Crítica
Ouvimos: Gloios – “Prensado”

RESENHA: Entre post rock, ruído e caos urbano, Gloios transforma Prensado num conto sonoro sufocante sobre solidão, concreto e paranoia.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 6 de fevereiro de 2026
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Se você leu o nome do quarto disco full do Gloios (projeto solo do músico paulista Rafael Xavier) e foi logo pensando em maconha, pode tirar o cavalinho da chuva. Inspirado por uma lista bem variada de referências (Clarice Lispector, Tom Zé, Lygia Fagundes Telles, Zé Ramalho, Macaco Bong, David Lynch, Nelson Rodrigues, Sigur Rós), Prensado é um misto de disco e conto, que relata a sufocante história de um homem que morreu esmagado (prensado, enfim) por seu próprio apartamento. O texto é parte integrante do pacote (está tudo no Bandcamp do Gloios), e ele chega ao / à ouvinte em clima de post rock, noise rock e sons industriais, em dez faixas de duração quase sempre extensa.
“Minha vida cotidiana (e a de pessoas próximas a mim que vivem em uma floresta de concreto e aço) também molda este trabalho: o cheiro irritante de poluição de São Paulo, o caos opressivo do transporte público, a aglomeração do horário de pico, os minúsculos estúdios superfaturados que incomodam a todos, a sensação de estar sozinho em um mar de gente”, conta Rafael, dando uma ideia do que vai surgindo à medida que o disco avança.
Prensado abre variando entre o noise rock e um clima psicodélico e cerimonial em Nulo, e cai dentro de algo entre jazz e post rock em Cartaz de desaparecida. Vácuo grandioso, gravado ao lado da cantora Black Tupi, são dez minutos em que o caos do dia a dia ganha várias facetas: um som que lembra um programa de TV como o Cidade alerta transforma-se num post rock bizarro, seguido por uma pregação falando no apego que o ser humano tem a dinheiro e a coisas mundanas – e de um sample de Onda, música de Cassiano. A sensação é a de não saber em quem confiar nem de onde vem o tiro.
- Ouvimos: Febem, Fleezus, CESRV – Brime!! (EP)
Frases soltas dão o tom humanístico do álbum (como “qual foi o enterro mais bonito que já houve aqui no Brasil?”, abrindo o instrumental abrasileirado Sol mesquinho), ou “esse é o seu BO pra eternidade”, na sombria e quase metálica Inexistente e romanos. Ou “a realidade da vida é sempre o funeral das ilusões”, de Meio homem, meio bolo de cimento e meio tijolo baiano, post rock brasileiríssimo. O drone sombrio de Sugado do nada e entregue a uma boca que nada leva parece com alguém sendo sugado e posto para fora imediatamente, seguido por gritos, discussões sobre futebol e vários sons concorrendo pelo mesmo espaço na mesma sintonia.
Os treze minutos de Um evento maior que o mundo lançam dúvidas: é um folk melancólico? Um emo? Nessa faixa, Nunca, de Lupicínio Rodrigues, surge enxertada sem muita combinação com a música – que vai ganhando violões e ares de um poema narrado. Um disco para chegar ao fim duvidando de tudo que você acha que sabe.
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Crítica
Ouvimos: Anthrax – “Cursum perficio”

RESENHA: Primeiro álbum de inéditas do Anthrax em dez anos, Cursum perficio recupera o peso e a energia punk da banda, mas troca parte da antiga contundência política por letras mais cautelosas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Nuclear Blast
Lançamento: 18 de setembro de 2026
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Dizem que, certa vez, o mito da boemia carioca Roniquito (ou Ronald de Chevalier, seu nome verdadeiro) foi ameaçado num bar por um grandalhão que ameaçou lhe dar um soco na cara. “Me dar um soco na cara?”, teria respondido Roniquito. “Me dar um soco na cara é fácil, quero ver é me dar um apartamento!”. O brutamontes não entendeu nada e se mandou – e Roniquito escapou de apanhar.
Da loucura burguesa ipanemense dos anos 1970 até o metal novaiorquino da década seguinte vai uma longa distância – mas o “falar é fácil” continua o fino da bossa, ou do rock pauleira. O Anthrax sempre foi uma das bandas mais conscientes do som pesado oitentista, fazendo de álbuns como Among the living (1987) e State of euphoria (1988) verdadeiras plataformas de protesto contra a ganância dos ricos, a exploração do povo indígena, o teleevangelismo e vários assuntos cabeludos.
Não que o grupo tenha deixado de falar o que pensa, ou que Cursum perficio, primeiro disco de inéditas da banda em dez anos, seja um disco ruim. Quando Joey Belladonna (vocalista) abre a boca para protestar contra alguma coisa no álbum – quase sempre dando voz às ideias de Scott Ian, líder do grupo e principal letrista – dá a impressão de um protesto fácil, sem risco ou posicionamento. Como nas inseguranças de It’s for the kids, ou no clima antipolarização (gente!) de Everybody’s got a plan e Watch it go.
Justamente por causa dessa radicalização de centro, o Anthrax é mais interessante em Cursum perficio quando fala de vida, morte e existência – em faixas como The long goodbye (sobre o alzheimer enfrentado pelo pai de Scott), My victory e na faixa-título. Ou nas lembranças de descaralhação de NYC 93 – curiosamente, uma época em que o cantor Joey não estava nem na banda.
Já musicalmente, o bicho pega e o Anthrax soa como uma mistura de quase todas as fases da banda, mandando bala em sons pesados e emocionais quase sempre, seja na sensibilidade metal-anos-1980 de The long goodbye, no thrash direto de It’s for the kids ou na pauleira quase marcial de The edge of perfection, que ganha até beats de death metal. Ou nas várias partes da faixa-título.
O metal carregado de energia punk do grupo volta com força em faixas como Everybody’s got a plan e NYC 93, lado a lado como hard rocks como Infectious e metais cromados como My victory e T.O.M.B. Se for por este lado, todo mundo pode ficar tranquilo: o som do Anthrax continua uma porrada cheia de musicalidade, como há muito não se via na discografia da banda. Ainda que, nas letras, mesmo com todas as boas intenções, haja quem escape de apanhar…
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Crítica
Ouvimos: Sand Duney – “Plant material”

RESENHA: Em Plant material, Jessica Jones reúne gravações caseiras do seu projeto musical Sand Duney e cruza country, folk, lo-fi e psicodelia numa estreia contemplativa, com pedal steel, improvisos e clima slacker.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Bud Tapes
Lançamento: 4 de setembro de 2026
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Musicista de Portland, Oregon, Jessica Jones tocava em outras bandas quando começou a bolar o Sand Duney, inicialmente um projeto de gravações caseiras, que depois evoluiu para uma banda completa que fazia shows em lugares locais – com apresentações até mesmo na casa dela.
Plant material é o primeiro álbum do projeto e uma espécie de coletânea de gravações caseiras, sempre girando em torno de experimentações quase lo-fi com country, folk, violões, pedal steel guitars e sons de clima quase meditativo.
Com tudo gravado em casa, o principal de Plant material nem é o experimentalismo, mas a onda contemplativa de faixas como Out on a dune, What to make of this world, Jacaranda e Pages, além de belezas como o alt-country-rock espacial Saw you in the roses. No lado mais caseiro do álbum, tem o improviso slacker Tilth, a levemente distorcida Silo (com algo de PJ Harvey e Breeders) e o ritmo quase hipnótico de Deadnettle, com quase sete minutos.
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Crítica
Ouvimos: Giovani Baroni – “bLU”

RESENHA: Em bLU, Giovani Baroni transforma água, memória e infância numa viagem entre post-rock, progressivo, psicodelia e ambient, concebida como uma trilha sonora para um filme imaginário.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 4 de setembro de 2026
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Músico da cena indie de São Paulo, com passagens por bandas como sukya || porno, Giovani Baroni mora hoje na Cidade do México e decidiu fazer de bLU, seu primeiro álbum solo, um trabalho à moda dos discos de bandas como Radiohead e The Mars Volta, com uma sequência de faixas que, musicalmente, segue contando uma história. Passando por temas como memória e infância nas letras do álbum, Giovani propõe um mergulho literal e figurado – a água que surge nas letras, além dos animais marinhos, soam como uma maneira de falar do mundo e das nossas vivências.
Construindo uma espécie de trilha sonora em que só falta o filme, Giovani une post rock e climas progressivos em faixas como Ambiência aquática nº5, Peixes estranhos (com traumas e estranhezas misturados ao desejo de partir até as águas do Oceano Pacífico) e no peso de Norte, com piano e distorções logo no começo. O mundo dos sonhos lembra uma valsa, com barulho de respiração e clima aquático e viajante. A curta Mecânica dos fluidos tem um ritmo que vai achando seu próprio eixo aos poucos.
O disco ganha uma magia diferente e psicodélica perto do fim, com Efervescente, a bossa post rock Paseo largo e a onda quase ambient de Fishy boy e O rio. Tem ainda O bicho que sabia demais, faixa num clima até bem hippie se comparado ao restante do disco – chega a lembrar uma música que poderia estar no duplo ao vivo dos Doces Bárbaros.
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