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Crítica

Ouvimos: Sonic Youth, “Walls have ears”

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Ouvimos: Sonic Youth, "Walls have ears"
  • Walls have ears é a “oficialização” de um disco pirata do Sonic Youth, lançado originalmente em 1986, e que traz uma coletânea de shows do grupo na Inglaterra.
  • No disco, as faixas de 1 a 7 foram gravadas em 30 de outubro de 1985, em Londres. A faixa 8 foi gravada ao vivo em 8 de novembro de 1985, em Brighton. Da 9 a 17, tudo foi gravado em Londres em 28 de abril de 1985.
  • Na época, o Sonic Youth tinha Lee Ranaldo (guitarra, voz), Thurston Moore (guitarra, voz), Kim Gordon (baixo, voz) e Bob Bert (bateria).
  • Separado desde 2011, quando Kim descobriu um caso extra-conjugal de Thurston (tal fato acabou com a banda e, claro, com o casamento dos dois), o SY vem fazendo alguns lançamentos “póstumos”. A banda já lançou um disco com um show em Moscou em 1989 e uma apresentação em Chicago em 1995, por exemplo.

O Sonic Youth lá por 1985, quando ainda era um prodígio do rock independente norte-americano, e especializava-se mais em táticas de choque musical, era uma banda bem diferente. O SY nunca deixou de ser uma banda que usa o barulho pra se comunicar, mas era um grupo mais ruidoso, mais provocador, com uma política mais demolidora – expressada no terceiro disco, Bad moon rising, um ataque às obsessões dos Estados Unidos e à história do colonialismo, e até hoje um dos álbuns mais instigantes do grupo.

Justamente por isso, vá com calma a Walls have ears, álbum pirata com gravações de 1985 feitas na Inglaterra, lançado oficialmente apenas agora. É basicamente uma onda meio no wave meio pré-punk, tirada diretamente do palco para vinil, CD ou plataforma digital – e com estridência suficiente para assustar quem ouve de fone, e para atordoar quem ouve tudo no volume máximo.

O noise rock que o grupo fazia nessa época, pode acreditar, veio de uma decisão comercial – o grupo fazia um som bem mais anticomercial ainda, e decidiu chegar perto do experimentalismo “novaiorquino”, com ligeiras tendências a soar próximo também das bandas de Detroit (o terror espacial de Starship, música de 1969 do MC5, parecia ter dado o tom de boa parte das músicas do SY nessa época).

Já que uma música do clássico Kick out the jams, do MC5, foi citada, vale dizer que Walls have ears, assim como o disco da banda pré-punk, começa com um falatório – na verdade, um discurso de dois minutos do punk norte-americano Claude Bessy, reclamando que o selo britânico Rough Trade se recusara a lançar um disco do SY na Inglaterra por causa de sua capa, considerada obscena. Na sequência, o repertório da fase inicial da banda surge entre aplausos e vinhetas, incluindo Kill yr idols, I love her all the times, Death Valley 69, a barulheira de Brother James, em versão bem mais furiosa do que a registrada em disco.

O Sonic Youth estava começando sua carreira como uma espécie de cópia em negativo de Bruce Springsteen, um artista que por mais que seja crítico em relação à sua terra, transpira orgulho. O SY, por outro lado, se dedicava a mexer em fantasmas norte-americanos dos mais esquisitos, e a incomodar quem ainda tinha um pouco de esperança no futuro do país. Virou um baluarte do rock alternativo (título dado a eles pela MTV) e um farol para muitas bandas novas – foi por vários anos um grupo alternativo que havia sobrevivido numa gravadora de porte, a Geffen. É a história contada, em seu começo, aqui.

Nota: 8
Gravadora: Goofin’ Records

Foto: Reprodução da capa do álbum.

Crítica

Ouvimos: Shelf Lives – “hypernormaL”

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hypernormaL, do duo canadense Shelf Lives, mistura electro-punk, rap e new wave num som caótico e destruidor, cheio de energia e clima de descontrole.

RESENHA: hypernormaL, do duo canadense Shelf Lives, mistura electro-punk, rap e new wave num som caótico e destruidor, cheio de energia e clima de descontrole.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Not Sorry Mom Records
Lançamento: 27 de fevereiro de 2026

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O Shelf Lives é um duo do Canadá que faz electro-punk. Bom, um pouco mais do que isso: a cantora Sabrina Di Giulio e o guitarrista e produtor Jonny Hillyard seguem a mesma linha caótica e destruidora de Jehnny Beth e seu disco solo You heartbreaker, you. hypernormaL segundo disco da banda (com todos os títulos estilizados como se fossem escritos ao contrário), até dá uma enganada no começo com 2 phoneS, basicamente um punk eletrônico cujo beat volta e meia se torna parecido com um drum’n bass, e cujo andamento parece próximo de um B-52s do demo.

E a tal “enganada” surge porque, daí pra diante, é ribanceira abaixo, ou acima: baby sonG parece uma mescla do mesmo B-52s com Ministry. don’t laugH soa como um hino ao caos e à destruição. sycophanT é um encontro do rap underground com a sonoridade do Cabaret Voltaire. 60 K une tédio e desespero nos vocais e na melodia. psychO, definida pela banda como “uma história fictícia inspirada em um videogame” parece um diálogo doentio que existe apenas na cabeça de uma única pessoa, inspirado no solilóquio do personagem Travis Bickle (Robert de Niro) no filme Taxi driver – musicalmente, tem algo de pop francês misturado a uma noção suja de new wave.

Oscilando quase sempre entre vibrações electro-bass e design artístico punk, hypernormaL se torna um disco reconhecível para fãs de rock em momentos como like heR, canção de amor e desespero que tem algo de Hole e Smashing Pumpkins, e em tone deF, algo como o Shampoo (lembra de Trouble?) só que em tom sujo e destruidor. Um disco que quer te deixar tonto / tonta e sem chão – e quase sempre consegue.

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Ouvimos: This Is Lorelei – “Holo boy”

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Holo boy reúne 10 faixas antigas de Nate Amos (This Is Lorelei), regravadas. Indie pop que mistura pós-punk, folk e psicodelia, com clima de demos e escapismo.

RESENHA: Holo boy reúne 10 faixas antigas de Nate Amos (This Is Lorelei), regravadas. Indie pop que mistura pós-punk, folk e psicodelia, com clima de demos e escapismo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Double Double Whammy
Lançamento: 12 de dezembro de 2025

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Nate Amos faz parte da dupla de indie pop Water From Your Eyes ao lado de Rachel Brown – o disco mais recente deles, It’s a beautiful place, ganhou resenha nossa aqui. This Is Lorelei é seu projeto solo, e Holo boy é o segundo álbum – na verdade, um “projeto especial do projeto especial”, visto que Nate preferiu regravar dez faixas avulsas que estavam em seu Bandcamp.

O material revisitado por ele foi lançado originalmente entre 2014 e 2021 e volta na época em que o This Is Lorelei estava mais para um laboratório de demos (é o termo que ele usa para se referir a essa era do grupo), em que cada coisa saía meio que de um jeito, e tudo ganhava um certo ar de teste sonoro. Em Holo boy, Nate desponta como um cara que parte do pós-punk para adequar outras referências, passando pela psicodelia sessentista, pelo stoner, pelo country-rock, pelo folk e até por sonoridades próximas de bandas como Teenage Fanclub (que surgem na quase jovemguardista This is a joke).

A tal da psicodelia aparece unida a algo que lembra o grunge na faixa-título, a uma onda próxima de Beach Boys e até de David Bowie em I can’t fall e a um clima meio Byrds na sonhadora Dreams away – que mesmo assim, não abandona a bateria motorik e a vibe robótica. Nate alterna vocais mais graves e vozes mais melódicas, e lembra o velho laboratorista de demos ao unir vertentes e sensações variadas em faixas como Name the band (krautrock + stoner + pós-punk), SF & GG (folk +pós-punk) e My friend 2 (que deve tanto ao krautrock quanto a XTC). E há mais lembranças de Teenage Fanclub nos vocais e na bela condução de guitarra de But you just woke me up.

Boa parte do material, na real, alude ao folk e ao hábito de finalizar canções sem esquecer da sustentação original em voz e violão (ou voz e guitarra). Como letrista, Nate é um fanático por sensações de escapismo, do tipo que lamenta acordar e ter que deixar um sonho de lado (But you just woke me up). Mas também é um compositor que fala sobre mudanças pessoais (“limpo meus olhos como se estivesse tentando esquecer tudo que fiz ontem à noite / estou cansado demais para tentar sobreviver / passei a vida inteira dormindo e agora preciso acordar / preciso lavar meus sonhos”, em Dreams away) e sobre manter-se na linha diante de amores perdidos (I can’t fall).

Já nas várias frases soltas do eletropunk Mouth man, o tema parece ser a roda-viva das drogas e da destruição – não apenas a destruição pessoal, mas de tudo que está ao redor, em versos como “sou a mancha na sua camiseta / você é meu filho e eu roubo todas as drogas que você ama”. Quase sempre em Holo boy, a tragédia e a comédia andam lado a lado.

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Ouvimos: Juia – “Dois trabalhos”

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Dois trabalhos, estreia da banda paranaense Juia, mistura dream pop, MPB e psicodelia com humor e referências que vão de Novos Baianos a Tame Impala.

RESENHA: Dois trabalhos, estreia da banda paranaense Juia, mistura dream pop, MPB e psicodelia com humor e referências que vão de Novos Baianos a Tame Impala.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Dengo Records
Lançamento: 4 de dezembro de 2025

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Juia é uma banda paranaense de dream pop – na verdade, de pop mutante e eletrônico, guiado por referências que vão da MPB a bandas como Crumb e Tame Impala. O nome vem da vocalista Julia Skonieczny, mas não é um trabalho solo. Trata-se de um sexteto em que as sonoridades de todos os integrantes são importantes e formam um todo que, numa só música, pode fazer lembrar de Novos Baianos a Terraplana, passando por Cocteau Twins.

Dois trabalhos, estreia de Juia, é também um disco marcado pelo sarcasmo e pela brincadeira. Que surgem na bossa solar e lo-fi Tempo de sunga (com uma guitarra distorcida que lembra os solos de Toninho Horta no disco Amor de índio, de Beto Guedes, 1977), na marchinha psicodélica Lua marinha e em faixas como o noise-rock-bossa Dr Renato Aragão (“Didi, Didi, como é bom te ver por aqui”, zoa a letra) e a soma de shoegaze e psicodelia em Chupetones. Goodbye my friends I’m going back to Bahia, de quase sete minutos, tem vários segmentos e vai do jazz ao britpop em poucos segundos.

O lado tropicalista de Juia alcança também lembranças de Boogarins em Som do sol, de Pepeu Gomes nas guitarras da vinheta Manhã vem (Mesmo sem dormir) e da Gal Costa sessentista que tocava com Os Brazões, em Flauta vai chorar. Já Meia-lua de compasso une capoeira (na letra), dream pop e clima imagético e psicodélico.

(além de Dois trabalhos, saiu uma live session com quatro faixas do disco – confira tudo abaixo)

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