Crítica
Ouvimos: Nilüfer Yanya, “My method actor”

- My method actor é o terceiro álbum da cantora e compositora londrina Nilüfer Yanya. O nome do disco veio de uma pesquisa feita por ela a respeito de como os atores “conseguem extrair memórias essenciais e usá-las em seu trabalho”, contou à The Fader.
- “Achei isso interessante em relação ao meu relacionamento com a música, porque nunca senti que estava assumindo o papel de um artista. Estou apenas sendo eu mesma, apenas cantando as músicas. Não sinto que estou me tornando outra personagem ou sendo outra versão de mim mesma, só tenho que tentar me encontrar”, continuou.
- O disco foi produzido por Wilma Archer, que também dividiu parcerias com a cantora.
- Entre as primeiras influências que Nilüfer teve como compositora, estão bandas como Blink-182 e Weezer, e skate-punk em geral. “Foi o principal empurrão para mim, mas eu sempre me interessei em escrever músicas em vez de ser a melhor guitarrista”, disse.
My method actor é um disco feito como se fosse uma série de TV, daquelas que confundem, desafiam e envolvem – e assim tem sido a história discográfica da londrina Nilüfer Yanya desde o começo. Fica complicado de colocá-la num gênero só: seu terceiro disco está mais para um som influenciado tanto pela amargura folk dos anos 1970 quanto pelo rock dos anos 1990 (uma ou outra influência da era do grunge aparece aqui e ali). Só que tudo marcado por violões, por discretos flertes com a eletrônica e com o pop mais recente – e também por orquestrações igualmente discretas, que servem mais para trabalhar com climas diferentes dentro das faixas.
As letras das músicas são bastante confessionais, ou pelo menos auto-ficcionais. Num disco chamado “meu método de atuação”, faz sentido: cada música é trabalhada como se fosse um personagem diferente. Ou uma área diferente da vida de alguém que diariamente precisa lidar com questões pessoais e emocionais, e com um universo onde “chances iguais” não passa de história da carochinha. Como no discurso cuspido de Call it love (“alguns chamam isso de amor/eu chamo de vergonha”), em meio a violões, riffs de guitarra e design sonoro próximo do bittersweet ruidoso. Ou as esperanças quase perdidas de Faith’s late, próxima do modelo de canção de FM, só que com imagens violentas demais para quem só curte baladas pop.
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Tem mais: Keep on dancing, a faixa de abertura, é uma curiosa house music sem as batidas dançantes, com célular rítmicas criadas por violões e efeitos de percussão. O lado mais grunge (digamos assim) do disco responde por faixas como Like I say (I runaway), uma espécie de metal r&b, com violões sombrios e guitarras distorcidas, soando quase como uma canção do Michael Jackson em parceria com Chris Cornell.
Climas bem próximos de hits de Joni Mitchell aparecem no tom jazz-rock de Mutations e em Made out of memory. No final, o r&b folk de Just a western (“minha vida é como um faroeste/você nasceu pra lutar/mas não dá sorte toda a noite”) e a voz-e-guitarra da canção de desamor Wingspan (“o amor é naturalmente defendido/mas está me segurando/você não pode ser devotada/agora você morreu para mim”).
Nota: 9
Gravadora: Ninja Tune
Crítica
Ouvimos: Veps – “ChurchyardStreet8B”

RESENHA: Veps mistura indie pop, pós-punk e clima lynchiano em ChurchyardStreet 8B, disco curto, sombrio e cheio de melodias elegantes.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: PNKSLM Recordings
Lançamento: 29 de maio de 2026
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Veps é um quinteto feminino norueguês, cujo som pode ser definido tranquilamente como indie pop – talvez até por falta de uma definição mais exata, já que o som delas é um rock chique, com influências quase cinematográficas. Tanto que você consegue imaginar muita coisa do universo de David Lynch ouvindo ChurchyardStreet 8B, terceiro álbum do grupo.
ChurchyardStreet 8B já entrega sua união de vibes confessionais e clima experimental logo na vinheta de abertura – What we mean when we say ‘hello’?, 51 segundos abertos por uma guitarra totalmente minimalista (o “riff” é uma só nota) e um belo diálogo entre piano e baixo. Depois disso, as Veps oscilam entre country, punk e Phil Spector em Walking (My black dog), carregam na mistura de distorção e melodia em Didgeridoo, e se aproximam do começo do R.E.M., só que com uma cara mais sombria e pós-punk, em Payday – esta tem melodia e arranjos com surpresas, e vocais ótimos.
- Ouvimos: Younger – Y3K
Álbum curtinho e direto (nove faixas, 27 minutos), o terceiro da Veps soa completo, coisa rara em discos com poucas faixas. Músicas como My champagne socialist e o pós-punk misterioso Nice guy trazem de volta os anos 1960 lidos pelos anos 1980, enquanto At the point é um soft rock sombrio, com clima fantasmagórico dado por um riff de teremin.
Completando, tem a vibe velvetiana-lynchiana de Week 18. Além do beat seco, quase krautrock, e da melodia bonita de If I was a mother, uma música em que a perspectiva da maternidade faz surgir sentimentos misturados. “Se eu fosse mãe, espalhada por aí / eu construiria um ninho para você / esperaria por você, eu sei que ficaria tão orgulhosa / se você fosse uma criança, sem penas e barulhenta (oi?) / eu cantaria para você dormir”, diz a letra.
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Crítica
Ouvimos: Vários – “CarioCaos: Poder popular” (EP)

RESENHA: Punk, rap, eletrossamba e caos carioca: o coletivo CarioCaos discute poder popular num EP chamado… Poder popular.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Bonde Music
Lançamento: 30 de maio de 2026
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Democracia se constrói apenas com voto? Talvez seja isso que muita gente quer que você acredite: afinal, para certo tipo de “pessoa pública”, nada mais legal que um eleitor corno-manso que fica no canto dele e só se manifesta (e mal) nas eleições, certo? Enquanto você pensa sobre o assunto, o coletivo CarioCaos, que une bandas e artistas que vão do punk ao rap em poucos minutos, reúne suas cabeças para discutir sobre isso (e sobre várias outras coisas) no EP CarioCaos: Poder popular.
808 Punks, Disstantes, Miçanga e Partido da Classe Perigosa, os integrantes da turma, abrem o papo ao som do cyber rap em Cypher do CarioCaos 2.0: Poder popular, e cantam-rappeiam sobre milionários que vão para o chão, lideranças falsas, massas organizadas que viram revolução. E lembram que “a rua é nossa urna / eles te querem só votando, esperando sentado” (olha aí, ó). Bets, arte e música saindo por todos os cantos do Rio, por sua vez, são os combustíveis do krautrap GGG, dos Disstantes (leia-se Gilber T e Homobono, gênios do som carioca e da distopia musical).
Falando em distopia, tem o eletrossamba selvagem de Miçanga e sua Bárbara dos Prazeres – além da reunião de bacanas para bolar campanhas eleitorais canalhas com dinheiro cagado, que surge em Chuva de milhões (XTREME 26KRMX), faixa dos 808 Punks – grupo que une programações, baile funk e baile punk, e soa meio Ministry nessa faixa.
O final é porradaria pura, com o Partido da Classe Perigosa pregando e rimando em Chega de esculacho. Leonel Brizola aparece num sample exortando os jovens a tomarem seus destinos nas mãos – e o grupo avisa que o futuro é do trabalhador cheio de ódio na venta (“vai ser bala, e não no voto / vê se não perde mais tempo e vê se aprende a atirar”).
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Crítica
Ouvimos: Genesis Owusu – “Redstar Wu & The worldwide scourge”

RESENHA: Genesis Owusu mistura rap, pós-punk e soul em Redstar Wu & The worldwide scourge, disco político, caótico e inventivo sobre racismo, bilionários e esperança.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Ourness Pty Ltd.
Lançamento: 15 de maio de 2026
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Genesis Owusu (Kofi Owusu-Ansah, na certidão de nascimento) é um rapper bastante criativo de 28 anos, nascido em Gana, mas radicado em Canberra, na Austrália. Compará-lo com Tyler The Creator chega a ser sacanagem, mas os dois têm algo em comum: ambos dispensam batalhões de produtores e aparatos que transformam discos em filmes, com equipes de criação e vários profissionais. Redstar Wu & The worldwide scourge, seu terceiro disco, nasceu da parceria dele com o neozelandês Dann Hume, e o próprio Owusu compôs várias faixas do álbum sozinho.
O som de Redstar Wu é uma caldeirada de rap, britpop, indie dance, reggae, música eletrônica e, dependendo do caso, até trap, com Genesis fazendo algo mais do que apenas misturar estilos – até porque o storytelling de seu disco deve tanto à contação de histórias de Public Enemy e De La Soul, quanto ao clima variado dos Beatles pós-1966. Deve também ao punk rock mais cabeludo: Owusu cita fatos e nomes, e no eletrorap Pirate radio, canta: “Elon é um completo esquisito / quem deu dinheiro para esses incels?”.
- Ouvimos: Earl Sweatshirt, MIKE, Surf Gang – POMPEII / UTILITY
Temas como racismo, Gaza, direitistas, bilionários, fãs de bilionários e fãs de Kanye West são quase uma obsessão no universo de Redstar Wu, que passam nada voando por músicas como Stampede (dance-punk com versos como “procuro empatia / o amor foi deixado sozinho”), o reggae + kraut rap Hellstar (com o rapper norte-americano Duckwrth) e a new wave sombria de Falling both ways. Rola também na onda rap + pós punk de Most normal american voter e Death cult zombie, dois hinos das fake news de direita e dos ídolos da renca mais escrota de eleitores – com direito à citação dos nomes de Sean Hannity (comentarista político conservador) e Andrew Tate (influencer macho-alfa).
The worldwide scourge, por sua vez, pode chegar fácil nos ouvidos de quem curte o rap + fluxo de consciência de Earl Sweatshirt – e tem, curiosamente, uma poesia ácida que lembra Mano Brown (“todo mundo continua sorrindo na minha cara como se fosse uma brincadeira / como se o mar não tivesse virado pedra e o ácido, chuva / como se um cifrão pudesse limpar a ética, a moral e a vergonha / eleja um simpatizante nazista no topo da maldita moldura”).
Já Blessed are the weak une a felicidade do soul setentista a uma letra que sugere um uso mais feliz da violência: “Atirador, atirador, por que você não abaixa sua arma? (…) / direcione sua raiva para a corporação bilionária de alimentos tóxicos / aquela que fez o fígado da sua tia gelificar e coagular”.
A viagem sonora e existencial de Genesis chega na vibe robótica de 4life e até na onda meio The Cure, meio rap de Runnin’ outta time – encerrando com a beleza oitentista de One 4 all, pop adulto com coral fantástico e letra sobre amizade, fraternidade e vitória apesar das pequenas derrotas do dia a dia. No final, tudo é protesto – e tudo é luta e esperança.
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