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Crítica

Ouvimos: De La Soul – “Cabin in the sky”

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Cabin in the sky, novo álbum do De La Soul, trata a morte de Trugoy como transformação espiritual com e sem religião, cabendo referências de soul, muitos samples e críticas à indústria.

RESENHA: Cabin in the sky, novo álbum do De La Soul, trata a morte de Trugoy como transformação espiritual com e sem religião, cabendo referências de soul, muitos samples e críticas à indústria.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Mass Appeal
Lançamento: 21 de novembro de 2025

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Um amigo que se livrava de um vício decidiu procurar a ajuda de um grupo de apoio. E me contou certa vez que se sentia bastante contrariado ao ouvir a palavra “deus” algumas vezes nas sessões de conversa. Não havia nada de especificamente religioso no grupo – e de modo geral as conversas, segundo ele, eram produtivas. Mas compreensivelmente seu ateísmo se chocava bastante com aquilo.

Ele chegou a pensar em abandonar o grupo, procurar outro tipo de ajuda. Acabou tendo tempo de refletir: o que era chamado de “deus” por algumas pessoas poderia ter diversas manifestações na vida material. Pode ser o grupo de terapia, a recusa a voltar às velhas versões de sua vida, o recomeço. Se nada é deus, tudo é deus: e é preciso entender que, para algumas pessoas, deus é o quadro de medalhas, o salário de cinco dígitos, a família e os amigos, a solidão sem ter que dar satisfação a ninguém, a invasão a um país, a falsidade em primeiríssimo grau.

Essa vibração meio caótica acabou servindo de ajuda para esse meu amigo num ponto particularmente difícil da jornada, em que outras pessoas talvez aceitassem o deus de alguma religião – ou desistissem de tudo. E essa vibração paira sobre Cabin in the sky, décimo álbum do De La Soul, e primeiro sem o integrante Trugoy, morto em 2023. Ainda que seja inevitável falar de deus em alguns momentos (e o grande diferencial do De La Soul sempre foi unir rap e espiritualidade em plena aurora do gangsta), quase sempre Posdnuos e Maseo, os outros dois integrantes, preferem tratar do assunto “morte” como uma transformação, ou como uma nova versão.

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Esse “algo mais” torna Cabin in the sky um disco mais tranquilo de ser entendido por quem não necessariamente é religioso / religiosa. Como na onda soul voadora de Sunny storms, em que a banda prefere anunciar a mudança do que lamentar o fim, em versos como “não precisa lamentar a morte do seu antigo eu, pois isso anuncia a mudança / dê à luz versões melhores para você reivindicar”. Por sinal, a voz de Trugoy surge bastante no álbum, o que dá a sensação de que ele pode reaparecer a qualquer momento – e vale recordar que o De La Soul sempre foi mestre em regravar e samplear a si próprio, e explorar seu próprio arquivo de guardados.

Como qualquer álbum do De La Soul, Cabin in the sky segue um destino: você vai precisar ouvir algumas vezes até pescar todos os detalhes, e vai se espantar como o grupo consegue transformar cores e climas em música e storytellling – mesmo quando o papo é sério e grave, como no segundo disco, De La Soul is dead (1991). Tem o detalhe que nem sempre Cabin é um disco tranquilo de ouvir, justamente por sua longa duração. O que ajuda a manter a curiosidade é o pacto com o “som celestial”, cumprido em faixas como o soul Yuhdontsop, a colagem de samples Good health, a onda Motown de The package, a vibe dance music + gospel de Just how it is (Sometimes).

Cabin in the sky tem também músicas que soam como homenagens a mestres do soul e do pop: Different world tem algo de Marvin Gaye (além de uma sentida homenagem a Trugoy na letra) e Day in the sun (Gettin’ wit U), dançante e brilhante, tem flow herdado de Prince e Michael Jackson. En eff, com trama de metais em torno do beat, traz recordações amargas do começo do De La Soul: o grupo lembra que, em meio ao triunfo do rap politizado, via muitas caras feias e narizes torcidos – mas também não contava com muitos amigos na indústria do disco.

“Valemos milhões, mas não somos milionários / porque as regras da indústria musical estão em decadência / contudo, a união do tempo e do corpo intervém com sabedoria / para corrigir os erros de qualquer aspirante a rei”, dizem. Vá lá que em Cabin o De La Soul ainda apresente canções abertamente gospel, como Believe (In him). Até aí, é o De La Soul apresentando a você vários lados de uma situação real: um dia tudo acaba, as lembranças ficam, e até mesmo os sacos de sal carregados ao longo do caminho, sozinho ou com amigos, podem ser seu deus.

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Ouvimos: Uchaye – “War is ov3r” (EP)

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Resenha: Uchaye – “War is ov3r” (EP)

RESENHA: Em War is ov3r, a cantora Uchaye mistura grunge, soul, punk pop e dance-rock em um EP de quatro faixas sobre sobrevivência, relações abusivas e superação.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: 23 de outubro de 2026
Lançamento: Uchaye Records

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Uchaye passa do grunge ao soul, do punk pop ao dance-rock, mas War is ov3r não parece uma coleção de dardos atirados para todos os lados. A cantora e guitarrista de 18 anos, com origem nigeriana e zimbabuana, radicada no Minnesota, encontra uma ligação entre esses sons no rock dos anos 1990 e 2000, quando guitarras pesadas podiam conviver com balanço e refrãos pop. As quatro faixas também têm um assunto em comum: sobreviver, enfrentar o estrago e tentar sair da guerra cotidiana.

Denial abre com uma vinheta separada e encontra peso noventista, com grunge na estrutura e soul nas linhas vocais. O solo e o arranjo têm algo de Jimi Hendrix, e o canto aproxima Uchaye do soul revisitado com guitarras – há algo de Black Keys e Gnarls Barkley na faixa, até. Há atitude na voz, mas sem gritos e vocais lá no alto. A letra, porém, está longe da tranquilidade: acompanha alguém que não aceita o fim de uma relação e transforma a lembrança em fixação.

Survive migra para o punk pop e para a disposição de encarar o que antes ficava escondido. A pessoa idealizada começa a perder o disfarce, e a saída de uma relação abusiva vira luta para recuperar o controle da vida. É um dos melhores momentos do EP, com melodia direta e guitarras que dão à decisão o tamanho de uma conquista.
Currency muda o ambiente: batidão eletrônico, entrada vocal de raggamuffin e guitarra blueseira num dance-rock com cara de hit. Live wire puxa para o blues e o hard rock setentista, com voz incisiva e um peso que chega a lembrar a era Dio do Black Sabbath, só que por um viés mais soul + blues. É o maior recuo no tempo de War is ov3r, sem perder a ligação.

A variedade funciona porque Uchaye dá sua cara para cada música e estilo. O EP acompanha letra e música sem transformar tudo numa mesma pancada. Mesmo quando a guerra acontece dentro de uma relação, sair dela exige mais do que anunciar o cessar-fogo.

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Crítica

Ouvimos: Sour Widows – “Sigil”

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Resenha: Sour Widows - "Sigil"

RESENHA: Em Sigil, segundo álbum das Sour Widows, a banda de Oakland mistura grunge, indie rock e folk, com produção de Melina Duterte e letras sobre perdas e obsessões.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Julia’s War
Lançamento: 23 de outubro de 2026

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Incrível, mas uma das bandas que mais vêm à mente ao ouvir o disco das Sour Widows é o Weezer. Isso porque muitas soluções de arranjos e truques melódicos fazem lembrar direto os primeiros discos da banda de Rivers Cuomo – muito embora sejam bandas BEM diferentes. O Weezer é sarcástico e alegre, as SW são sensíveis, tristes e falam de sentimentos difíceis de colocar em palavras. Susanna Thomson e Maia Sinaiko, ainda por cima, fazem isso com uma poesia visceral, que beira a crueza, algo entre Patti Smith e Kurt Cobain.

Sigil, segundo álbum do grupo de Oakland, foi produzido por Melina Duterte, do Jay Som. Depois das composições longas de Revival of a friend (2024), a banda encurtou os caminhos, com refrãos mais diretos e espaço para experimentar. A faixa-título começa acústica, quase alt-country, até as guitarras erguerem uma parede de lamentos. Dor e depressão em pleno sol californiano.

Her garden é uma balada folk tocada com sujeira e tensão, usando imagens de fome, sangue e destruição para acompanhar um amor virando ressentimento. As letras tratam perdas, obsessões e inseguranças como experiências físicas: o afeto deixa marcas, e nem sempre é possível separar desejo, medo e vontade de se defender. Choke chain leva essa vibe a um country alternativo, oscilando entre carinho e violência. Quase uma Sheryl Crow noturna e ensanguentada, com microfonias e bateria ecoando.

Lucky star tem clima de valsa grunge, unindo algo de Weezer e Smashing Pumpkins, apresentando vozes doces e ruídos que levam a música para longe. Blood in the grass começa delicada, com violão e vozes, antes de crescer à moda dos Pixies. É uma canção de amizade entre pessoas que conhecem a perda.

A mãe de Thomson era clarividente. Já Sinaiko cresceu entre artistas e performers. Sonhos entraram na criação do disco, mas Lullaby olha para um horror concreto: o genocídio em Gaza. Vozes faladas / cantadas e guitarras ruidosas transformam a faixa num relato feroz. Wounds of purification vem depois, dedilhada e triste, com uma tensão que parece prestes a estourar. Não estoura. As Sour Widows sabem o estrago que uma música quieta pode fazer.

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Crítica

Ouvimos: The Avalanches – “No bad memories”

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Resenha: The Avalanches – “No bad memories”

RESENHA: Em No bad memories, o The Avalanches mistura samples, hip-hop, disco e eletrônica em 31 faixas com jingles, comerciais antigos e nostalgia tecnológica.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Modular Recordings
Lançamento: 16 de outubro de 2026

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Você se lembra de O demolidor, filme com Sylvester Stallone dos anos 1990? O durão John Spartan (Stallone), congelado em 1996, acorda em 2032 e descobre uma sociedade higienizada em que falar palavrão rende multa (a conta vem por intermédio de um sensor pré-internet) e as rádios tocam jingles antigos como grandes sucessos. Tem muito dessa loucura, mas não com a mesma visão conservadora, em No bad memories, do The Avalanches: comerciais, vinhetas e ruídos tecnológicos viram música para curtir no sofá. Uma loucura que poderia ficar restrita à experimentação, se os australianos não fossem tão bons em encontrar canções no meio dos entulhos.

Surgido em Melbourne em 1997, o grupo trocou o noise punk pelo hip-hop e pelas colagens de samples. O debute Since I left you (2000) fez história, mas a sequência Wildflower só apareceu em 2016. Depois de We will always love you (2020), Robbie Chater e Tony Di Blasi (e Andy Szekeres) chegaram ao quarto álbum com vntade de fazer uma festa bem estranha. As 31 faixas parecem uma sessão de zapping, com cortes que nem esperam a música acabar.

Há algo de Boards of Canada nessa obsessão por sons que poderiam ser vinhetas. 3D glasses not included brinca com timbres de tecnologia antiga, He lives in the old world parece saído de uma vinheta de fita VHS (estilo CIC Video) e El Dorado TV spot vende um refrigerante inventado. SUV heaven leva essa lembrança para os anúncios de carros – em especial aqueles dos anos 2000, quando as pessoas achavam que já estavam acostumadas com tecnologia saindo pela bica da cozinha. Você ouve distraído, como quem lava roupa com a TV ligada, e horas depois está cantarolando alguma coisa sem saber de onde veio.

Together põe vozes processadas e ruídos eletrônicos num Kraftwerk afetivo: a vontade de ficar junto convive com a estranheza de olhar fotografias antigas. I give everything I have 2U, com Loaded Honey, transforma soul em dance music de época. Every single weekend, com Jamie xx, lembra as redescobertas da disco dos anos 2000 (Scissor Sisters, etc), enquanto Blue shadows, com Karen O (Yeah Yeah Yeahs), tem beleza indie pop, só que cercada de efeitos psicodélicos meio de araque.

Vida traz Erick the Architect fazendo um som aproveitando a pedrada boogie brasileira Vida agitada, gravação de Paulo Jerônimo de 1983 – o riff de metais ganha agito e é usado como base. Highfield, com Panda Bear, reprocessa pop setentista e reggae até quase virar jingle. One more fantasy tem Carly Simon, só que fazenddo uma espécie de soft rock soul de máquina; Our love is alive aproxima pista, city pop e os sons experimentais de Suzanne Ciani. Tudo parece publicidade, mas muita coisa também provoca afeto.

All the time in the world, com Rivers Cuomo, Vegyn e Baby Marlboro, oferece companhia num clima que lembra Gorillaz. E lembra que nossas relações também passam pelas máquinas. Quem nunca teve uma amizade que só fazia sentido no WhatsApp ou no Orkut? Total recall, com Mike Patton, leva isso ao comércio explícito, como se até a frieza dos SACs (“não desligue, sua ligação é muito importante para nós”) rendesse música.

Final credits é uma curiosa despedida romântica, que mais parece uma mensagem soul gravada em loop. E The pavements light, com Haruomi Hosono, baixa o volume em eletrônica delicada. Depois de tanta propaganda, fica a pergunta: quanto das nossas lembranças pertence às empresas que ajudaram a fabricá-las? O disco entende que um som pode ter sido feito para vender e, mesmo assim, acabar guardando um pedaço da nossa vida.

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