Cultura Pop
Várias coisas que você já sabia sobre “Dirty mind”, do Prince

Ele só pensava naquilo. Se em For you (1978) e Prince (1979), Prince já chocava a audiência com músicas como Sexy dancer e Soft and wet, bem vindo ao maravilhoso mundo da sacanagem e da liberdade. Dirty mind (1980), o terceiro disco, fazia odes à pornografia e ao sexo em canções como a faixa-título e Do it all night. Falava sobre festas que nunca terminavam em Party, sobre sexo oral em Head, sobre sexo a três em When you are mine e sobre (uau) tesão incestuoso no roquinho meio Queen-meio Pretenders Sister. Ademais, só para não ficar em definitivo no assunto “sexo”, Prince ainda tecia comentários sobre racismo e liberdade em Uptown.
Por acaso, o terceiro disco de Prince (que durava econômicos trinta minutos) vinha numa hora boa, já que a Warner se animara bastante com as vendas dos dois primeiros álbuns. E aquele artista multitarefa, que tocava tudo em seus LPs, chamava bastante a atenção da crítica. Mas se Dirty mind precisava deixar a gravadora feliz, havia uma tarefa mais difícil ainda para o álbum: satisfazer os critérios e o controle artístico do próprio Prince.

Em Dirty mind, o pós-disco dos dois álbuns anteriores voltava repaginado, com cara new wave, vocais simplificados (já incluindo os falsetes influenciados tanto por Stevie Wonder quanto pelos Beach Boys, que caracterizariam o cantor até o fim da vida) e muitos sintetizadores. Aliás, não era só isso: Prince voltava disposto a botar para quebrar nas paradas de rock, e inverter o caminho traçado por artistas como Rolling Stones e Queen (que foram do rock aos sons dançantes ou à disco music e derivados).
Morto em 2016, Prince gravou tantos discos memoráveis que uma discussão sobre “melhor disco” dele pode facilmente acabar em briga. Mas Dirty mind tem lá seus pontos: é um disco extremamente provocador e pioneiro, e ainda por cima está completando 40 anos essa semana (saiu em 8 de outubro de 1980). E vai aí nosso relatório sobre ele. Leia ouvindo o disco.
PARECIA QUE NÃO IA DAR. Inicialmente, nem mesmo a Warner punha tanta fé assim no taco de Dirty mind, e o disco não se revelou de cara um grande sucesso. Prince chegou a lembrar que o disco “teve vendas mínimas” assim que chegou nas lojas e as rádios também não caíram dentro com voracidade – até mesmo pelo medo de tocar músicas com letras tão cara-de-pau. O livro Prince FAQ: All that’s left to know about the Purple Reign, de Arthur Lizie, informa que se tratou do índice mais baixo de Prince nas paradas até Rainbow children (2000).
DEMOS. Essa descrença da Warner em Dirty mind veio, em parte, do fato do terceiro disco de Prince ter iniciado basicamente com demos que o cantor tinha guardadas. Prince resolveu mostrar as fitinhas para os executivos da gravadora, mas eles receberam o material de nariz torcido. “Eles disseram: ‘O som tá legal, mas não temos certeza sobre as canções. Não podemos colocar isso nas rádios, não é parecido com seu disco anterior’. Eu respondi: ‘Mas é parecido comigo'”, contou.
ORIGENS. A mistura musical de Dirty mind vinha de experiências recentes de Prince. Para começar o cantor havia aberto shows de seu rival Rick James, durante a turnê do álbum Prince (1979). Rick, considerado um grande inovador do funk, estava fazendo um baita sucesso com seu terceiro disco, Fire it up (1979) e com letras sacanas e cheias de conversa mole, como as de Love gun e Lovin in you is a pleasure. Em um período no qual a disco music ia sumindo das paradas e a new wave virava o garoto novo da escola, era um feito e tanto.
RICK JAMES – “LOVIN’ YOU IS A PLEASURE”
RICK PISTOLA. O astro Rick James havia, segundo o próprio contou algumas vezes, topado que Prince abrisse seus shows porque haviam lhe falado que o novato era fã de seu trabalho. Acabou, na lembrança do próprio Rick, se irritando, já que Prince mal lhe dirigia a palavra. James jura que o cantor fazia péssimos shows de abertura, ficava imóvel no palco e chegou a ser vaiado.
RICK PISTOLA 2. O astro principal do show acabaria ficando mais puto da vida ainda com Prince. Acusou o futuro cantor de Purple rain de roubar seus truques de palco, como o ato de virar o microfone. Diz que Prince via atentamente seus shows para copiar tudo, em detalhes. Os dois chegaram a partir para o confronto algumas vezes: James contava que chegou a agarrar Prince pelo pescoço numa festa e a “enfiar conhaque garganta abaixo dele” (oi?).
CIDADEZINHA. Ao final da turnê com James, Prince retornou para Minnesotta, mas não para a populosa Minneapolis, onde nasceu. Foi se meter numa cidade turística, próxima e bem menor, Wayzata, onde montou um estúdio de 16 canais, pago pela Warner. Foi de lá que saíram as demos de Dirty mind que a Warner achou que não renderiam. Prince admitiu depois que a gravadora nem sabia o que ele estava fazendo.
ALIÁS E A PROPÓSITO, na ficha técnica de Dirty mind, o ouvinte fica sabendo que o disco foi gravado em “somewhere in Uptown”, e mais nada.
EU FIZ TUDO. Prince, além de cantar, compor, arranjar, produzir e tocar de tudo um pouco em Dirty mind, ainda por cima autogravava-se a si mesmo no estúdio, já que também foi o técnico de som do disco. Só que assinou a tarefa como Jamie Starr. Era um pseudônimo que ele depois adotaria como engenheiro de som e produtor de discos de artistas vindo de suas bandas. Entre eles, Apollonia 6, Sheila E. e The Time.
EU FIZ (QUASE) TUDO. Prince não “tocou todos os instrumentos” em Dirty mind, como costuma ser dito por aí. Algumas participações superespeciais do álbum estão listadas no encarte: o tecladista Doctor Fink tocou sintetizadores em Head e Dirty mind. Lisa Coleman fez vocais em Head. A contracapa no entanto omite algumas parcerias. Fink coescreveu Dirty mind e Morris Day, vocalista de Prince, coescreveu Party up.
ALIÁS E A PROPÓSITO. Morris deixou a falta de crédito para lá, desde que o patrão Prince produzisse o disco de estreia de sua banda The Time. O músico produziu o disco The Time, em 1981, mas… assinou como Jamie Starr.
FORA DO LP. No meio da tour de Dirty mind, em 1981, Prince lançava pela primeira vez um single que não estava presente num LP seu. Era Gotta stop (Messin’ about), que acabou incluída no repertório da tour, e foi lançada apenas para o mercado britânico. Nos EUA, apareceu como lado B do single Let’s work, naquele mesmo ano.
“GOTTA STOP (MESSIN’ ABOUT)”
CORTARAM. Na Filipinas, Dirty mind, a música, ganhou uma versão single editada, com alguns segundos a menos.
ALIÁS, E NO BRASIL? O segundo disco de Prince, epônimo, foi lançado aqui em 1980. Mas a Warner local não se animou a fazer o mesmo com Dirty mind, que só chegou às lojas brasileiras em 1990. For you saiu quase junto com Dirty mind por aqui nesse ano.
A CAPA, CLARO. Não entende inglês e ficou por fora dos temas das letras de um disco chamado “mente poluída”? Bom, o lay out do álbum não poderia ser mais claro, com Prince de casaco, tanguinha, sem camisa, olhando desafiadoramente para a câmera. A foto de Dirty mind foi feita por Allen Beaulieu, fotógrafo de Minneapolis que se tornaria grande amigo de Prince. Pouco antes do disco, Allen fotografara um desfile chamado Save the blackness, em que pessoas negras apareciam vestidas com roupas negras sobre fundo negro. Aliás, ele fez as fotos em preto e branco. Prince viu as imagens, achou seu nome no cartaz e ligou para ele oferecendo o trabalho.
ENTREVISTA COM ALLEN BEAULIUEU
A CAPA (2). Aquilo que aparece no fundo da foto, por trás de Prince – e se é que você já não reconheceu – são as molas de uma cama. O cantor disse a Allen que fazia questão de ser fotografado numa cama, e apareceu deitado numa das fotos do disco. O fotógrafo fez todas as imagens sozinho, sem nenhum assistente. Anos depois, quando foi fazer imagens para a Rolling Stone, Allen ficou orgulhoso ao ouvir de um colega de redação: “Vi Prince antes de ouvir o som dele”.
ALIÁS E A PROPÓSITO, tem out takes das fotos espalhados pela web, além de uma imagem colorida, que acabou vazando para um pôster do disco.

A CRÍTICA GOSTOU. Só sendo completamente surdo para não perceber o quanto Dirty mind era um puta disco e o quanto era um álbum inovador, claro. E não custa dizer que a crítica gostou bastante do LP. Robert Christgau comparou Prince a Jim Morrison e John Lennon, e ainda arrematou com uma frase lapidar: “Mick Jagger deveria recolher seu pau e ir para casa”. Na Rolling Stone, Ken Tucker dizia que Prince era um romântico ingênuo nos dois primeiros discos, mas finalmente estava à solta nas sacanagens e na música.
OS SHOWS. A turnê Dirty mind foi de 4 de dezembro de 1980 a 6 de abril de 1981. A banda incluía Bobby Z (bateria), Dez Dickerson (guitarra), Lisa Coleman (teclados), André Cymone (baixo) e Matt Fink (teclados), além de Prince na voz e guitarra. O look do cantor durante o giro incluía desde cópias do visual da capa do disco (cabendo ainda leggings pretas, botas de cano longo e salto alto) até sobretudos e coletes com franjas. O repertório incluía tudo de Dirty mind, acrescido dos hits dos dois primeiros discos. Gotta stop (Messin’ about), inédita que fazia sucesso nos shows, virou single.
QUE É ISSO, RAPAZ? Na turnê, Prince queria usar calças de spandex – tecido colante, geralmente usado em roupas de ginástica e que era tendência na época. Mas queria dispensar o uso de cuecas ao colocar as tais calças. Seus empresários não gostaram muito da ideia e Prince acabou desistindo de dar uma de homem-berinjela nos palcos.
ALIÁS E A PROPÓSITO, ainda que Prince tocasse praticamente tudo em Dirty mind, a banda de palco aparecia numa foto do disco.

CONTROVÉRSIA. O sucesso de Dirty mind e de outros discos bem explícitos de Prince acendeu uma luz vermelha para vários setores conservadores dos EUA. Pastores televisivos apresentavam o disco como “mau exemplo”. Mas o álbum surfou uma onda bem interessante nos Estados Unidos, numa época em que Ronald Reagan ainda não era o presidente e não havia tanto espaço para o fundamentalismo religioso no dia a dia do país. Aliás, a mira do Parents Music Resource Center, criado na metade dos anos 1980, estava apontada mais para discos subsequentes de Prince, como Purple rain (1984), do hit onanista Darling Nikki.
E JÁ QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI, pega aí o clipe original de Dirty mind. Aliás, curta, entre outras coisas, o visual do tecladista gozador Dr. Fink, que anos antes da pandemia do coronavírus já passava o tempo todo de máscara cirúrgica.
PRINCE – “DIRTY MIND”
Veja também no POP FANTASMA:
– Demos o mesmo tratamento a Physical graffiti (Led Zeppelin), a Substance (New Order), ao primeiro disco do Black Sabbath, a End of the century (Ramones), ao rooftop concert, dos Beatles, a London calling (Clash), a Fun house (Stooges), a New York (Lou Reed), aos primeiros shows de David Bowie no Brasil, a Electric ladyland (The Jimi Hendrix Experience) e a Pleased to meet me (Replacements).
– Demos uma mentidinha e oferecemos “coisas que você não sabe” ao falar de Rocket to Russia (Ramones) e Trompe le monde (Pixies).
– Mais Prince no POP FANTASMA aqui.
Cultura Pop
Qual é a dos dois discos novos de Lana Del Rey?

Lana Del Rey passou tanto tempo adiando e reformulando o próximo álbum que já dava para imaginar que ele nunca chegaria. Primeiro era Lasso. Depois virou The right person will stay. Em seguida apareceu como Stove. Agora a cantora resolveu complicar um pouco mais o roteiro: além de Stove, ela diz que também está preparando um segundo álbum inédito.
A novidade surgiu em uma publicação no Instagram, onde Lana contou que o disco extra nasceu durante o mesmo processo criativo do sucessor de Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd. Segundo ela, o novo trabalho funciona como uma espécie de “companion album”, desenvolvido quase ao mesmo tempo que Stove.
- Os bastidores do raro Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, que ganha lançamento oficial
A cantora também afirmou que esse segundo disco surgiu das transformações pessoais e criativas que viveu nos últimos quatro anos, funcionando como uma espécie de contraponto ao álbum principal. Se tudo correr como planejado — e essa ressalva é indispensável quando o assunto é cronograma de Lana Del Rey — os dois discos devem ficar prontos em cerca de um mês para seguir para a prensagem em vinil.
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Ela também afirmou que ambos já têm capas prontas e descreveu os projetos como algumas das obras de que mais se orgulha. O álbum principal, Stove, continua reunindo os singles Henry, come on, Bluebird e White feather hawk tail deer hunter, além de outras músicas que ela vem mostrando ao vivo nos últimos meses. Tudo indica que First light, single lançado como single da trilha sonora do jogo 007 First Light, escrito em parceria com David Arnold, é só um projeto à parte e não estará no disco.
Embora Lana ainda não tenha confirmado um título para o álbum companheiro, fãs passaram a chamá-lo de Spyda após identificarem esse nome em uma das artes divulgadas pela cantora nas redes sociais (aliás, no Reddit, tem fãs reclamando que a imprensa tá caindo rapidamente numa suposição deles mesmos, os fãs)
Ainda não há datas de lançamento para nenhum dos dois discos. Mas, considerando o histórico recente da cantora, talvez seja prudente evitar tatuar qualquer título no braço até que eles realmente apareçam nas plataformas de streaming. Afinal, se um álbum já mudou de nome três vezes antes de nascer, nada impede que um quarto nome apareça antes do play.
Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.
Cultura Pop
“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.
Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.
Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.
O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.
Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.
Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.
Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.
“Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.








































