Há uns meses, lembramos do caos e do desespero que foi o final da TV Tupi, em 1980. A estação (primeira emissora de TV do Brasil, fundada em 1950) passou por uma verdadeira vigília em seu último dia no ar, após vários anos de tormentas em que projetos eram abortados, telejornais eram feitos com equipes minúsculas, elencos inteiros eram postos na rua e salários ficavam eternamente atrasados.

Na reta final, cheia de processos, a Tupi mandou cortar tudo de sua programação. O “tudo” incluía desde o Programa Flavio Cavalcanti (uma das maiores audiências do canal) até a novela Como salvar meu casamento, de Carlos Lombardi, que saiu do ar pela metade. No dia 17 de julho de 1980, o mais dramático: trezentos funcionários ocuparam o prédio da Tupi e transmitiram uma assembleia ao vivo e a cores, com três câmeras ligadas e microfones abertos.

A tal assembleia iria se estendendo, se estendendo, com várias apresentações musicais aleatórias e comando de ninguém menos que Jorge Perlingeiro, que depois viraria o chefe do programa Samba de primeira. Funcionários da emissora, desesperados com a perda do emprego (e com a possibilidade de saírem de mãos abanando por causa da falência dos Diários Associados, que mantinha a emissora) faziam apelos ao presidente João Batista Figueiredo para que impedisse o canal de sair do ar. No dia seguinte, após 18 horas ininterruptas de vigília, um funcionário do Dentel passou lá, lacrou o transmissor e tirou a Tupi do ar.

E todo esse introito é só porque, pela primeira vez, vazaram no ar os últimos 50 minutos da Rede Tupi no ar, já no dia 18 de julho de 1980.

As cenas não são exatamente de chorar, como andam falando por aí, porque (pelo menos no meu caso) a primeira coisa que vem na cabeça é o cinismo de uma estação de TV que passou por vários problemas de administração e que não honrava os próprios funcionários. Mas é melancólico, sim. Ainda mais quando corta para as caras de desconsolo dos funcionários. Muita gente ali deve ter morrido sem ver a cor do dinheiro que a empresa devia a eles.

Nos últimos minutos, o locutor Cévio Cordeiro narra cenas que misturam a missa do Papa João Paulo II no Rio, em 2 de julho, a um texto bastante sincero e crítico, que diz que o último presidente da ditadura militar (e xará do Papa) é “o único João que pode fazer milagres pela Tupi, e não o Papa João Paulo II”.

A locução diz que vai evitar contar o lado “feio, sujo da história” para o presidente e fala sobre a tristeza dos funcionários desempregados da estação. “Por que, João presidente, nós vamos pagar pelos desmandos de outros?”, diz, sem poupar espetadas sérias nos donos da empresa.