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Crítica

Ouvimos: Harry Styles – “Kiss all the time. Disco, occasionally”

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Quarto disco de Harry Styles, Kiss all the time. Disco, occasionally, tenta soar clubber e experimental, mas fica indeciso

RESENHA: Quarto disco de Harry Styles, Kiss all the time. Disco, occasionally, tenta soar clubber e experimental, mas fica indeciso: não é pop, nem ousado. Tem bons momentos, mas soa contido e confuso.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 6
Gravadora: Columbia
Lançamento: 6 de março de 2026

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“Primeiro a experimentação, depois a diversão”. Essa, digamos, perversão do bom e velho ditado que sua mãe falava quando via você assistindo TV ou jogando bola antes de fazer os deveres de casa, bem que poderia ser o nome do novo disco de Harry Styles. Já que é pra fazer uma brincadeira meio tola… O fato é que Kiss all the time. Disco, occasionally, seu quarto disco solo, nem é um disco experimental de verdade. Ainda que Harry e seu time de produção (Kid Harpoon e Tyler Johnson, os mesmos do anterior, o ótimo Harry’s house, de 2022) queiram passar uma imagem de que tudo ali surgiu ao amor às pistas, à cultura clubber e coisas do tipo.

Na real Kiss all the time soa mais como aquelas bandas de rock dos anos 1990 que decidiam abraçar a dance music porque, de uma hora pra outra, o rock deixou de ser cool – e acabaram fazendo discos com data de validade curta (Barão Vermelho com o disco Puro êxtase, ou o U2 com Pop, por exemplo). Ou como um artista da música pop que, de uma hora para outra, começou a ter vergonha de ser pop. Porque tem algo muito errado ali: a mistura fina de pop, soul, rock e vibes eletrônicas de Harry’s house foi substituída pela performance, pela vontade de parecer alguma coisa (talvez parecer um artista super ligado em elementos de krautrock, ou um seguidor de bandas como LCD Soundsystem).

“Poxa, mas o disco é ruim?”, você pode perguntar. Olha, Kiss all the time dá aquela convencida básica logo no começo, com o single Aperture, a dance-ambient American girls e a indie dance sofisticada, apontando para o rock do Franz Ferdinand, que surge em Ready, steady, go. Só que na maior parte do tempo fica a impressão de algo que não explode, que não é pop, não é experimental, não é embevecedor. É como se você não soubesse direito o que está ouvindo, e como se o próprio Harry fosse ficar confuso na hora de definir o disco. Não que seja necessário definir qualquer disco em um tweet, mas vem à mente logo The romantic, disco novo de Bruno Mars, quase um elevator pitching em forma de álbum.

De excelente, Kiss all the time tem as cordas e o trabalho suado de The waiting game e o quase krautpop de Pop. Até aí, fica claro que mesmo em momentos legais do disco, você vai perceber que tem algo meio estranho, como as linhas vocais banais (que estragam a grandiloquente e quase boa Coming up roses) e uma certa tendência a soar meio chatinho nos momentos introspectivos, como em Paint by numbers. Harry parece que fez o disco todo com medo de acordar os vizinhos, ou de alguém escutar a música vindo de longe – tanto que mesmo as músicas dançantes soam discretas, com beats meio acanhados. Curiosamente, isso fica MUITO claro numa música chamada… Dance no more.

Um outro detalhe sobre Kiss all the time é que todas as letras parecem ter sido escritas por Harry Styles… para ele próprio entender e mais ninguém. Season 2 weight loss, um kraut dance bacaninha, parte de um princípio bem estranho: Styles disse a Zane Lowe em uma entrevista que a ideia da música é que ele volta em sua melhor versão, “como quando você vê uma série da Netflix que faz um sucesso estrondoso e todo mundo volta na segunda temporada, todo mundo com nutricionista, todo mundo com personal trainer e, de repente, todo mundo com um corpo incrível”.

Se você já achou isso tudo uma metáfora pop sem pé nem cabeça, tem o detalhe que a letra de Season 2 weight loss simplesmente não faz referência alguma a nada disso. E o disco tem essa tendência em quase todas as faixas. No fim das contas, Kiss all the time é aquele tipo de lançamento que um artista faz quando sabe que os fãs estão tão ansiosos, que ele pode lançar uma coletânea de peidos. Felizmente, Harry é um grande artista e jamais encheria um disco com suas flatulências – tanto que dá pra achar coisas legais ali, mas poderia ser BEM melhor.

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Crítica

Ouvimos: Niis – “Play Niis” (EP)

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Resenha: Niis - "Play Niis"

RESENHA: Em Play Niis, a banda punk de Los Angeles Niis mistura grunge, power pop e shoegaze, com ecos de Nirvana, Garbage e Placebo e letras sobre desilusões.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Rise
Lançamento: 23 de outubro de 2026

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Banda punk majoritariamente feminina de Los Angeles, o Niis pode ser definido como bubblegrunge (aquela mistura saudável de sons grudentos e de rock dos anos 1990, o que na real significa que Nevermind, disco do Nirvana de 1991, está sendo devidamente usado como modelo). O disco de estreia Niis world (2025, resenhado aqui) trazia uma banda herdeira tanto dos anos 1960 quanto de Dead Kennedys, com melodias bacanas e vocais berrados.

Play Niis, o EP novo, foca um pouco mais no “bubble” que no “grunge” – mas só em parte, porque bandas como Garbage e Placebo parecem terem servido de referência para as faixas do disco. Mimi Doe, a vocalista, grita menos que em Niis world, mas a promessa de um disco que trabalhe “no universo dos celulares flip, das lojas Hot Topic e de Buffy, a Caça-Vampiros” nem parece ter sido levada a ferro e fogo. Há um perfume shoegaze em faixas ruidosas e noventistas como Bad aim e a suingada e grungíssima Big fish baby. Earthquakes é movida por um riff de guitarra que atravessa praticamente toda a faixa, acompanhado por uma linha de baixo igualmente inquieta – tem cara de new wave porradeira.

O trio de encerramento poderia ter sido produzido por Butch Vig: a combinação de power pop e atitude de Take your mess, o barulho doce e sombrio de No flowers (lembrando um Babes in Toyland glam punk) o riff buzinado de Westside. Entre desilusões amorosas e pessoais, Mimi Doe passa boa parte do EP falando sobre estar meio perdida, mas ainda querer sentir alguma coisa. Nem que seja raiva.

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Crítica

Ouvimos: Troye Sivan – “She’s the best”

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Resenha: Troye Sivan – “She’s the best”

RESENHA: Em She’s the best, Troye Sivan mistura acid house, trip hop, dream pop e bossa nova, com ecos de Air e The Avalanches. Um disco sobre amor, desejo e festas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Tokky’s Music / Interscope
Lançamento: 9 de outubro de 2026

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Fãs de The Avalanches, Cornelius, Air, Stereo MC’s, Saint Etienne e da turma que, na Inglaterra dos anos 1990, derrubava fronteiras entre rock, jazz e dance music, vão descobrir um discão em She’s the best, o novo do australiano Troye Sivan – na real, vale pegar a discografia dele e descobrir um pop que parece não se localizar em nenhum tempo e espaço, e viaja em todos ao mesmo tempo.

Troye simplesmente vai juntando suas referências, achando melodias no meio delas e fazendo um pop que dá vontade de ouvir de novo – e que basicamente junta memórias e desejos pessoais nas letras, unindo mensagens para amores platônicos (Le boy) e imagens de mulheres fortes pelas quais ele tem admiração e/ou amizade. Impossível não pensar em Charli XCX ao ouvir a faixa-título, cuja letra manda bala na estileira brat (por acaso, George Daniel, marido de Charli, coproduziu esta e outras do álbum). Party fala basicamente de lugares onde pode rolar uma festa – algo que se relaciona com a onda de eventos indie da era da acid house, embora talvez nem seja uma referência tão próxima de Troye (afinal, ele nasceu em 1995!). Também há algo de escape ali, de querer fugir de alguma coisa.

She’s the best tem um pouco daquela dos anos 1990, quando o pop podia misturar um monte de coisas e ninguém achava estranho – de jazz ao próprio rock. A faixa-título abre com beat eletrônico, vocal quase falado, teclados sonhadores e guitarras psicodélicas. Party pega emprestada a onda de Madonna (tem um trecho do hit Music) e vira uma dance music meio misteriosa, com vocais robóticos, como se Troye estivesse mandando mensagens de algum lugar da pista. Canada dry segue pelos sintetizadores viajantes, e I do this for you parece um Stereo MC’s (lembra do hit Connected?) modernizado. Love so big it hurts, com violão e cordas lindíssimas, lembra que amor demais também pode doer.

E tem de tudo. Cowboy é um soft rock eletrônico tranquilão, Embarrassingly junta soul, country e uma melodia linda, daquelas que grudam sem fazer esforço. Le boy começa com barulho de gravador e logo lembra o Air de Moon safari. Sex star passeia pelo dream pop, com Troye tentando conquistar alguém falando que é uma grande estrela do mundo da arte, “se você gosta desse tipo de coisa” – enquanto Troye meets world consegue colocar bossa nova e drum’n’bass na mesma música, para falar dos momentos em que amigos e pista de dança provocam um efeito quase psicodélico nele. Lost time, com Lily-Rose Depp, fecha o disco numa onda trip hop e pós-disco. Quase uma celebração pop, da festa como existência e propósito.

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Ouvimos: As Beattas – “Pro inferno com As Beattas” (EP)

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Resenha: As Beattas – “Pro inferno com As Beattas” (EP)

RESENHA: Em Pro inferno com As Beattas, duo carioca mistura garage folk, psicodelia e humor ácido, com ecos de Mutantes e Velvet Underground e letras de crítica social.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 6 de agosto de 2026

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Miss Sirius (voz e pandeirola) e Greco Blue (guitarra e voz) são as Beattas, um casal que faz garage folk psicodélico, direto do subúrbio do Rio, e que às vezes soa como um encontro entre Mutantes, Devo e Lou Reed, só que em clima absolutamente minimalista. Há até violão, piano e bateria em alguns momentos, mas o material do EP Pro inferno com As Beattas parece ter sido todo feito para pequenos palcos, shows intimistas e turnês de duo, em que os dois ganham as plateias no som e no sarcasmo.

Essa união de rock e descontração é a base de faixas como Coringou, surf music mutante em que o sucesso e o fracasso andam de mãos dadas – além da antihomofobia romântica e safada de Trocando línguas (shy & high) e do B-52’s analógico, jovemguardista e contestador de Classe (“nem tenho salário / sou precarizado”). Muito obrigada é uma balada de girl group com toques psicodélicos, que consegue unir Mutantes e Velvet Underground na mesma onda antipatriarcado. Hey neguinha segue a mesma vibe sessentista, mas em tom marginal, como um pop que caminha pelo lado selvagem.

O single Dona de casa rock, que fala do dia a dia de uma mãe que se divide entre os cuidados com a cria e a vida de quase rockstar vem no EP em clima diferente, psicodélico e derretido. Muito legal.

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