Crítica
Ouvimos: Sleaford Mods – “The demise of Planet X”

RESENHA: The demise of Planet X traz o Sleaford Mods na onda do minimalismo, com falas raivosas e crítica às redes e às elites. Crônica seca de um mundo cansado e sem catarse.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Rough Trade
Lançamento: 16 de janeiro de 2026
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O Sleaford Mods segue fiel ao próprio método em seu novo disco, The demise of Planet X: minimalismo seco, beats programados, baixo repetitivo e Jason Williamson despejando frases em verdes pelotas, como quem comenta o mundo no balcão do bar, irritado e meio bêbado – sem catarse, sem melodia redentora, só irritação organizada. O disco praticamente dispensa o conceito comum de uma banda. Quase tudo é sustentado por linhas de baixo, teclados, programações e vozes faladas, às vezes próximas do rap, às vezes do pós-punk mais duro. Na real, é como se fosse uma recriação do rap, só que por um viés maquínico, quase krautrap.
The good lads já aponta isso: baixo insistente, vocal meio falado e ecos de Public Image Ltd, com uma letra que, em alguns momentos, parece um Reconvexo (aquela música do Caetano Veloso gravada pela Maria Bethânia) do fim do mundo: “sou o cara MAGA com a mão decepada / sou o ciclista dublê do Evel Knievel (motociclista que foi o rei do globo da morte nos Estados Unidos, e figurinha da TV norte-americana, 1938-2007) em uma terra perdida do nada”.
Double diamonds começa com uma guitarra experimental e vira um híbrido estranho de soul sampleado e pop eletrônico, terminando num clima sombrio reforçado por cello. Elitest G.O.A.T. é mais próxima de um rock formal, mas ainda dominada por samplers, palavras de ordem e um vocal feminino (Aldous Harding) que funciona quase como refrão, além de uma letra que senta a mamona no ativismo performático, gente que só é “politizada” para aparecer e ainda vira herói / heroína.
Já Megaton entra num synth-pop sombrio, de vocal grave e letra soltando verdes pelotas sobre um tema que, no duro, é o conceito do álbum: todo mundo bovinamente hipnotizado e separado pelas redes sociais enquanto as big techs destroem o mundo e ganham grana. No touch mistura eletrônico e punk com a voz calculadamente displicente de Sue Tompkins (ex-Life Without Buildings) – na letra, gente perdendo a linha nas drogas, sem ter ideia do que está havendo. Bad Santa parece um gangsta rap minimalista e simplificado, com vocais que lembram o (olha eles aí de novo) PiL, e uma letra que fala sobre gente que assiste a reels no Instagram como hamsters na roda. A faixa-título aposta num kraut synthpop estranho.
Na reta final, Gina was e Shoving the images puxam para um rap seco. Flood the zone soa como um tecnobrega torto filtrado pelo krautrock. Kill list vira diálogo de filme jogado no ritmo, lembrando o som do clipping. The unwrap fecha tudo no eletrônico-rap. Aliás, dá a impressão de que tudo fica até mais violento no final do álbum, que o universo classista mostrado por filmes como Saltburn, novelas como Vale tudo e livros como Coisa de rico (o do Michel Alcoforado) virou algo palpável e digno de mais ódio ainda.
The demise of Planet X é um disco variado musicalmente, mas não do jeito comum. Às vezes parece que o Sleaford Mods insiste na repetição e na frustração (e no sarcasmo) até tudo isso virar linguagem e mostrar uma coisa básica: esse mundo está virando um lugar em que esperar o pior virou tarefa diária. Quem espera evolução formal vai se frustrar. Quem entende a banda como crônica falada de um país cansado (e de um mundo triplamente cansado) encontra aqui mais um capítulo coerente.
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Crítica
Ouvimos: Softcult – “When a flower doesn’t grow”

RESENHA: Dupla canadense Softcult estreia com shoegaze e dream pop sobre opressão, machismo e trauma. Letras duras e pessoais confrontam abusos e relações tóxicas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Easy Life Records
Lançamento: 30 de janeiro de 2026.
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Um dos ditados populares geralmente mais mal usados do mundo é “quando as flores não crescem, troca-se de jardineiro” (olha, já vi uma equipe inteira ser demitida por um patrão que repetia insistentemente isso nas reuniões que determinaram o passaralho). Mas recentemente, o palestrante Alexander den Heijer deu uma retorcida nessa frase e tirou de lá a seguinte sentença: “Quando uma flor não desabrocha, você corrige o ambiente em que ela cresce, não a flor”.
A mudança na frase tornou-a mais didática e sensível – e mais propícia a tempos de compreensão e entendimento. E enfim, When a flower doesn’t grow, álbum de estreia da dupla canadense Softcult, está bem mais perto dessa imagem do que da visão de equipes sendo colocadas na rua por algum chefe metido a frasista. Mercedes e Phoenix Arn-Horn, integrantes do grupo, fizeram basicamente um álbum de shoegaze e dream pop que exorta fãs, falando de resiliência, opressão, machismo, violência e comportamentos lamentavelmente tolerados.
O termo “auto-ajuda”, aqui, é literal – muitas vezes embebido em histórias pessoais e em finais violentos. Pill to swallow parece relembrar o tempo em que Mercedes e Phoenix faziam parte da banda pop Courage My Love, que virou aposta da Warner canadense, e só rendeu estresse. Versos como “chega de falsas promessas / o futuro parece tão distante e estamos lá embaixo” devem ter sido escritos à base de muitos gatilhos.
- Ouvimos: Juia – Dois trabalhos
A curiosidade é que, assim como outra sensação canadense, Alanis Morissette, o Softcult também deixou uma carreira musical pregressa para trás – e se Alanis gravou o álbum Jagged little pill (1995) sob o signo das más recordações, Mercedes e Phoenix classificam o sucesso errado como “a hard pill to swallow” (e ambas as frases com “pill” têm o mesmo sentido).
Entre shoegazes bem prototípicos e vocais com doçura pop, o Softcult chega a outras “pílulas” desconfortáveis: o apaixonamento ingênuo de Naive, o abuso de 16/25 (sobre um relacionamento de um homem mais velho com uma menina menor de 18) e a falta de acolhimento no mundo, que vira assunto da faixa-título. Em vários momentos, as letras de Mercedes tornam-se duras de ouvir, por levantarem esses assuntos com todas as letras – e com riqueza de cenas.
Em faixas como 16/25, o Softcult faz barulho como se viesse da Inglaterra em 1991/1992: guitarras pesadas e beat dançante-robótico (e um certo ar de quem ouviu nu-metal na adolescência, também). She said, he said, sobre um date abusivo e violento, une falas, vocais tranquilos, gritos e distorções, na cola de bandas atuais como Sprints – Hurt me, a curta faixa seguinte, vai na mesma onda e ainda faz lembrar o Nirvana da estreia Bleach (1989). A punk Tired põe machos palestrinha e gente declaradamente machista para correr.
Por outro lado, há delicadeza no dream pop de I held you like glass, e de Queen of nothing – essa, uma música que fala sobre como as mulheres sofrem com um sistema que já é abusivo desde que o mundo é mundo, e é pensado exclusivamente para o conforto dos homens. Tem também emanações de Slowdive na beleza pesada de I’m sorry. O Softcult faz música sonhadora, mas olha para uma realidade bem cruel.
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Crítica
Ouvimos: Accelera Deck – “Gargoyle lips”

RESENHA: Accelera Deck mistura reggae, dub eletrônico e industrial em Gargoyle lips: quatro faixas cheias de beats tensos, reverbs e ecos psicodélicos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7,5
Gravadora: Lathelight
Lançamento: 12 de junho de 2025
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Chris Jeely, o cara por trás do Accelera Deck, é um músico de Birmingham. Só que a Birmingham em questão nada tem a ver com a cidade britânica que deu Black Sabbath e Duran Duran ao mundo: é a terceira cidade mais populosa do Alabama, nos EUA. Com projetos lançados sob vários nomes, ele originalmente é um guitarrista. Só que (“só que” volume dois) seu trabalho hoje em dia é mais conhecido pela experimentação eletrônica e pela criação / tensão de beats.
- Ouvimos: Backengrillen – Backengrillen
Numa determinada fase, seu som unia guitarras emparedadas de shogaze e batidas de drum’n bass. Gargoyle lips, disco novo de seu projeto mais conhecido, o Accelera Deck, é basicamente reggae + dub eletrônico e industrial. São quatro faixas, com suas versões “dub” no lado B, sendo que os originais já praticamente são dubs viajantes e reverberados.
Rhizomatic parece um samba-rock eletrônico, com guitarras e teclados viajantes, complementados com um beat que mais parece uma máquina funcionando na fábrica. Palace soa industrial, e vai ganhando síngue, com baixo e teclado. Faz lembrar os passos de alguém caminhando por um palácio abandonado, e tem algo de Laibach e Ultravox. O reggae psicodélico de Slouvers (que fica menos acelerado e focado nos beats na versão dub) e as reverberações dancehall da faixa-título (essa, ganhando um Gargoyle riddim que acentua a lisergia e os beats, com direito a sons rodados ao contrário na abertura) encerram o disco.
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Crítica
Ouvimos: Água Pesada – “Mexanismo”

RESENHA: Stoner/doom psicodélico: o Água Pesada mistura em Mexanismo Black Sabbath, Soundgarden e maracatu num disco ruidoso e sombrio, cheio de riffs, peso e delírio.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Independente
Lançamento: 10 de fevereiro de 2026
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Falar em “som pesado” ao ouvir a banda paulista Água Pesada parece até brincadeira. Ricardo Faller (voz/guitarra), Fabio Domingues (baixo) e Fernando Sioni (bateria) constroem um universo de violência sonora pura, em que cada música é um susto diferente. Mesmo que a definição de “stoner rock” seja a mais apropriada, o som deles tem doom metal, música brasileira, psicodelia, batuques a la Nação Zumbi e aclimatações que lembram Soundgarden – especialmente no vocal de Ricardo, rasgado como de Chris Cornell.
Formado por nove longas faixas, Mexanismo, novo disco deles, é psicodelia pesada herdada de Black Sabbath, Kyuss, o Soundgarden da era de Louder than love (1989), e de grupos casca-grossa em geral,. Carquejogênese, a abertura, é curta e simples, com ruídos de orquestra e outros barulhos. Gato fantasma abre a temporada de sons longos e sombrios e Eminente lume da perpétua perambulação une metal comum e beat de maracatu, até se tornar algo bem viajante logo depois. Meio do fim, fim do meio ganha certo suíngue dado pela guitarra wah wah, enquanto Teatro macabro soa como uma valsa funesta, com quebras rítmicas que parecem surgir do improviso.
Pouco dá para entender das letras de Mexanismo – os vocais, afinados e abertos, são mixados em meio a nuvens de graves e de guitarras ruidosas. Ouvindo, você sente que o Água Pesada bate de frente com o establishment, com as opressões da vida. Escritórios e manicômicos, por exemplo, é peso maníaco perto do doom metal- ouvindo, dá para imaginar alguém surtando com a escala 6×1 e depredando o local de trabalho.
Chorume cibernético (veja lá que nome!) é quase metal-punk, com riffs buzinando e vibe ágil. No fim, stoner metal nordestino com flauta (Cosmeuzébio) e uma verdadeira panela sonora do diabo (Esgoto das almas), com clima stoner-metal-gótico, soando como alguém solitário em meio a pragas e desgraças.
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