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Crítica

Ouvimos: The Who, “Who’s next : Life house”

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The Who: "Who's next" vai render uma caixa de dez (dez!) CDs
  • Who’s next: Life house chegou às plataformas dia 21 de julho e adianta para os fãs um pedaço da caixa de mesmo nome, com 10 CDs, um Blu-Ray e extenso material sobre o período transicional do The Who entre a engavetada ópera-rock Life house e o disco Who’s next (1971).
  • A caixa vem com dois shows inéditos (no Young Vic Theatre de Londres e no Civic Auditorium de San Francisco) recentemente mixados e oferece uma visão privilegiada em tudo que aconteceu com o Who entre a ópera abortada e o disco, em 1971. Isso entre vários outros mimos para os fãs (leia mais aqui).

É dura a vida de qualquer pessoa que for tentar destronar Who’s next, quinto álbum de estúdio do The Who, do posto de um dos melhores discos de rock do mundo. Até porque é mesmo um disco essencial, um dos mais brilhantes momentos da história da música, e ponto final. Os antecedentes da primeira investida setentista do Who botavam o álbum em risco: Glyn Johns, que atuou como técnico de som e interface da banda na época, ganhou carta branca para montar um álbum a partir do que a banda havia deixado para trás quando Pete Townshend desistiu da ópera-rock Life house (eternamente grafada como “lifehouse” e hoje com os dois nomes separados).

Hoje, contada a história de Life house para qualquer pessoa de trinta e poucos anos, fica claro que o principal compositor do Who queria inventar a internet e a inteligência artificial antes delas estarem ao alcance de um clique – e daí? Na época não foi bem assim: o Who esteve perto de se separar por causa de Life house, Townshend teve uma crise nervosa, nem mesmo os fãs haviam engolido direito aquela história de “ópera interativa com participação da plateia”. Restou ao Who ressignificar o que tinha em mãos, criar novas leituras para a “teenage wasteland” de Baba’O Riley e para a ode aos motorhomes de Going mobile, e iniciar uma duradoura temporada de caras durões e sentimentais emocionando-se com a oração rock de Behind blue eyes.

A barganha de Bargain perdeu o aspecto espiritualista e ganhou cara de canção de amor. Mais (e mais grave ainda): apolíticos de todo o mundo passaram a ver na cínica e anti-hippie Won’t get fooled again o equivalente da frase “não tenho político de estimação”. Não deve ter sido moleza para um sujeito tão detalhista quanto Pete ver sua maior obra reinterpretada das mais diversas maneiras – logo ele, um sujeito que passou anos licenciando Tommy para os mais diversos formatos até que todo mundo percebesse que sua maior obra era formada por fragmentos de sua própria vida, e de seus próprios fantasmas. Foi o que deu para fazer, mas deu certo, e muito. Se você é uma pessoa de gosto “eclético” ou emepebístico, e quer ter acesso a pelo menos dois discos de rock, pode ir sem medo em A night at the opera, do Queen, e no álbum de 1971 do Who.

Who’s next volta remasterizado como parte da caixa Who’s next : Life house, que faz a crônica da abortada ópera-rock da banda, depois transformada no disco. A versão que já está nas plataformas digitais traz um céu bem mais definido na capa, algumas sonoridades mais afiadas (se nosso ouvido nada absoluto estiver certo, vale prestar atenção nas guitarras da abertura de Bargain e nos baixos de John Entwistle). No final, um vislumbre do que vem por aí na caixa: oito minutos de Pure and easy, ponto central de Life house, e uma das mais belas composições de Townshend, e um take diferente de Love ain’t for keeping, com teclados, e Townshend nos vocais, realizado numa das primeiras tentativas do Who de colocar Life house em fita master, no estúdio novaiorquino Record Plant, em 1971. Ouça em altíssimo volume.

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Ouvimos: Nickelback – “Everything under the sun”

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Resenha: Nickelback – “Everything under the sun”

RESENHA: Em Everything under the sun, seu 11º álbum, o Nickelback alterna hard rock, nu-metal e baladas românticas, sem tentar conquistar quem detesta a banda.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 7,5
Gravadora: Virgin Music Group
Lançamento: 30 de outubro de 2026

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O Nickelback pode aparecer pintado de ouro que muita gente vai continuar detestando – é algo que não abala de jeito nenhum nem o grupo, nem seu imenso fã-clube. Os fãs geralmente são fieis quando o grupo de Chad Kroeger investe em temas pesados e groarizantes (como os hits How you remind me e Too late) e permanecem seguindo o grupo nas baladas românticas e nos temas mais, digamos, cafonas.

Já quem detesta, nem sequer pode escutar o nome do grupo – e vale dizer que saiu um doc sobre eles na Netflix chamado Hate to love: Nickelback, cujo título já diz muito a respeito do “ame ou odeie” que envolve a banda. Everything under the sun, 11º do grupo, põe alguns pontos a mais nessa polarização pop-rocker que marca a história de Chad Kroeger, Ryan Peake, Mike Kroeger e Daniel Adair.

O Nickelback é uma espécie de grupo pioneiro da IA na hora de fazer capas de discos. Não que o grupo tenha usado inteligência artificial antes de todo mundo, mas as capas de álbuns como Silver side up (2001) são tão meu-sobrinho-fez, que parecem artes feitas em 2026 no ChatGPT. É um mal do qual o Creed, que parece bem mais detestado que o Nickelback, também sofre, e muito. Everything…, por sua vez, lança mão de uma capa que faz lembrar a arte de um livro de auto-ajuda, para levantar temas como amor, presença na vida dos outros, lealdade, amizade e vulnerabilidade (ou seja: o velho hábito de fazer letras bem machistas e bobocas foi substituído por uma tentativa de soar “maduro”).

Não é o tipo de estética que geralmente atrairia fãs de rock pesado, mas se tem uma coisa que o Nickelback sabe fazer bem é pular rapidamente dos riffs quebra-pedra para os sons mais baladeiros – e combinar tudo isso numa mesma música, em poucos minutos. Everything under the sun tem bons exemplos do lado mais pesado deles, cabendo aí os singles Rattle the cage (com John 5 na guitarra, e riff atrás de riff), o metal cromado de Bones for the crow, o peso quase nu-metal de Chasin’ famous e o hard rockão de FM Lift somebody up.

Tem o lado arenão também: Simple song é para botar os fã para levantar as mãos nos shows, enquanto If I don’t go, I already know e Make me love you ajudam a preencher a cota “Jon Bon Jovi” do disco. Bottled dreams e Last night was fun, espécie de melô da ressaca moral e existencial, equilibram clima pop e peso, e vão num clima em que o Nickelback fica bem parecido com um desdobre mais acessível dos Scorpions, ou com uma boy band mais pesadinha.

No fim, Everything under the sun talvez não seja um disco para convencer odiadores contumazes. Mas é provável que o Nickelback nem esteja ligando muito pra isso.

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Ouvimos: Chameleo – “Versão dos fatos” (EP)

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Resenha: Chameleo – “Versão dos fatos” (EP)

RESENHA: No EP Versão dos fatos, Chameleo mistura brega, trip-hop, funk e psicodelia em um EP sobre relacionamentos, inseguranças, preconceito e desejo.

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Aqui, “versão dos fatos” não é apenas uma prática defendida por uma turma já defenestrada (espera-se) da política brasileira. É também o nome do novo EP do paranaense Chameleo, que resolveu olhar para relacionamentos, inseguranças e lembranças que mudam conforme o tempo passa. Tudo isso num pop que mistura brega, eletrônica, trip hop e até psicodelia, com boa parte da produção assinada por Vivian Kuczynski.

Volto logo abre o disco com guitarrada pop, clima de brega romântico e algumas interferências psicodélicas no arranjo. Curvas leva essa mistura para a dance music, enquanto Ogostodasualíngua aposta num batidão brega, falando de amores que só aparecem depois da meia-noite. Tem peso, distorção nos vocais e sujeira eletrônica.

Nosso drama desacelera tudo, com vocais cheios de ambiência e uma mistura de trip hop e dance music lenta que lembra tanto Depeche Mode quanto Sade. O riff que aparece no final parece até ter sido montado com vozes sampleadas. Gente chata, com participação de Jenni Mosello, começa numa onda trip hop e depois ganha um batidão funk-dance. A letra é pau puro: “Como é bom ser diferente / o oposto dessa gente que prefere apodrecer no sol do cais / quanta, quanta, quanta, quanta tanta gente chata / opinião alheia, eu tô cortando com a navalha / se desse, eu resolveria tudo na porrada.

Impostor volta ao brega, agora misturado com raggamuffin, enquanto a faixa-título encerra o EP juntando pop, trip hop, ruídos e distorções, numa história que envolve preconceito, desejo e apaixonamento. Versão dos fatos tem boas ideias, algumas misturas inesperadas e um pé firme no pop brasileiro. Às vezes os arranjos parecem querer abraçar referências demais, mas o disco funciona justamente por não tentar deixar tudo limpinho e comportado. Pop com ousadia, no geral.

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Ouvimos: Dummy – “Do you love the color of the sky?”

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Resenha: Dummy – “Do you love the color of the sky?”

RESENHA: No álbum Do you love the color of the sky?, o Dummy mistura krautrock, shoegaze e eletrônica em músicas hipnóticas sobre relações abusivas e controle social.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Polyvinyl Records
Lançamento: 16 de outubro de 2026

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O Dummy, de Los Angeles, faz um som que mistura krautrock, shoegaze, psicodelia e indie pop, com ecos de Stereolab, Neu! e My Bloody Valentine. No debute Mandatory enjoyment (2021), a banda já explorava essa combinação, mas Free energy (2024) ampliou o lado eletrônico. Do you love the color of the sky? leva tudo isso para um universo ainda mais luminoso e espacial, com guitarras hipnóticas, batidas repetitivas e sintetizadores. Há momentos em que o grupo parece fazer drones para dançar.

April limousine, logo no começo, abre com uma batida próxima do drum’n’bass e guitarras psicodélicas. Curiosamente, o vocal lembra um pouco o Supergrass do hit Alright, embora musicalmente não haja qualquer parentesco. Alluvial fan tem um riff que costura a faixa inteira, misturando eletrônica, Stereolab e Jesus and Mary Chain. O lo-fi aparece aqui e ali, mas é apenas um dos recursos usados pela banda, não uma definição de seu som.

Full spectrum dominance traz vocais que lembram os Byrds e até o Yes do começo, sobre uma base que remete à era baggy e à turma de Madchester. Essa ligação com o rock dançante britânico também aparece em Touch the perfect speed, com seu riff percussivo e ecos do Ride dos primeiros discos. Já Squeaky wheel, com mais de seis minutos, parece um Stereolab deixando espaços vazios para a imaginação do ouvinte preencher.

Song of Mana é outro destaque: seis minutos e pouco de um riff repetitivo que poderia continuar por mais dez sem cansar. Do meio para o final, a música parece abandonar a Terra. Omen globe soa como uma versão acelerada e eletrônica de Tomorrow never knows, dos Beatles. N of 1 é praticamente um drone dançante, enquanto Heaven’s what you make of it, com sua batida de sabor oriental e clima meditativo, lembra uma viagem de carro à noite. Ou um passeio solitário de disco voador.

As letras, por outro lado, não têm nada de escapistas. Falam de relações abusivas, desgaste emocional e uma sociedade controlada por forças nem sempre visíveis. Em Squeaky wheel, a frase “que época para estar vivo!” surge carregada de ironia, entre imagens de pregadores inflamados, pestilência e veneno.

É esse contraste que torna Do you love the color of the sky? tão interessante: músicas que parecem feitas para abandonar o planeta, mas que não tiram os olhos do que acontece aqui embaixo.

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