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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre “Dirty mind”, do Prince

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Várias coisas que você já sabia sobre "Dirty mind", do Prince

Ele só pensava naquilo. Se em For you (1978) e Prince (1979), Prince já chocava a audiência com músicas como Sexy dancer e Soft and wet, bem vindo ao maravilhoso mundo da sacanagem e da liberdade. Dirty mind (1980), o terceiro disco, fazia odes à pornografia e ao sexo em canções como a faixa-título e Do it all night. Falava sobre festas que nunca terminavam em Party, sobre sexo oral em Head, sobre sexo a três em When you are mine e sobre (uau) tesão incestuoso no roquinho meio Queen-meio Pretenders Sister. Ademais, só para não ficar em definitivo no assunto “sexo”, Prince ainda tecia comentários sobre racismo e liberdade em Uptown.

Por acaso, o terceiro disco de Prince (que durava econômicos trinta minutos) vinha numa hora boa, já que a Warner se animara bastante com as vendas dos dois primeiros álbuns. E aquele artista multitarefa, que tocava tudo em seus LPs, chamava bastante a atenção da crítica. Mas se Dirty mind precisava deixar a gravadora feliz, havia uma tarefa mais difícil ainda para o álbum: satisfazer os critérios e o controle artístico do próprio Prince.

Várias coisas que você já sabia sobre "Dirty mind", do Prince

Em Dirty mind, o pós-disco dos dois álbuns anteriores voltava repaginado, com cara new wave, vocais simplificados (já incluindo os falsetes influenciados tanto por Stevie Wonder quanto pelos Beach Boys, que caracterizariam o cantor até o fim da vida) e muitos sintetizadores. Aliás, não era só isso: Prince voltava disposto a botar para quebrar nas paradas de rock, e inverter o caminho traçado por artistas como Rolling Stones e Queen (que foram do rock aos sons dançantes ou à disco music e derivados).

Morto em 2016, Prince gravou tantos discos memoráveis que uma discussão sobre “melhor disco” dele pode facilmente acabar em briga. Mas Dirty mind tem lá seus pontos: é um disco extremamente provocador e pioneiro, e ainda por cima está completando 40 anos essa semana (saiu em 8 de outubro de 1980). E vai aí nosso relatório sobre ele. Leia ouvindo o disco.

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PARECIA QUE NÃO IA DAR. Inicialmente, nem mesmo a Warner punha tanta fé assim no taco de Dirty mind, e o disco não se revelou de cara um grande sucesso. Prince chegou a lembrar que o disco “teve vendas mínimas” assim que chegou nas lojas e as rádios também não caíram dentro com voracidade – até mesmo pelo medo de tocar músicas com letras tão cara-de-pau. O livro Prince FAQ: All that’s left to know about the Purple Reign, de Arthur Lizie, informa que se tratou do índice mais baixo de Prince nas paradas até Rainbow children (2000).

DEMOS. Essa descrença da Warner em Dirty mind veio, em parte, do fato do terceiro disco de Prince ter iniciado basicamente com demos que o cantor tinha guardadas. Prince resolveu mostrar as fitinhas para os executivos da gravadora, mas eles receberam o material de nariz torcido. “Eles disseram: ‘O som tá legal, mas não temos certeza sobre as canções. Não podemos colocar isso nas rádios, não é parecido com seu disco anterior’. Eu respondi: ‘Mas é parecido comigo’”, contou.

ORIGENS. A mistura musical de Dirty mind vinha de experiências recentes de Prince. Para começar o cantor havia aberto shows de seu rival Rick James, durante a turnê do álbum Prince (1979). Rick, considerado um grande inovador do funk, estava fazendo um baita sucesso com seu terceiro disco, Fire it up (1979) e com letras sacanas e cheias de conversa mole, como as de Love gun e Lovin in you is a pleasure. Em um período no qual a disco music ia sumindo das paradas e a new wave virava o garoto novo da escola, era um feito e tanto.

RICK JAMES – “LOVIN’ YOU IS A PLEASURE”

RICK PISTOLA. O astro Rick James havia, segundo o próprio contou algumas vezes, topado que Prince abrisse seus shows porque haviam lhe falado que o novato era fã de seu trabalho. Acabou, na lembrança do próprio Rick, se irritando, já que Prince mal lhe dirigia a palavra. James jura que o cantor fazia péssimos shows de abertura, ficava imóvel no palco e chegou a ser vaiado.

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RICK PISTOLA 2. O astro principal do show acabaria ficando mais puto da vida ainda com Prince. Acusou o futuro cantor de Purple rain de roubar seus truques de palco, como o ato de virar o microfone. Diz que Prince via atentamente seus shows para copiar tudo, em detalhes. Os dois chegaram a partir para o confronto algumas vezes: James contava que chegou a agarrar Prince pelo pescoço numa festa e a “enfiar conhaque garganta abaixo dele” (oi?).

CIDADEZINHA. Ao final da turnê com James, Prince retornou para Minnesotta, mas não para a populosa Minneapolis, onde nasceu. Foi se meter numa cidade turística, próxima e bem menor, Wayzata, onde montou um estúdio de 16 canais, pago pela Warner. Foi de lá que saíram as demos de Dirty mind que a Warner achou que não renderiam. Prince admitiu depois que a gravadora nem sabia o que ele estava fazendo.

ALIÁS E A PROPÓSITO, na ficha técnica de Dirty mind, o ouvinte fica sabendo que o disco foi gravado em “somewhere in Uptown”, e mais nada.

EU FIZ TUDO. Prince, além de cantar, compor, arranjar, produzir e tocar de tudo um pouco em Dirty mind, ainda por cima autogravava-se a si mesmo no estúdio, já que também foi o técnico de som do disco. Só que assinou a tarefa como Jamie Starr. Era um pseudônimo que ele depois adotaria como engenheiro de som e produtor de discos de artistas vindo de suas bandas. Entre eles, Apollonia 6, Sheila E. e The Time.

EU FIZ (QUASE) TUDO. Prince não “tocou todos os instrumentos” em Dirty mind, como costuma ser dito por aí. Algumas participações superespeciais do álbum estão listadas no encarte: o tecladista Doctor Fink tocou sintetizadores em Head e Dirty mind. Lisa Coleman fez vocais em Head. A contracapa no entanto omite algumas parcerias. Fink coescreveu Dirty mind e Morris Day, vocalista de Prince, coescreveu Party up.

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ALIÁS E A PROPÓSITO. Morris deixou a falta de crédito para lá, desde que o patrão Prince produzisse o disco de estreia de sua banda The Time. O músico produziu o disco The Time, em 1981, mas… assinou como Jamie Starr.

FORA DO LP. No meio da tour de Dirty mind, em 1981, Prince lançava pela primeira vez um single que não estava presente num LP seu. Era Gotta stop (Messin’ about), que acabou incluída no repertório da tour, e foi lançada apenas para o mercado britânico. Nos EUA, apareceu como lado B do single Let’s work, naquele mesmo ano.

“GOTTA STOP (MESSIN’ ABOUT)”

CORTARAM. Na Filipinas, Dirty mind, a música, ganhou uma versão single editada, com alguns segundos a menos.

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ALIÁS, E NO BRASIL? O segundo disco de Prince, epônimo, foi lançado aqui em 1980. Mas a Warner local não se animou a fazer o mesmo com Dirty mind, que só chegou às lojas brasileiras em 1990. For you saiu quase junto com Dirty mind por aqui nesse ano.

A CAPA, CLARO. Não entende inglês e ficou por fora dos temas das letras de um disco chamado “mente poluída”? Bom, o lay out do álbum não poderia ser mais claro, com Prince de casaco, tanguinha, sem camisa, olhando desafiadoramente para a câmera. A foto de Dirty mind foi feita por Allen Beaulieu, fotógrafo de Minneapolis que se tornaria grande amigo de Prince. Pouco antes do disco, Allen fotografara um desfile chamado Save the blackness, em que pessoas negras apareciam vestidas com roupas negras sobre fundo negro. Aliás, ele fez as fotos em preto e branco. Prince viu as imagens, achou seu nome no cartaz e ligou para ele oferecendo o trabalho.

ENTREVISTA COM ALLEN BEAULIUEU

A CAPA (2). Aquilo que aparece no fundo da foto, por trás de Prince – e se é que você já não reconheceu – são as molas de uma cama. O cantor disse a Allen que fazia questão de ser fotografado numa cama, e apareceu deitado numa das fotos do disco. O fotógrafo fez todas as imagens sozinho, sem nenhum assistente. Anos depois, quando foi fazer imagens para a Rolling Stone, Allen ficou orgulhoso ao ouvir de um colega de redação: “Vi Prince antes de ouvir o som dele”.

ALIÁS E A PROPÓSITO, tem out takes das fotos espalhados pela web, além de uma imagem colorida, que acabou vazando para um pôster do disco.

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Várias coisas que você já sabia sobre "Dirty mind", do Prince

A CRÍTICA GOSTOU. Só sendo completamente surdo para não perceber o quanto Dirty mind era um puta disco e o quanto era um álbum inovador, claro. E não custa dizer que a crítica gostou bastante do LP. Robert Christgau comparou Prince a Jim Morrison e John Lennon, e ainda arrematou com uma frase lapidar: “Mick Jagger deveria recolher seu pau e ir para casa”. Na Rolling Stone, Ken Tucker dizia que Prince era um romântico ingênuo nos dois primeiros discos, mas finalmente estava à solta nas sacanagens e na música.

OS SHOWS. A turnê Dirty mind foi de 4 de dezembro de 1980 a 6 de abril de 1981. A banda incluía Bobby Z (bateria), Dez Dickerson (guitarra), Lisa Coleman (teclados), André Cymone (baixo) e Matt Fink (teclados), além de Prince na voz e guitarra. O look do cantor durante o giro incluía desde cópias do visual da capa do disco (cabendo ainda leggings pretas, botas de cano longo e salto alto) até sobretudos e coletes com franjas. O repertório incluía tudo de Dirty mind, acrescido dos hits dos dois primeiros discos. Gotta stop (Messin’ about), inédita que fazia sucesso nos shows, virou single.

QUE É ISSO, RAPAZ? Na turnê, Prince queria usar calças de spandex – tecido colante, geralmente usado em roupas de ginástica e que era tendência na época. Mas queria dispensar o uso de cuecas ao colocar as tais calças. Seus empresários não gostaram muito da ideia e Prince acabou desistindo de dar uma de homem-berinjela nos palcos.

ALIÁS E A PROPÓSITO, ainda que Prince tocasse praticamente tudo em Dirty mind, a banda de palco aparecia numa foto do disco.

Várias coisas que você já sabia sobre "Dirty mind", do Prince

CONTROVÉRSIA. O sucesso de Dirty mind e de outros discos bem explícitos de Prince acendeu uma luz vermelha para vários setores conservadores dos EUA. Pastores televisivos apresentavam o disco como “mau exemplo”. Mas o álbum surfou uma onda bem interessante nos Estados Unidos, numa época em que Ronald Reagan ainda não era o presidente e não havia tanto espaço para o fundamentalismo religioso no dia a dia do país. Aliás, a mira do Parents Music Resource Center, criado na metade dos anos 1980, estava apontada mais para discos subsequentes de Prince, como Purple rain (1984), do hit onanista Darling Nikki.

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E JÁ QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI, pega aí o clipe original de Dirty mind. Aliás, curta, entre outras coisas, o visual do tecladista gozador Dr. Fink, que anos antes da pandemia do coronavírus já passava o tempo todo de máscara cirúrgica.

PRINCE – “DIRTY MIND”

Veja também no POP FANTASMA:
– Demos o mesmo tratamento a Physical graffiti (Led Zeppelin), a Substance (New Order), ao primeiro disco do Black Sabbath, a End of the century (Ramones), ao rooftop concert, dos Beatles, a London calling (Clash), a Fun house (Stooges), a New York (Lou Reed), aos primeiros shows de David Bowie no Brasil, a Electric ladyland (The Jimi Hendrix Experience) e a Pleased to meet me (Replacements).
– Demos uma mentidinha e oferecemos “coisas que você não sabe” ao falar de Rocket to Russia (Ramones) e Trompe le monde (Pixies).
– Mais Prince no POP FANTASMA aqui.

Cinema

O que você vai ver no documentário sobre o Velvet Underground

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O que você vai ver no documentário sobre o Velvet Underground

A essa altura, o que mais tem é link para baixar (de forma pirata) The Velvet Underground, o documentário de Todd Haynes sobre a banda americana que, mesmo não vendendo milhares de discos, mudou a sua vida.

E mudou mesmo: o filme de Todd é bastante assertivo ao deixar claro que a música do Velvet (e mais aproximadamente a de Lou Reed, principal compositor do grupo) deu voz a muita gente que estava totalmente excluída de todos os círculos possíveis e imagináveis da cultura e do universo pop.

Músicas como Heroin, All tomorrow’s parties (cuja letra poderia ter sido feita em 2021, no meio da pandemia), Sunday morning, Here she comes now e Sweet Jane foram mais do que apenas canções. Deram identidade para muita gente, e deram voz a uma turma que andava pelos cantos, sem público e (muitas vezes) desenturmada, em plena era do flower power. Dá para perceber pelo filme o quanto essa mensagem foi compreendida e assimilada.

Para quem se interessa, antes de tudo, por música de vanguarda, The Velvet Underground é uma boa demonstração de como a música cult se misturou com o universo pop – e de como até Beatles e The Everly Brothers encontram-se escondidos ali, na receita do grupo. Ainda que Sterling Morrison (guitarra), Moe Tucker (bateria e ocasionais vocais) e Nico sejam importantíssimos, o VU é o encontro entre um pretenso poeta e rockstar que adorava provocar e irritar os outros (Lou Reed) e um compositor e músico de vanguarda apaixonado por drones (John Cale).

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Se você espera que o filme mostre imperfeições de Lou como compositor e líder do grupo, vale dizer que algumas características desagradáveis do cantor estão lá – incluídas aí a maneira pouco bacana como nomes como Andy Warhol e John Cale foram sacados da turma. Mas Lou é mostrado como o sujeito que deu um discurso ao Velvet, um artista criativo e um companheiro bastante carismático.

O filme se vale de depoimentos de Moe, John Cale, Shelley Albin (ex-namorada de Lou Reed e, em tese, inspiração de músicas como Pale blue eyes), Merrill Reed (irmã de Lou, hoje psicoterapeuta), Mary Woronow (superstar da turma de Andy Warhol) e de ex-colegas dos integrantes no começo da carreira. Nomes como Sterling e Lou aparecem em depoimentos antigos.

Quem quiser um panorama bem legal sobre a caminhada do VU do comecinho até a era da Factory, vai ficar feliz com o filme. Um detalhe chato é que The Velvet Underground tem quase nada de shows da banda. Restou a um jovial Jonathan Richman (Modern Lovers), cria da banda, e que já viu cerca de 70 (!!!) shows do Velvet, dar um depoimento excelente sobre como eram as apresentações e como era legal ver um show deles.

Não há muita coisa sobre Loaded, disco de 1970, no filme. Compreensível: Moe Tucker não participou do disco, Cale diz que o Velvet já não era mais problema dele, Sterling e Lou estão mortos, Doug Yule não quis dar depoimento. Ainda assim, isso é BASTANTE lamentável, já que Loaded foi o maior esforço para tirar o Velvet Underground do (eita) underground. Falei desse álbum aqui inclusive. O último empresário do Velvet, Steve Sesnick (vilanizado por Lou e por uma porrada de gente do círculo do grupo), passa batido pela história e nem é citado.

No mais, qualquer coisa feita por Todd Haynes merece que você veja com toda a atenção – e já falamos sobre uma delas, o doc Superstar: The Karen Carpenter story, feito apenas com bonecas Barbie.

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Cultura Pop

Bandas (e outras coisas) que você conheceu por causa de Renato Russo e da Legião Urbana

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Bandas (e outras coisas) que você conheceu por causa de Renato Russo e da Legião Urbana

Vinte e cinco anos sem Renato Russo. De 11 de outubro de 1996 até hoje, rolaram várias homenagens a ele. Algumas bastante honrosas (como o livro Renato, o Russo, de Julliany Mucury, e os shows com Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá), e várias outras nem tanto. A melhor homenagem, no entanto, nunca foi feita: o produtor que tiver a ideia de unir de alguma forma informações sobre as várias bandas que influenciaram Renato (entre elas, vários grupos que ainda continuam na ativa), vai fazer um belo trabalho cultural sobre as origens do som não apenas da Legião, como de todo o rock de Brasília.

“Legal. Que tal um festival no Brasil com esse povo todo em 2022?”, você pode se perguntar. Bom, algumas chances estão irremediavelmente perdidas, já que Andy Gill, da Gang Of Four, e Pete Shelley, dos Buzzcocks, saíram de cena. As duas bandas já estiveram no Brasil, de qualquer jeito, e pelo menos Andy chegou a tocar no show MTV Ao Vivo – Tributo à Legião Urbana, que aconteceu em 2012, com o ator Wagner Moura fazendo as vezes do vocalista original. Fica faltando algo mais (hum) conceitual, no formato de um show, um evento, uma expo, várias lives, etc. Enquanto isso não acontece, seguem aí alguns nomes (de bandas, artistas, filmes, livros) que você conheceu em entrevistas de Renato Russo e da Legião.

SLAUGHTER AND THE DOGS. Renato e André Pretorius passavam horas ensaiando uma única música dessa banda (sem Fê Lemos, cuja bateria ainda estava presa na Inglaterra). Essa banda punk britânica formada em 1975 tinha adoração pelo imaginário de David Bowie – tanto que o nome une o do disco Diamond dogs ao do primeiro álbum solo do guitarrista Mick Ronson, Slaughter on 10th avenue. No começo das atividades do Aborto Elétrico, lançavam a estreia Do it dog style (1978).

COMSAT ANGELS. Banda pós-punk britânica ativa entre 1978 e 1995. O disco Waiting for a miracle (1980) estava entre os mais ouvidos pela turma de Brasília – inclusive, tem uma certa música da Legião que lembra bastante Independence day, maior hit da banda, que está neste disco. A partir de 1982, uma ameaça de processo de uma empresa Communications Satellite Corporation, conhecida como Comsat, fez a banda mudar de nome – primeiro para CS Angels, depois para Dream Command.

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THE PUNK ROCK MOVIE. Renato lembrou em algumas entrevistas ter visto esse documentário, dirigido por Don Letts, quando a Legião se mudou para São Paulo – e recordou ter ficado chocado com as cenas de Sid Vicious com o peito cortado a gilete, e de Siouxsie tomando um monte de bolinhas. O filme está no YouTube, mas com uma qualidade de reprodução tão ruim que você não vai conseguir ver direito nem uma coisa nem outra.

RAMONES. Até os anos 1980, a banda americana de punk não havia estourado no Brasil – o lançamento aqui do primeiro disco, de 1976, foi anunciado, mas a gravadora desistiu de lançar. Antes da adoração aos três acordes da banda virar padrão para o rock brasileiro, o disco It’s alive, de 1979, tinha mudado a vida do baterista Marcelo Bonfá e servido de elo entre tribos diferentes da turma de Brasília. “Todos gostavam”, esclarecia Renato.

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BUZZCOCKS. Citado como influência no Aborto Elétrico e no começo da Legião Urbana, o grupo punk britânico (que inovava ao misturar temas existenciais e românticos nas letras) era um dos mais queridos da galera. Renato dizia que Fiction romance, música da estreia da banda, Another music in a different kitchen (1978), era uma das raras coisas mais inofensivas ouvidas pela galera. “Tocava e todo mundo ia dançar”, dizia.

SHAM 69. Outra banda querida da turma da Colina. Esse grupo britânico, que tirou seu nome de uma pichação na parede (Walton & Hersham ’69, referência a uma vitória do time inglês em 1969), teve seu primeiro single produzido por John Cale, do Velvet Underground. O primeiro hit foi Borstal breakout, de 1978.

MUTANTES. Pode perguntar para quem tinha uns 12 anos em 1986, quando Renato Russo citou o grupo na letra de Eduardo e Monica: quase ninguém lembrava da banda paulistana. Em 1985, a Baratos Afins reeditou o catálogo deles. Foi para quem tinha que ir. Após anos e anos de Rita Lee desprezando a banda, e de sumiço de Arnaldo Baptista e Sergio Dias (e de discos fora de catálogo), o nome do grupo era quase tão underground para os adolescentes que ouviam Legião quanto o do escritor Arthur Rimbaud, citado quase na sequência.

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YOUNG MARBLE GIANTS. Renato costumava aparecer em fotos usando camisas dessa banda britânica (“minha favorita”, dizia), que gravou só um disco em 1980, Colossal youth, além de dois EPs, e que unia os vocais de Alison Statton a teclados e bateria eletrônica. O som lembrava mais uma trilha de videogame do que punk rock. Em L’age dór, música da Legião de 1991, Renato citou a banda no verso: “lá vem os jovens gigantes de mármore/trazendo anzóis na palma da mão”.

METAL BOX. Dizia Renato que André Muller, baixista da Plebe Rude, costumava deixar discos em lugares onde poderiam ser facilmente roubados, e certa vez quebrou um exemplar (caríssimo) do Metal box, o experimental segundo disco do Public Image Ltd.

Quem não tivesse acesso ao disco original, com três EPs numa caixa de metal, poderia se contentar com a Second edition, que reduzia o set a um disco duplo (e mesmo assim, não saiu no Brasil). O disco também foi bastante ouvido por Renato Russo, que costumava citá-lo em entrevistas. Poptones, que fala em “o gravador tocava músicas populares”, provavelmente foi a matriz do “todos os doentes estão cantando sucessos populares”, de Mais do mesmo.

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A MONTANHA MÁGICA. A obra-prima do escritor alemão Thomas Mann, lançada originalmente em 1924, tem na edição brasileira mais de 800 páginas. É o tipo de livro que muitos classificam como “exigente”, não apenas pelo tamanho, como pela temática bastante depressiva: um rapaz que se interna num sanatório nos Alpes Suíços e vai adiando sua saída de lá, desligando-se da vida real e amadurecendo a partir do contato com várias experiências novas, enquanto interno. Parece o isolamento de 2021, mas era a Suíça de mais de cem anos atrás (o livro se passa imediatamente antes da Primeira Guerra Mundial, que começou em 1914).

Renato leu o livro quando bem jovem, ao mesmo tempo que lia autores como Fernando Pessoa e Hermann Hesse, e ouvia Closer, do Joy Division. E, claro, você deve conhecer A montanha mágica, música de 1991 da Legião, sobre as experiências de Renato com heroína.

THE GREAT ROCK´N ROLL SWINDLE. A morte de Sid Vicious em 2 de fevereiro de 1979 tirou Renato Russo do centro (“ele era meu ídolo”). A turma de Brasília já conhecia o primeiro disco dos Sex Pistols, Never mind the bollocks, mas a trilha do filme sobre a formação da banda, The great rock´n roll swindle (1979), eles só tinham escutado aos pedaços (o disco sairia no Brasil só nos anos 1980).

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I wanna be me e a versão de Sid Vicious para o sucesso de Frank Sinatra, My way, eram algumas das preferidas. The great… já esteve inteiro no YouTube e sumiu. Em compensação, The filth and the fury, documentário do mesmo diretor (Julien Temple) sobre os Pistols, está lá te esperando até segunda ordem.

CONSTRUÇÃO. Nos anos 1980, pelo menos entre adolescentes e jovens adultos, era absolutamente uncool gostar de MPB. Em compensação, lá estava Renato Russo divulgando em entrevistas que seu trabalho como letrista tinha sido bastante influenciado pela obra-prima de Chico Buarque, Construção, lançada em 1971.

A Legião tocou no programa Chico & Caetano, da Globo, em 1986, por sinal. A dança de Renato no palco ganhou um “adorei aquilo!” meio irônico de Caetano Veloso, que deixou Dado Villa-Lobos se sentindo mais sacaneado do que elogiado (pelo menos é o que o músico diz no livro Memórias de um legionário). Chico, por sua vez, pareceu um tanto assustado, ou entediado, com o grupo tocando Ainda é cedo.

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GANG OF FOUR. Os ruídos da guitarra de Dado Villa-Lobos em Ainda é cedo têm mais a ver com o som da guitarra de Andy Gill do que com os barulhos de The Edge, do U2 – apesar de ser uma enorme tentação comparar tudo com músicas como Gloria e I will follow. Andy Gill, você já leu lá em cima, foi legionário por um dia. Recentemente saiu o disco The problem of leisure: A celebration of Andy Gill and Gang of Four, da qual o próprio Dado participa tocando Return the gift.

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Cultura Pop

Tem XTC no podcast do POP FANTASMA

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XTC

É a banda de Making plans for Nigel e King for a day! A banda britânica XTC deixou saudade na gente e em mais um monte de fãs. No nosso podcast POP FANTASMA DOCUMENTO, recordamos alguns dos momentos mais maravilhosos (nada de “melhores momentos”, XTC só tem música maravilhosa) desse grupo, liderado pelos gênios Andy Partridge e Colin Moulding, que acabou de forma misteriosa e deixou vários álbuns que todo mundo tem que conhecer. E convidamos o amigo DJ e músico Pedro Serra (Estranhos Românticos, O Branco E O Índio, Rockarioca) para ajudar a explicar porque é que você tem que parar tudo e ouvir o som deles agora mesmo.

O Pop Fantasma Documento é o podcast semanal do site Pop Fantasma. Episódios novos todas as sextas-feiras. Roteiro, apresentação, edição, produção: Ricardo Schott. Músicas do BG tiradas do disco Jurassic rock, de Leandro Souto Maior. Arte: Aline Haluch. Estamos no SpotifyDeezerCastbox Mixcloud: escute, siga e compartilhe! Ah, apoia a gente aí: catarse.me/popfantasma.

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