Connect with us

Crítica

Ouvimos: Central Cee – “All roads lead home” (EP)

Published

on

Ouvimos: Central Cee – “All roads lead home” (EP)

RESENHA: Central Cee mistura drill sombrio, relatos da fama e vivência de rua com vibe motivacional em EP versátil e cheio de ideias.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: 27 de março de 2026
Lançamento: Columbia / Sony Music

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Fama, pressão, silenciamento, drogas, armas, sexo, e todo mundo de olho em você – tudo rappeado numa base de drill britânico, aquele estilo marrento, ameaçador, caótico, mas que sempre soa mais “frio” e sombrio do que outras leituras do drill por aí afora. Curiosamente, começando a ouvir o novo EP de Central Cee, All roads lead home, chega a dar impressão de que as ruas de Londres nem são tão diferentes do que acontece em Chicago ou Nova York.

Faz sentido quando se pensa na vivência de periferia que é igual em qualquer lugar (já diziam os Racionais MCs), mas tem um “algo” diferente que surge só depois de alguns momentos, quando dá pra perceber que Central Cee é bom em unir storytelling rueiro e vibe motivacional. Tanto que All roads é um disco de ótimas ideias, como no clima triste de Iceman freestyle, música em que ele reflete sobre as mudanças em sua vida depois da fama, recorda histórias do passado e fala de manos que ainda estão na luta (“no final tudo fará sentido quando todos estivermos fora das ruas”, finaliza). O rap latino Slaughter, com participação de outro rapper londrino, J Hus, une um irresistível “hum hum” que dá a melodia, a vocais mais cantados do que falados.

Central Cee invade até a área do trap em Wagwan, que propõe um diálogo entre o topo do pop, as ruas e o outro lado das grades (“libertem todos os caras presos / eles não aprendem nada, só cortam cabelo / não confie em ninguém, eu vi o pastor pecando / você acha mesmo que se eu colocar 100 mil na mesa, meu mano não vai matá-lo?”). E põe vibe de soul anos 1970 em Feelings, música que busca conversar com os amigos que estão na luta.

  • Ouvimos: Heavensouls – Westside trapped

Essa conversa de Feelings gera momentos bacanas (“você tem um sonho e ninguém acredita em você, é, eu sei como é essa sensação / planejando até tarde da noite, ultimamente você não tem dormido, querida, eu sei como é essa sensação”) e outro que dão nervoso (o verso inacreditável “podemos ir ao banco e pegar um empréstimo / mas não podemos pegar tempo emprestado” – não, não podemos fazer nem uma coisa nem outra). Mas tem ainda o som tenso, guerreiro e rápido de DC10 e Maka.

Essa última, por acaso, dá uma boa cláusula de localização, lembrando dos tempos em que traficantes “enterravam pacotes” de crack e heroína no movimentadíssimo Parque Cathnor em Londres. Central Cee também aproveita para informar que “ainda mantenho minha arma na mão quando estou usando Supreme ou Palace (grifes famosas entre skatistas e rappers) / tenho treta, mas não vou mover um dedo”. É pra levar a sério.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

 

Crítica

Ouvimos: Beatles – “Rubber soul” (super deluxe)

Published

on

Resenha: Beatles – “Rubber soul” (super deluxe)

RESENHA: A edição superdeluxe de Rubber soul traz novas mixagens, takes alternativos, uma canção inédita de Lennon e uma demo de We can work it out. Quase três horas para redescobrir o clássico de 1965.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Apple
Lançamento: 2 de outubro de 2026.

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

1965 foi o ano em que o rock começou a deixar de ser apenas música para dançar, namorar e ouvir no rádio – e passou a ser também um espaço para experimentação, comentários sociais e ambições artísticas maiores. Bob Dylan tocando guitarra, Rolling Stones lançando Satisfaction, contracultura mandando bala (o Grateful Dead surgiu nesse ano), e os Beatles inovando mais ainda com Rubber soul. Dá para considerá-lo um verdadeiro divisor, por causa das cítaras, da elaboração das letras, da noção de que sua música vinha de apropriações do soul – esticado para caber na onda sonora da banda.

Antes de mais nada, existia uma “coisa” nos Beatles (e nos Stones) que põe sua discografia como algo em constante evolução – não é que rolou uma ruptura na banda e “oba, vou elaborar meu som!”. Muita coisa de Rubber soul veio de evoluções da trilha de Help! (também de 1965) e a fase iê-iê-iê da banda já era um caso seríssimo de criação e musicalidade. Rubber soul, no entanto, ainda era um disco dos Beatles que dava pra encarar de igual pra igual, em que a banda olhava no olho do seu público – Revolver (1966) e Sgt Pepper’s lonely hearts club band (1967) desencadeavam puro temor reverencial. Aquela certeza que a gente tem quando está diante de algo bem maior que a vida.

Essa acessibilidade ganha novos contornos na edição superdeluxe de Rubber soul, em que um dos discos mais concisos da história do rock se transforma num monstrengo de quase três horas. O disco original surge com mix novo, versão mono e com o stereo original da versão norte-americana – esta, com apenas dez das 14 faixas da edição inglesa, além da inclusão de It’s only love e I’ve just seen a face, músicas boas que passavam longe do conceito do álbum.

O disco 2 do pacote é que é cheio de surpresas, como as tentativas iniciais da banda em tirar Norwegian wood (This bird has flown) do plano das ideias – geralmente transformando o que deveria ser um soft rock ligeiramente psicodélico em uma composição sombria, que chega a soar como covers de garagem feitas por bandas brasileiras na mesma época. Tem a inédita Litte girl, pepita de John Lennon que nem os colecionadores conheciam, In my life com solo de órgão e três takes largados de I’m looking through you (a First version – take 1 é maravilhosa, com vibe percussiva e um clima que lembra Mutantes e Wings, enquanto a Second version – take 2 dá a impressão de que tinha alguém sentindo o drama da chegada do The Who ao mercado).

Tem também nada menos que a demo de composição inicial de We can work it out, com Paul mostrando que a música teria uma levada parecida com a de Run for your life – a doideira é que John Lennon ficaria com a fita por vários anos e a usaria em seus experimentos de gravação em k7, tanto que a faixa surge cortada por uma narração sinistra do cantor. A versão oficial dessa música, por fazer parte do mesmo “pacote” de Rubber soul, entrou na versão deluxe, junto com outra canção da época, Day tripper.

Se você quiser ouvir apenas a remasterização, prepare-se para encarar altas descobertas – você vai escutar vocais que nunca havia reparado que estavam ali, e ouvir o baixo de Paul McCartney com precisão absurda. Não é feitiçaria, é música maravilhosamente bem tocada, concebida e produzida, que hoje volta com novos recursos.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Gustavo Ortiz – “Arrasto”

Published

on

Resenha: Gustavo Ortiz – “Arrasto”

RESENHA: Com direção artística de Romulo Fróes, Arrasto reúne 15 anos de composições de Gustavo Ortiz. O disco cruza samba, afoxé, jazz e psicodelia para falar de trabalho, luto, desigualdade e resistência.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: TRUQ
Lançamento: 13 de abril de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Após o EP Desafogo (2025, resenhado aqui), Gustavo Ortiz estreia de verdade com seu primeiro disco, Arrasto. Mas é uma estreia que arrasta (sem trocadilho, mas se quiser pode) uma história cheia de detalhes atrás de si. O repertório foi sendo composto durante 15 anos, só que a partir do momento em que tudo foi reunido por ele e pelo diretor artístico Romulo Fróes, o que veio foi um disco com a cara de 2026 – e mais ainda, com cara de luta, de segundo turno, de ideias sendo colocadas na mesa e discutidas.

Temas como trabalho, luto, amor, amizade, preconceito, espiritualidade e resistência coletiva vão surgindo ao longo das doze faixas de Arrasto – disco cujo título fala tanto da força física que resiste à queda de um corpo em movimento, quanto da prática criminosa da pesca de arrastão. Mas que igualmente se refere a forças da vida que vêm sem pedir licença e levam tudo que veem pela frente, para o bem, ou para o mal.

Peixe pescado, por exemplo, tem vibe herdada de João Bosco, clima de música que corre com a vida, e vai como um jangada em alto-mar, falando das desigualdades do mundo – o peixe que já nasce mais perto da rede, a asa que já nasce cortada. Arrasto vai seguindo no equilíbrio entre a brincadeira e a observação sensível do mundo, unindo samba, ciranda, mangue e João Donato em Sangue lunar, migrando para a psicodelia nordestina em Antena atenta e levando afoxé para a gafieira em Afoxé do nego véio.

Gustavo louva Tom Zé no samba descontruído Arara azul de Irará, cria uma trama épica em Vingança de calunga grande e une o clima sombrio do diretor Fróes a algo que lembra o Pink Floyd pós-Syd Barrett em Dia de morrer na praia. O Jards Macalé do disco Contrastes (1977) dá as caras na gafieira jazz afro-existencial de Cícera, e o lado conselheiro de Paulinho da Viola surge nos relatos sobre amizade e cuidado consigo próprio de Cuidado amigo. Muito bonito.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

 

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Scrvlho – “Recipe for lonely nights”

Published

on

Resenha: Scrvlho - "Recipe for lonely nights”

RESENHA: Em Recipe for lonely nights, a carioca Scrvlho cruza grunge, shoegaze e rock alternativo dos anos 1990, com ecos de Nirvana, Alice in Chains, Dinosaur Jr, My Bloody Valentine e Slowdive.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Jambre Records
Lançamento: 11 de setembro de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

A Scrvlho (pronuncia-se Escaravelho) vem do Rio e faz som ligado aos anos 1990, pegando a onda guitar rock da época, além do lado mais sombrio do grunge. A estreia Recipe for lonely nights tem lembranças tanto de bandas como Catherine Wheel e My Bloody Valentine quanto de Dinosaur Jr, Alice In Chains e do Nirvana da estreia Bleach (1989). Bowed head, que abre o disco, até vende o Scrvlho como uma banda mais próxima do grunge – Outside waiting, na sequência, tem clima lembrando bandas como Tad, entre punk e metal.

Recipe começa a ganhar uma vibe mais nublada em I won’t let down, com riff simples e design sonoro lembrando Ride e Slowdive – além do vocal de Mulva Dolores lembrando o de J Mascis, do Dinosaur Jr. Tainted e Loosen grip unem o beat de Kurt Cobain na guitarra aos sons emparedados do shoegaze, com Kill this chill e Echoes of dew igualmente seguindo um trilha parecida. Eyes to stars é um tema tranquilo com violões e ruídos de guitarra, tudo misturado.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

 

Continue Reading

Acompanhe pos RSS