Crítica
Ouvimos: Kim Gordon – “Play me”

RESENHA: Em Play me, Kim Gordon mistura punk, rap estranho e ruído para tempos de IA e Trump, num disco curto, cru e feito para ouvir bem alto.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Matador
Lançamento: 13 de março de 2026
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Se você adorou The collective, disco anterior de Kim Gordon (2024), vai adorar Play me, o terceiro – um disco curto, conciso e que parece ter sido feito com a ideia de recriar o punk à Iggy Pop em tempos de IA, Trump, renovação tecnológica do punk e do rock e etc.
Antes de mais nada, o que parecia ser uma aproximação do rap no disco anterior, soa agora com o mesmo potencial de destruição de bandas como Mandy, Indiana e Westside Cowboy. Ou seja: Kim Gordon faz rock sem a obrigação da “cara comum” associada ao rock. Tanto que você vai achar mais melodias construídas com samples e teclados do que acordes poderosos em Play me, além de sons mais próximos do horrorcore.
Na real, Kim volta consciente de que, de 2024 pra cá, o mundo mudou bem mais no que nos dez anos de alguma década anterior, e a música de Play me é o tempo todo influenciada por essa experiência. Na suja Dirty tech, ela se apavora com a possibilidade do “novo chefe” ser um chatbot de IA – com assédios sexuais e morais igualmente automatizados. O rap underground de Girl with a look, o soul-jazz eletrônico e psicodélico da faixa-título Play me (cuja letra cria estranhas playlists de aplicativos de música), o trap bizarro de Black out… Tudo no disco soa como se Kim estivesse tentando dialogar com um/uma ouvinte, mas houvesse um chatbot no meio.
A poesia das música é crua – pensando bem, nem dá pra dizer que há poesia, porque ela optou por frases soltas que constroem ideias e imagens na cabeça de quem ouve. A estratégia transforma Play me em um álbum mais sensorial do que literal.
Um dos momentos mais curiosos do disco é Busy bee. A música tem bateria e coautoria de Dave Grohl e começa com um sample distorcido de uma conversa de 1994 entre Kim Gordon e Julia Cafritz, sua parceira no projeto Free Kitten. Na letra, ela fala de um “ele” ausente e de uma abelha ocupada fazendo mel e dinheiro. Como a conversa sampleada aconteceu quando Kim estava grávida de oito meses, a faixa deixa no ar a impressão de ser dirigida a Thurston Moore, seu ex-marido e parceiro no Sonic Youth (o tal papo das duas musicistas rolou no MTV Beach House e pode ser visto no YouTube).
Busy bee é quase um r&b maldito. Já Square jaw e Subcon, que vêm em seguida, soam como uma mescla de boombap e no wave, boombap e The Fall, boombap e Wire + Swans – na verdade é tudo tão diferente que citar bandas como referência serve mais como um guia torto do que como um mapa de verdade. Post empire é um soul rock noisy em que ela diz a um certo presidente alaranjado coisas como “privilégio elástico / privilégio plástico / destrua e queime / desapareça”. No fim, Bye bye, música de The collective, ganha uma nova versão chamada ByeBye25, cuja letra traz tudo o que Trump quer limar dos Estados Unidos.
Tudo escrito de maneira crua, punk, como se coubesse ao / à ouvinte completar as lacunas e recriar em sua mente (e em seus ouvidos) um disco perturbador – e falando como quem mete o dedo na cara, como em Subcon, do verso “você quer ir para Marte / e depois?”. Nem pense em ouvir Play me em volume baixo. Kim e o produtor-parceiro Justin Raisen não fizeram o disco pra isso.
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Crítica
Ouvimos: The Falls – “Would you do it all over again?” (EP)

RESENHA: Em Would you do it all over again?, o The Falls, de Manchester, mistura pós-punk, grunge e britpop, com ecos de Smiths, Buzzcocks e R.E.M.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Revo Pro
Lançamento: 18 de setembro de 2026
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Imagina você ser de Manchester e decidir dar à sua banda o nome The Falls, sendo que existe um quase-xará mais velho e mais conhecido (The Fall, claro)? O The Falls não se importou muito com isso, mesmo fazendo um som bem mais acessível e bem menos experimental – pelo menos no sentido anticomercial do termo. Bandas como Smiths e Buzzcocks batem ponto no som deles, e em todas as faixas do EP Would you do it all over again? surge uma espécie de elegância oitentista, mesmo sob guitarras pesadas e baixos distorcidos.
Segundo EP do quarteto, Would you do it all over again? traz um pós-punk que não dispensa referências ao grunge e ao britpop. Open fire abre o disco com guitarras sujas, vocal tranquilo e uma letra sobre ansiedade e culpa. The other side põe o baixo na frente e soa como um encontro improvável entre R.E.M. e Pearl Jam.
Loaded gun tem algo de punk sessentista, Buzzcocks e britpop, com baixo distorcido e uma letra sobre relações tóxicas. A inspiração veio de uma cena do filme Os infiltrados, de Martin Scorsese, em que o chefão vivido por Jack Nicholson: certas escolhas já carregam suas consequências. City lights começa com violão, ganha guitarras psicodélicas e aproxima Smiths, The Church e The Who, falando de identidade e mudanças. Já Blink encerra tudo com punk de acabamento oitentista e um vocal herdado de Michael Stipe. Um disco de ótimas referências combinadas, e que parece ter sido deixado gravado há anos.
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Crítica
Ouvimos: Niis – “Play Niis” (EP)

RESENHA: Em Play Niis, a banda punk de Los Angeles Niis mistura grunge, power pop e shoegaze, com ecos de Nirvana, Garbage e Placebo e letras sobre desilusões.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Rise
Lançamento: 23 de outubro de 2026
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Banda punk majoritariamente feminina de Los Angeles, o Niis pode ser definido como bubblegrunge (aquela mistura saudável de sons grudentos e de rock dos anos 1990, o que na real significa que Nevermind, disco do Nirvana de 1991, está sendo devidamente usado como modelo). O disco de estreia Niis world (2025, resenhado aqui) trazia uma banda herdeira tanto dos anos 1960 quanto de Dead Kennedys, com melodias bacanas e vocais berrados.
Play Niis, o EP novo, foca um pouco mais no “bubble” que no “grunge” – mas só em parte, porque bandas como Garbage e Placebo parecem terem servido de referência para as faixas do disco. Mimi Doe, a vocalista, grita menos que em Niis world, mas a promessa de um disco que trabalhe “no universo dos celulares flip, das lojas Hot Topic e de Buffy, a Caça-Vampiros” nem parece ter sido levada a ferro e fogo. Há um perfume shoegaze em faixas ruidosas e noventistas como Bad aim e a suingada e grungíssima Big fish baby. Earthquakes é movida por um riff de guitarra que atravessa praticamente toda a faixa, acompanhado por uma linha de baixo igualmente inquieta – tem cara de new wave porradeira.
O trio de encerramento poderia ter sido produzido por Butch Vig: a combinação de power pop e atitude de Take your mess, o barulho doce e sombrio de No flowers (lembrando um Babes in Toyland glam punk) o riff buzinado de Westside. Entre desilusões amorosas e pessoais, Mimi Doe passa boa parte do EP falando sobre estar meio perdida, mas ainda querer sentir alguma coisa. Nem que seja raiva.
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Crítica
Ouvimos: DJ Urutau – “Ornitofagia”

RESENHA: Em Ornitofagia, DJ Urutau mistura funk bruxaria, eletrônica e cantos de pássaros numa história de vingança das aves contra a destruição ambiental.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 28 de agosto de 2026
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Quem conhece o Antropoceno, projeto de metal-afoxé criado pela musicista Lua Viana, já sabe que ela gosta de misturar coisas que aparentemente não combinam – recentemente falamos do disco No ritmo da Terra. Sob o nome de DJ Urutau, ela troca as guitarras pesadas por batidões de funk, samples de pássaros e eletrônica distorcida. Ornitofagia, estreia do projeto, é um disco de funk bruxaria (estilo criado por ela) que dá vontade de dançar, mas que também conta uma história bastante peculiar.
O urutau, também chamado de mãe-da-lua, é uma ave noturna conhecida pelo canto fantasmagórico. Na história criada por Lua, as mudanças climáticas fazem o bicho perder a cabeça, devorar um bem-te-vi e absorver seus poderes. A partir daí, ele sai comendo outras aves, aprende tudo sobre elas e resolve se vingar dos humanos pela destruição ambiental. Tudo isso embalado por um funk que parece ter saído de um terreiro futurista.
MC Uirapuru abre o disco com o canto da ave transformado em vocal de funk, sobre uma batida que vai ficando mais pesada e distorcida. Conversión, cantada em espanhol, dá sequência à pancadaria eletrônica, enquanto Baile das calopsitas acelera tudo, usando os sons das aves como parte da percussão. Em Pólen, os pios se misturam a uma eletrônica mais psicodélica.
O disco segue nessa onda em Planeta aves e Olhos mágicos, esta última fazendo referência aos enormes olhos amarelos do urutau. Sabiá-feiticeira tem um funk quase ritualístico, com algo de música indígena, enquanto Garganta (Oferenda pra Tetê) usa um sample de Tetê Espíndola – escolha que faz bastante sentido num disco tão ligado aos sons dos pássaros.
Elixir encantador de urutau começa como uma explosão de ruídos eletrônicos, até encontrar uma batida mais definida. Já os quase sete minutos de Engoli um bem-te-vi (Na onda do El Niño) encerram tudo com declarações sobre o meio ambiente, distorções e guitarras que aproximam a DJ Urutau do Antropoceno.
Ornitofagia é um disco experimental com narrativa própria, peso e preocupação ambiental – e em vários momentos, ele mostra que a pista também protesta.
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