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Crítica

Ouvimos: Olivia Rodrigo – “You seem pretty sad for a girl so in love”

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Resenha: Olivia Rodrigo - “You seem pretty sad for a girl so in love”

RESENHA: Olivia Rodrigo amplia seu universo pop em You seem pretty sad for a girl so in love, disco confessional que mistura ABBA, pós-punk, synth-pop e rock alternativo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Geffen Records
Lançamento: 12 de junho de 2026

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Olivia Rodrigo não caiu em nenhuma tentação em seu terceiro disco. You seem pretty sad for a girl so in love tem 50 minutos (nada de músicas curtas e álbum para ser ouvido em pouco tempo) e, por mais que a ligação dela com o rock oitentista (e com The Cure em particular) já seja pedra cantada, o álbum consegue soar até mais “pop” – muito entre aspas – que o anterior.

Feito com inspiração em New Order, Courtney Love e o próprio Cure, You seem poderia soar totalmente ligado aos anos 1980 ou 1990. De cara, o caminho é outro: Drop dead abre o disco investindo no dance-pop triste, Stupid song é totalmente ABBA, Honeybee é pop tristinho de rádio AM dos anos 1970 – com pianinho Elton John, coral desolado e cordas chorosas.

Tem alguns detalhes: os vocais de Olivia parecem ligeiramente mudados ou talvez quem sabe “amadurecidos” – o alcance continua o mesmo, mas dá pra lembrar de Clairo nos momentos mais contidos. Quem não curte aquele tipo de vocal meio debochado, quase de cantiga infantil, que aparece várias vezes nas músicas de Olivia, das HAIM, e às vezes até de Taylor Swift, talvez se espante com o uso intenso disso nas músicas de You seem (vale dizer que esse tipo de vocal tem bastante a ver com o punk-pop e com o rock alternativo feminino dos anos 1990).

Maggot for brain, a quarta faixa, muda o tom: é pós-punk-pop, baixo à frente, clima que lembra o Disintegration (disco de 1989 do Cure) com vocal acelerado e refrão pop. Aí dá pra dizer que a temporada de caçada de referências no disco novo de Olivia foi aberta de verdade, com a ótima U + me = <3 lembrando o New Order dos anos 1990 / 2000, e algo bem próximo do clima dance-punk em My way, que lembra bandas como Republic e Le Tigre.

O lado B de You seem é ligeiramente mais “pra baixo”, com o synth pop triste de Purple e algumas baladas em que a fé, a esperança, a luz, a união e o amor vão pra casa do cacete (Begged, Less, Cigarette smoke). The cure, a tal música que “não foi inspirada pelo The Cure”, tem violões corridos lembrando Robert Smith e recordações também de Disarm, dos Smashing Pumpkins. What’s wrong with me, a tal parceria com Smith, é que não lembra em nada o Cure: é um pop que tem muito da Motown (e, adivinhe só, do ABBA) e que poderia ter sido feito nos anos 1960 ou 1970.

Uma surpresa no álbum é Expectations, um synth pop que tem até algo a ver com o XTC (será que ela andou ouvindo?), pelo menos na onda dos teclado distorcidos, no começo. Faltou falar das letras: Olivia parece dar um ar “conceitual” às jornadas dos discos de Sabrina Carpenter e Taylor Swift, falando sobre relacionamentos cagados, homens destrutivos e sem noção nenhuma, e paixões que fazem você perder até o caminho de casa – mas faz isso num clima de overthinking, como se tentasse a todo custo entender o que está sentindo, e dividisse a jornada com os / as ouvintes.

Essa vibe de heroína emocional e confessional ajuda a tornar You seem pretty sad for a girl so in love um disco não apenas bom de ouvir, mas bacana de acompanhar – como um diário transformado em música ou em filme.

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Ouvimos: Troye Sivan – “She’s the best”

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Resenha: Troye Sivan – “She’s the best”

RESENHA: Em She’s the best, Troye Sivan mistura acid house, trip hop, dream pop e bossa nova, com ecos de Air e The Avalanches. Um disco sobre amor, desejo e festas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Tokky’s Music / Interscope
Lançamento: 9 de outubro de 2026

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Fãs de The Avalanches, Cornelius, Air, Stereo MC’s, Saint Etienne e da turma que, na Inglaterra dos anos 1990, derrubava fronteiras entre rock, jazz e dance music, vão descobrir um discão em She’s the best, o novo do australiano Troye Sivan – na real, vale pegar a discografia dele e descobrir um pop que parece não se localizar em nenhum tempo e espaço, e viaja em todos ao mesmo tempo.

Troye simplesmente vai juntando suas referências, achando melodias no meio delas e fazendo um pop que dá vontade de ouvir de novo – e que basicamente junta memórias e desejos pessoais nas letras, unindo mensagens para amores platônicos (Le boy) e imagens de mulheres fortes pelas quais ele tem admiração e/ou amizade. Impossível não pensar em Charli XCX ao ouvir a faixa-título, cuja letra manda bala na estileira brat (por acaso, George Daniel, marido de Charli, coproduziu esta e outras do álbum). Party fala basicamente de lugares onde pode rolar uma festa – algo que se relaciona com a onda de eventos indie da era da acid house, embora talvez nem seja uma referência tão próxima de Troye (afinal, ele nasceu em 1995!). Também há algo de escape ali, de querer fugir de alguma coisa.

She’s the best tem um pouco daquela dos anos 1990, quando o pop podia misturar um monte de coisas e ninguém achava estranho – de jazz ao próprio rock. A faixa-título abre com beat eletrônico, vocal quase falado, teclados sonhadores e guitarras psicodélicas. Party pega emprestada a onda de Madonna (tem um trecho do hit Music) e vira uma dance music meio misteriosa, com vocais robóticos, como se Troye estivesse mandando mensagens de algum lugar da pista. Canada dry segue pelos sintetizadores viajantes, e I do this for you parece um Stereo MC’s (lembra do hit Connected?) modernizado. Love so big it hurts, com violão e cordas lindíssimas, lembra que amor demais também pode doer.

E tem de tudo. Cowboy é um soft rock eletrônico tranquilão, Embarrassingly junta soul, country e uma melodia linda, daquelas que grudam sem fazer esforço. Le boy começa com barulho de gravador e logo lembra o Air de Moon safari. Sex star passeia pelo dream pop, com Troye tentando conquistar alguém falando que é uma grande estrela do mundo da arte, “se você gosta desse tipo de coisa” – enquanto Troye meets world consegue colocar bossa nova e drum’n’bass na mesma música, para falar dos momentos em que amigos e pista de dança provocam um efeito quase psicodélico nele. Lost time, com Lily-Rose Depp, fecha o disco numa onda trip hop e pós-disco. Quase uma celebração pop, da festa como existência e propósito.

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Ouvimos: As Beattas – “Pro inferno com As Beattas” (EP)

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Resenha: As Beattas – “Pro inferno com As Beattas” (EP)

RESENHA: Em Pro inferno com As Beattas, duo carioca mistura garage folk, psicodelia e humor ácido, com ecos de Mutantes e Velvet Underground e letras de crítica social.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 6 de agosto de 2026

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Miss Sirius (voz e pandeirola) e Greco Blue (guitarra e voz) são as Beattas, um casal que faz garage folk psicodélico, direto do subúrbio do Rio, e que às vezes soa como um encontro entre Mutantes, Devo e Lou Reed, só que em clima absolutamente minimalista. Há até violão, piano e bateria em alguns momentos, mas o material do EP Pro inferno com As Beattas parece ter sido todo feito para pequenos palcos, shows intimistas e turnês de duo, em que os dois ganham as plateias no som e no sarcasmo.

Essa união de rock e descontração é a base de faixas como Coringou, surf music mutante em que o sucesso e o fracasso andam de mãos dadas – além da antihomofobia romântica e safada de Trocando línguas (shy & high) e do B-52’s analógico, jovemguardista e contestador de Classe (“nem tenho salário / sou precarizado”). Muito obrigada é uma balada de girl group com toques psicodélicos, que consegue unir Mutantes e Velvet Underground na mesma onda antipatriarcado. Hey neguinha segue a mesma vibe sessentista, mas em tom marginal, como um pop que caminha pelo lado selvagem.

O single Dona de casa rock, que fala do dia a dia de uma mãe que se divide entre os cuidados com a cria e a vida de quase rockstar vem no EP em clima diferente, psicodélico e derretido. Muito legal.

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Ouvimos: Richard Thompson – “Hippies, thugs and heroes”

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Resenha: Richard Thompson – “Hippies, thugs and heroes”

RESENHA: Em Hippies, thugs and heroes, Richard Thompson mistura folk, blues e country para contar histórias de ladrões, fugitivos e desajustados, sem finais felizes.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: New West Records
Lançamento: 16 de outubro de 2026

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Existiu uma cena pujante de folk britânico na virada dos anos 1960 para os 1970, liderada pelo Fairport Convention. Uma banda da qual surgiram outras bandas importantes, como Steelye Span e The Albion Band. Além de outras carreiras musicais fortes, como a de Sandy Denny (a voz feminina de The battle of evermore, do Led Zeppelin) e a do então casal Richard e Linda Thompson.

Com a separação do casal, ambos embarcaram em carreiras solo – Linda, infelizmente, passou por sérios problemas de saúde, mas permaneceu na ativa. Richard costuma ser bem menos citado que vários guitarristas britânicos do seu tempo, talvez uma consequência de ter sempre estado mais próximo do folk que do blues, ou do próprio rock. Gravou discos solo ótimos e vem se mantendo cada vez mais próximo de um clima musical que une blues, folk e country – os três pairam sobre Hippies, thugs and heroes, seu novo álbum, que fala do mundo pós-anos 1960 com uma espécie de teflon marginal, em que histórias sobre gente inocente e pessoas à margem se chocam com um universo em ebulição.

Como compositor e guitarrista, Richard chama a atenção pelas músicas cheias de detalhes viscerais, como no clima do country rock Sorcerer’s apprentice, quase psicodélico e gregoriano no refrão, às vezes alternando um clima alt-rock – que dá as caras também em Cocaine walking, booze talking. A primeira fala sobre os males do mundo encarnados numa pessoa, a segunda narra o dia a dia de gente perdida em relacionamentos e extraconjugais (na verdade, um milico e uma hippie lotados de cocaína e cachaça). Sua voz dramática e cheia de história passa também pelo country de Pauper’s grave e Everybody’s stealing (que ganha uma espécie de bandinha de praça depois) e pela onda meio JJ Cale de Unsung hero e Maybe you don’t know me, duas cantigas folk.

O mistério de faixas como The soul in me, The big smoke e a valsa blues Stringer une música e letra, falando de ladrões, eternos fugitivos e gente com a alma despedaçada. São histórias sobre gente desvalida, nada de recomeços fáceis ou “você pode conseguir!”. Um mundo onde o sol não nasce para todos e onde os coaches não têm vez. E onde a música serve de apoio e consolo.

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