The Damned: e

Muita gente mal deve fazer ideia disso, mas um dos principais sucessos da banda punk britânica The Damned, Smash it up (parts 1 & 2) surgiu inspirado pela morte de Marc Bolan, líder do T. Rex. O grupo chegou a excursionar com Bolan no começo da carreira, pouco antes do acidente de automóvel que tiraria a vida do músico. E Marc Bolan – você já leu sobre isso aqui – estava se aproximando do punk rock lá por 1977.

Smash it up também era uma canção punk bastante inovadora. O Damned, uma banda punk que tinha lá suas manias com o rock progressivo (o segundo disco, Music for pleasure, de 1977, foi produzido por Nick Mason, baterista do Pink Floyd) resolveu compor uma canção em duas partes, com uma longa introdução instrumental e um segundo segmento “punk”, com versos como “eu vou gritar e gritar até o meu último suspiro” e “não estou nem aí se pareço um cara esculachado/não quero parecer um babaca como todo mundo”.

Numa reportagem enorme da Uncut, os músicos que tocavam no The Damned na época do disco Machine gun etiquette (1979), que tinha essa música, relembraram o período de Smash it up. O guitarrista Captain Sensible recorda que a música foi feita quando a banda estava ainda ligada a Bolan, e que recebeu de sua mãe a notícia de que o músico havia morrido. “Ela me disse: ‘Seu amigo, como é o nome dele, Roley, Boley? Ele morreu em um acidente de carro'”, recordou. Sensible pegou a guitarra e escreveu boa parte da primeira seção da música, cujo clima meio sombrio foi todo inspirado pela morte do amigo.

“Essa parte da música praticamente se escreveu sozinha e é uma homenagem a Marc. Enquanto outros roqueiros da velha guarda como (Phil) Collins e (Keith) Richards odiavam o punk, ele realmente gostava disso”, contou Captain. No dia seguinte, o baterista Rat Scabies deu mais uma ajudinha com alguns acordes. “Bolan morreu em um acidente de carro e a parte 1 foi escrita para ele. A parte 2 não foi, mas com um título como Smash it up, parece incrível que não fosse sobre o acidente de carro. Eu só percebi isso alguns anos atrás”, completou ele, que também liderou a composição da parte 2.

Por causa da ajuda do produtor Roger Armstrong e da folclórica rapidez do Damned para compor e arranjar, o grupo acabou partindo para duas semanas de estúdio nas quais boa parte do material do terceiro disco foi feita. Por causa da rédea livre, o grupo acabou gravando quatro (!) partes de Smash it up. Só que as duas últimas partes ficaram durante vários anos engavetadas. A gravadora do grupo na época, Chiswick, se interessou apenas pelas duas primeiras. As duas últimas não foram bem trabalhadas em estúdio e soavam (opinião nossa) como dois enxertos instrumentais sem pé nem cabeça.

Em 2004, o selo Ace Records decidiu recolocar o single nas lojas, incluindo as malditas duas últimas partes. Olha aí.

Captain, por sinal, não sabe explicar até hoje como a parte 2 de Smash it up foi composta, por um motivo básico: ele mal conhecia acordes na época. A letra, ele lembrou para a Uncut, foi inspirada nas canções da banda sessentista britânica Groundhogs sobre inadequação à sociedade.

Smash it up está em sol e permite que a nota aberta seja tocada sem restrições até que o refrão comece”, contou. “Eu não sou fã de assuntos técnicos, mas eu era fã do Soft Machine e o verso dessa música tem uma contagem estranha antes que o acorde mude para dó e depois volte novamente. Você precisa perguntar a um teórico da música o que estávamos fazendo, porque eu não faço ideia. Muitos músicos que tocaram a música conosco ao longo dos anos foram completamente prejudicados pelo tempo excêntrico dela, e as coisas terminaram em caos”.

A música chegou a ser censurada pela rádio da BBC, que considerou a letra “anárquica” demais. Em compensação, havia uma data para o Damned divulgar Smash it up num popular programa de TV da emissora, o Old Grey Whistle Test, e lá foram eles. A banda tocou também I just can’t be happy today, sem guitarras, com Captain Sensible tocando órgão.

No final o órgão começa a dar defeito e o vocalista Dave Vanian, totalmente bêbado, finge que lê uma revistinha de acordes que Sensible (também visivelmente doidão) havia deixado em cima do instrumento. O final do número deixou a apresentadora Annie Nightingale sem saber o que fazer.

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