Crítica
Ouvimos: Poesia Abstrata – “Eu, o ego e as sombras”

RESENHA: Poesia Abstrata aposta em gótico eletrônico e dance-rock à la Cure/Depeche Mode, com boas referências e letras desoladas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7,5
Gravadora: Paranoia Musique
Lançamento: 5 de dezembro de 2025
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“Somos o que contrasta de forma abstrata: uma poesia enigmática dentro do estilo musical que abordamos, com temas existencialistas — dor, perda, solidão, niilismo, paixão, amor, ódio, medos e traumas”, diz o trio Poesia Abstrata, lançamento de um selo do Rio, o Paranoia Musique, ligado a climas trevosos e a aclimatações pós-punk. Eu, o ego e as sombras, novo álbum do grupo, perde potência devido à gravação, que deixa o som dos vocais meio abafado em relação aos instrumentos – mas compensa nas boas canções e faz uma boa junção de referências de época.
- Ouvimos: Sleaford Mods – The demise of Planet X
O disco percorre um imaginário gótico eletrônico bem reconhecível, abrindo com um Prelúdio curto, com teclados e batida eletrônica próxima do trip-hop. Em várias faixas o grupo aposta no dance-rock: Verdades e mentiras e Escolhas certas, erros perfeitos vão nessa trilha, apostando às vezes em guitarras distorcidas. Faixas como Estado do espírito e Quadro de ilusões, por sua vez, evocam Depeche Mode, só que nas facetas mais misteriosas do grupo britânico. Climas lembrando os discos menos solares do The Cure surgem em músicas como Nada além de histórias e romances e Cicatrizes… – esta, trazendo riffs de guitarra lado a lado com teclados graves e gélidos.
Por sinal, o Robert Smith de clássicos deprê do Cure como A forest é a grande inspiração – ao que parece – das letras de Eu, o ego e as sombras, com músicas falando de isolamento, perdas, julgamento e culpa como se houvesse um amanhã, e ele fosse bem trágico. Tipo em Escolhas certas, erros perfeitos, cujos versos mostram que, tudo pode dar errado até mesmo quando dá certo (“o que me importa viver trancado em mim mesmo / sei que a vida espera a morte na porta com seu sorriso escancarado”). Ou no dance-rock tristonho da faixa-título.
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RESPOSTA: O Poesia Abstrata entrou em contato para comentar a resenha: “Gostaria de informar que não somos cariocas não! (de fato, foi um erro que cometemos no texto) Existe no projeto apenas um integrante que é do Rio de Janeiro, sendo ele o Rafael , que toca synth & programação. Eu, Wandrey Queiróz, sou de São Paulo, e o Cleiton Cavalcante, vocalista, também é de São Paulo, da cidade de Ribeirão Preto. Nosso estilo musical está dentro da darkwave, sendo que temos fortes influências do Synthpop dos Anos 80 – bandas como Depeche Mode são sim uma de nossas maiores referências! Creio que o nome mais correto para o nosso estilo é Darkwave/Synthpop pois “Dance Rock” é algo inexistente dentro da Cultura Rock e Subcultura Gótica”).
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Crítica
Ouvimos: Osees – “Cara maluco” (EP)

RESENHA: Osees surpreende com o EP Cara maluco, lançado sem aviso. Quatro faixas que vão do stoner espacial ao country punk sombrio, fechando com delírios curtos e experimentais.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: DEATHGOD CORP
Lançamento: 6 de março de 2026
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Se existe uma banda que ama bugar seus fãs, é o Osees / Thee Oh Sees. Além dos vários discos lançados, dos projetos malucos (como o lançamento de uma caixa retrospectiva em cartucho) e da vocação para se dividir em vários, John Dwyer, o cara por trás do nome, curte fazer umas surpresas de vez em quando. Como esse Cara maluco, um EP de quatro músicas que saiu de supetão, sem explicação nenhuma – quem fala português e curtiu o título, que espera por alguma entrevista de Dwyer em que ele comente o assunto.
Cara maluco vai sair também em vinil, num EP de doze polegadas com “um lado B gravado” (com músicas extras?). Osees usou de vez a skin “stoner espacial” na faixa título, um rock pesado e voador de sete minutos, encerrado com samples do nome da faixa sendo pronunciado com sotaque. Joro, na sequência, é country punk sombrio, com vocais bem graves e vibe tão stoner quanto a da música-título. O final é com duas músicas bem curtas, Synaptic static, que parecem a mistura exata de Gong, Pixies e a trilha de algum videogame alucinado, e Joy in oblivion, estranho mix de Public Image Ltd e rock progressivo (que guarda algumas lembranças de Nite expo, faixa do Orc, de 2017).
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Crítica
Ouvimos: Backengrillen – “Backengrillen”

RESENHA: Black metal, hardcore e jazz viram “destruição total do ruído” no Backengrillen: sax como guitarra, clima sombrio e caos antifascista.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: independente
Lançamento: 23 de janeiro de 2026
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Um fã dessa banda sueca definiu no Bandcamp o som deles como “destruição total do ruído”. Na verdade, o Backengrillen é a destruição total de muita coisa, não apenas do ruído. Afinal, trata-se de uma banda que une black metal, hardcore, jazz underground e porradas sonoras climáticas – o tipo de música que impõe respeito pelo que vem chegando, e não pela pancadaria de cara.
Os dez minutos de A hate inferior, que abre o álbum, são exatamente isso: você até enxerga algo de Iron man, do Black Sabbath, naquela fanfarra ao contrário da abertura (com bateria, baixo e sax). Mas só se dá conta de que está diante de algo violento de verdade quando os berros, o peso e os efeitos de som tomam conta dos falantes. O saxofone quase sempre soa como uma guitarra no-wave, ou como um esmeril transformado em instrumento musical. Dör för långsamt, na sequência, abre com um pesadelo anti-psicodélico de flauta, baixo distorcido, bateria marcial e vozes selvagens. Até completar doze minutos, segue com poucas notas , gritos e um clima de marcha pra belzebu (e não para Jesus).
- Ouvimos: M(h)aol – Something soft
Como se não bastasse, mesmo sendo uma banda com foco no instrumental, o Backengrillen é uma banda anti-fascista, do tipo que se imagina criando um cenário sonoro assustador para algum porco capitalista – algo que atrapalhe o sono de alguém. Os integrantes Dennis Lyxzén (vocal), Magnus Flagge (baixo) e David Sandström (bateria) vêm do Refused (por aí, são chamados de “a banda jazz-punk que se originou do Refused”), e o saxofonista/flautista Mats Gustafsson é bem veterano.
O disco do Backengrillen completa-se com mais três faixas. A no-wave maníaca de Repeater II, que é a menor do álbum (pouco mais de seis minutos), faz lembrar os Stooges do disco Funhouse (1970), maior modelo existente para quem pretende unir punk e jazz – e é marcada pelo sax distorcido percorrendo toda a faixa. Backengrillen, que dá nome ao disco e à banda, tem intro com baixo melódico e clima mais misterioso do que propriamente ameaçador. Depois vai ganhando vibe de pós-punk + post rock, com baixo, bateria e flauta + sax.
O final, com Socialism or barbarism, é impressionante: distorções surgem como barulho de incêndio ao longe, e que se transformam num vento que varre e lambe tudo – até que uma onda sonora ganha batida de drum’ n bass e vai se transformando num meio de caminho entre Iggy Pop e a Yoko Ono de Why? (faixa de abertura de Yoko Ono / Plastic Ono Band, de 1970). Ousado e barulhento.
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Crítica
Ouvimos: Calopsita – “O revoar”

RESENHA: Calopsita mistura glam, pop e clima teatral em O revoar. Entre Bowie, Tori Amos e grunge 90s, cria canções delicadas e dramáticas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 21 de novembro de 2025
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Cantora e compositora do Rio, Calopsita cita nomes como David Bowie, Letrux, Tori Amos e Fiona Apple como influências de seu disco O revoar – cujo som é bem próximo também da força e da delicadeza do Radiohead, em faixas como a teatral Au revoir e em boa parte de On the beaten track. Essa última tem uma cara bem anos 1990, chegando perto igualmente do grunge, enquanto Trouble boy, aberta com bateria reloginho e piano, vai do pop oitentista ao David Bowie do disco Aladdin sane (1973) em poucos minutos.
- Ouvimos: Pina Palau – You better get used to it
Essa vibe teatral e glam é o que dá mais cara própria ao som de Calopsita – dá para sentir as referências, mas ao mesmo tempo tudo é filtrado de forma particular, como se fosse a construção da trilha de uma peça. O glam-pop-rock de Sem mais disfarces aproxima o disco de bandas como Heart, enquanto Chameleon eats catterpillar usa tom sombrio para contar a história da letra, lembrando Tori Amos, o Bowie de The man who sold the world (1970) e o comecinho do Ultravox.
O final é com o tom infantil de O revoar (cantada em francês) e Sunlit morning, sons que às vezes ficam próximos de Beach Boys, às vezes do folk triste. Tudo muito bonito e delicado.
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