Morto em 2019 após um suposto ataque cardíaco, o músico e artista visual Daniel Johnston sofria de transtorno bipolar e havia passado os anos 1980 e 1990 distribuindo fitas com suas gravações para todo mundo que encontrava em Austin, no Texas, onde morava. Também era desenhista além de músico, e esse outro lado de sua produção vai ganhar uma exposição entre o dia 28 de janeiro e 7 de fevereiro. Daniel Johnston: Psychedelic drawings é uma produção da Outsider Art Fair e vai rolar no Electric Lady Studios em Nova York. Pode ser vista pessoalmente e online. Os ingressos estão disponíveis aqui.

Inicialmente um artista totalmente independente, que vendia seus discos em demos e gravava tudo no quarto de casa, Daniel Johnston conseguiu chegar mais perto do profissionalismo com o passar dos tempos. Apareceu na MTV em 1985 como integrante de uma cena pouco duradoura da região, a new sincerity (vale um texto no POP FANTASMA sobre isso) e conseguiu gravar um disco feito de maneira mais formal em 1988, chamado 1990.

1990 já era, àquela altura, seu décimo primeiro disco, mas foi o primeiro feito num estúdio de verdade, com um produtor de verdade (Mark Kramer, que foi músico de bandas como Ween, Butthole Surfers e Half Japanese).

Como acontecera nas gravações de discos de Syd Barrett, anos antes, Daniel tinha dificuldades de aderir a um cronograma comum de gravações e o material precisou ser completado com faixas ao vivo. Não foi um dos momentos mais tranquilos da vida do cantor e compositor, que passou por momentos de estresse durante o trabalho e acabou internado em 1990 (após quase provocar um acidente de avião tirando a chave do contato enquanto seu pai, um ex-piloto da Força Aérea dos Estados Unidos, controlava a aeronave).

O plot twist na vida de Daniel viria justamente por causa do desenho. Kurt Cobain aparecera na TV com uma camiseta com a capa de um disco de Johnston, Hi, how are you: The unfinished album (1983).

O desenho feito pelo músico para a capa virou mania de uma hora para a outra, e Kurt ainda havia listado Yip/Jump Music, outro disco lançado em 1983 por Johnston em fita K7, em uma lista de discos preferidos. Aconteceu que em 1994, mesmo internado, Daniel conseguiu virar até mesmo aposta de gravadora: gravou o disco Fun, pela Atlantic. Não vendeu nada e Daniel voltou para o underground.

Dos anos 1990 até seus últimos dias, Daniel continuou gravando, desenhando e criando coisas – em 2012, saiu até um gibi, Space Ducks – An infinite comic book of musical greatness. Também fez uma última turnê em 2017, com cinco datas, e permaneceu gravando – em 2001 saiu um disco cujo título fazia referência ao término de seu contrato com a Atlantic, Rejected unknown.

A exposição não está acontecendo no Electric Lady à toa: Lee Foster, sócio-gerente do Electric Lady, era colecionador do trabalho de Daniel e hoje está à frente do Daniel Johnson Trust. E lembra que o estúdio já havia sido pensado como um espaço para as artes plásticas na época em que Jimi Hendrix concebeu o estúdio. “A arte sempre foi um acessório no Electric Lady – desde a grande ficção científica, murais espaciais encomendados por Hendrix, às instalações de decupagem feitas aqui no início dos anos 1970”, afirmou num comunicado.

Tem conteúdo extra desta e de outras matérias do POP FANTASMA em nosso Instagram.