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Crítica

Ouvimos: Leon Bridges, “Leon”

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Ouvimos: Leon Bridges, “Leon”
  • Leon é o quarto álbum do cantor norte-americano Leon Bridges, produzido por Ian Fitchuk e Daniel Tashian. Depois de um bom tempo de gravação em Los Angeles e Nashville, o cantor mudou a produção para a Cidade do México. Passou lá os últimos meses de 2023 gravando o álbum no estúdio El Desierto.
  • A faixa When a man cries, por sua vez, foi gravada no estúdio do músico John Mayer – e tem a colaboração dele como co-autor.
  • O tema do disco é a infância e adolescência de Leon em Fort Worth, Texas – ele credita a entrada de muitas influências de folk e country em Leon a isso. Ele diz que o disco Astral weeks, de Van Morrison (1968) é uma das referências.

No começo da carreira, em especial no álbum de estreia, Coming home (2015), Leon Bridges fazia “som de época”: sua união de soul e r&b soava como se tivesse saído de um estúdio da era pré-Motown. Muita coisa foi mudando: Leon começou a soar cada vez menos vintage, passou a parecer cada vez mais próximo de uma música pop “moderna”, etc. Mas Leon, o novo álbum, tem ponto certo na linha do tempo.

O cantor e produtor norte-americano volta a tempos bem menos complicados de sua vida pessoal, como prega na letra de Simplify, uma das faixas do disco. E põe em seu som boas doses de bittersweet, de country e de pop nostálgico dos anos 1970 (uma música de uma era que ele, nascido em 1989, não viveu). Em Leon, tem uma coisa ou outra que lembra até um dos reis da mistura de soul, jazz e folk, Terry Callier – vale dizer que sem o mesmo apuro e sem a mesma melancolia, porque na essência, o novo álbum de Bridges é um disco alegre, quase comfort music para dias complexos.

O repertório traz Leon fazendo uma lista de coisas amáveis (That’s what I love), recordando dias legais no Texas (Laredo, com violões, pianos e uma flauta, misturados a um balanço meio Lionel Richie, meio neo-soul), lembrando dias de dureza, diversão, cuidados paternais, perigo nas ruas e Nintendo 64 (o surpreendente indie-rock Panther city), dizendo que nem todo o ouro do mundo é melhor que a mulher amada (Ain’t got nothing on you) e louvando a infância (o baladão folk de piano e violão Simplify). Não por acaso, ele deixa de lado o visual posado das capas dos álbuns anteriores, e ressurge na capa de Leon em clima de férias à beira do rio.

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E vai por aí, com Leon Bridges encarnando uma persona pop que (Roberto Carlos que o diga) sempre deu certo: o arquétipo do cara bem sucedido que, num domingo qualquer, se aventura a circular pelas ruas nas quais foi criado. Ou responde ao estresse do dia a dia recordando do mingau de aveia da avó, da sorveteria da esquina, da ingenuidade do primeiro namoro, ou do colo da mãe. Se alguém se decepcionou com o fato de Leon ter sido remodelado com uma produção mais moderna a partir do segundo álbum, vale dizer que o disco novo reequilibra a balança. Leon parece vestido com uma capa anos 60/70 mesmo quando tangencia o neo-soul ou o indie-rock.

A Pitchfork considerou Leon um disco abafado, monocromático, com uma produção “sem atrito” e certinha demais. Não tem atrito e não tem que ter. Até porque Leon Bridges fez sua versão particular dos discos para ouvir em família, como eram nos anos 1970 os álbuns de Roberta Flack e Stevie Wonder (e Roberto Carlos, por que não?). E se deu muito bem. Ouça com seus filhos, sobrinhos, enteados e filhos de amigos.

Nota: 9
Gravadora: Columbia

Crítica

Ouvimos: Barking Poets – “The red EP” (EP)

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Resenha: Barking Poets – “The red EP” (EP)

RESENHA: Power pop punk com alma de Motown, Beatles e Ramones. Barking Poets misturam energia, crítica e ótimas melodias em The red EP.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Engineer Records
Lançamento: 5 de junho de 2026

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Essa banda de Londres define seu som como “power pop punk que soa como um encontro entre Motown, Beatles e Ramones”. Em The red EP, os Barking Poets unem essa onda sonora a muitas referências do lado mais suingado do punk setentista, como The Clash e The Jam – bandas que, de fato, faziam esse tipo de som herdando características do soul sessentista, numa onda “heroica” que, necessariamente, passava pelas referências do The Who.

Nas letras, por sua vez, os Barking Poets abraçam distopias dos novos tempos, falando de guerras de propaganda onde nenhuma bomba é detonada (Modern war), ruínas pessoais (The mess I made, punk-reggae na cola do Clash, e os excessos de Pure blood) e a resistência da arte apesar de tudo (o punk estradeiro Change our ways, dos versos “quatro anos inteiros ligando equipamentos e fazendo barulho / ninguém se importa, ninguém se importa / os sonhos são frágeis quando não há mais para onde ir ou fugir”).

Tem ainda as duas melhores faixas do disco: a lindíssima Arizona, punk com cara power pop, cuja letra é o retrato da paralisia diante de vida – e Losing contact, som intenso de quase seis minutos, com ótimas guitarras, e que deve render muito bem ao vivo. Em Losing, contatos vão se perdendo, aos poucos, numa relação perdida em que uma das pessoas está totalmente fora da realidade e parece ter sido abduzida. Acontece nas melhores famílias.

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Crítica

Ouvimos: Brockhoff – “Easy peeler”

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Resenha: Brockhoff – “Easy peeler”

RESENHA: Brockhoff une alt-rock noventista e indie confessional em Easy peeler, estreia sobre amadurecimento, memória e vulnerabilidade.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: PIAS
Lançamento: 5 de junho de 2026

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O ruído noventista é o combustível do primeiro álbum da alemã Lina Brockhoff, Easy peeler – e o desconforto pessoal e existencial, tanto da época quanto o de hoje, também. Lembrando um mescla de Mazzy Star, Pixies, Soccer Mommy e Kate Bush, a faixa-título abre o álbum falando de relacionamentos difíceis e momentos em que sangue e pele trocam de lugar. The carpet song, na sequência, alude tanto a Weezer e à própria Soccer Mommy quanto a Avril Lavigne (citada em material promocional do disco). A ligeiramente sixties Cruel lembra um Hole mais sensível.

Easy peeler traz uma mistura bem feita de guitarras e melodias do alt-rock dos anos 1990, com a vulnerabilidade confessional do indie atual – e sai numa época em que vulnerabilidades pessoais rendem mais discos do que os momentos em que uma pessoa constantemente atacada precisa se fazer de durona. Willows, balada alt-rock de guitarras circulares e clima soft, fala de aceitação numa cidade pequena (“fiquei entediada enquanto me ocupava pulando poças em uma cidade tão orgulhosa / você acha que eu mereço algo melhor? / você acha que me perdi correndo atrás da multidão?”).

  • Ouvimos: Olivia Rodrigo – You seem pretty sad for a girl so in love

Muito de Easy peeler, tanto em músicas quanto em letras, mistura emoções solares e lembranças doloridas – como no sing-along de Sunny day (Deadline), ou no clima imagético do punk-pop triste Blue star. Há momentos em que a coisa ganha ares de “ferrou tudo!”, como em Nothing can be fixed in this place, canção triste de arranjo criativo e produção esmerada, e nas baladas Dirty dream e It never happened, que lembram uma Phoebe Bridgers em tom mais alt-rock e distorcido. Japanese garden, por sua vez, é uma balada distorcida, pesada e quase shoegaze – uma das mais ruidosas do disco.

A atenção a detalhes do dia a dia (jardins, árvores, cantos da casa dos pais, carrinhos Hot Wheels) transformam Easy peeler num disco basicamente sobre crônicas do crescimento. Mas que acaba fazendo sentido em várias fases da vida, como rola no power pop pandêmico I’ve stopped getting chills for a while now (“é o verão de 2020, agosto passou voando / faz um tempo que não fecho os olhos / porque tenho medo de todos os pesadelos que apontam para a mudança que me atingiu”).

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Crítica

Ouvimos: Optic Sink – “Relentless metamorphosis”

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Resenha: Optic Sink – “Relentless metamorphosis”

RESENHA: No álbum Relentless metamorphosis, Optic Sink transforma filmes de Maya Deren em pós-punk experimental, unindo krautrock, eletrônica vintage e atmosfera fantasmagórica.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: DIG! Records
Lançamento: 24 de abril de 2026

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Banda de pós-punk de Memphis, o Optic Sink surgiu no Pop Fantasma no ano passado com a resenha de seu álbum Lucky number. Conquistou de cara: Natalie Hoffmann, Ben Bauermeister e Keith Cooper se parecem com aquelas bandas que você descobre em coletâneas antigas da Factory – grupos para os quais o Joy Division chegou a abrir shows mas que ficaram no passado, ou que chegaram a ser considerados mais promissores que o New Order por alguns minutos.

Relentless metamorphosis, o quarto disco, é quase um álbum que paira acima da discografia do grupo. O disco surgiu de um projeto afetivo da banda, em que eles fizeram trilhas para os curtas-metragens da cineasta vanguardista norte-americana Maya Deren (1917-1961) – eram filmes que cruzavam imagem, dança e vários diálogos artísticos. Havia uma exibição dos filmes de Maya, e o trio foi convidado pelo local da mostra para fazer as músicas e tocar ao vivo enquanto os filmes rolavam.

“Após a exibição, as pessoas da plateia discutiram com entusiasmo o quão incrível era seu trabalho e questionaram por que nunca tinham ouvido falar dela, mesmo sendo uma influência tão clara para tantos cineastas notáveis”, escreveu Natalie no texto de divulgação do álbum. Relentless metamorphosis contribui para o não-apagamento de Maya investindo em um som cerebral herdado do krautrock e da fase Berlim de David Bowie (The very eve of right, de 15 minutos), e depois em recordações da eletrônica oitentista, mas como se viesse de uma fita bem antiga (A study for choreography).

Meshes of the afternoon chega a lembrar o clima espacial de Radio activity, do Kraftwerk – o som leva o ouvinte lá pra longe e ainda dá certos sustos. Meditation on violence tem clima cerimonial e fantasmagórico, e vai ganhando contornos progressivos inimagináveis, chegando a lembrar artistas como David Sylvian.

Todas as faixas pedem a audição enquanto os filmes rolam na tela, mas o filme Meditation on violence, de 1948, com sua coreografia bela e crua, explorando o ritual Wu-Tang, vira outra coisa quando se ouve com a música ao fundo. Sincronize como você já fez com The dark side of the moon e O Mágico de Oz.

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