A frase “if you see something, say something” faz parte de uma campanha de segurança pública do governo dos Estados Unidos, e pode ser vista em algumas estações de metrô ao longo do país. E ela inspirou, em 2014, o músico, jornalista e escritor carioca Leonardo Panço e o músico e artista plástico Haroldo Paranhos (da banda paulista Maguerbes) a comporem Vê algo, fala algo. Que seis anos depois de lançada – no primeiro disco solo de Panço, Tempos, repleto de convidados – ganha clipe.

Tanto a música quanto o disco de Panço foram feitos de forma bem colaborativa. Vê algo, fala algo tinha Haroldo na letra e nos vocais, Panço nas guitarras ao lado de Marcelo Gomão, Dave (ex-Jason) no baixo e Fabio Brasil (Detonautas, ex-Jason) na bateria. E foi tudo por etapas, com produção de todo mundo que tocou na música.

“Minha parte na música é uma só nota”, brinca Panço. “A gente acaba citando Tomorrow never knows, dos Beatles. Somos três ex-Jason lá, eu, Dave e Fabio. Gravamos baixo e bateria no estúdio do Fabio no Itanhangá. Depois gravei minhas guitarras em Natal quando fui lançar meu livro Esporro lá. O Gomão gravou no Recife a segunda guitarra. E o Haroldo gravou a voz em Los Angeles”, conta.

Para fazer o clipe, ainda mais em tempos de isolamento, foi preciso mandar bala no mesmo esquema: cada músico original da faixa em seu canto, gravando a si próprio com seu celular. Exceto Haroldo, que usou uma câmera de verdade.

“Eu gravei na Zona Norte do Rio, o Dave também só que em outro bairro… O Fabio ficou no Itanhangá, o Gomão no Recife, Haroldo em SP e o diretor Otávio Sousa (que acabou de fazer Matriz, documentário sobre Pitty) também em São Paulo”, conta Panço. “E depois o Otávio jogou tudo para o negativo para unificar, porque são cinco pessoas com telefone ou câmera diferente, cor diferente, luz diferente”, completa. O clipe está no canal do Chiado, selo criado por Vital Cavalcante e Flavio Flock (Jason).

Panço pretende seguir divulgando os dois clipes que lançou esse ano, mas faz planos. Tem um quarto disco para ser concluído e que deve ser feito de maneira bem inovadora, por WhatsApp. “Mandei meu HD externo para o Zé Felipe (Zumbi do Mato) e a ideia é terminar com ele. São 18 faixas que comecei a gravar em 2017. Comecei a gravar todas as guitarras e violões em Ubá (MG), com clique”, conta.

Tem dois livros inéditos dele vindo por aí, mas Panço diz que os acontecimentos recentes do Brasil o deixaram sem vontade de lançá-los. Pelo menos da maneira mais convencional. “Eu andei me sentindo culpado, é sério. Tanta gente queimando árvore na Amazônia, Pantanal em chamas e eu ainda vou cortar árvore pra fazer papel? Mas penso em conversar com o pessoal da Chiado para lançar um desses dois livros, pelo menos, em papel reciclado”, conta.

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