refletindo sobre o seu passado e para onde está indo. Sabe, quando você está passando por momentos difíceis, muitas vezes você precisa superá-los sozinho”, contou. “Você simplesmente precisa seguir em frente, seja qual for o cenário da sua vida e as circunstâncias em que se encontra. E acho que é esse conforto, ainda que sombrio, de persistir nas partes da vida que talvez não sejam tão confortáveis ou fáceis, e ter uma fé distante de que isso vai te levar para o outro lado”.
Os tais moinhos de vento no clipe não foram propositais: o cantor simplesmente não havia percebido o excesso deles na paisagem, mas depois viu que havia um significado naquilo. “Eu estava pensando em Dom Quixote e no aspecto da música de perseguir moinhos de vento. Acho que você está sempre tentando encontrar aquele ‘inalcançável’. E, sabe, acho que isso é algo que te acompanha pela vida toda. Você sempre sente que está tentando descobrir”, diz.
“É como o instinto de apostador, sabe, as pessoas que brincam na máquina de pegar bichinhos de pelúcia para tentar ganhar o prêmio. É assim com a música para mim. Eu acho que consigo pegar o prêmio, e vou soltá-lo para ganhar. E, sabe, está sempre a um prêmio de distância. Você nunca consegue. Às vezes é decepcionante. Às vezes supera as expectativas. Mas minhas músicas nunca são exatamente como eu as imaginei”, conta Beck, que anunciou também a turnê Ride lonesome (datas abaixo).
Ver essa foto no Instagram
Mas e aí, Beck? Tem disco novo vindo por aí? Bom, depois da covid, ele precisou esperar alguns anos para voltar a trabalhar direito. Montou um estúdio, colaborou com Gorillaz, Paul McCartney e Black Keys (boa parte do disco Ohio players, de 2024, foi feita com ele), e tem “vivido a vida”. Mas Beck garante que tem “material suficiente para vários álbuns que provavelmente ninguém nunca vai ouvir, mas espero que isso leve a algo”.
“Tenho muitos projetos em andamento. Tenho estado bastante no estúdio, intermitentemente, nos últimos quatro anos com a minha banda. Há um grupo de músicos que formei e que foi minha banda de turnê em muitos dos meus primeiros discos. E todos seguiram para projetos maiores e melhores, mas ainda nos reunimos e conseguimos alguns dias aqui e ali para fazer música. E sim, tenho muitos projetos diferentes que quero realizar, então espero que haja tempo para me dedicar a todos eles”, diz.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Autumn De Wilde / Divulgação
Urgente
O sucesso do Geese é fabricado? Reportagem da “Wired” diz que tudo não passou de uma campanha

Tem uma história curiosa acontecendo em torno do Geese – e ela diz bastante sobre como música circula hoje. No fim de 2025, a banda saiu de um circuito relativamente nichado para um lugar de visibilidade quase total dentro do rock alternativo. O disco novo virou presença constante em listas de melhores do ano, a turnê lotou, vieram convites para televisão e festivais grandes. Aquela narrativa clássica de “banda que explodiu” parecia pronta, com direito ao jornal The Guardian chamando o grupo de “os novos salvadores do rock’n roll”.
Só que, junto com o hype, veio a desconfiança. Não exatamente sobre o som (defendido por vários críticos e até pelo Pop Fantasma), mas sobre a velocidade com que tudo aconteceu. Quando uma banda dá um salto tão grande em tão pouco tempo, o público começa a procurar explicações além do talento ou do acaso.
A resposta apareceu meio sem querer, num episódio do podcast On the record, da Billboard – e ressurgiu há poucos dias numa reportagem da revista Wired. Do tal episódio, gravado ao vivo no SXSW, participaram Andrew Spelman e Jesse Coren, da Chaotic Good Projects – uma empresa que, segundo seu instagram, oferece “experimentos digitais e caos musical”. No bate-papo, os dois explicaram como a firma usa métodos de marketing viral.
A lógica é simples (e acontece a três por dois, até mesmo no Brasil): criar redes de perfis em plataformas como TikTok, espalhar vídeos, inserir músicas como trilha, estimular comentários e fazer parecer que existe um burburinho orgânico. Não necessariamente com robôs inflando números, mas com pessoas operando várias contas, simulando conversas, criando a sensação de que “todo mundo está falando disso”.
“Neste momento, conseguimos gerar impressões sobre qualquer coisa”, disse Spelman à Billboard. “Sabemos como viralizar. Temos milhares de páginas”. Spelman apelidou o tal processo de “simulação de tendências”. E as próprias campanhas são chamadas pela Chaotic Good de campanhas “narrativas” ou UGC (o famigerado “conteúdo gerado pelo usuário” que movimenta várias empresas em torno de influencers e criadores de conteúdo).
Essa engrenagem não foi inventada agora, mas ficou mais explícita. E, no caso do Geese, Adam Tarsia, cofundador da Chaotic Good, confirmou à Wired que sua empresa criou campanhas para Geese e para a carreira solo do cantor Cameron Winter. Nada que, por si só, seja ilegal ou exatamente raro – só que o modo como isso é feito hoje beira uma espécie de encenação coletiva. A tendência não nasce sozinha: ela é montada.
“Ajudamos a distribuir vídeos deles se apresentando e dando algumas entrevistas no TikTok”, disse Tarsia à Wired por e-mail, falando em nome da Chaotic Good. “Entendo que a discussão sobre ‘artistas fabricados pela indústria’ seja inevitável, mas temos o prazer de ser fãs do Geese desde o projeto deles de 2021, Projector” (lançado quatro anos antes da fundação da Chaotic Good, conforme Adam até citou no papo com a revista).
Esse papo começou a rolar mais seriamente no dia 1º de abril (e veja lá que dia!), quando a cantora Eliza McLamb publicou em sua newsletter um texto chamado Fãs falsos, traçando a conexão entre Geese e a Chaotic Good, e discutindo sobre a ética duvidosa desse tipo de marketing.
“Se 100 pessoas acham sua música ruim, a Chaotic Good vai criar 200 pessoas que acharão sua música incrível”, contou ela, que chegou a temer por ameaças do fandom da banda, quando o texto começou a circular. Na real, a primeira reação da Chaotic Good foi fazer mudanças em seu site: removeram menções a artistas específicos (Geese e Cameron Winter entre eles) e as referências a “campanhas narrativas”.
“Foi para que nossos artistas parceiros não se envolvam em falsas acusações ou concepções errôneas sobre como suas músicas foram descobertas”, disse Adam Tarsia a Wired. “Grande parte do discurso online sobre ‘campanhas narrativas’ não correspondia à realidade. Na prática, as campanhas narrativas consistem principalmente em consultoria de estratégia de relações públicas digitais”. Ele também diz que as campanhas da firma “nunca usam estratégias que envolvam a inflação artificial de números de streaming ou de mídias sociais”.
Quando essa informação começou a circular, a reação foi previsível. Parte do público se sentiu enganada. Outra parte tratou como algo inevitável. E talvez seja esse o ponto mais incômodo: não é um escândalo isolado, é um método. A Wired até enfatiza que “é um segredo aberto na indústria da música que todos os números – reproduções, seguidores, estatísticas – são falsos ou, pelo menos, distorcidos”.
A publicação também diz que situações como essas colocam artistas independentes em um lugar meio ingrato. Afinal, quando um artista pop é vendido a custo de jabá, ninguém nem fala mais nada – já com bandas indie, de quem geralmente se espera “atitude”, “dignidade” e trabalho de formiguinha, o lance é bem outro (como se fosse possível crescer sem estratégia, vá lá).
Por acaso, o portal G1 deu uma reportagem de Guilherme Lucio da Rocha falando sobre um outro tipo de estratégia que está sendo usada largamente por artistas brasileiros: dar poucas entrevistas (ou nenhuma) e evitar a imprensa como mediadora entre o artista e seu público.
Muitas vezes os discos são apresentados em eventos só para fãs, e depois para jornalistas – e os bate-papos normalmente rolam em coletivas, quase nunca individualmente. Uma estratégia de blindagem que é uma espécie de “prima de humanas” do falseamento de dados.
Afinal, fica pro fã (que é fã) a função de cobrir o artista de elogios. E na real, até pelo cronograma apresentado pela reportagem do G1, o jornalista só iria ter acesso ao álbum quando o artista já estivesse convencido de que seu disco é o novo Pet sounds (e o fandom já tivesse coberto a web de adulações).
Enfim, mercado fonográfico é sempre um “eita” atrás do outro. Até o momento o Geese não falou do assunto – já a Chaotic Good é tão discreta nas redes que seu instagram tem apenas uma foto.
Texto: Ricardo Schott – Foto (Geese): Mark Sommerfield / Divulgação








































