A época da ditadura militar tinha dessas coisas. Tido como um dos maiores apoiadores do golpe militar em seu início, o apresentador Flávio Cavalcanti passou rapidinho para a categoria de censurado, com seu programa na Rede Tupi parecendo um queijo suíço, por causa dos buracos deixados pelos censores.

Em julho de 1973, a censura foi interna. Com a Tupi sem grana e devendo todos os seus, hum, colaboradores, o apresentador foi convidado a ir a Belo Horizonte para participar do programa do jurado Sergio Bittencourt na TV Itacolomi, associada da emissora. Foi perguntado sobre o que faria caso ganhasse na Loteria Esportiva (que havia sido lançada recentemente) e respondeu: “Pagaria os atrasados da Tupi”. A direção da Tupi ficou sabendo no ato e pôs o apresentador na geladeira. Ele foi para a TV Rio, igualmente moribunda. A história é contada com detalhes por Léa Penteado, ex-secretária de Flávio, no perfil que ela escreveu sobre ele, Um instante, maestro (Ed. Record, 1992).

Na real, a Tupi – que foi a primeira rede de televisão do Brasil – andava com problemas havia um tempinho. A estação nunca deu dinheiro de verdade, sempre foi gerida à moda caralha e passou por situações malucas. O presidente Assis Chateaubriand tinha mania de interromper a transmissão (fez isso uma vez no meio de um tele-teatro) para fazer discursos falando mal de políticos, por exemplo. E fazia gastos extremamente desnecessários com as finanças do canal.

Em 1968, Chatô foi cuidar daquele grande estúdio de TV no além e deixou a estação com um condomínio de 23 pessoas, incluindo políticos, personalidades, funcionários de confiança e filhos. Como nenhum deles aplicava dinheiro nos negócios da Tupi (afinal, ninguém seria dono daquilo de verdade), o negócio foi morrendo aos poucos. No meio do caminho, tinha a TV Globo, que funcionara durante um ano com pouca audiência (e métodos dignos de serem sonorizados com o tema dos Trapalhões, como transmitir uma partida de futebol com uma hora de atraso). A estação seria descoberta pelo público em 1966 e correria na frente para se tornar campeã de audiência.

O jornalismo da Tupi sofreu pra burro com esses cortes. A estação não dispunha nem mesmo de automóveis e equipamento suficiente para suas equipes. Sem grana, os funcionários começaram a fazer paralisações, o elenco da novela O profeta convocou coletiva de imprensa pra avisar que estavam trabalhando a troco de nada, e de uma hora para outra, parecia que o chefe de programação tinha tomado ácido, já que telejornais da emissora, exibidos em rede, se viravam com qualquer notícia que aparecesse.

Na reta final, cheia de processos e demitindo atores por justa causa (!), a Tupi mandou cortar tudo de sua programação – desde o Programa Flavio Cavalcanti (enfim, Flávio voltou para lá) até a novela Como salvar meu casamento, de Carlos Lombardi, que saiu do ar pela metade.

O mais bizarro estava por vir: no dia 17 de julho de 1980, um dia antes do óbito da estação (quando os transmissores finalmente foram lacrados), rolou uma vigília (!) de funcionários no prédio da Tupi, apresentada por ninguém menos que Jorge Perlingeiro (o cara do Samba de Primeira). Trezentos funcionários ocuparam o prédio e transmitiram uma assembleia ao vivo e a cores, com três câmeras ligadas e microfones abertos a quem quisesse berrar um “puta que pariu, eu amo a Tupi” para todo o país (chegou a rolar isso, mas sem o palavrão). Teve muita gente que ligou para a estação e foi colocada no ar, até alguns famosos.

Para quem quiser conferir se isso realmente aconteceu, tem até um vídeo com um trecho da vigília da Tupi no YouTube, com direito a parte dos 300 profissionais ocupando o palco e até a umas apresentações musicais (!) totalmente fora de contexto. Buscando no YouTube, dá pra achar boa parte dessa transmissão apenas em áudio.

Com infos do e-livro TV Tupi, a pioneira na América do Sul