Crítica
Ouvimos: Dry Cleaning – “Secret love”

RESENHA: Secret love amplia o pós-punk falado do Dry Cleaning, cruza referências setentistas, kraut e folk torto, e soa como crônicas estranhas da vida adulta.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: 4AD
Lançamento: 9 de janeiro de 2026
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As referências da banda britânica Dry Cleaning parecem sempre ter sido os grupos de pós-punk que não viraram lendas do estilo, lado a lado com uma tendência a cultizar tudo – os vocais falados e calmíssimos de Florence Shaw, sempre em clima de spoken word ritmada, brotavam emoldurados por bases que faziam lembrar grupos como Wire, The Sound (este, em especial), Medium Medium e outros. Ok, Pixies é provavelmente uma referência – talvez o grupo tenha uma cópia da Purple tape, demo que deu origem à estreia Come on pilgrim (1987), em algum canto.
O terceiro disco, Secret love, vem sob a marca da produção de Cate Le Bon, excelente produtora e ótima escolha para compreender o universo experimental, musical e poético do grupo. E parece – atenção, é apenas uma suposição – ter ganhado certa tração após o Geese se tornar uma das bandas mais comentadas de 2025.
Ou seja: se o grupo mais falado do ano passado é uma atração musical que não tem vergonha da própria estranhice, e que une slacker rock, punk, Rolling Stones e country absurdo, tudo a ver abrir a divulgação do novo disco com Hit my head all day, um longo texto cuja musicalização faz lembrar um combo de Talking Heads, Gang Of Four e o David Bowie de Station to station (1976). E prosseguir com um krautrock sinuoso, Cruise ship designer, que abre com um acorde poderoso a la Keith Richards (!). Além de Let me grow and you’ll see the fruit, união de folk estradeiro e rap experimental.
Esses aí são só os três primeiros singles de Secret love. Um disco que aponta para um misto de Stranglers e Velvet Underground em My soul / Half pint, para uma noção sexy e afrancesada de pós-punk em Secret love (Concealed in a drawing of a boy), para a porrada fria lembrando Joy Division (na garageira e maquínica Rocks) e para mais evocações da fase Berlim de David Bowie – na celestial I need you, no quase dub Evil evil idiot e até numa canção meio sixties, Blood, cuja abertura ameaça algo parecido com Pinball wizard, do The Who, mas que prossegue no pós-punk quebradiço.
De resto, o grupo apresenta uma das canções mais fofas de sua história em (note o nome) The cute things – rock garageiro que às vezes lembra The Cars e Pretenders – e volta ao caldeirão pós-punk no encerramento, com Joy. Já as letras continuam soando como crônicas bem estranhas, em que tudo soa como vários depoimentos de Florence sobre pessoas e situações sui generis. Let me grow, por exemplo, soa como se a cantora estivesse deitada num divã, na terapia, falando sobre dilemas e traumas da vida adulta, indo do estilo foda-se (“posso fazer qualquer coisa, dizer qualquer coisa”) à queda (“eu anseio por um amigo a quem eu possa contar meus segredos / por que o passado me machuca tanto?”). Viagens pessoais em música e letra.
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Crítica
Ouvimos: Basttardz – “Tramas & traumas”

RESENHA: Banda maranhense Basttardz une peso, introspecção, punk, funk e até piseiro nas curtíssimas faixas do curto álbum Tramas & traumas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Brisa Rec
Lançamento: 13 de julho de 2026
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Seguindo a onda do álbum pequeno, Tramas & traumas, terceiro disco da banda maranhense Basttardz, é curtinho (oito faixas, 15 minutos) e foca no punk e no hardcore com misturas inusitadas e letras introspectivas. O som une hardcore e estilos como funk e rap (na faixa-título e em favelas), parte para o reggae punk em O inconsciente coletivo e insere até algo de piseiro, forró e reggamuffin em músicas como Vitrine e Do culto ao lucro.
O som do grupo é pensado como um mergulho, tanto no som quanto no universo deles – que inclui temas como influencers que surgem do nada, violência, exclusão, drogas de 2026 (na ótima letra de Tarja preta, que fala de aditivos usados para trabalhar, produzir, estudar, dormir e se deixar manipular) e memórias amargas que ganham espaço como traumas, anos depois. Tem inovação no som e um clima herdado da vulnerabilidade do emo Midwest, embora na prática o Basttardz faça uma música com bem mais foco em peso e beats.
- Ouvimos: Arlomine – Francis Frankenstein
Nas letras de Tramas & traumas, o grupo também une depressão e falta de grana. O desespero diante do capitalismo dá o tom de músicas como Desconstrução, que, inspirada em Construção, de Chico Buarque, encerra o disco olhando para quem já está quase desistindo de tudo.
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Crítica
Ouvimos: Francis Of Delirium – “Run, run pure beauty”

RESENHA: Entre shoegaze, dream pop e soft rock, Francis Of Delirium cria um álbum de melodias etéreas, ruído elegante e atmosfera cinematográfica.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Dalliance Recordings
Lançamento: 29 de maio de 2026
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Jana Bahrich, musicista radicada em Luxemburgo, responde pelo codinome Francis Of Delirium – que basicamente significa sonho, construções melódicas baseadas no mesmo delírio que surge no nome do projeto. Run, run pure beauty, o segundo álbum, tem elementos associáveis ao que normalmente é chamado de “shoegaze” e “dream pop” – no caso desse último, ele serve como um bom rótulo, por causa dos vocais mágicos e do clima quase voador das melodias.
Aliens, a música de abertura, tem o mesmo clima geralmente associável ao shoegaze, com guitarras em nuvem – mas Jana tem o cuidado de associar a seu som um mistério musical dado pelo uso de instrumentos de orquestra, que dá a algumas faixas um ar análogo ao de Ocean rain, o sombrio disco de 1984 do Echo and The Bunnymen.
- Ouvimos: Divers – Odd dog in the capital
O disco prossegue na beleza de Out tonight e da faixa-título – esta, com cordas em vibe meio beatle, lembrando as espirais de I am the walrus. Mas a partir daí surgem lados diferentes do Francis, que investe em aclimatações soft rock, em faixas como Higher, Little black dress e Sucker punch. Tudo combinado com a disposição para o barulho, já que Open up your mouth to love, por exemplo, une tranquilidade sonora, dada pelos violões, a um clima shoegaze leve.
Por causa disso tudo aí, tem momentos em que o som do Francis chega a lembrar uma versão mais indie dos Cranberries – ou o Mazzy Star com ambições mais épicas. Essa impressão dá bastante as caras em Requiem for a dying day. Em outras occsiões, o lado pós-punk do projeto dá uma escalada, como no baixo-à-frente e no clima meio Eurythmics de Damned, ou no noise-pop anos 1990 de It’s a beautiful life. No geral, um som muito bem concebido e montado.
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Crítica
Ouvimos: Punchbag – “I am obsessed” (EP)

RESENHA: Hyperpop, eletrônica sombria e guitarras se unem enquanto o Punchbag critica consumo, poder e alienação urbana em um EP intenso e caótico.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Mute
Lançamento: 10 de abril de 2026
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A capa do EP do Punchbag mais parece a Avenida Amaral Peixoto, no Centro de Niteroi, refeita e entortada com IA (teria sido um modelo?). A dupla formada pelos irmãos Clara e Anders Bach faz em I am obsessed uma dance music sombria em que o ser humano parece estar sempre afogado em uma série de coisas, desde badulaques de consumo (na alta energia de What’s in my bag?) até padrões escrotos (Pile of clothes).
- Ouvimos: She’s Green – Swallowtail (EP)
Já Playing god, som mais pesado e guitarrístico, põe o machismo na roda, falando de homens em situação de poder, e de gente que se acha capaz de decidir o destino alheio. I love this soa quase como um eletrohardcore alegre, com teclados cintilando e beat frenético, quase apontando para a boa e velha (quem diria) new rave, enquanto a letra parece zoar as coisas que a gente sempre acha imutáveis.
Não tem como não ver a imagem do Punchbag como a de uma dupla voltada para a vida nos grandes centros urbanos e toda a desumanização que surge no dia a dia – um tema bem caro à música eletrônica, aliás. No final, a faixa-título fecha o ciclo hyperpop do EP com ritmo de r&b, ambiência infinita, ruídos, vocais roucos e, na letra, um clima de apaixonamento próximo da erotomania. Música, diversão e loucura, parte mil.
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