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Luiz Carlini e Guto Graça Mello – e Rita Lee

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Ricardo Schott, Luiz Carlini e Leandro Souto Maior

Uma semana particularmente triste para os fãs de Rita Lee, já que hoje completam-se três anos desde sua morte – mas ainda por cima dois parceiros dela também saíram de cena durante a semana. Guto Graça Mello (1948-2026), que produziu discos como Refestança (1977, com Gilberto Gil), Babilônia (1978) e Rita Lee (1979), morreu de parada cardiorrespiratória na terça (5), e Luiz Carlini (1952-2026), guitarrista dos discos que ela gravou com o Tutti-Frutti, partiu na quinta (7).

Guto, naturalmente, teve sua trajetória na TV mais comentada nos últimos dias: foi o cara que mudou o design sonoro das trilhas de novela, o co-autor do tema do Fantástico (com letra de Boni, todo-poderoso da Globo), o sujeito que simultaneamente trabalhou na Globo e na gravadora global, a Som Livre – onde, por acaso, ajudou a lançar os álbuns da série Xou da Xuxa.

Ele também foi um compositor bem pouco lembrado. A trilha sonora da novela Cavalo de aço (1973), toda feita por ele e Nelson Motta, é melancolia pura: traz baladas tristes, pelo menos um samba deprê (Homem de verdade, na voz de Djalma Dias), rocks rurais (Um sol na noite, interpretado por Eustáquio Sena) e o tema de abertura de novela mais pesado e sombrio que a Globo já levou ao ar (Cavalo de aço, com o próprio Guto no vocal e a Orquestra Som Livre fazendo algo que parece uma mistura de Isaac Hayes e Black Sabbath). Como disco, ótimo – como trilha, uma merda: Boni mandou chamar Nelson e Guto em sua sala e comeu os dois no esporro (segundo o próprio Guto).

Luiz Carlini provavelmente vai ser mais lembrado nos próximos dias como o ex-parceiro de Rita Lee. Prefiro lembrar dele como o cara gente fina que abriu a porta de sua casa pra mim e pro Leandro Souto Maior em 2015 – fomos lá presenteá-lo com uma cópia do nosso livro Heróis da guitarra brasileira (Ed. Vitale). Prometi que ia ser uma visita rápida e passamos se bobear uma tarde por lá, antes de voltarmos ao Rio – a foto acima é desse dia. Tive a oportunidade de ver Luiz ao vivo com Guilherme Arantes algumas vezes, felizmente.

Carlini precisa também ser lembrado como um guitarrista que, além de ter um estilo próprio, não ficava parado no tempo, e conseguia tocar de tudo um pouco. Fez até um solo bem metálico numa música do Kleiderman, o projeto paralelo de Sergio Britto e Branco Mello, dos Titãs. Foi na faixa Get me higher, que encerrava Con el mundo a mis pies, único álbum do grupo, de 1994. Carlini chegou a fazer alguns shows com os Titãs, substituindo Tony Bellotto, e tocou até com o Camisa de Vênus, quando a banda teve um retorno nos anos 1990.

Apesar de até Rita ter questionado as qualidades dele como compositor na autobiografia dela, o nome dele como autor consta nas músicas do disco Você sabe qual o melhor remédio (único do Tutti-Frutti sem Rita, de 1980). Algumas músicas imortalizadas por ela têm crédito de co-autor pra ele, como Agora só falta você e Sem cerimônia. O que rolou de bom e de ruim nos bastidores dessas músicas, só os dois sabem. Para quem está apenas de ouvinte, ficam aí três grandes ausências.

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“Earthquakes”: Niis transforma coração partido em punk urgente

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"Earthquakes": Niis transforma coração partido em punk urgente

RESENHA: O Niis apresenta Earthquakes, primeiro single de Play Niis, EP que sai em 23 de outubro. A faixa mantém o peso punk da banda, mas abre espaço para referências.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Divulgação

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O Niis está de volta com Earthquakes, primeiro single de Play Niis, EP de seis faixas que sai em 23 de outubro pela Rise Records. A banda punk de Los Angeles, que no álbum de estreia Niis world (2025, resenhamos aqui) misturava porrada punk-new wave e até guitarras lembrando The Cars, agora amplia um pouco essa receita: a música nova tem peso, mas também passeia por vários climas.

Earthquakes é movida por um riff de guitarra que atravessa praticamente toda a faixa, acompanhado por uma linha de baixo igualmente inquieta. A vocalista Mimi Doe faz o resto: vai da doçura ao sarcasmo, dobra vocais urgentes com as guitarras e transforma uma canção sobre coração partido em algo que não fica parado no mesmo lugar.

A letra nasceu de uma fase complicada na vida da vocalista. Play Niis começou a tomar forma justamente durante o fim de um relacionamento, num período de mudanças pessoais em que Doe praticamente saiu da separação direto para o estúdio. Em vez de ter tempo para processar o que estava acontecendo, acabou jogando boa parte da experiência nas músicas.

Em Earthquakes, ela canta: “Me dê decepções amorosas, me dê tremores nas pernas / preciso de grandes riscos / preciso de terremotos”. A imagem tem relação com experiências afetivas instáveis e com a dificuldade de reaprender a se relacionar depois delas.

“É difícil superar isso e aceitar o fato de que você precisa reaprender a amar, porque quando você passa por uma grande decepção amorosa, isso realmente te transforma. Leva tempo para aprender a se amar, a se tratar bem e a amar seu próximo parceiro da maneira correta. É sobre isso que a música fala”, conta. “Cantar essa letra ao vivo será catártico porque todo mundo se identifica com isso — todo mundo já teve o coração partido.”

Play Niis tem seis músicas (veja capa e lista de faixas lá embaixo). Produzido por Austin Coupe e Michael Shuman, o EP aponta para um Niis mais melódico e vulnerável, embora a raiva dos trabalhos anteriores continue por ali.

Earthquakes também ganhou um clipe inspirado nos vídeos dos anos 1990 e começo dos 2000, cheio de preto e branco e imagens sem muita preocupação narrativa. É parte da nostalgia que ronda Play Niis – um disco que Mimi imagina no universo dos celulares flip, das lojas Hot Topic e de Buffy, a Caça-Vampiros.

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Capa do EP Play Niis, da banda Niis

LISTA DE FAIXAS:

01. Bad aim
02. Big fish baby
03. Earthquakes
04. Take your mess
05. No flowers
06. Westside

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Cartas Para Julia: slowcore experimental, texturizado e narrado em “Entre nós”

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Cartas Para Julia (Foto: Divulgação)

RESUMO: O duo Cartas Para Julia é formado por Kayke Felipe Magalhães e por Julia Alves da Cruz Fernandes, e faz um som entre o slowcore e o lo-fi, mais próximo da poesia falada. Eles estreiam com o single Entre nós.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Divulgação

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Cartas para Julia estreia com Entre nós, uma canção curta, de menos de dois minutos, que fica entre o slowcore e o lo-fi. O duo formado pelo multi-instrumentista e produtor Kayke Felipe Magalhães e pela letrista e vocalista Julia Alves da Cruz Fernandes usa uma produção econômica para criar uma faixa mais próxima da poesia falada do que de uma canção pop convencional.

Os vocais de Julia são falados durante boa parte da música e, em alguns momentos, quase murmurados. A letra em francês ocupa o centro da faixa, enquanto a produção de Kayke trabalha com guitarras, texturas e uma atmosfera discreta. Em vez de construir a música a partir de refrão ou de uma grande mudança instrumental, Entre nós se desenvolve aos poucos, deixando voz e ambiente dividirem o espaço.

A faixa fala sobre os espaços entre as pessoas, as lembranças e aquilo que acaba não sendo dito. É também a primeira amostra do projeto Cartas para Julia, que nasceu em 2025, quando Kayke e Julia se conheceram na faculdade.
Kayke já tinha um trabalho autoral sob o nome FelipeOrie, misturando MPB, lo-fi e indie rock, além de atuar como produtor e multi-instrumentista. Julia vinha principalmente da escrita e encontrou no duo sua primeira experiência musical, transformando os próprios textos em voz.

Embora o projeto seja apresentado como dream pop e spoken word, Entre nós aponta para uma sonoridade mais enxuta. O slowcore aparece no andamento e na maneira como a música deixa os elementos respirarem, enquanto o lo-fi ajuda a manter a produção próxima, sem muita preocupação em esconder suas texturas.

É uma estreia que aposta mais na palavra e no clima do que em uma estrutura tradicional de single. E, com menos de dois minutos, faz isso sem estender a ideia além do necessário.

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Cocteau Calines: pós-punk + noise japonês, em protesto contra as guerras

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RESUMO: O grupo japonês Cocteau Calines cruza pós-punk, dream pop e rock alternativo em A city made of sorrow, canção de protesto contra a guerra com ecos de DIIV, Stone Roses e Smashing Pumpkins.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Divulgação

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Tem algo de pós-punk soturno e de rock alternativo dos anos 1990 em A city made of sorrow, novo single do Cocteau Calines. O quarteto de Tóquio estica a música por pouco mais de seis minutos, num caminho que passa pelo DIIV, pelo balanço hipnótico do primeiro Stone Roses e por momentos mais pesados, que lembram o Smashing Pumpkins das guitarras distorcidas e do baixo ocupando bastante espaço.

É uma mistura que vai se revelando aos poucos. A city made of sorrow começa apoiada numa atmosfera de dream pop e em guitarras melódicas, mas ganha corpo conforme avança. O baixo distorcido ajuda a empurrar a faixa para um terreno mais escuro, próximo de certas bandas pós-punk, enquanto a voz em japonês de Yuya Nishiyama aparece quase incorporada à massa sonora – sempre na busca de repetição, clima e crescimento gradual.

A música também tem um contexto específico. Programada para sair na véspera do dia em que o Japão relembra o fim da Segunda Guerra Mundial, A city made of sorrow é uma canção de protesto contra a permanência das guerras e contra a ideia de violência praticada em nome da justiça. Formado em Tóquio em torno do baixista e vocalista Yuya Nishiyama, o Cocteau Calines também aposta no idioma japonês como parte fundamental de sua identidade, mesmo mirando ouvintes fora do país – aliás a ideia é propagar o idioma em outros países.

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