Connect with us

Crítica

Ouvimos: Chance The Rapper – “Star line”

Published

on

Star line marca a redenção de Chance The Rapper: rap, soul e gospel, letras mais francas, temas sociais e acertos maiores que no disco de estreia.

RESENHA: Star line marca a redenção de Chance The Rapper: rap, soul e gospel, letras mais francas, temas sociais e acertos maiores que no disco de estreia.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 15 de agosto de 2025

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

A julgar pela capa de Star line, segundo álbum do norte-americano Chance The Rapper, trata-se de um disco meio… Bom, não diria ruim, mas não parece um dos usos mais bem realizados de Inteligência Artificial para fazer uma capa de disco. Mas Star line é a chance (sem trocadilho, mas se quiser pode) que Chancelor Johnathan Bennett – nome verdadeiro do cara – tem de voltar a chamar a atenção dos fãs, já que The big day, seu primeiro disco (2019, lançado após uma bem sucedida série de mixtapes) recebeu mais críticas e piadas escarnecedoras do que elogios.

Ouvido hoje, sete anos após seu lançamento – sete anos hoje em dia é tempo pra burro, vale dizer – The big day está bem longe de ser um disco ruim. Tá mais pra uma boa união rap-pop-gospel que coroa Chance como um sujeito bem mais empreendedor e visionário do que muitos de seus pares: ele prefere lançar seus discos por conta própria, fechou sozinho vários contratos importantes, fez várias doações, etc.

O problema é que geralmente histórias de redenção não terminam de uma maneira tão previsível: The big day é um disco sobre o casamento de Chance com sua namorada de longa data, que aconteceu após separações e brigas envolvendo pensão alimentícia (o casal já tinha uma filha). O resultado soa mais como um yearbook pessoal do casório, bem diferente das histórias da mixtape Coloring book (2016).

E bom: o casamento não durou muito, Chance ganhou uma recepção bem fria de seus fãs e vá lá, tinha uma certa injustiça nisso tudo (muita gente, mais do que detestar o disco, quis só tirar um barato da nova fase familiar de Chance). Mas vá lá: um disco como Stardust, o novo de Danny Brown, falando de sobriedade e vida pós-drogas de modo bem mais rueiro – e com rimas e melodias que fazem bem mais sentido – acaba descendo melhor e apaziguando gostos e desgostos.

Star line tem a vantagem de ser um disco que partiu dos erros que ele julga ter cometido no primeiro álbum. Do papo comportado de The big day, surgiu um Chance The Rapper mais disposto a se expor, como no beat seco e no clima quase oitentista de Starside intro, em que ele fala na inexistência de “finais de conto de fadas” e no clima dançante e despojado de No more old man, com belos vocais e arranjos de cordas – e uma letra que fala em aprendizados com os mais velhos. A introspectiva e viajante The highs ans the lows fala em gangorras emocionais e parece trazer conselhos que Chance queria ter ouvido há anos (“às vezes todo o ruído externo realmente nos cega / não acredite em nada do que você vê e em metade do que você ouve / as melhores coisas da vida estão do outro lado do medo”).

  • Ouvimos: Earl Sweatshirt – Live laugh love
  • Ouvimos: Chiedu Oraka – Undeniable (EP)

Já a desigualdade social é o tema de The negro problem, em que temas como justiça, saúde e até antirrascismo cirandeiro (a partir de um discurso sampleado do ator Richard Pryor) vão surgindo – o som é meio boogie anos 1980. Drapetomania vai mais além: fala de uma doença pseudocientífica que, lá pelo século 19, classificava como “mania de fuga” o fato dos escravizados não aceitarem sua condição e tentarem fugir. O som é um trap grave e sequenciado.

O novo disco de Chance The Rapper segue nessa onda, unindo vários temas para apresentar a visão do artista sobre tudo o que foi acontecendo com ele nos últimos anos. Rola no soul cantado e próximo do trap de Space and time (“espaço e tempo vão onde você for / não pode desperdiçar seus amanhãs”), na vibe espacial e psicodélica de Link me in the future (a melhor e mais bem produzida faixa do álbum, com letra confessional e versos como “nossas lembranças ainda me assombram / meus amigos me disseram para te ignorar / mas toda vez que te vejo, dá vontade de te abraçar mais forte”) e a vibe de sobrevivência na selva de Gun in yo purse. Letter, rápida e jazzificada, é um rap-gospel raivoso que senta a mamona no falso cristianismo e nas igrejas de araque.

Star line é fundamentado numa onda sonora gospel que dá certo diferencial e um prazer auditivo que o primeiro álbum não tinha. Chance parece disposto igualmente a lembrar que já foi visto como um profissional próspero, além de um grande rapper – o “Star Line” do título é uma referência a uma companhia de navegação criada pelo ativista e empresário jamaicano Marcus Garvey, e viagens à Jamaica e a Gana estão no gene do álbum. Os acertos foram maiores dessa vez.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

 

Crítica

Ouvimos: The Lords Of Altamont – “Forever loaded”

Published

on

Ouvimos: The Lords Of Altamont – “Forever loaded”

RESENHA: Psych, stoner e pré-punk se misturam em Forever loaded, novo disco do The Lords Of Altamont: rock sujo, violento e estradeiro, cheio de horror, excessos e riffs pra ouvir no talo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Heavy Psych Sounds
Lançamento: 10 de abril de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

“Para sempre doidão” (Forever loaded, enfim) é um bom nome para o oitavo disco de uma banda tão profundamente ligada à história da psicodelia – The Lords Of Altamont, enfim, adota o nome do autódromo de Altamont, no norte da Califórnia, onde rolou aquele show dos Rolling Stones em 1969, com abertura do Grafeful Dead, e com violência no palco, na plateia e em todos os lugares.

É um rock “novo” e ao mesmo tempo bem antigo: The Lords Of Altamont é uma banda que une psicodelia, stoner rock, clima motorbiker pelas estradas (Jake Cavaliere, vocalista e organista, é motociclista), pré-punk violento (Michael Davis, ex-baixista do MC5, foi integrante do grupo) e maluquice rocker no mais alto grau, em letras e músicas. Tanto que Forever loaded já começa com um hard rock psicodélico-sadomasoquista (Got a hold on me, de versos como “preciso estalar o chicote / preciso me deixar mais fraco / consiga o que você quer por favor / preciso implorar por você, estou de joelhos”).

  • Ouvimos: Melvins e Napalm Death – Savage Imperial Death March

O material de Forever loaded tem muito daquela arrogância estradeira associada a bandas como Motörhead e Steppenwolf (o grupo de Born to be wild é uma baita influência do som deles, inclusive). Jake reclama dos amores cagados da vida em What’s your bag. Avisa que o diabo vai te pegar de moto na hipnótica, pesada e fluida Devil rides. E na crua e sexy Rusty guns, canta versos como “encontre-me na estrada dos sonhos despedaçados / tenho um punhado de cartuchos e uma arma enferrujada / gire o cano e aponte para mim / entre os olhos, olhe para mim”. Já no pré-punk Get out of my head, ele pede para alguém que ele viu partir dessa para melhor vazar de sua mente (“você anda pelo corredor / desde o dia em que morreu / sei que você me assombra dia e noite”).

Ou seja, o principal é que The Lords Of Altamont é uma banda useira e vezeira do departamento de assuntos aterrorizantes – com referências que incluem também Arthur Brown, Alice Cooper e demais nomes do rock de horror, lado a lado com Kingsmen, Status Quo, Deep Purple e outros. Tanto que tem ainda Procession for a gorehound, que fala de uma cerimônia realizada para um fanático por filmes de terror gore, daqueles que o sangue só falta espirrar na cara do espectador.

A paleta de referências do disco ainda inclui o hardão-beat de Disconnection, o clima quase Sex Pistols de I got your number e os sete viajantes e pesados minutos de Twisted black – com direito a final apocalíptico. Se não for pra ouvir no volume máximo, nem ouça.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Love Ghost – “Anarchy and ashes” (EP)

Published

on

Ouvimos: Love Ghost – “Anarchy and ashes” (EP)

RESENHA: Love Ghost mistura metal, eletrônico e urbano. O EP Anarchy and ashes vai do peso ao punk com ecos emo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 7,5
Gravadora: Metropolis Records
Lançamento: 27 de março de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

A banda californiana Love Ghost tem na combinação de peso, eletrônica e música urbana a sua missão-visão-valores. Não chega a ser um som original, mas a criatividade compensa – e a disposição também, já que toda hora tem single novo. Anarchy and ashes é um EP puxado pelo single Revolution evolution, com vocal gutural, clima denso e tenso, e lembranças de Marilyn Manson – só que o som é até bem mais metálico. Vengeance fica entre o punk e o metal.

Nos próximos lançamentos, o Love Ghost deveria focar mais numa faceta meio pós-punk meio EDM clássica que volta e meia surge no seu som – como na releitura punk + rap de Rock me Amadeus (Falco) e no clima denso e gélido de Silk nose. Violence wears make up, por sua vez, aponta para uma sonoridade que ficou meio famosinha entre os anos 2000 e 2010: emo + som pesado + uma ou outra referência do Queen.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Sparkler – “Glidewinder”

Published

on

Ouvimos: Sparkler – “Glidewinder”

RESENHA: Sparkler ironiza rótulos, mas faz shoegaze fiel às origens em Glidewinder: som denso, ruidoso e psicodélico, inspirado em clássicos do gênero.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: À La Carte
Lançamento: 10 de abril de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

O Sparkler vem de San Diego, é liderado pelo duo Chris Sennes e Tron Castillo e, de brincadeira, costuma rotular seu som como truegaze. Na real, é só uma reação brincalhona da dupla à criação de subgêneros como nu-gaze, grungegaze ou doomgaze – só que, de fato, Chris e Tron observam que o mercado está repleto de gente usando as características do shoegaze, e querem enfatizar sua devoção aos mestres do estilo.

Num papo com a newsletter First Revival, eles dizem que nem a assessoria de imprensa do grupo gostou desse rótulo. “Ela achou que soava pretensioso e podia afastar as pessoas”, conta Chris. Já Tron reclama que o site Stereogum tratou o Sparkler na base do “oh, mais uma banda de shoegaze”. “Não é isso que estamos tentando fazer. Queremos ser uma homenagem aos sons antigos”, explica a musicista e vocalista do grupo.

Tron e Chris têm razão: Glidewinder, segundo álbum do grupo, tem esse nome porque a dupla ama My Bloody Valentine e Slowdive, e ama a técnica de guitarra glide usada por Kevin Shields (do My Bloody), que consiste em operar a alavanca de tremolo o instrumento enquanto faz notas ou acordes. Detalhes como esse fazem de Glidewinder um disco luminoso, psicodélico e sequencial, com nove longas faixas que têm ar de suíte shoegaze.

  • Ouvimos: Ellen and The Boyz – Sexy but sad (EP)

Apesar de Chris falar na First Revival que queria fazer um shoegaze alegre e divertido, o Sparkler é sombrio, preocupado em parecer mais ruidoso e ofuscante do que com qualquer tipo de “formato canção”. Dá pra ver isso em faixas como Slow erratic, Methadone Jesus, Last left, Such is – músicas em que a guitarra parece um sonho circular, que “vai e volta” (na batuta do glide) e se movimenta como um sinalizador.

Pet hotel até engana: a abertura ameaça um emo leve, mas logo vêm ruídos e sombras sonoras, com um ruído marítimo no fundo. Ao contrário do senso comum do shoegaze, que privilegia paredes de guitarras e feedbacks a granel, o som não é cru: parece que a banda passou um bom tempo meditando sobre discos, guitarras e pedais antes de entrar em estúdio.

Do meio para o fim do disco, o Sparkler começa a desafiar seu próprio estilo. Postal tem guitarra pós-punk logo no começo, e lembranças de The Cure e Velvet Underground lado a lado com a devoção ao My Bloody Valentine, fechando com sons de uma psicodelia quase sacra. Pruning, no fim, lembra mais um gélido post-rock do que um shoegaze comum. No geral – e citando o fascínio do grupo por camisas de futebol, exposto em fotos de divulgação – Glidewinder é uma partida ruidosa e bem jogada no estúdio.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Acompanhe pos RSS