Crítica
Ouvimos: Total Tommy, “Bruises”

- Bruises é o primeiro álbum do Total Tommy, projeto da musicista australiana Jess Holt. O som dela foi definido pelo New Musical Express como “uma trilha sonora indie-grunge para a autodescoberta”. O álbum foi feito após dois anos de composição – logo depois que ela largou seu projeto eletrônico, o Essie Holt.
- “O disco é sobre todos os pequenos erros que cometi e dos quais aprendi ao longo do caminho, machucando outras pessoas e machucando a mim mesma”, contou ao NME. A grande diferença entre esse projeto e o anterior é que o Total Tommy é mais a cara dela. “É a música com a qual cresci e sempre amei. Talvez isso não seja legal, ou não seja o que as pessoas estão ouvindo agora. Então, viva a música indie!”.
- De onde vem o nome Total Tommy? “Eu ia me chamar Thomas se eu fosse um menino, e eu sempre achei que eu realmente combinava com esse nome – mais do que Jess, tipo, eu sou definitivamente um moleque”, diz. O nome da empreitada quase foi Tell Tommy, que “parece um tipo de linha de ajuda estranha”. Ela diz que no sotaque australiano, sempre pensam que o nome da banda é “Turtle” (tartaruga) Tommy.
Existe o bedroom pop (pop feito no quarto, enfim), e graças a trabalhos como o do Total Tommy, existe o bedroom rock. E em Bruises, esse tipo de som se mostra cheio de programações de bateria, misturas de influências dos anos 1980, 1990 e 2020, referências que vão de Blondie a Paramore, passando por Mitski, flertes com o indie pop e com as artimanhas do ASMR.
Total Tommy é a nova empreitada de Jess Holt, musicista australiana anteriormente conhecida pelo seu trabalho de electro-pop Essie Holt – e as experiências fazendo música eletrônica deram um equilíbrio bacana entre guitarras, beats e desenhos musicais em Bruises, disco de estreia de seu novo projeto. O som deve tanto aos anos 1990 quanto ao emocore, quanto a fases mais antigas do The Cure – a new wave deprê Microdose chega a lembrar A forest, hit da banda de Robert Smith, até mesmo no som de bateria.
Já sons meio power pop, meio emo surgem em faixas como Amsterdam (na qual a personagem tenta esquecer de um pé na bunda emaconhando-se na capital da Holanda e comendo nacos de space cake), Soda e Girlfriend, e um lado entre o guitar rock e o dream pop dá as caras em Adeline. Já Ghost é uma música sombria de brincadeirinha, evoluindo para um som mais eletrônico. E referências que vão do indie pop (com vocais sussurrados no estilo de Billie Eilish) ao guitar rock do Sonic Youth surgem em Losing out e Ribs. No final, um folk tristinho que surge como uma demo turbinada, Shark attacks.
Nota: 8
Gravadora: PIAS
Lançamento: 29 de novembro de 2024.
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Crítica
Ouvimos: Improvement Movement – “Your perfect real life”

RESENHA: No terceiro álbum, o Improvement Movement passeia por psicodelia, prog, yacht rock, soul, pós-punk e indie, aproximando referências tão distintas quanto Television, Beach Boys, Todd Rundgren e Queens Of The Stone Age.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: ATO Records
Lançamento: 21 de agosto de 2026
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Vindo de Atlanta, o Improvement Movement é um quarteto em que todos os músicos são multinstrumentistas, e em que a composição ocorre das mais diversas formas: em duplas, trios, em jams, etc. Your perfect real life, terceiro álbum, soa como o encontro definitivo da criatividade dos anos 1970 com o espírito “livre” do 60 – cabendo alguns toques mais modernos. Como se houvesse um “ligue os pontos” unindo Crosby, Stills, Nash & Young, Queens Of The Stone Age e Television – e de acordo com Your perfect real life, há sim.
O terceiro disco do Improvement Movement é o disco de músicas como Still cold, com riff lembrando justamente o Television, guitarra quase ofuscante ao fundo e linhas vocais que parecem brincar com See me, feel me, do Who – só que a letra ainda inclui um “kill me”. Carry on parece um pós-hardcore sem o mesmo peso, graças à zoeira rítmica, só que com vocais meio beatlemaníacos e algo de chamber pop lá pelas tantas. Common place chega a lembrar um Beach Boys indie rock, se é que é possível, e vai se tornando algo bem vertiginoso depois.
A balada I do é igualmente vertiginosa e impressionante: clima sensível e misterioso, com diferentes partes, uma mais contemplativa que a outra. Há ainda um componente yacht rock bem sério no álbum, presente em In the morning e no clima meio Bee Gees de Home again (as referências vocais e melódicas do grupo australiano surgem também no bittersweet de Old friends).
A falta de (vá lá) limites sonoros do Improvement Movement aponta também para um encontro entre o jazz pop a la Todd Rundgren e as guitarras dedilhadas adotadas pela turma do emo Midwest, em Wide world. E também para o curioso futurismo, herdado da mescla de pós-punk e psicodelia (e do clima viajante de bandas como Pond e até Flaming Lips), de 21st century. Uma outra grande surpresa é o soul mágico de Being right, soando como um redesenho chamber pop nas baladas disco – tipo Let’s get it on, de Marvin Gaye. Mas Your perfect real life só tem surpresas
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Crítica
Ouvimos: Satanen – “Rokkii varten & taiteen vuoks”

RESENHA: A banda finlandesa Satanen cruza punk, garage, stoner, metal e blues-rock em Rokkii varten & taiteen vuoks, com ecos de Ramones, Motörhead, AC/DC, Black Sabbath e The Clash.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Svart Records
Lançamento: 21 de agosto de 2026
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“Para o rock e para a arte”. Não sabemos finlandês, mas diz o Google Translator que Rokkii varten & taiteen vuoks, nome desse álbum do Satanen, significa isso aí. Voltados para uma mistura bem louca de punk, garage e stoner, eles soam quase sempre como uma mescla de Rancid, Ramones, Motörhead e loucuras motobiker, com outras referências no meio.
Rokkii varten abre com a onda meio punk, meio metal da faixa-título – uma música em duas partes que ganha um clima mais rocker das antigas lá pela metade. Vauhtikone vai ganhando aumento de velocidade, oscilando entre Lemmy e Joey Ramone, com vocal feminino. Mulkun elkeet pula de um clima meio metalzão anos 1980 para um boogie à AC/DC.
Numa onda sonora que interessa tanto a fãs de metal quanto a gente que ouve rock bem antigo, o Satanen chega perto do som de bandas como Nazareth e o próprio Black Sabbath na extrovertida Daddy issues, em Kuulit kyll e no blues-rock de Kkii. Só que ainda tem uma vibe bem hardcore em Chimera e algo que faz lembrar The Clash em Kiasma, música de várias partes e pura diversão, que encerra o álbum.
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Crítica
Ouvimos: Soft Science – “Sand”

RESENHA: No quinto álbum, Sand, o californiano Soft Science cruza shoegaze, psicodelia, darkwave e pós-punk em guitarras atmosféricas, com ecos de Ride, Catherine Wheel, Beatles e Echo & The Bunnymen.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Shelflife
Lançamento: 4 de setembro de 2026
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Assumidamente influenciado por bandas como Ride, Stereolab, The Mighty Lemon Drops, Catherine Wheel, My Bloody Valentine e Pale Saints, o Soft Science é um quinteto de shoegaze “das antigas” que vem da Califórnia – e que com Sand chega ao quinto disco. Especificamente a citação (feita por eles) do Ride tem bastante a ver com o som do álbum, ainda mais lembrando do clima imersivo dos primeiros discos do grupo inglês.
Entre paredes de guitarras (de doze cordas!), sons próximos da psicodelia (especialmente a voz de Katie Haley, imersa em meio à instrumentação) e partículas de darkwave, Sand abre com o clima quase meditativo de Spinning e Go, segue com recordações de Catherine Wheels e Psychedelic Furs em Fade, e recria de maneira própria o universo de Tomorrow never knows, dos Beatles, em Without.
Um clima meio Beatles, meio Stone Roses, dá as caras na faixa-título, enquanto Everything, Thread e Understand mandam bala num pós-punk luminoso, herdado tanto do já mais do que citado Ride quanto de Echo and The Bunnymen. O final tem o power pop + shoegaze de Hope e o clima hipnótico de Sway, com sons de teclado que provocam viagens musicais.
O Soft Science, em especial, mostra que shoegaze não é sinônimo de guitarras sujas. A música de Sand é cheia de climas atmosféricos e uterinos, e de ambientes em que você gostaria de ficar – e é repleta de uma beleza que pouca gente vai querer se aventurar a discutir. Ouça hoje mesmo.
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